Mimeses pré-modernas subjacentes ao Memorial Descritivo do Projeto de Brasília

Lucas Jordano de Melo Barbosa

Resumo


Por meio do presente artigo, pretende-se problematizar o projeto do Plano Piloto de Brasília, elaborado por Lúcio Costa, na direção de compreendê-lo para além de paradigmas urbanísticos modernos, como um palimpsesto de formas urbanas mais antigas, que perseveraram sob a silhueta dessas referências mais recentes. Nesse intuito, não nos interessa particularmente se a adoção de determinadas formas foi consciente e intencional desde as diretrizes iniciais ou se surgiram intuitivamente ao longo do processo de projeto (visto não ser possível avaliar as deliberações da intimidade psicológica de Lúcio Costa), mas apenas se comungam de organizações espaciais já experimentadas em modelos tradicionais de cidades. O simples fato de certas formas urbanas sobreviverem frente a imperativos de modernidade parece sintoma de seu vigor latente. Analisar Brasília sob essa perspectiva restitui, por conseguinte, a importância da mimese como força que conecta cidadãos e história ao desenho urbano. Nesse sentido, apontamos para questões de escalas bastante distintas, que vão da mística do sítio da capital, passando pelas linhas gerais que determinaram a silhueta do conjunto (dois eixos cruzados ortogonalmente), até questões pontuais a respeito da conformação fortificada da esplanada ministerial, e mesmo do dimensionamento dos setores residenciais. Ainda que esses apontamentos se apresentem como hipótese, comparecem à luz de uma revisão bibliográfica e metodologia comparativa, possibilitando uma desejada ampliação da discussão.


Palavras-chave


Brasília; forma urbana; paradigmas urbanísticos; simbologia urbana; mimese

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1984-3356.2021v14n28p601

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