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O Sr. UEL

Há 20 anos, Luiz Carlos Sampaio se dedica a descobrir o universo da universidade

Sexta-feira, dia 31 de agosto de 2012, sala de eventos do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Dentre os presentes, amigos e familiares que ajudaram na concretização dessa data. Além disso, a presença da reitora Nádina Moreno torna o evento ainda mais ilustre. Afinal, após oito anos, é chegada a hora do lançamento do livro “De bem com a vida: reflexões e ideias para a terceira idade”, do senhor Luiz Carlos Sampaio.

Sampaio faz questão de subir ao palco e discursar. No entanto, promete não se delongar. Agradece a algumas pessoas especiais, comenta detalhes da obra e termina com a fala “Viu só, foi rápido, gente”, fazendo a platéia toda liberar as gargalhadas. Talvez o motivo da graça esteja no fato de que Luiz Carlos Sampaio, um senhor de 84 anos, tem muita história a contar. A imagem da bengala na mão e do corpo curvado parecem exibir a fragilidade da idade, no entanto, só escondem a potência e a fortaleza do aposentado.


Ao me receber em sua casa dias antes do lançamento, Sampaio estava ansioso, finalizando os preparativos do evento. Seus olhos brilhavam ao contar do “nascimento de um filho”, como ele mesmo faz questão de se referir ao livro. Como é uma pessoa que encanta muito fácil as pessoas, é um senhor de muitos amigos. Muitos deles, docentes e especialistas, conhecidos nas suas “andanças” pela universidade. Foi então que teve a ideia de pedir a alguns desses que escrevessem algum artigo sobre saúde, bem estar e sociedade. “De bem com a vida” é a soma desses textos, que organizados por Sampaio, têm o objetivo de colocar em discussão situações do cotidiano vivenciadas por quem está na terceira idade. “Eu pedi à cada especialista da área que fizesse um texto, mas que colocasse esperança nas palavras. Eu fui apenas um organizador do livro”, explica.

Sampaio nasceu em Franca (SP), em agosto de 1928, e veio com a família para o Paraná em 1945, onde desenvolveu o que seria hoje a sede da cooperativa agrícola Vitória, em Paranacity (noroeste do Paraná). Anos mais tarde, o cafeicultor chegou a trabalhar como corretor de imóveis em Londrina, onde se casou. Inquieto por natureza, Sampaio revela que sempre foi um apaixonado por livros e pela busca do conhecimento. Mas foi somente após a aposentadoria, aos 65 anos, com um problema na coluna que o deixou incapacitado de se locomover por dois anos, que ele começou a ler cada vez mais livros e dos mais variados assuntos. 

Descoberta da universidade


Depois de curado, se associou à Associação dos Aposentados de Londrina (Asapel) e lá percebeu que alguns aposentados ficavam muito parados, se sentindo inúteis e isolados. Então passou a se dedicar a alguns interesses. “Sempre quis saber algumas respostas básicas como de onde vim, para onde vou. Então, fui buscar isso na Universidade. E também fui pra lá para acordar os aposentados e influenciá-los. Com 84 anos, eu me esqueço das mazelas da idade e vou atrás do que quero”, afirma, com orgulho.

E da UEL Sampaio nunca mais saiu. Mesmo sem nenhum vínculo trabalhista com a instituição, ele faz questão de participar de projetos, como o Grupo de Estudos Avançados sobre o Meio Ambiente (GEAMA), tirar dúvidas com especialistas e, principalmente, aproximar a comunidade do ambiente universitário. Depois de alguns anos frequentando a universidade, conseguiu ser cadastrado formalmente como voluntário pela Pró-Reitoria de Extensão (PROEX).

O coordenador do GEAMA, professor Paulo Bassani, tornou-se amigo de Sampaio. Bassani insiste para que o aposentado receba mais homenagens da universidade. “Conheci ele há mais de doze anos atrás e ele sempre se colocou como um colaborador da universidade, fazendo essa ‘ponte’ com a comunidade. Tenho insistido para que ele receba o título de Doutor honoris causa da UEL. Acho muito interessante reconhecer em vida o sentido e a importância das pessoas”, afirma o docente.

A sua paixão pela universidade pode ser expressa pela decisão em doar o corpo, após a morte, para ser estudado nas aulas de anatomia. Sampaio fez questão de me mostrar um documento registrado em cartório que assegura o cumprimento da sua decisão. “Depois de participar do GEAMA, descobri que o corpo em processo de decomposição também polui os lençóis freáticos e o meio ambiente como um todo”, responde Sampaio quando questionado sobre o motivo da intenção de doação.

Fora os assuntos ligados à UEL, o aposentado é daqueles que sabe um pouco de tudo. Para ele, religião é a humanidade: “Ficar preso a determinadas regras é andar pra trás”. Além disso, como já foi produtor rural, é surpreendente o modo como considera a atuação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). “Tive contato com o João Pedro Stédile, o coordenador do MST. Fui lá saber o que eles falavam, porque eu vou do céu ao inferno sem preconceitos! Quero conhecer toda parte e, como eu tinha uma fazenda em Paranacity e era produtor rural, resolvi dialogar com o MST e procurar entendê-los. Afinal, o diálogo é a saída para muitos conflitos”, ressalta Sampaio.

Para a jornalista da rádio UEL FM, Patrícia Zanin, o senhor Luiz Sampaio cumpre o lema que ele mesmo prega: não gosta de ficar de terço e de pijama na mão. Os dois se conheceram em 2003, em um concerto da Orquestra Sinfônica da Universidade realizado no antigo Cine Teatro Ouro Verde. “A rádio estava transmitindo ao vivo o concerto e o senhor Luiz me chamou a atenção, pois havia poucos idosos na platéia e também por estar vestido de forma muito elegante. Questionei a ele o porquê de vestir terno naquele evento e, ele então me disse, que a roupa era mais uma forma de homenagear a Universidade e de valorizar a orquestra”,  afirma. Depois da entrevista, a jornalista e o aposentado nunca mais deixaram de ter contato. Tornaram-se amigos e a Patrícia foi uma das revisoras, que auxiliaram na edição do livro.

Pedro Livoratti, jornalista do Núcleo de Comunicação da UEL (COM), também, não raramente, recebe visitas do amigo Sampaio. “O meu primeiro chefe de jornalismo me dizia que o combustível de uma reportagem é a indignação. E essa frase, não sei porque, me lembra o senhor Sampaio. É de se admirar um senhor de idade com tanta indignação, curiosidade e disposição para ajudar os outros”, conclui.

Para finalizar a conversa com Sampaio, sou levada até um cômodo de sua casa separado especialmente para guardar seus livros e documentos. Surpresa, sou presenteada com dois livros. Nesse momento, ele aproveita para contar mais uma de suas histórias: “Há uns 30 anos atrás, enchi o antigo fusca de alguns clássicos literários e levei lá na biblioteca da UEL. Esses dias, também enviei uns livros em alemão para o Centro de Pesquisa e Documentação Histórica (CDPH). Gosto de presentear as pessoas e as instituições com livros”. No entanto, a sua contribuição está longe de se restringir à universidade. A cada conversa, é possível descobrir um universo de experiências, que, merecem ser compartilhadas...

Isabela Nicastro


 

 
 
       
 
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