A oralidade no impresso: o 'eu-nós lírico-político' da literatura indígena contemporânea

Julie Dorrico

Resumo


Este artigo versa sobre a emergência da literatura indígena contemporânea no país, buscando mostrar a qualidade estética adveniente desde a oralidade e fazendo-se presente na literatura impressa dos diferentes escritores indígenas. Nosso argumento central consiste em defender que a literatura indígena apresenta a ancestralidade como matéria para a expressão estética e a violência histórica enquanto matéria para resistência, possibilitando um trânsito entre os dois mundos: o da oralidade, em que os saberes, os rituais, os cantos fazem parte da cultura indígena fundamentalmente oral até o século XXI; e o do impresso, onde a expressão oral faz-se presente somando-se ao estilo criativo dos escritores na contemporaneidade. Esta literatura apresenta caracteres específicos, tais como a evocação da pessoa singular ‘eu’ indissociável do coletivo étnico ‘nós, e a expressão literária ‘lírica’ evoca a resistência ‘política’. Por isso, defendemos o conceito do ‘eu-nós lírico-político’ na conjuntura literária indígena, justificando uma voz-práxis que protagoniza a presença e a atuação do indígena desde si mesmo.


Palavras-chave


Tradição; Literatura Indígena; Voz-práxis; ‘Eu-nós lírico-político’.

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