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“Ele se sentia um autêntico pé vermelho”

Sandra Burgo Tacahashi, filha de Mário Tacahashi, compartilhou com o Portal uma jornada exuberante de seu pai, servidor da UEL que sempre esteve envolvido com a educação

De forma carinhosa, Sandra Burgo Tacahashi teve prontidão ao pedido de compartilhar com o Portal a história do seu “papai” como ela o chama, Mário Tacahashi, já falecido. Que história incrível, cheia de amor, motivações, alegrias, lutas e, principalmente, conquistas. Para começar, Sandra diz que seus avós japoneses escolheram o Brasil para morar e, no início, trabalhavam com a agricultura, como todo imigrante fazia naquela época. Seu avô, Cazumori Tacahashi, e sua avó, Hana Tacahashi, embora budistas, decidiram adotar a religião do país, que era o catolicismo.

“Como as pessoas tinham dificuldades em falar seus nomes, eles decidiram pegar a Bíblia e escolher um nome para eles, que ficou como José e Maria, simples, para facilitar a vida de todos”, rindo, Sandra explica. Na agricultura, “Meu avô era gerente de uma fazenda de café, ao lado de um italiano”.

Na certidão de nascimento de Mário Tacahashi consta que ele nasceu em 25 de fevereiro de 1920, em Monte Alto/SP, mas Sandra conta que ele comemorava o aniversário também em outra data, dia 29 de novembro de 1918. “Comemora-se duas vezes ao ano e fica velho uma vez só”, gargalhando, Sandra destaca, ainda, que os amigos de Mário gostavam de brincar com ele a respeito das duas datas de aniversário.

Tacahashi é filho mais velho entre oito irmãos. Por ser da cultura oriental, sua família prezava, acima de tudo, a educação, elemento que era primordial. “Se fazia qualquer coisa para um filho estudar. Muito jovem meu papai foi mandado para Olímpia/SP para fazer o ginásio e, neste tempo, ele trabalhou com o seu padrinho que era dentista, fato que acabou despertando o interesse dele pela odontologia, entretanto, como ele era o filho mais velho, existia a preocupação de não gerar gastos excessivos para os pais, então meu pai se mantinha trabalhando”, conta ela.

  “Lembro que ele contava que minha avó mandava latas de pêssegos, na maioria importadas, primeiro ele furava a lata, em seguida tomava toda a calda e depois abria para ir comendo, aos poucos, os doces. Ele me contou que não via a hora das latas chegarem!”, afinal, naquele tempo não era tão fácil obter as coisas.

Por causa de sua situação, ele acabou desistindo do sonho de estudar odontologia e pensou em alguma alternativa em que pudesse ajudar sua família. Com esse pensamento, em 1937 ele foi para São Paulo/SP, período da segunda guerra mundial, e lá pode vivenciar o preconceito, que a maior parte dos imigrantes sofria. Sandra conta que quando ele passava pela rua era chamado de quinta coluna e o ameaçavam. Em São Paulo ele estudou na Escola Livre Oswaldo Cruz, se formou em 1940, sendo que até 1943, ele lecionou na escola de Olímpia.

“Por conta da situação da guerra, Mário foi trabalhar na área administrativa, na Sociedade Mercantil Construtora Ltda., companhia responsável pela construção da estrada Brasiliano, que se estendia de Minas ao Chile”, frisa. Foi uma forma de sair de São Paulo, mas continuar trabalhando.

“Meu pai tinha a vocação para ser professor. O professor de inglês, Sinésio Oliveira Medeiros, que conhecia papai de Olímpia, veio para Londrina. Naquele tempo, aqui tinha apenas o Ginásio Estadual que ofertava até a quarta série, além da Escola Técnica Comercial; esse senhor veio para esta escola e trocou correspondências com Mário para que ele viesse para cá, isto em 1945”, relata Sandra.

Foi dia 13 de agosto de 1945 que o professor Mário Tacahashi chegou a Londrina. Ele veio para dar aula na Escola Técnica Comercial ao lado do professor Sinésio, que efetivou o convite. No ano de 1946, Tacahashi conheceu sua esposa, a espanhola Maria Burgo Tacahashi, que por toda sua vida foi modista. “A família da minha mãe veio da Espanha, eles tinham fazendas e o trabalho era árduo. Mamãe era independente financeiramente, o que a diferenciava das mulheres da época”, explana Sandra.

Em 19 de dezembro de 1947, aconteceu o casamento de Mário e Maria. Foi o primeiro casamento nissei misto em Londrina. Quando nasceu Sara, a irmã de Sandra, ela chamava a atenção de todos por ser mestiça, um tipo incomum naquele tempo. “Primeiramente minha irmã chamava muita atenção por ser filha de japonês, e depois por ser mestiça”, frisa.

Os pais de Sandra nunca tiveram problemas entre eles por serem provenientes de famílias cujas etnias eram completamente diferentes, japonesa e espanhola, mas tiveram problemas no convívio social; muitas vezes, por essa união, eram simplesmente excluídos de suas próprias culturas.

“O bacana foi que eles tinham maturidade e conseguiram separar os valores e as coisas que eram importantes dentro da cultura de cada um”, para Sandra, essa postura dos pais foi fundamental em sua vida, considerando que pode aprender e respeitar coisas diferentes.

Sandra, formada em Música e Belas Artes, ressalta que nasceu em uma família diferente, cresceu em um ambiente totalmente ligado à música e à dança. “Eu só fui descobrir que minha família era diferente das outras famílias quando entrei na escola, aos oito anos de idade. Descobri que não era todo mundo que fazia aula de dança e piano, e que cantava. Vivíamos uma atividade artística que não era todo mundo que tinha essa oportunidade. Uma pena, pois era muito saudável e gostoso”, destaca ela. Além disso, o professor Mário gostava de desenhar e pintar, e transmitiu também esses conhecimentos para suas filhas.

“Eu era a cobaia, minha avó japonesa me ensinava japonês e a espanhola, espanhol. Às vezes, eu saia para brincar e começava uma frase em português, quando via já estava falando em espanhol, e terminava a frase em japonês”, era uma bagunça, comenta Sandra. “Então meu pai decidiu: ela é brasileira e tem que falar português”.

Mário e Maria conviviam com valores diversos, mas conseguiram passar pelas adversidades com tranquilidade, apesar das pessoas, em geral, mostrarem-se curiosas sobre essa família: “Uma vez eu fui para Santa Catarina e o pessoal de lá saia correndo para nos olhar, porque eles nunca tinham visto mestiços”, recorda Sandra.

Em Londrina, Mário Tacahashi foi um dos fundadores do Colégio Estadual Vicente Rijo (1946), professor de trabalhos manuais e desenho, além de ter ocupado o cargo de secretário do estabelecimento, até 1951. “Ele foi totalmente dedicado à educação e dedicou grande parte da sua vida ao Colégio. Fez parte de uma equipe de professores que trabalhavam no Vicente Rijo e que foi responsável pela fundação de ginásios estaduais em todas as cidades da região”, ressalta.

O Doutor Lauro Gomes da Veiga Pessoa, que era diretor tanto do Vicente Rijo quanto do Colégio Filadélfia, hoje Colégio Londrinense, convidou Mário para ajudá-lo na fundação da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras. Assim, o pai de Sandra, como tinha experiência na área administrativa, organizou toda a parte documental da Faculdade. Ele contribuiu na criação e estruturação dos cursos de Direito e de Odontologia.

“A Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras colocava no mercado de trabalho profissionais das áreas de História, Geografia, Letras Anglo-Germânicas e Letras Neo-Latinas (Bacharelado)”. Na FUEL - Fundação Universidade Estadual de Londrina, Mário foi secretário do Centro de Ciências Humanas de 09/09/1971 a 1973. Posteriormente foi indicado como Chefe de Divisão de Admissão, Registro e Controle, mais tarde, Divisão de Matrícula e Arquivo, da Coordenadoria de Assuntos Acadêmicos (CAE), atual Pró-Reitoria de Graduação (Prograd).

Nos últimos anos na UEL, ele trabalhou na CAE - Diretoria de Controle Acadêmico, mais especificamente com certificados e diplomas. “Com a parte administrativa e de legislação papai sempre teve muita facilidade. Então ele ficou desde quando fundou a UEL até 1990”, emocionada e orgulhosa, Sandra relata a trajetória de seu pai. Na UEL, ele nunca foi professor, sempre trabalhou na área administrativa, organizava tudo e cuidava da parte legal e burocrática da Universidade.

Mário era responsável por toda a estrutura legal e funcional dos cursos. Ele sempre esteve envolvido com a educação na cidade. Sandra fala sobre a popularidade de seu pai: “Quem se formou até 1990, em qualquer curso de graduação, provavelmente tem a assinatura dele no certificado de conclusão de curso. Muitas pessoas o conheciam”. Em 1995, a mãe de Sandra faleceu e, após um ano, Sandra, depois de 22 anos residindo em Curitiba onde cursou Belas Artes, retornou para Londrina para fazer companhia e cuidar de seu pai.

“Meu pai tinha bom humor e sempre estava sorrindo. Se destacava por ser uma pessoa tranquila e equilibrada. Um de seus hobbies preferido era a pescaria. Ele adorava pescar e dizia que era o seu momento de escape, no qual ele se renovava e recuperava as forças. Ele ensinou toda a família a pescar.” Sandra revela também a paixão que Mário tinha pelo futebol. Ele praticava o esporte enquanto estudante e depois até chegou a ser técnico nos jogos estudantis paranaenses pelo Colégio Vicente Rijo. E declara que o time do coração de Mário era o São Paulo Futebol Clube.

Outra parte interessante é que ele ajudava na organização dos desfiles de Sete de Setembro da cidade. “Meu pai reunia todas as escolas e organizava o desfile, montava o esquema dos lugares em que cada escola iria ficar e a sequência de apresentação delas, ele cuidava de cada detalhe. No dia do desfile ele ficava do começo ao fim, acompanhando para que tudo desse certo”, destaca Sandra.

Além de trabalhar na área acadêmica, o professor Mário também contribuiu com causas político-sociais. Participou, várias vezes, da organização do processo eleitoral da cidade, desde o processo de montagem até a apuração de votos. Como era doador de sangue, não era raro ele ser acordado durante a noite, para ajudar algum paciente que necessitava de sangue. Como o sangue dele era o universal, ele fazia doação de sangue com frequência.

Em homenagem à memória do seu papai, Sandra separou uma passagem do poeta Fernando Pessoa que ela gosta muito e que traz lembranças boas de Mário:


Quando Está Frio (Alberto Caeiro)

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime.

Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

(Alberto Caeiro - Personagem ficcional criado por Fernando Pessoa)


“Ele priorizou a vida inteira dele para nós”


Com um leve suspiro e lágrimas em seu rosto, a querida filha tenta resumir seu papai, como ela o citou carinhosamente por toda a entrevista:

“Sabe aquele homem sábio, que consegue conversar com qualquer pessoa, de qualquer idade e cultura, ele dizia que sempre aprendia alguma coisa com as pessoas. A troca de aprendizagem é uma coisa bacana porque todo mundo tem alguma coisa para ensinar. Ele era uma pessoa muito poderosa, no sentido de ter o controle de ímpeto e de emoções. Então ele era uma pessoa extremamente generosa. Eu nunca vi meu pai gritar, bater porta, falar mal de ninguém, por mais bravo que ele estivesse. Nesse sentido, ele era uma pessoa poderosa, pois não perdia o controle da situação”, frisa a filha.

“Ele também era uma pessoa rica, não no sentido de ter coisas, mas ele conseguia aproveitar e usufruir as coisas que tinha. Ele era dono de uma riqueza interior e ele criou a gente assim. Isto tudo tem muito valor. Minha mãe falava que nós éramos privilegiadas e eu acho que ela tinha toda a razão. Meus pais nunca mediram sacrifícios para cuidar de nós. Amigas minhas falavam que gostariam de ter tido as mesmas oportunidades que eu tive, pois meus pais nos incentivaram em tudo, deixando, inclusive eu e minha irmã estudarmos em outra cidade”, continua Sandra.

Mário Tacahashi sempre foi cuidadoso com a família, com os irmãos, com todos. Ele teve um cuidado muito especial com suas filhas e lutou para dar a elas uma vida digna. “As lembranças que temos são muito próximas, pois ele era um pai muito presente. Além de pai ele era um grande amigo. Não passa um dia em que eu não me lembre dele, a saudade é muito grande”, frisa Sandra.

Mesmo sem nunca ter feito um curso superior, Mário utilizou da sua inteligência e da sua dedicação para ser uma peça fundamental na sociedade. Ele ficou ao lado de sua esposa por 49 anos e seis meses, Maria Burgo Tacahashi, e juntos tiveram duas filhas: Sara e Sandra. Ele tem três netos e uma bisneta que não chegou a conhecer. Tacahashi faleceu no dia 20 de janeiro de 2004.

Lillian Cardoso


Sandra Burgo Tacahashi, filha do Sr. Mário Tacahashi


Sandra ao nos contar sobre seu papai se emociona


Foram 60 anos dedicados à Educação em Londrina, especialmente à Universidade


UEL - agosto de 1983


1945 - Primeira foto registrada por ele em Londrina


Deslife


Desfile


Formatura Sara - Paróquia Nossa Sra de Guadalupe (21 de dezembro de 1972)


Mário e Maria - Bosque - 1946


Filosofia

 

Ficha Técnica

Categoria: Funcionário

Nome Completo: Mário Tacahashi

Cargo/função: Técnico Administrativo

Último Local em que Atuou: CAE (Diretoria de Controle Acadêmico), atual Prograd

Natural de: Monte Alto - SP

Tempo de UEL: 35 anos

Ano de Aposentadoria: 1990

 


 

 
 
       
 
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