PARTICIPAÇÃO PROGRAMADA PARA O DIÁLOGO

Cândido Teobaldo de Souza Andrade

O diálogo é uma conversação alternada entre duas ou mais pessoas, à procura de uma estrutura verbal em direção à verdade. O exercício do diálogo baseia-se, fundamentalmente, na ideia do homem como ser racional, livre, igual e consciente; portanto capaz de alcançar a verdade na ordem político-social, dentro dos princípios esposados pela Organização das Nações Unidas (ONU), em sua “Declaração dos Direitos do Homem”.

Gustavo Corção, em artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo, (1/2/1963), já afirmava que o diálogo é muito mais do que uma simples conversa para matar o tempo ou entreter o tédio da vida e muitíssimo mais do que recurso retórico para a exposição de ideias, mas antes uma busca de forma à procura da verdade.

Porque todos os seres humanos são dotados de razão e estão voltados para uma ardente busca do certo, do justo e do verdadeiro, o diálogo pode ser travado entre duas ou mais pessoas de categoria social idêntica ou não, pouco importando se a comunicação é ascendente, descendente ou lateral. Dialogando os homens tornam-se mais civilizados, pois civilização não significa, apenas, progresso nos campos da ciência, da arte ou da economia, mas um equilíbrio entre o domínio tecnológico e a condição espiritual.

Walter Ramos Poyares, em seu “Curso de Opinião Pública e Relações Públicas” na PUC do Rio de Janeiro, ressaltava o papel da condição espiritual no terreno das conquistas tecnológicas, no sentido de se adquirir o dom de comungar e não somente a capacidade de se comunicar.

Que é comunhão senão participação, ou seja, o ato de compartilhar da interação social, de modo consciente, que se completa com o diálogo. Alguém se torna partícipe quando se identifica ou se associa a um grupo social pela ideia, pelo sentimento, pelo interesse, pelo direito ou pela ação, com objetivo inicial de cooperar ou mesmo opor-se. Não se pode olvidar, que na escala sociológica, o isolamento é o ponto zero da interação social.

Tristão de Ataíde, em seus artigos no jornal Folha de São Paulo, sempre destacava que o Cristianismo é por natureza, universal; tudo o que seja para dividir a humanidade, isolar os homens, as nações entre si e concorrer para que seja impossível o diálogo entre os seres humanos é por natureza anticristão, anti-humano, antirracional e antirrealista.

A “indust-realidade” em que vivemos, a tecnologia que aspiramos diariamente, a civilização técnico-burocrática da atualidade, começa dar sinais de fraqueza e a reconhecer que caminhamos, paulatinamente, para a “terceira onda”, imaginada por Alvin Toffler. Nestas últimas décadas, a organização humana voltou-se, timidamente, para a existência e importância do diálogo como fator essencial do progresso, não somente econômico, mas também para o desenvolvimento global.

O determinante humano, esquecido nesta época do industrialismo, começa a viger e a condicionar as atividades sociais. Esta tomada de consciência de todas as organizações, públicas ou privadas, reflete uma mudança em todos os domínios, no sentido de estabelecer e manter a maior compreensão e melhor comunicação entre pessoas e grupos sociais. Essa forma primeira de entendimento se traduz pelo desejo de chegar-se ao “Universo de Discurso”, para que o diálogo se torne realidade, nesse mundo da comunicação tecnológica e da incomunicação humana.

Complexos e sofisticados meios de comunicação estão presentes em nossa sociedade, mas isso não é suficiente para que se consiga uma linguagem comum e clara, capaz de dar condições para o diálogo aberto e produtivo. Por outro lado, é indispensável, igualmente, a tolerância intelectual, representada por atitudes não-dogmáticas, no sentido de abrir o diálogo, sem preconceitos ou posições predeterminadas, como se a verdade fosse a “nossa verdade”.

Dominique Pire, titular do Prêmio Nobel da Paz (1964), dizia que o diálogo não consistia em expor o meu ponto de vista aos que pensam de maneira diversa da minha, mas consistia em pôr provisoriamente entre parênteses o que eu penso, para tentar primeiro compreender o ponto de vista dos outros e ver o que há de apreciável nele.

Participação e diálogo se conjugam no caminho da interação social. Participação é associar-se pelo pensamento, pelo sentimento e pela própria ação. Não se entenda participação, simplesmente, como forma de participação no mercado, nos lucros, ou a porcentagem da audiência atingida por um veículo de comunicação. Participar é fazer saber, é comunicar, é comungar, ter pontos em comum, que nos levam à interação social, ou seja, aos processos sociais que nos dão condições para criar, manter e estimular as reações mútuas entre pessoas e grupos.

A interação social baseia-se na intercomunicação, que se metodiza em forma de diálogo. Participar é dialogar, é comungar interesses, sentimentos e ideias; é compartilhar experiências e interesse; é viver em comunidade. Contudo, a participação não é somente espontânea, muitas vezes ela é e pode ser programada em qualquer tipo de organização ou instituição. Afinal de contas, participar é uma das grandes aspirações humanas, nem sempre correspondida por aqueles que detêm o poder.

A controvérsia ou a cooperação, a oposição ou a harmonia, são formas de interação social, que podem conduzir-nos ao ajustamento recíproco de pessoas e grupos, à procura do equilíbrio social, isto é, à própria integração social, que se materializa pela ação conjugada.

Quando discordamos de pontos de vista alheios e externamos nossa posição, estamos, na verdade, querendo participar em busca da verdade. Do mesmo modo, quando colaboramos com outros indivíduos, ainda que por acomodação ou assimilação, estamos também demonstrando que participar é uma necessidade social.

A realidade é que as pessoas ou grupos sociais sempre estão desejosos de participar, basta que lhes seja dada meia oportunidade. Às instituições ou empresas cabe a responsabilidade de fomentar a participação, por intermédio de um autêntico trabalho de “participação programada”, que é uma das principais atribuições da atividade de Relações Públicas, nas organizações públicas ou privadas.

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