Escritas indígenas: uma experiência poético-pedagógica

Cláudia Neiva de Matos

Resumo


Nas últimas décadas, expandiram-se e multiplicaram-se no Brasil projetos de educação escolar diferenciada cujos protagonistas são professores indígenas formados em cursos promovidos por ONGs e/ou por instâncias governamentais. Mais recentemente essa formação atingiu o 3º grau, com a organização dos primeiros cursos universitários indígenas. Algumas questões suscitadas na elaboração e realização de tais cursos estão na base da discussão que apresento, como fruto de minha experiência enquanto docente de Literatura em dois programas de formação de professores indígenas. O avanço da educação escolar indígena está associado à proliferação da produção de textos escritos por índios, muitos deles realizados no quadro de um contato ainda incipiente de seus autores com a linguagem escrita, o mundo dos brancos, sua tecnologia e seus valores. A discussão será ilustrada pelo comentário de dois textos produzidos no quadro dos cursos de formação da Comissão PróÍndio do Acre nos anos 1990. Entre os aspectos que a leitura desses textos me provoca a explorar, destaco: (a) a percepção diferenciada que os professores/escritores manifestam sobre o mundo a partir do contato com o homem branco, a qual não significa entretanto um abandono das perspectivas e valores tradicionais e identitários; (b) a incontornável força poética que distingue muitos desses escritos, de um modo que amplia e enriquece a nossa própria noção de poesia. Na conclusão, procuro levantar algumas questões e propostas relativas ao âmbito do poético e ao ensino de literatura, tanto dentro como fora da escola indígena. Considerando-se que os textos comentados foram produzidos num espaço de trânsito entre a cultura de dominância oral e a expressão escrita, a discussão abrange também o tratamento reservado, na área de Letras, aos repertórios da chamada “literatura” oral.


Palavras-chave


Poesia indígena; Educação indígena; Interculturalidade; “Literaturas”orais

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