“O Haiti (não) é aqui”?: silêncios, regateios e estilhaços nos diálogos Haiti-Brasil

Vanessa Massoni da Rocha

Resumo


Este artigo analisa perdas e silêncios na literatura contemporânea a partir da perspectiva Haiti-Brasil. Apesar de compartilharem histórias similares ligadas ao imperialismo europeu, à colonização, à diáspora africana, à escravização, à exploração de riquezas naturais como o açúcar e às insurgências independentistas, a ilha caribenha do Haiti e o Brasil parecem pouco se conhecer. A circulação de bens culturais se faz diminuta e, à primeira vista, se mostra associada a visões negativas. Visto pelo Haiti, o Brasil se limita ao futebol e à violência do exército nacional em missões ligadas à ONU. Visto pelo Brasil, o Haiti se resume aos imigrantes precarizados, à canção estigmatizante de Caetano Veloso e ao imaginário de subdesenvolvimento e pobreza crônica. Propomos uma trajetória sobre estes imaginários cruzados e nos atemos ao caminho da tradução de obras literárias haitianas no Brasil. A publicação em 2020 da obra bilíngue Estilhaços – antologia de poesia haitiana contemporânea pode ser interpretada como novo capítulo desta história repleta de lacunas e mal-entendidos. Ausência sentida no imaginário cultural brasileiro, o Haiti tem a chance de ser ressignificado através da antologia recém-lançada, na qual emerge uma potência literária em espelhamento com o Brasil.

Palavras-chave


Tradução; Poesia haitiana; Literatura contemporânea; Estudos pós-coloniais

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1678-2054.2020v39p81

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Publicação do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina.  


ISSN: 1678-2054

QUALIS - CAPES 2013-2016: Letras/Linguística: B1 ; Educação: B2

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