MARKETING OU RELAÇÕES PÚBLICAS?

Cândido Teobaldo de Souza Andrade

O leitor Paulino Ribeiro de Andrade escreveu para o Jornal da Tarde, de 9 de outubro de 1978, na seção “São Paulo Pergunta”, solicitando informações sobre o lucro do Fundo 157, após haver ido a um banco de São Paulo, totalmente desanimado com os resultados negativos da aplicação desse fundo. Começa assim a sua carta:

“Saudações. Velho mineiro, ponho as minhas botinas e vou ao banco a fim de tentar receber um investimento do Fundo 157, que fiz há 5 anos.”

O Sr. Paulino, após conversar com o encarregado do setor e com o gerente, saiu do estabelecimento bancário completamente desiludido e resolveu escrever para aquele jornal. Sua carta termina com estas palavras:

“Impaciente, vendo que não chegaríamos a nada, encaro o efebo, decidido a perguntar:

– “Diga-me uma coisa, meu caro, perdi ou não perdi tudo isso?

– “Perder o senhor perdeu mesmo – mas é gratificante saber como… não acha?

“Levantei-me apressado e nem me despedi. Tudo era propaganda, palavrório, incapacidade. E não pude deixar de pensar que melhor negócio do que aquele para os banqueiros… Aí está senhor redator, em que deu meu investimento do tal Fundo 157”.

Hoje, com a Lei nº. 8078 – Código de Defesa do Consumidor, já regulamentado no primeiro semestre do corrente ano, possivelmente o senhor Paulino teria a oportunidade de recorrer, judicialmente, e talvez ver sua pretensão acolhida na Justiça.

Será que somente a legislação especial teria capacidade de criar novas condições para os consumidores de produtos e serviços? “A lei, ora a lei”, conhecida frase do falecido presidente Getúlio Vargas, realmente não garante, sozinha, os direitos do consumidor. Tanto assim, que os profissionais de marketing partiram para a fixação de novas especialidades na sua área de trabalho, como por exemplo, o “marketing social”, o “marketing cultural”, e o “marketing político”.

Onde os homens de Marketing foram buscar os fundamentos, as técnicas e os métodos para respaldar essas aparentes funções “marquetianas”?

A fonte principal foi, exatamente, a atividade de Relações Públicas, como: público interno, público misto, público externo, conceito, opinião pública, interesse público, participação.

Relações Públicas com a comunidade passou a ser “marketing social”; Relações Públicas com as escolas se transformou em “marketing cultural”; Relações Públicas com os poderes públicos é agora “marketing político”; Relações Públicas com o público interno recebeu a denominação de “marketing interno” ou endomarketing; Relações Públicas com os fornecedores tem o nome de “marketing reverso”; Relações Públicas com o público em geral continua sendo “marketing” para o “público consumidor”.

Cabe-nos fazer uma indagação: existe, na verdade, público consumidor? A massa consumidora tornou-se consciente de seus direitos e atua, hoje, como autêntico público? As empresas de produtos e de serviços estão dando condições de público a essa massa, permitindo o levantamento de controvérsias públicas, a abundância de informações, a utilização eqüitativa dos veículos de comunicação, a oportunidade de discussão em bases racionais e não meramente emocionais? Chegamos, realmente à constituição do legítimo público, que pode discutir e participar de tudo aquilo referente ao interesse do público e não só ao interesse das empresas? Estamos, na verdade, administrando as controvérsias de interesse público, para alcançarmos a verdadeira opinião pública ou ainda vivemos a época do “sentimento público”, onde predomina o que disse o senhor Paulino: “Tudo era propaganda, palavrório, incapacidade”. Será que os homens de Marketing conseguiram preparar-se para essas novas áreas em tão pouco tempo?

Está na hora de dar nomes aos bois, utilizando-se uma antiga expressão caipira. O que esses profissionais de Marketing estão fazendo não é nada mais, nada menos, do que Relações Públicas de forma empírica e amadorística. O que eles estão pretendendo exercitar é “transmarketing”, isto é, indo além do Marketing, entrando sem nenhuma cerimônia no campo de atuação dos profissionais de Relações Públicas, sob nova capa e denominações esdrúxulas.

É certo que os profissionais de Marketing podem fazer o que desejam, afinal eles não possuem ainda uma atividade regulamentada por lei, em situação bem diferente dos profissionais de Relações Públicas, que desde 1967, com a Lei nº. 5377, tiveram sua atividade enquadrada em dispositivo legal. Os homens de Marketing não são obrigados a cursar uma universidade nem a fazer um curso com a duração de quatro anos para exercer, legitimamente, a sua atividade.

Estamos chegando a uma melancólica conclusão: a regulamentada atividade de Relações Públicas foi pelo menos inócua ou prematura? Ela não nos defende contra a invasão de marginais. Mas vamos passar por cima e a partir de agora seremos profissionais de Relações Públicas, além de “transmarqueteiros”!

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