O Teorema de Green estudado nos cursos de Cálculo estabelece um dos mais importantes resultados relacionados com a teoria de funções analíticas através do Teorema integral de Cauchy. Neste caso, necessitamos estabelecer uma orientação para curvas fechadas tomadas como sendo positivas.
Dado uma curva fechada K parametrizada por z=z(t) com a<t<b, por convenção, a fronteira ou contorno da região envolvida pela curva é orientada no sentido positivo quando um observador localizado sobre a curva, percorre o contorno K de tal modo que o interior do contorno K esteja sempre à sua esquerda. Nas figuras abaixo, as curvas estão orientadas no sentido positivo.

Para indicar a integral de linha da função f=f(z) ao longo da fronteira fechada K no sentido positivo, usamos o símbolo:
![]() K |
f(z) dz |
|---|
Sejam P=P(x,y) e Q=Q(x,y) funções definidas e tendo derivadas primeiras contínuas sobre uma região simplesmente conexa D. Então, para todo contorno fechado simples K na região D, tem-se que
![]() |
![]() |
D' |
( | ∂ Q
∂ x |
− | ∂ P
∂ y |
) dxdy = | ![]() K |
P dx + Q dy |
|---|
onde D' é a região interior a K.
Exemplo: Para calcular a integral
![]() K |
(x²+y²) dx + x dy |
|---|
onde K é a circunferência x=acos(t), y=asen(t) com 0<t<2
, utilizamos o teorema de Green. Como P=(x²+y²), Q=x,Qx=1, Py=2y, então
![]() K |
(x²+y²) dx + x dy = | ![]() |
![]() |
D' |
(1−2y) dxdy |
|---|
Como a região D' é limitada pela circunferência x=acos(t), y=asen(t) com 0<t<2
, podemos calcular a última integral em coordenadas polares
![]() |
![]() |
D' |
(1−2y)dxdy = | ![]() |
t=2![]() t=0 |
![]() |
r=a r=0 |
[1−2rsen(t) | ] rdr dt = | ![]() |
2![]() 0 |
[½a²−(2/3)a³sen(t)]dt = a² |
|---|
Exemplo: Para calcular a integral
![]() K |
(x²+y²) dx + (x²−y²) dy |
|---|
onde K é o quadrado −a<x<a e −a<y<a utilizaremos o teorema de Green. Assim, como P=(x²+y²), Q=(x²−y²), Qx=2x, Py=2y, assim,
![]() K |
(x²+y²)dx + (x²−y²)dy = | ![]() |
![]() |
D' |
(2x−2y) dxdy |
|---|
Como a região D' é limitada pelo quadrado −a<x<a e −a<y<a, temos:
![]() K |
(x²+y²)dx+(x²−y²)dy= | ![]() |
y=a y=−a |
![]() |
x=a x=−a |
(2x−2y)dxdy=0 |
|---|
Esta integral seria mais trabalhosa como uma integral de linha, pois o caminho K deve ser decomposto em quatro retas parametrizadas.
Se D é uma região simplesmente conexa no plano complexo e a função f:D
C é analítica, então, para todo contorno fechado K contido em D, temos que:
![]() K |
f(z) dz = 0 |
|---|
Este resultado é conhecido como o Teorema Integral de Cauchy.
Uma conseqüência imediata do Teorema Integral de Cauchy é o teorema que caracteriza a integral que independe do caminho.
Se D é uma região simplesmente conexa no plano complexo, p e q são pontos desta região e f:D
C é uma função analítica, então, a integral de f=f(z) ao longo de qualquer curva ligando os pontos p e q, só depende destes pontos e não da específica curva que liga estes pontos.
Mostraremos primeiramente que, se é válido o Teorema de Cauchy então ocorre a independencia do caminho para a integral.
Vamos considerar K1 e K2 dois caminhos quaisquer com extremos p e q, sem outros pontos em comum dentro da região D. A figura abaixo mostra esta situação.

A justaposição dos caminhos K1 e −K2 forma um caminho fechado em D, logo
![]() K1+(−K2) |
f(z) dz = | ![]() K1 |
f(z) dz − | ![]() K2 |
f(z) dz = 0 |
|---|
então
![]() K1 |
f(z) dz = | ![]() K2 |
f(z) dz |
|---|
o que garante que a integral complexa de f=f(z) independe do caminho escolhido.
Suponhamos agora que a integral complexa de f=f(z) independe do caminho. Consideremos K um contorno fechado dentro da região D. Tomando dois pontos p
K e q
K, podemos construir dois caminhos distintos K1 de p a q e K2 de q a p. Temos então que
![]() K1 |
f(z) dz = − | ![]() K2 |
f(z) dz |
|---|
Logo
![]() K |
f(z) dz = | ![]() K1 |
f(z) dz + | ![]() K2 |
f(z) dz = 0 |
|---|
o que prova o Teorema Integral de Cauchy.
Seja f=f(z) uma função analítica definida sobre uma região simplesmente conexa D. Se p e q são pontos em D e F'(z)=f(z) (F é uma primitiva para f), então
![]() |
b a |
f(z)dz = F(b)−F(a) |
|---|
Exemplo: Uma situação típica é
![]() |
2−i 2i |
2z dz = [ z²]2i2i−1 = 1−4i |
|---|
Seja f=f(z) uma função analítica definida sobre uma região multiplamente conexa (com um furo) e nos seus contornos. Seja D a região limitada externamente por um contorno fechado simples K e limitada internamente por um contorno fechado simples K1, onde K e K1 são orientadas no sentido positivo como ilustra a figura seguinte.

Então
![]() K |
f(z) dz = | ![]() K1 |
f(z) dz |
|---|
Este teorema garante que para integrar uma função f=f(z) ao longo de um contorno fechado K, basta trocar K por qualquer outro caminho fechado simples K1 da região, desde que a função f=f(z) seja analítica na região localizada entre K e K1.
Seja f=f(z) uma função analítica definida sobre uma região multiplamente conexa (com vários furos), esta região está limitada pelos contornos fechados simples K, K1,K2,...,Kn de tal modo que K1,K2,...,Kn estão contidas na região limitada externamente por K.

Então
![]() K |
f(z) dz = | ![]() K1 |
f(z) dz + | ![]() K2 |
f(z) dz +...+ | ![]() Kn |
f(z) dz |
|---|
Este resultado é obtido com a introdução de cortes L1 e −L1, ligando K a K1, L2 e −L2 ligando K a K2, ..., Ln e −Ln ligando K a Kn.
Tomando
obtemos um contorno Ω que é fechado e em seu interior está uma pseudo-região simplesmente conexa. Pelo Teorema Integral de Cauchy, temos que
![]() Ω |
f(z) dz = 0 |
|---|
logo
![]() K |
f(z) dz + | ![]() −K1 |
f(z) dz + | ![]() −K2 |
f(z) dz +...+ | ![]() −Kn |
f(z) dz = 0 |
|---|
Concluímos então que
![]() K |
f(z) dz = | ![]() K1 |
f(z) dz + | ![]() K2 |
f(z) dz +...+ | ![]() Kn |
f(z) dz |
|---|
Se K é um caminho fechado envolvendo os pontos i e −i, calcular a integral
![]() |
K |
dz
z²+1 |
|---|
Resolução: A função f(z)=1/(z²+1) é analítica em todo plano complexo exceto em z=i e z=−i. Decompondo esta função pelo método das frações parciais e realizando a integral, teremos:
![]() |
K |
dz
z²+1 |
= | ![]() |
K1 |
1/2i
z−i |
dz − | ![]() |
K2 |
1/2i
z+i |
dz |
|---|
onde K1 é uma circunferência de raio r1 com centro em i e K2 é uma circunferência de raio r2 com centro em −i de modo que as circunferências sejam disjuntas e estejam contidas no interior de K. Sobre a circunferência K1 temos que |z−i|=r1 ou seja z−i=r1 eit e sobre a circunferência K2 segue que |z+i|=r2, isto é, z+i=r2 eit, 0<t<2
.
Calculando as integrais separadamente:
![]() K1 |
1/2i
z−i |
dz = | 1
2i |
![]() |
2![]() 0 |
i r1 eit
r1 eit |
dt = | 1
2i |
2 i = ![]() |
![]() K2 |
1/2i
z+i |
dz = | 1
2i |
![]() |
2![]() 0 |
i r2 eit
r2 eit |
dt = | 1
2i |
2 i = ![]() |
|---|
Concluímos que
![]() K |
dz
z²+1 |
= 0 |
|---|
Para um caminho fechado K envolvendo apenas um dos pontos i e −i, pelo exemplo anterior temos que
![]() K |
dz
z²+1 |
= ![]() |
|---|
Se K é um caminho fechado que não contém qualquer dos pontos i e −i, calcular a integral
![]() K |
dz
z²+1 |
|---|
Resolução: Se i e −i estão fora da região limitada pela curva K e f(z)=1/(z²+1) é analítica em todos os pontos sobre K e também em todos pontos da região limitada por K, então, pelo Teorema Integral de Cauchy:
![]() K |
dz
z²+1 |
= 0 |
|---|
Se p é um número complexo e K é um caminho fechado orientado positivamente envolvendo o ponto z=p. Calcule a integral
![]() K |
dz
z−p |
|---|
Solução: Se K1 é uma circunferência de raio r envolvendo o ponto z=p e inteiramente contido no interior de K. A função integranda 1/(z−p) é analítica no domínio entre K e K1. Sobre a circunferência K1 temos que z−p=r eit, 0<t<2
, logo
![]() K |
dz
z−p |
= | ![]() K1 |
dz
z−p |
= | ![]() |
2![]() 0 |
i r eit
r eit |
dt = 2 i |
|---|
Calcular a integral
![]() K |
(6z²+8iz) dz |
|---|
onde K é uma curva qualquer unindo os números complexos z1=1+1i e z2=2+3i
Solução: Como f(z)=6z²+8iz é uma função polinomial, f=f(z) é inteira (analítica em todo o plano complexo), então a integral independe do caminho que liga os pontos z1=1+i e z2=2+3i e como a função F(z)=2z³+4iz² é uma primitiva da função integranda f, obtemos
![]() K |
(6z²+8iz) dz = |
![]() |
2+3i 1+i |
(6z²+8iz) dz = [2z³+4iz²] |
2+3i 1+i |
|---|
Se K é um caminho fechado simples limitando uma região de área igual a S, mostrar que
![]() K |
x dz = iS |
|---|
Se K é um caminho fechado simples limitando uma região de área igual a S, mostrar que
![]() K |
y dz = −S |
|---|
Se K é um caminho fechado simples limitando uma região de área igual a S, mostrar que
![]() K |
z * dz = 2iS |
|---|
Seja K um contorno fechado e p um ponto no interior de K. Mostre que
![]() K |
(z−p)−1 dz = 2 i e |
![]() K |
(z−p) n dz=0, n −1 |
|---|
Observação: Tome z−p = r eit e dz = d(z−p) = r i eit dt
Calcular a integral
![]() K |
ez dz |
|---|
sendo K a poligonal com vértices nos números complexos −1, 1 e 1+i.
Calcular a integral
![]() K |
[sen(z)−cos(z)] dz |
|---|
sendo K a o segmento de reta com extremo nos números complexos −1 e i.
Calcular a integral
![]() K |
zn dz |
|---|
para n
Z e K a poligonal com vértices nos números complexos −i, 2i e 1+i.
Calcular a integral
![]() |
4i 0 |
(z³−2iz+2) dz |
|---|
ao longo da poligonal com vértices em 0, 1+i e 4i.
Calcular a integral
![]() |
2+i 0 |
(z²−iz+2) dz |
|---|
ao longo de um segmento de reta.