RELAÇÕES PÚBLICAS NA ÓTICA ECONÔMICA

C. Teobaldo de Andrade

Estamos vivendo o período de constantes modificações nos campos político, econômico, educacional e tecnológico – aqui e em toda a parte do mundo – o que significa e implica acelerada mudança social, apesar da apreciável resistência que as classes chamadas conservadoras oferecem a esse câmbio, a título de tranquilidade e segurança e, principalmente, a propósito do desenvolvimento econômico.

 

É possível o homem, como ser racional, agir de forma precipuamente não-racional, repetindo e mantendo hábitos e costumes, governando-se por instintos e intuições, obedecendo à “lei da selva”, unicamente voltado para sua sobrevivência física e para os seus interesses egoísticos” Se a pessoa natural ou jurídica não se renovar e não se adaptar às novas condições de vida, nem mesmo em seu “castelo” ou em sua “toca” encontrará proteção e abrigo.

A transformação da sociedade contemporânea se apresenta, principalmente, por intermédio das tendências de substituir a centralização pela descentralização, o rígido pelo flexível, o poder pela participação, o dogma pela controvérsia, o sufocamento dos conflitos pela administração das controvérsias, a tradição pela experimentação, o padronizado pela criação, a quantidade pela qualidade, a ação individual pela atividade de equipe, a participação dirigida pela participação democrática, a imagem pelo conceito, o formal pelo espontâneo, a complexidade pela racionalização, o trabalho penoso pelo trabalho satisfatório, o radicalismo pela tolerância, o conformismo pela reivindicação, e, em resumo, o egoísmo tacanho pelo egoísmo esclarecido.

Não se pode e não se deve negar que o empresariado em geral, em todo o globo terrestre, representa um dos mais importantes e decisivos fatores na aceleração das alterações sociais, por força de suas próprias necessidades e em resposta aos crescentes anseios da coletividade. A capacidade de ação dos homens de negócios, no caminho do desenvolvimento econômico, favorece, determina e promove a mudança em nossas estruturas, com repercussão sensível nas aspirações dos mais legítimos valores humanos.

A ação ou omissão dos empresários, no que diz respeito a sua responsabilidade social, será o grande árbitro, que irá decidir os destinos das organizações e instituições no tribunal da opinião pública. Em nossos dias, observa-se a propensão por parte do empresariado progressista em admitir e mesmo aceitar a função social de seus negócios, desde que o poder econômico sem a participação da sociedade, acabará por destruir-se a si mesmo.

Efetivamente, as empresas privadas são também cidadãs da comunidade, com direitos e deveres iguais a de qualquer cidadão. Todos reconhecem que o progresso social jamais entravará o crescimento econômico. As empresas não podem esquecer os valores não econômicos, os próprios valores sociais que elas possuem. A época da primazia absoluta do desenvolvimento econômico já não tem mais razão de ser, pelo menos na escala de prioridade em que foi colocada pelos tecnólogos. Ao contrário, a harmonia e o equilíbrio entre o progresso social e o econômico representam, fielmente, o aceleramento do desenvolvimento global.

A complexa constelação das questões socioeconômicas está a aguardar a criação generalizada de públicos em lugar das sedentas massas consumidoras, para que eles possam discutir as controvérsias públicas, a fim de encontrar soluções, que devam satisfazer a evidência, que os legítimos públicos esperam e têm o direito de esperar. As expectativas dos públicos devem ser transformadas em realidade, após encontrar a “evidência pública”, por meio de instrumentos honestos e adequados.

É ingênuo, senão perigoso, enfrentar as pressões populares, refugiando-se na triste e obsoleta “política do caramujo”. As reações dos públicos têm de ser conhecidas, depois de plenamente estudadas e identificadas, e dentre de um programa de ação ajustado e revisado para atender os seus justos reclamos. Os valores econômicos, somente, poderio ser justificados e preservados pela sua adaptação flexível e contínua às aspirações dos públicos.

Alguns empresários ainda não perceberam que houve uma alteração sensível na sociedade contemporânea e que, em consequência, as empresas, pouco a pouco, passam a servir como instrumento social, por meio do qual as pessoas, grupos e nações, poderão satisfazer as suas necessidades mais prementes e aguardar, com esperança, a concretização de outras aspirações legítimas

Faltou a boa parte dos homens de negócios inspiração, convicção e principalmente assessoria para assumir suas responsabilidades sociais. Alguns empresários foram incapazes de entender que a intervenção estatal, cada vez mais ampliada em todo o mundo, é produto da sua omissão frente às questões, que interessam a toda uma coletividade. Tornou-se assim quase inevitável que o Estado se fizesse presente nos negócios privados, procurando ordenar os interesses particulares, bem como suprir as lacunas deixadas pelos dirigentes empresariais dentro da sua visão estreita no mundo dos negócios e dos respectivos lucros.

Em consequência, os Estados ficam cada vez mais poderosos, enquanto líderes empresariais pregam a livre iniciativa, sem oferecer nada que possa, realmente, integrar a ordem econômica na ordem social. As elites empresariais, ao lado das classes trabalhadoras, têm de reconhecer que não são meros dirigentes de empresa ou de sindicatos, mas construtores da economia nacional.

Qualquer atividade humana, que deseja desenvolver-se, deve estar preparada para acompanhar e, muitas vezes, orientar a procura e a identificação do interesse social. Relações Públicas têm essa missão no sentido de ajudar os empresários e líderes políticos a conhecer melhor a realidade que atravessamos, num trabalho de pesquisa e assessoramento, calcado na busca do equilíbrio entre o interesse privado e o interesse público. Esse processo de interação de interesses legítimos caracteriza e justifica o exercício de Relações Públicas em qualquer empresa ou instituição.

Aqui e agora é oportuno recordar a definição operacional de Relações Públicas, mais conhecida por “Acordo do México”, quando reza: “O exercício profissional de Relações Públicas requer ação planejada, com apoio na pesquisa, na comunicação sistemática e na participação programada, para elevar o nível de entendimento, solidariedade e colaboração entre uma entidade e os grupos sociais a ela ligados, num processo de interação de interesses legítimos, para promover seu desenvolvimento recíproco e da comunidade a que pertencem”.

Assim, a meta de Relações Públicas é elevar o nível de entendimento, solidariedade e colaboração entre uma entidade, empresa ou instituição e os grupos sociais (Estado, partidos políticos, comunidade, associações de classe, sindicatos, escolas, igreja, família etc.), tendo em vista o desenvolvimento global da entidade (empresas privadas, órgãos governamentais e paraestatais), grupos sociais espontâneos (públicos a serem formados) e sociedade em todas as suas significações e amplitude.

No procedimento administrativo, os empresários e administradores políticos necessitam ter habilidade e discernimento no levantar controvérsias, discuti-las, interpretá-las e defini-las, assumindo desse modo a responsabilidade pelo encaminhamento das soluções, alternativas e prioridades, em busca de uma atitude comum, expressa por uma tomada de decisão ou uma opinião coletiva.

Não se pode esquecer que a ação conjugada – como forma e instrumento de desenvolvimento – é o esforço deliberado e despendido por pessoas de um grupo ou organização, que reflete as expectativas de seus próprios membros. Essas expectativas devem corresponder aos anseios legítimos da coletividade e serem traduzidas em realidade compatível com os fatos.

Coletando e interpretando dados, levantando necessidades e falhas, sugerindo reformulações de diretrizes e métodos de trabalho, estimulando atividades de coordenação, inspirando estratégias de atuação, integrando ideias e conceitos, identificando controvérsias, criando oportunidades para a discussão pública, assessorando enfim, a política administrativa das empresas privadas e órgãos públicos, as Relações Públicas estabelecem condições mínimas para o diálogo planificado e permanente entre a cúpula administrativa e os grupos ligados, direta ou indiretamente, às organizações ou instituições públicas.

Como instrumental da controvérsia, do debate público e do dialogo, as Relações Públicas – como poder administrativo controvérsia – constituem o determinante inicial e preciso para o desenvolvimento do processo gerador de públicos e consequentemente da real opinião pública e não de manifestações coletivas de massas manipuladas por grupos de interesse.

[1]  Professor Titular da ECA/USP. Conselheiro Permanente da CONFIARP.

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