Gnoseologias do Sul: Poder-Saber-Ser em Ponciá Vicêncio

Maiane Pires Tigre, Inara de Oliveira Rodrigues

Resumo


Apresenta-se o conceito de gnoseologias do Sul enquanto conjunto variado e difuso de conhecimentos alternativos na ordem do saber e que se constitui como resistência dos saberes/poderes subalternizados em relação aos saberes/poderes hegemônicos eurocêntricos. No âmbito mais alargado das abordagens ligadas às representações culturais, o conceito é aqui problematizado a partir da análise do romance Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo, refletindo-se sobre os processos de fratura identitária e resistência presentes nas trajetórias das personagens, que afirmam positivamente certo imaginário afrodescendente, denunciando as mazelas sociais advindas dos violentos processos de colonização e de escravidão vividos no país. No âmbito dos Estudos Culturais e em articulação com perspectivas críticas dos Estudos Pós-coloniais, pode-se reconhecer que esses saberes subalternos são colocados “fora do jogo” social, destituídos de lócus de importância e, portanto, invisibilizados socialmente. O percurso analítico aqui desenvolvido sobre o referido romance de Evaristo, permite o desvelamento de uma geocrítica às epistemologias ideologizantes do poder colonizador, possibilitando discussões direcionadas à potencialidade das gnoseologias do Sul no espaço da produção literária afro-brasileira.

Palavras-chave


Literatura afrobrasileira; Epistemologias do Sul; Gnose africana; Resistência.

Texto completo:

PDF

Referências


APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Literatura, história e política: Literaturas de língua portuguesa no século XX. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

CASTRO-GÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón. El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos y Pontificia Universidad Javeriana, Instituto Pensar, 2007.

CUTI, Luiz Silva. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG: Representações da UNESCO no Brasil, 2003.

HOUNTONDJI, Paulin J. Conhecimento de África, Conhecimentos de Africanos: duas perspectivas sobre os Estudos Africanos. In: SANTOS, Boaventura de Souza; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. 3. ed revista e ampliada. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Disponível em:. Acesso em: 18 jun. 2016.

LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

MATA, Inocência. Estudos pós-coloniais: desconstruindo genealogias eurocêntricas. Revista Civitas, v. 14, n. 1, p. 2742, jan.abr, 2014. Disponível em:. Acesso em: 22 maio 201.

MBEMBE, Achille. África Insubmissa: Cristianismo, poder e Estado na sociedade pós-colonial. Angola: Edições Pedago, 2013.

MENDONÇA, Fátima. A literatura moçambicana em questão. Revista Discursos, n. 9, p.37-51, 1995.

MIGNOLO, Walter D. El pensamiento decolonial: desprendimiento y apertura: Un manifiesto. In: CASTRO-GÓMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón. El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos y Pontificia Universidad Javeriana, Instituto Pensar, 2007.

MUDIMBE, Valenten Yves. A invenção de África: Gnose, Filosofia e a Ordem do Conhecimento. Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2013.

MUNANGA, Kabengele. Antropologia Africana: mito ou realidade? Revista de Antropologia, n° 26, p.151-160, 1983. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/ra/article/viewFile/111048/109390>. Acesso em: 29 maio 2016.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad/racionalidad. En Heraclio Bonilla (comp.). Los conquistados. 1492 y la población indígena de las Américas. Quito: Libri Mundi, Tercer Mundo, 1992.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder e Classificação Social. In: SANTOS, Boaventura de Souza; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 2009.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Do Pós-Moderno ao Pós-Colonial: e para além de um outro. Revista Centro de estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Coimbra, s/n, p.01-45, 2004.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2006.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, Boaventura de Souza; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

Boitatá
E-ISSN: 1980-4504
Universidade Estadual de Londrina
E-mail: boitata@uel.br
Telefone: (43) 33714428