O ENSINO DE RELAÇÕES PUBLICAS E AS EXIGÊNCIAS DOS NOVOS TEMPOS

Cândido Teobaldo de Souza Andrade

A premissa fundamental para a questão do ensino de Relações Públicas, no presente ou no futuro, reside na compreensão daquilo que estamos fazendo ou pretendemos fazer sob o título de Relações Públicas. Não é suficiente a definição conceitual de Relações Públicas, mas necessitamos identificar e determinar o campo operacional de nossa atividade.

Por muito tempo, ficamos perdidos em Relações Públicas, na área de sua aplicação, atados a definições conceituais, que não poderiam corresponder, cabalmente, às nossas necessidades. Além disso, a mingua de teorias e da caracterização do objeto formal de Relações Públicas, estava a exigir que tentássemos definir, operacionalmente, a ação da atividade de Relações Públicas, em busca de seu status de profissão.

Em 11 de agosto de 1978, na cidade do México, na I Assembléia Mundial de Presidentes de Associações Nacionais em todo o mundo, chegava-se a uma definição operacional de Relações Públicas, que ficou conhecida como o “Acordo do México”. Reza essa definição:

“O exercício profissional de Relações Públicas requer ação planejada, com apoio na pesquisa, na comunicação sistemática e na participação programada, para elevar o nível de entendimento, solidariedade e colaboração entre uma entidade e os grupos sociais a ela ligados, num processo de interação de interesses legítimos, para promover seu desenvolvimento recíproco e da comunidade a que pertencem”.

Ou na versão inglesa: “A atividade profissional de Relações Públicas é a arte ou a ciência social de analisar as tendências, prognosticar suas consequências, aconselhar as chefias das organizações e implementar planos e programas de ação, que serão úteis, tanto ao interesse da organização, como ao interesse público.”

Parece-nos assim que o efetivo desempenho de Relações Públicas está respaldado no tripé: pesquisa, comunicação e participação. A pesquisa com a finalidade de, metodicamente, descobrir respostas para questões ou suscitar novos problemas. A comunicação como um processo para transmitir, conduzir e recuperar informações. A participação como a comunhão de idéias, interesses, experiências e sentimentos, que nos leva à interação social.

Em resultado de ambas as versões do “Acordo do México” pode-se admitir que as funções básicas de Relações Públicas são: assessoria, pesquisa, planejamento, comunicação e avaliação, já preconizadas pela Federação Internacional de Associações de Relações Públicas (FIARP) em razão de pesquisa realizada por ocasião do IV Congresso Mundial de Relações Públicas, em outubro de 1967, no Rio de Janeiro.

Isto posto, permita-nos focalizar, especialmente, o subtema: O Ensino de Relações Públicas e as Exigências dos Novos Tempos”.

Em novembro de 1983, na cidade do Recife, ao ensejo do I Congresso Interamericano Universitário de Relações Públicas, promovido pela FIARP e ABRP-Nacional, com a organização e execução da Seção Estadual de Pernambuco da nossa Associação, afirmava:

“É certo que o trabalho cientifico repousa, essencialmente, no ensino e na pesquisa. Tanto aquele como esta necessitam estar reunidos, num esforço recíproco de complementação, dentro de uma integração funcional. Infelizmente, na tradição nacional, não se conseguiu superar ainda a dificuldade de caminhos paralelos dessas duas atividades.

“Como dizia o astrônomo Harlow Shapley: ‘O que conta nos progressos da mente é a investigação ao invés dos resultados – a indagação, o questionamento –, não a resposta final’.”

O ensino, por intermédio da pesquisa, tornar-se-á mais dinâmico e principalmente mais aberto. Ninguém é “dono” da verdade científica; “todo saber é provisório”. Afinal de contas, a pesquisa veio a ocupar o posto dos pretensos gênios.

Foi nesse Congresso Interamericano, com a presença de mais de trezentos congressistas, estudantes e alguns profissionais e professores de Relações Públicas, que se aprovaram as seguintes recomendações:

 

·      Que sejam mantidos e mais frequentes os Cursos de Difusão Cultural de Relações Públicas para todas as comunidades interamericanas, organizados ou auspiciados pelas associações filiadas a FIARP.
·      Que as associações filiadas à FIARP incentivem a criação de Cursos de Extensão Universitária de Relações Públicas para profissionais e estudantes de Relações Públicas, em convênio com as Escolas ou Universidades, que ministram o Curso de Graduação em Relações Públicas.
·      Que um dos primeiros Cursos de Extensão Universitária, acima referidos, seja voltado para a área de eletrônica.
·      Que sejam criados Cursos de Pós-graduação “lato sensu” (especialização e aperfeiçoamento de Relações Públicas) em Escolas ou Universidades que possuam Cursos de Graduação ou Pós-Graduação em Comunicação Social para diplomados, docentes e profissionais de Relações Públicas.
·      Que, finalmente, se estabeleça um verdadeiro “Programa Institucional de Capacitação de Docentes de Relações Públicas”, mediante Cursos de Pós-Graduação “stricto sensu” (Mestrado e Doutorado), não só para a formação de professores especializados em Relações Públicas ou áreas afins, mas também para facilitar o desenvolvimento de estudos sistemáticos de pesquisa e de produção intelectual no campo das Relações Públicas.

O ensino de Relações Públicas tem sido preocupação constante na FIARP, por intermédio de sua Comissão Interamericana para o Ensino de Relações Públicas (CIPERP). Por sua vez, a Associação Internacional para o Aprendizado de Relações Públicas vem estudando e se manifestando sobre as perspectivas do ensino de Relações Públicas em todo o mundo.

A realização do I Encontro Mundial de Professores de Relações Públicas, promovido pela FIARP e a colaboração da IPRA, realizado em outubro do ano passado (1984), na cidade uruguaia de Punta Del Leste, significou um marco no caminho das soluções em torno dos problemas ligados ao ensino de Relações Públicas, em graduação e pós-graduação. Dentre várias recomendações desse encontro Mundial, destacamos:

 

·      Estabelecer e manter uma relação permanente por meio de diálogo entre educadores e profissionais de Relações Públicas, com o propósito de alcançar uma constante atualização das bases teóricas e práticas da profissão e, ao mesmo tempo, facilitar a avaliação da realidade do exercício do magistério em prol de seu desenvolvimento.
·      Propor a todos os professores de Relações Públicas um esforço no sentido da elaboração, mediante pesquisa pura, de uma teoria de Relações Públicas.
·      Realizar constante pesquisa aplicada em direção à atualização permanente dos sistemas de ensino de Relações Públicas, adaptando-os aos requisitos do momento histórico.

Acreditamos que o grande problema para o aperfeiçoamento do ensino de Relações Públicas, tendo em vista as exigências dos novos tempos, é, inicialmente, a capacidade e a atualização dos nossos docentes.

Essa preocupação já aparecia, em 1973, quando da realização do I Encontro Nacional de Professores de Relações Públicas, em Águas de São Pedro (SP), que culminou com a recomendação da necessidade da instalação de Cursos de Pós-Graduação, nos níveis de especialização, mestrado ou doutorado, de acordo, com as características e recursos regionais, a fim de aprimorar o corpo docente de Relações Públicas.

Quase dez anos depois, em 1981, em Montevidéu (Uruguai), por ocasião do II Encontro Interamericano de Professores de Relações Públicas, repetia-se a mesma recomendação, porém estabelecendo-se prioridade para os Cursos de Especialização, o que permitiria também elevar ou atualizar o nível de conhecimentos do profissional de Relações Públicas.

Entendemos, igualmente, que o ensino de Relações Públicas não pode ser dirigido, unicamente, à formação de novos profissionais. Ele deve, a nosso ver, inquietar-se com a atualização de conhecimentos, de forma sistemática, dos profissionais de Relações Públicas. Por sua vez, os profissionais da nossa atividade, que trabalham num campo em mudança contínua, precisam reconhecer a necessidade de reciclagem permanente, o que representa não somente um sinal inteligente de humildade intelectual, mas a certeza do desenvolvimento de seu espírito crítico e verdadeiramente profissional, nos contatos com professores e com outros profissionais.

Da fertilização cruzada resultante dos conhecimentos e experiências de docentes e profissionais, somente benefícios poderão advir para as Relações Públicas, em seu campo global de atuação, num trabalho de aperfeiçoamento profissional para todas as categorias.

Assim, acreditamos ser indispensável o estabelecimento de convênios da Associação Brasileira de Relações Públicas com Escolas ou Universidade que ministram Cursos de Relações Públicas ou afins, no sentido de uma abertura critica por parte de professores, profissionais e entidades de Relações Públicas, no que diga respeito à pesquisa, à produção intelectual, à prática profissional e à participação programada, com debates e seminários, dentro e fora do âmbito escolar.

Por outro lado, é evidente que ABRP sente a necessidade urgente da discussão e definição clara do perfil, identidade e especificidade do campo de ação de Relações Públicas, à procura da cristalização da profissiografia de nossa atividade.

Olhando para o presente e igualmente para o futuro, achamos imprescindível a criação de Cursos de Especialização e de Aperfeiçoamento (Pós-Graduação “lato sensu”) e de Curso de Mestrado e de Doutoramento (Pós-Graduação “stricto sensu”) para o ensino de Relações Públicas. Por sua vez, não podemos esquecer os Cursos de Extensão Universitária e Difusão Cultural, destinados, respectivamente, a difundir conhecimentos e técnicas de trabalho e a divulgar ideias à comunidade de nossa profissão.

Finalmente, o ensino de Relações Públicas em qualquer de seus níveis não pode mais ficar dirigido principalmente à comunicação massiva ou mesmo exclusivamente a qualquer forma de comunicação. No primeiro caso, lembraríamos as palavras candentes de Alvin Toffler, em seu livro “A Terceira Onda”:

“Os meios de comunicação em massa estão sob ataque. Novos veículos de comunicação desmassificados estão proliferando, desafiando – e algumas vezes substituindo – os meios de comunicação em massa, que foram tão dominantes em todas sociedade da ‘Segunda Onda’. A ‘Terceira Onda’ começa, assim, uma verdadeira nova era: a idade dos veículos de comunicação desmassificados”.

Na segunda hipótese, da preocupação com a comunicação, permita-nos lembrar as palavras de David Finn, em 1972, quando disse: “O profissional de Relações Públicas não é mais, fundamentalmente, um comunicador; ele é uma espécie de moderador, que trabalha tratando de prevenir e evitar crises”.

Hoje, a atividade de Relações Públicas não se restringe às técnicas de comunicação. O papel do profissional de Relações Públicas é muito mais amplo e complexo. Ele não pode ficar preocupado com meras imagens de suas organizações ou empresas. Tem necessidade de, mediante conceitos e ideias, estabelecer atitudes e opiniões resultantes de debates sobre temas controvertidos de interesse coletivo, ele é muito mais um autêntico administrador de controvérsias públicas.

Ele é o representante dos públicos frente à alta administração, apresentando e definindo as controvérsias, fornecendo informações a respeito delas, levantando tendências e criando condições para a discussão pública.

Atualmente, o ser humano é mais educado, mais informado e possui melhores padrões culturais e consequentemente é mais cauteloso ao aceitar a percepção meramente sensorial, ou seja, a imagem ainda tão decantada por alguns homens de Relações Públicas. Não se pode mais admitir o profissional de Relações Públicas com exímio “mercador de imagens” ou como simples auxiliar de Marketing.

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