Chamada do volume 42 (2022) - "Zooliteratura, vulnerabilidade e resistência animal: políticas de insurreição"

As indagações acerca das muitas formas de subordinação do mundo mais-que-humano estão entre as mais vitais e urgentes dos nossos tempos. Em Formas comuns: animais, literatura e biopolítica (2015), Gabriel Giorgi lembra-nos de que, “sob o signo da vida animal, os corpos não podem esconder o fato de serem viventes, sua feitura orgânica, isso que nos corpos torna irreconhecível o humano, e o arrasta para além de seus nomes próprios”. É a partir desta chave de leitura, centrada na força e na fraqueza dos corpos e nas políticas que os (des)autorizam, que a vulnerabilidade e a resistência são aqui pensadas. Se a vulnerabilidade constitui “uma condição de potencial que torna possível outras condições”, “uma condição de abertura para afetar e ser afetado” (Erinn Gilson, 2011), comum a todos os viventes, a resistência figura como sua contrapartida e instância de sustentação, que clama pela possibilidade mesma de se estar aberto ao afeto e à vida em sua plenitude. Com efeito, uma vez que o humanismo hierarquizou corpos, comportamentos e traços, diferenciando o propriamente humano do animal, então, um dos maiores desafios da atualidade é imaginar políticas múltiplas que procurem experimentar a vulnerabilidade animal como uma instância alternativa para se pensar outros modos de habitar a existência. Situarmo-nos no lado dessa animalidade, que foi historicamente subordinada, explorada, repudiada e até mesmo inviabilizada, permite-nos refazer os caminhos do logocentrismo e a enorme fascinação que provoca a normalidade do humanismo. Nesse contexto, pensar cada vivente como ser que resiste, sozinho ou em sociedade, às mais diversas formas de sujeição e opressão, seja na era do capitalismo global (Sarat Colling, 2021) ou em outros tempos, quer dizer, pensá-los como agentes do seu processo de libertação e, por outro lado, imaginar a sua vulnerabilidade, aquela do corpo enquanto alma incorporada (“embodied soul, Coetzee, 1999) que dilui as barreiras fabricadas pelo especismo e pelo antropocentrismo - sem deixar de prever a singularidade e a diferença - impõe-se como tarefa do crítico literário dedicado à zooliteratura e à zoopoética. Este dossiê de Terras Roxas e Outras Terras convida-nos a refletir sobre tais questões, relacionando-as às discussões acerca do antropomorfismo, da biopolítica, das noções de sujeito e subjetividade, da animalidade, da linguagem e das relações de poder historicamente estabelecidas entre humanos e “animais”. Nossa proposta procura habilitar um espaço para a reflexão não somente acerca de como a questão animal pressupõe uma desconstrução das taxonomias ontológicas que fizeram dos outros viventes animais objetos disponíveis ao domínio do vivente humano, mas também acerca de outras formas de conceber os modos de viver-com o mundo mais-que-humano. Serão acolhidos trabalhos que estabeleçam diálogos entre a zooliteratura e áreas do conhecimento como a filosofia e a antropologia, trabalhos comparatistas, entre outros, que vislumbrem na zoopoética um dos caminhos possíveis para novas políticas de insurreição.

Profa. Dra. Ângela Lamas Rodrigues (Universidade Estadual de Londrina - Brasil)

Profa. Dra. Anahí Gabriela González (Universidade Nacional de San Juan - Argentina)

Prazo máximo de submissão: 27 de dezembro de 2021.

Publicação prevista para junho de 2022.

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