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Na Casa das Fases
Em temporada de teatro na cidade conheça o grupo teatral Casa das Fases, que começou a atuar na “responsabilidade social” muito antes de o termo ganhar o status que tem agora
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Os cabelos estão grisalhos - quase brancos -, a pele enrugada, a visão não é a mesma, assim como o conhecimento sobre o mundo, que só aumentou com o passar dos anos. A velhice pode ser um momento de inquietação e tristezas para alguns, mas é admirável quando a pessoa continua, de uma forma melhor ainda, a sua vida nesta fase.
A aposentadoria e os filhos já criados permitem ao idoso dedicar-se ao seu bem-estar de corpo e espírito: estudando aquilo que sempre teve vontade, praticando esportes ou viajando. Nesta busca, muitas senhoras de Londrina encontraram o teatro graças ao trabalho de “Rick”, João Henrique Bernardi.
O trabalho de tempo integral e que hoje soma mais de duas décadas de dedicação não começou premeditadamente. Pode-se dizer que o início do grupo de teatro Casa das Fases foi quando Rick, na época com 17 anos, começou a estagiar no Sesc de Londrina auxiliando nas atividades para os idosos. |
Ele lembra que, como era muito novo, “não sabia nada” a respeito. Foi na organização de uma performance para a visita de Ziraldo que acabou descobrindo a veia artística dos participantes. “Eles gostaram e não queriam parar”, conta.
Desta maneira, o grupo de teatro do Sesc, coordenado por Rick criou história. As artistas são em sua maioria mulheres de idade que encontraram na atividade, além do lazer, um remédio para a cura de depressão. |
Os integrantes não têm receio de usar a palavra “velho” para designar a idade das pessoas. Fabrício, ator e assistente de direção, conta que esta designação é inspirada no livro da historiadora Ecléa Bosi, “Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos”, que explica a necessidade de usar a palavra “velho”. O adjetivo também traz consigo o “envelhecer” e a “sabedoria” que vêm com a idade.
Além disto, acrescenta Fabrício, há a função social do teatro de contestar: “Porque o ator no palco não tem idade. Ele pode ser qualquer coisa.” Para aquele que esteve sempre à frente, o diretor Bernardi, é importante não ser classificado como um grupo de teatro da terceira idade, mas sim um trabalho merecedor de olhares.
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Trabalhar com o velho também é trabalhar com memória. Eles são sábios guardiões de memória, e o grupo utiliza este conhecimento acumulado. Há peças em que a experiência das atrizes influenciam no texto, como em Dores Femininas, de 2008. A peça foi apresentada no Festival Internacional de Londrina (FILO) e partiu de um diário que elas escreveram por um ano.
Como a sede do grupo também é um Ponto de Cultura – cadastrado pelo Ministério da Cultura – a Casa das Fases oferece oficinas de teatro. Algumas foram oferecidas em outras cidades e bairros, mas agora há um grupo de mulheres, das quais a maioria já se apresentou no FILO. O diretor lembra que a auto-estima destas mulheres melhora “terrivelmente” e que neste ponto entra a parte social do teatro, embora ele acredite que não se pode oferecer cultura apenas esperando a contrapartida social nem “para solucionar problemas sociais.”
Em uma destas oficinas de quintas-feiras na Casa encontramos mulheres que podemos classificar como de meia-idade, mas que o teatro transforma por alguns instantes em meninas. Inspiradas em músicas, elas improvisam em grupos uma pequena cena. Entre elas, há aquelas que já estão no grupo desde o início e também há quem está começando agora. Com apoio da família e o aumento da auto-estima a vida destas atrizes é transformada. |
Depois de 22 anos de trabalho e de uma viagem à Alemanha, o grupo Casa das Fases foi convidado a participar de um festival de teatro na Dinamarca. Os ensaios estão acontecendo todas as semanas, pois oito integrantes vão viajar, destes, quatro atrizes. O texto que será apresentado é de Délia Prado. Nesta viagem eles terão a chance de mostrar o trabalho do teatro londrinense no exterior. |
Mesmo sem texto, apenas cantarolando “Mãezinha do Céu”, Carmen - como Maria do Carmo Lopes de Mattos é conhecida desde criança – consegue passar a emoção que o diretor queria. O público, atrizes que estão fazendo trabalho sobre o grupo e a sua colega Jandira ficam em silêncio profundo durante a cena. Jandira, ao final, confessa que deixou algumas lágrimas caírem e elogia a colega. Ela também representara naquele dia. Com uma sombrinha e luva em renda pretas, a fala na ponta da língua. Dedicação e concentração de profissionais.
Carmen tem 77 anos, mas avisa “eu sou atriz, eu sou jovem”. Por isto vive todos os dias pensando que eles são graças de Deus. A ex-secretária de clínica médica, diz que nunca imaginou estar no palco até uma integrante do grupo a convidar há quase 10 anos. Na primeira peça – Antígona –, ela ainda tinha receio, mas acabou se sentindo muito bem, inclusive com o apoio dos seus filhos que foram ver a apresentação. |
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Apaixonada pela vida, Carmen conta que vê beleza em todos os lugares. No teatro, está colhendo os frutos de sua dedicação. Com o grupo já foi para vários lugares do Paraná, para o Espírito Santo, e agora se aproxima a viagem à Dinamarca: “Estou contando os dias”, conta a ansiosa atriz.
O clima de ansiedade para a viagem à Dinamarca está no ar. Jandira Testa, outra atriz que apresentará no país nórdico está no grupo há 20 anos e foi para a Alemanha, conta que está eufórica com a viagem, já que na Alemanha foi tudo “maravilhoso”.
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Jandira entrou no grupo porque “não tinha nada para fazer”. Ela estava naquela fase em que os filhos estavam todos casados e começou a entrar em depressão. Até refeição não tinha hora certa, conta. Então, a convite de uma amiga, foi para o Sesc procurar alguma atividade e encontrou o teatro: “Na primeira peça eu nem falei, aí foi tendo outras...” A família é só apoio e platéia garantida, na primeira apresentação ela recebeu flores e telegrama de quem não pode comparecer. Com 20 anos de carreira, a atriz, de 73, além do remédio contra a depressão ainda conta com benefícios para o ofício: “Minha cabeça é boa para decorar o texto. É uma alegria.” |
Poliana Lisboa de Almeida |
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