A derivada de uma função complexa em um ponto

Seja f:D toC uma função complexa onde D é um domínio complexo. A derivada da função f no ponto z0 é definida por

lim
ztozo
f(z)−f(z0)
z−z0

Se o limite acima existir, denotamos a derivada da função f por f' e escrevemos:

f'(z0) = lim
ztozo
f(z)−f(z0)
z−z0

Tomando h=z−z0, a última expressão pode ser reescrita na forma:

f'(z0) = lim
hto0
f(z0+h)−f(z0)
h

Exemplos:

  1. Seja f:C toC definida por f(z)=z². A derivada de f no ponto z0 inC é dada por

    f'(z0) = lim
    ztozo
    z²−z0²
    z−z0
    = lim
    ztozo
    (z−z0)(z+z0)
    z−z0
    = lim
    ztozo
    (z+z0) = 2z0
  2. Seja f:C toC definida por f(z)=Re(z). Tomando z=x+iy, f(z)=x e z0=x0+iy0, poderemos escrever

    f'(z0)= lim
    hto0
    f(z0+h)−f(z0)
    h

    Para que uma função possua derivada em um ponto z0, o limite não pode depender do modo como h tende a zero. Tomando h to0 por valores reais h=k, obteremos:

    f'(z0) = lim
    kto0
    (x0+k)−(x0)
    k
    = 1

    Tomando h to0 por valores imaginários h=it, teremos:

    f'(z0) = lim
    tto0
    x0−x0
    it
    = 0

    Como os limites são distintos, concluímos que f(z)=Re(z) não possui derivada no conjunto dos números complexos.

    fig

Função analítica em um domínio complexo

Seja D um domínio complexo, isto é, um conjunto aberto e conexo e f:D toC. A função f é analítica em D se f possui derivada em todos os pontos z0 em D. f é analítica em um ponto z0, quando f é analítica em uma vizinhança aberta de z0. Na literatura, é comum encontrarmos as palavras holomorfa e regular como sinônimos da palavra analítica.

Uma função f:C toC é uma função inteira se ela é derivável em todo ponto z inC, isto é, se f for analítica em todo o plano complexo.

Função analítica real versus função analítica complexa

Uma função real f=f(x) pode ter a primeira derivada contínua e no entanto não possuir a segunda derivada.

No sistema complexo, esta situação não ocorre, pois se f=f(z) possui a primeira derivada, também deve possuir todas as outras derivadas.

Acerca da analiticidade, podemos exibir uma função real f=f(x) que não é analítica mas cuja equivalente complexa f=f(z) é analítica.

Exemplo: A função real definida por f(0)=0 e f(x)= e −1/x se x neq0 não é analítica, mas a função complexa definida por f(0)=0 e f(z)= e −1/z se z neq0 é analítica em todo o plano complexo.

Derivada em um ponto isolado

Uma função que possui derivada em um ponto isolado de seu domínio não pode ser analítica, pois, a definição acima exige que a função tenha derivada em todos os pontos de um conjunto aberto contendo o referido ponto. O exemplo seguinte trata de uma função que possui derivada em um ponto z0 de seu domínio sem que seja analítica neste ponto z0.

Exemplo: A função f(z)=|z|² é derivável em z=0, pois

f'(0) = lim
zto0
|z|²
z
= lim
zto0
z.z *
z
= lim
zto0
* = 0

Consideremos z0 inC sendo z0 neq0

f'(z0) = lim
ztoz0
|z|²−|z0
z−z0
= lim
ztoz0
(x²−x0²)+(y²−y0²)
(x−x0)+i(y−y0)

Este limite não existe, pois quando z toz0 por caminhos diferentes, os resultados dos limites são distintos, assim f possui derivada em z0=0 mas não é derivável em qualquer outro ponto distinto z=0. Concluímos então que f não é analítica em z=0.

Funções analíticas e continuidade

Se uma função f é analítica em seu domínio D, então ela é contínua neste mesmo domínio D.

Propriedades das funções analíticas

Se f e g são funções analíticas sobre um domínio D e k é um número complexo, então f+g, k f, f.g e f/g sendo g neq0, são analíticas sobre D, valendo as seguintes regras de derivação:

(f+g)'=f'+g' (k.f)'=k.f' (f.g)'=f'.g+f.g' (f/g)'=(g.f'−g'.f)/g²

Regra da cadeia (Derivada da composta)

Seja h=gof definida por h=g(f(z)) a função composta de f com g. Se f for derivável em z0 e g for derivável em w0=f(z0) então h=g o f é derivável em z0 e além disso:

h'(z0)=g'(f(z0)).f'(z0)

Regras de derivação de algumas funções complexas

As regras de derivação para algumas funções analíticas podem ser demonstradas de forma similar àquelas do caso real. As funções usuais do Cálculo de funções reais são analíticas reais e quando estendidas de modo conveniente ao plano complexo, possuem derivadas semelhantes.

Dz[c] = 0 Dz[zn] = n z n−1
Dz[ez] = ez Dz[az] = lna az
Dz[sen(z)] = cos(z) Dz[cos(z)] = −sen(z)
Dz[tan(z)] = sec²(z) Dz[cot(z)] = −csc²(z)
Dz[sec(z)] = sec(z).tan(z) Dz[csc(z)] = −csc(z).cot(z)
Dz[ln(z)] = 1/z Dz[arctan(z)] = 1/(1+z²)
Dz[arcsin(z)] = 1/(1−z²)1/2 Dz[arccos(z)] = −1/(1−z²)1/2
Dz[sinh(z)] = cosh(z) Dz[cosh(z)] = sinh(z)
Dz[tanh(z)] = sech²(z) Dz[coth(z)] = −csch²(z)

Equações de Cauchy-Riemann

O problema de sabermos se uma função complexa f é derivável em um ponto z0=x0+iy0 é simplificada pelo fato de sabermos se as partes real e imaginária de f são parcialmente deriváveis em (x0,y0). Seja f:D toC, sendo D um domínio em C.

Seja f escrita na forma f(z)=u(x,y)+iv(x,y) onde u e v são funções reais. As Equações de Cauchy-Riemann são dadas por:

∂u
∂x
= ∂v
∂y
    e     ∂u
∂y
= − ∂v
∂x

Teorema: (Equações de Cauchy-Riemann são necessárias para a analiticidade)

Se f(z)=u(x,y)+iv(x,y) é uma função analítica em um ponto z0=(a,b) então, valem as Equações de Cauchy-Riemann, isto é:

∂u
∂x
= ∂v
∂y
    e     ∂u
∂y
= − ∂v
∂x

Demonstração: Se f tem derivada em z0, podemos escrever

f'(z0)= lim
hto0/th>
f(z0+h)−f(z0)
h

Este limite existe independente do modo como h tende a zero. Tomando h to0 por valores reais h = k, teremos:

f'(z0) = f'(a,b) = lim
kto0
u(a+k,b)−u(a,b) + i [v(a+k,b)−v(a,b)]
k
  = lim
kto0
u(a+k,b)−u(a,b)
k
+ i v(a+k,b)−v(a,b)
k

logo

f'(z0) = ∂u
∂x
+ i ∂v
∂x

Tomando agora h to0 por valores imaginários h=it, teremos:

f'(a,b) = lim
tto0
u(a,b+t)−u(a,b) + i [v(a,b+t)−v(a,b)]
it
  = lim
tto0
u(a,b+t)−u(a,b)
t
− i v(a,b+t)−v(a,b)
t

Desse modo

f'(z0) = ∂v
∂y
−i ∂u
∂y

Assim:

∂u
∂x
+ i ∂v
∂x
= ∂v
∂y
− i ∂u
∂y

Igualando as partes reais e as partes imaginárias, obtemos as Equações de Cauchy-Riemann:

∂u
∂x
= ∂v
∂y
,    ∂u
∂y
= − ∂v
∂x

Observação: (Equações de Cauchy-Riemann não são suficientes para a analiticidade)

Existem funções f(z)=u(x,y)+iv(x,y) que satisfazem às equações de Cauchy-Riemann em um dado ponto z0, mas que não possuem derivada neste ponto.

Exemplo: Seja f(z)=u(x,y)+iv(x,y), onde x e y são variáveis reais e definamos u(0,0)=0, v(0,0)=0 e

u(x,y)= x³−y³
x²−y²
   e    v(x,y)= x³+y³
x²+y²

As equações de Cauchy-Riemann são satisfeitas em (0,0) pois

ux(0,0) = lim
hto0
u(h,0)−u(0,0)
h
= lim
hto0
h³/h²
h
= 1
uy(0,0) = lim
hto0
u(0,h)−u(0,0)
h
= lim
hto0
−h³/h
h
= −1
vx(0,0) = lim
hto0
v(h,0)−v(0,0)
h
= lim
hto0
h³/h²
h
= 1
vy(0,0) = lim
hto0
v(0,h)−v(0,0)
h
= lim
hto0
h³/h²
h
= 1

Acontece que f(z)=u(x,y)+iv(x,y) não tem derivada em (0,0), pois

f'(0) = lim
zto0
f(z)−f(0)
z−0
= lim
zto0
u(x,y)+iv(x,y)
x+iy
= lim
zto0
x²+xy+y²
(x+y)(x+iy)
+ i x³+y³
(x²+y²)(x+iy)

Tomando z to0 através da reta real x=0, obtemos

f'(0) = lim
yto0
y+iy
iy
= 1−i

Tomando z to0 através da reta y = 0, obtemos

f'(0) = lim
xto0
x+ix
x
= 1+i

Isto mostra que f não possui derivada em z=0+i0=(0,0).

Concluímos que as equações de Cauchy-Riemann não são suficientes para garantir que f(z)=u(x,y)+iv(x,y) possua derivada.

Se, além de satisfazer às equações de Cauchy-Riemann, acrescentarmos o fato que as derivadas de primeira ordem de u=u(x,y) e v=v(x,y) sejam contínuas numa região D, obteremos as condições para garantir que f possui derivada.

Teorema: (Condição necessária e suficiente para a analiticidade)

Seja f(z)=u(x,y)+iv(x,y), onde u=u(x,y) e v=v(x,y) são funções reais. f é analítica em um ponto z0=x0+iy0 se, e somente se, u=u(x,y) e v=v(x,y) possuem derivadas de primeira ordem contínuas em (x0,y0) e além disso, valem as Equações de Cauchy-Riemann.

Exemplos: Analisaremos alguns exemplos já tratados anteriormente.

  1. f(z)=z²

    u=x²−y², v=2xy, ux=2x, uy=−2y, vx=2y, vy=2x Como ux=vy e uy=−vx e as derivadas de primeira ordem são contínuas em todos os pontos de R² esta função é analítica em todo o plano complexo, isto é, f ela é inteira.

  2. f(z)=Re(z)

    u=x, v=0, ux=1, uy=0, vx=0, vy=1. Assim as equações de Cauchy-Riemann não são satisfeitas em qualquer ponto de R².

  3. f(z)=|z|²

    u=x²+y², v=0, ux=2x, uy=2y, vx=0, vy=0. As equações de Cauchy-Riemann só são satisfeitas na origem e a função só possui derivada em (0,0) não sendo analítica em z=0, pois as derivadas parciais de primeira ordem não são contínuas em (0,0).

Construída por Sônia Ferreira Lopes Toffoli.