Cinira começou a trabalhar na UEL no dia 7 de dezembro. Entrou na Divisão de Educação e Treinamento, na ala da Pediatria, como auxiliar operacional. Aposentou-se nesse setor, onde trabalhou por 26 anos. Cinira trabalhava como diarista antes de prestar o concurso. “Eu sempre passava em frente do HU. e falava para uma amiga minha: ‘Que vontade de trabalhar aqui’. Ela me disse que o processo para trabalhar era por concurso. Foi quando minha irmã me avisou que teria concurso da UEL. Na época eu tinha dois filhos, um com seis e outro com oito”. O resultado foi positivo, Cinira conseguiu sua vaga no Hospital.
Trabalhou dois anos durante o dia, depois mudou de turno. Foi para o período noturno. A decisão foi por necessidades da maternidade, porque não tinha quem cuidasse dos filhos enquanto trabalhava durante o dia. E a noite, havia o ex marido que poderia cuidar dos filhos. Adaptou-se fácil. “Se me colocassem durante o dia, ficava perdida! Não gostava mais de trabalhar de dia. Acostumei”.
“No começo a gente via muita criança morrer de câncer, era bem triste. Mas a gente não se apegava muito a elas”, conta Cinira. Muitas crianças marcaram a vida de Cinira Lombardi enquanto trabalhou na pediatria, especialmente as com leucemia. Ela contou alguns casos. “Tinha uma [criança] de seis anos. Ela sangrava muito. A mãe pedia para não deixar a criança morrer. Era meu plantão naquele domingo. Entrei no banheiro e chorei. Rezei muito para o Senhor deixar a criança descansar”. Quando terminou o turno de Cinira, a criança havia falecido. “Essas coisas marcam muito. Lembro de um casal que viu o filho morrer. O pai gritava, chorava. Não tinha quem não chorava junto com ele. Era muito triste ver as crianças sofrerem”. Mas diz que se fosse para voltar a trabalhar, voltaria. “Iria para a pediatria de novo. Fiz muita amizade. Gostava muito”, disse Cinira, que é interrompida pelo marido que completou: “Se não fosse eu, ela não ia sair. Iria estar lá até hoje”.
Ela se aposentou porque achou que havia chegado o momento. “Estou com quase 60 anos, fiquei com umas dores no braço e na coluna”. O que fez a decisão de iniciar o processo de aposentadoria foi um conselho do atual marido. “O que adianta aposentar sem ter saúde. Você não consegue aproveitar a vida que ainda tem pela frente. Viajar, aproveitar junto. Tem que viver a vida, não esperar a doença”, disse Luis Carlos dos Santos.
Alguns colegas de trabalho trabalhavam até o ultimo ano que podiam. “Teve uma colega minha que passou o cartão no começo do turno e o cartão falhou. Ela já estava aposentada porque tinha 70 anos, mas não queria parar de trabalhar”, conta Cinira e se lembra de mais alguns casos, junto do marido. “Tinha uma senhora da limpeza, que depois que aposentou, ia limpar a capela do Hospital. Uma ou duas vezes por semana ela estava lá. Pega amor pelo local de trabalho”.
“Quando você mexe com sentimento, é difícil não se envolver (...). Aquilo acaba te consumindo e chega uma hora que não dá mais” diz Luis Carlos e complementa, “quando você faz alguma coisa, tem que ser por amor. Quando você fica desinteressado, ai não adianta mais”.
Luiz Carlos dos Santos trabalhou como segurança no Hospital Universitário. Foram 29 anos no cargo. Também era seu sonho trabalhar lá. “Os funcionários do HU não queriam sair, e antes, as vagas eram todas controladas. Saia um e entrava outro. Precisei esperar um tempo para entrar”. Seu turno era contrário ao de Cinira, ele trabalhava durante o dia, como segurança do Hospital. E lembra as coisas que precisava aprender ainda. “As janelas e as salas eram numeradas. Um, dois, três, quatro, cinco. Achei que nunca iria lembrar isso”. E filosofa, “não tem nada mais gratificante do que o sentimento da missão cumprida”.
E a vida de aposentado está começando virar rotina na vida dos dois. “Tem hora que eu esqueço que estou aposentada”, contou Cinira. “Fico achando que preciso arrumar as coisas para ir trabalhar. Fico procurando coisas para fazer agora”. E Luiz Carlos complementou, “essa não para quieta. Apontando para a esposa, complementa “ela ainda está no ritmo do trabalho. Está sempre procurando algo para fazer (...). Mas quando trabalhava no Hospital, era assim também. Não deixou nada para trás. Fez tudo que tinha que fazer”. Enquanto o marido falava, Cinira olhava para elede modo carinhoso.
Hoje ela tem 59 anos, ele tem 58. “As pedras se encontram sabe”. Eles têm dois filhos, um homem e uma mulher. Os dois já tem suas vidas também. O casal do HU já são avós. Cinira é uma avó coruja e orgulhosa. São três netos e mais uma que logo chega. Já foram para a praia, mas ainda tem muito mais lugares para visitar. “Estamos no começo ainda. Temos que planejar e vamos” comenta Luiz.
Marina Gallo
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