Escreventes e suas trajetórias de vida: um estudo sobre a vida dos letrados em Minas (1710-1770)

Fabrício Vinhas Manini Angelo

Resumo


O presente artigo objetiva empreender um estudo de trajetória dos homens que faziam testamentos na comarca do Rio da Velhas na Capitania de Minas do Ouro ao longo do século XVIII. As balizas temporais foram estabelecidas a partir da percepção que a década de 1710 inicia-se com um processo de formalização das vilas da região de minas e termina em 1720 quando a capitania se separa de São Paulo para constituir-se como uma capitania independente e o marco temporal final está relacionado com o fim do auge do ciclo aurífero como alguns autores apontaram e pelo estabelecimento de medidas mais efetivas em relação à educação em todo o império devido às reformas pombalinas e a criação do subsídio literário em 1752. Tendo isso em mente, o objetivo deste texto é investigar as trajetórias de vida enfocando a relações familiares, as estratégias educativas destes escreventes para com seus descentes e as práticas de sociabilidade. Para esta pesquisa, busca-se referência nos trabalhos de Pierre Bourdieu quando enfatiza a necessidade por parte dos pesquisadores de investigar as trajetórias dos agentes pesquisados. No entanto, para isso, buscam-se também as contribuições da micro-história que permitem justificar esse jogo de escalas. Em pesquisas anteriores realizadas a partir de testamentos produzidos ao longo do século XVIII em Minas foi percebido que algumas figuras que escreviam as últimas vontades dos testadores repetiam-se com alguma consistência durante algum período e depois desapareciam. Esses escreventes ou escrivães, pelo que é possível identificar até agora, eram advogados, militares e clérigos que exerciam, entre outras atividades ligadas à escrita, a de escrever os testamentos para os habitantes das comarcas de Rio das Velhas. Em geral estas atividades estavam relacionadas com as letras e objetivavam o sustento destes agentes históricos. Para esta pesquisa buscou-se analisar a trajetória de alguns dos escreventes. A partir desta definição de objeto foi feito um cruzamento nominativo com outros documentos como inventários post-mortem e testamentos de parentes, amigos e companheiras destes escreventes, objetivando compreender e analisar a trajetória de vida destes letrados atuantes em Minas ao longo do século XVIII.

Palavras-chave


Letrados; Escreventes; Testamentos; Século XVIII; Minas Gerais

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1984-3356.2021v14n28p188

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