EXPLORANDO O CORPO DO BRASIL

 A valorização da cultura corporal no Brasil começou dentro de uma escola militar, servindo a propósitos militaristas de adestramento e preparação para a defesa da pátria, reforçando os sentimentos relacionados a eugenia da raça, reflexo da ideologia social dominante naquela sociedade.

Desde a libertação dos escravos, em 1888, as elites do país criaram modelos discriminatórios, como a ideologia do branqueamento, marginalizando assim as camadas não-brancas nos níveis econômico, social, cultural e existencial.

& MOURA

            A carta Régia de 04/12/1810, criou a escola militar com o nome de Escola Real Militar, dois anos após a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. Nesta mesma academia em 1860, foi introduzida a ginástica alemã.

A ginástica foi introduzida nos colégios brasileiros por volta de 1874. A organização social dominante nesse período, levava em conta a diferença entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, sendo o último atribuição dos escravos e o primeiro da elite dominante.

Apoiados nesta visão de homem e de mundo, a classe dirigente da época ofereceu grande resistência a introdução da ginástica nas escolas por esta assemelhar-se ao trabalho manual (escravo) e por acharem-na desprovida de valores intelectuais como a Matemática, o Cálculo Integral ou a Mecânica Racional. Apesar da forte resistência social contra os cursos de “ginástica”, na época, este repúdio não foi suficiente para conseguir eliminar ou deixá-la fora dos currículos escolares CURRÍCULO BÁSICO-PR(1990,p.175).

A “Escola Tradicional” se apresentou como militarista e higienista, visando a preparação do indivíduo para a defesa da pátria, para o vigor físico e a saúde - essa era a Instrução Física Militar.

Nos anos 50, enfatizou-se a postura física e psíquica da criança, valorizando os aspectos afetivos, a frequência escolar, a higiene física., para que contribuísse nas atitudes e ajudasse na solução dos problemas psicológicos.

Nos anos 60 e 70, sob o regime militar, tivemos o desporto como conteúdo na escola, indicando a subordinação da educação física aos códigos da instituição desportiva. Visava o treinamento esportivo de alto nível capaz de trazer medalhas para o país, pretendendo estabelecer em outras áreas a “profissionalização Universal e Compulsória” em todo o segundo grau, preparando mão de obra para suprir as necessidades decorrentes do processo acelerado de crescimento econômico, do Regime Militar.

 “Um regime político que se organiza e funciona segundo a lógica de sistemas de dominação e exploração, pode colocar na consciência e no comportamento (corpo) de todos, os princípios e conceitos básicos, que permitem a dominação de nossa própria existência. Alguns conjuntos de idéias mascara a realidade, sendo introjetado - ou incorporado - em nós mesmos, fazendo-nos profundamente determinados, como pouquíssimas chances de sairmos das amarras dessa trama”.

&  João Paulo Medina

             A cultura corporal no Brasil, dentro deste contexto político, dava importância ao adestramento (corpo-máquina). Era útil ao modo de produção capitalista(fordista) e entretenimento da população. Pretendia incutir a necessidade do desporto também no meio operário e no terceiro grau, para “canalizar energias” e anestesiar os movimentos sociais. Discriminava o sexo através de modalidades exclusivamente masculinas e outras femininas, reforçando o estereotipo do comportamento masculino-vinculado a agressividade, a força física, enfim, a componentes viris, atributos de guerreiros e do comportamento feminino vinculado a passividade, a fragilidade, ao pudor, e a doçura,  atributos da fêmea que procria.

                    “(...) nas escolas, nas ruas

                            campos, construções

                            aprendendo, ensinando

uma nova lição...

Caminhando e cantando

e seguindo a canção.

Somos todos iguais

braços dados ou não(...)”

Pra não dizer que não falei das flores - Geraldo Vandré

Essa síntese histórica relativa a cultura corporal brasileira, mostra uma trajetória da sociedade, onde o poder dominante impunha normas de condutas corporais para efetivar a dominação, incutindo a necessidade de um corpo bonito, de como se comportar em relação a um público, de exercícios que devem ser feitos para melhorar a saúde e higiene, de como ficar mais elegante, etc...                             

Paralelos a essa concepção de cultura corporal brasileira surgiram movimentos mundiais - hippie, ecológico, feminista[1] - questionando os sistemas de dominação.

O slogan, até certo ponto ingênuo, “faça amor, não faça a guerra” do movimento hippie, revelou uma forte resistência à imposição do corpo a serviço das Forças Armadas. Esse movimento pedia um corpo como espaço de prazer e local de encontros e trocas.

De um corpo hierarquizado, que tinha como símbolo as fardas e uniformes, buscava-se um corpo fraternal, despido de formalidades e de roupas convencionais, tornando-se símbolo de nudez, de encontros e discussões, e não mais de exploração e de consumo sexual.

 “(...)Enquanto você  se esforça

Pra ser

Um sujeito normal

E fazer tudo igual

Eu do meu lado,

Aprendendo a ser louco

Um maluco total

Na loucura real

Controlando minha

Maluquez

Misturada com minha lucidez(...)”

Maluco Beleza – Raul Seixas e Cláudio Roberto

Os resultados do movimento Hippie* foram dos mais significativos, pois despertaram  a necessidade de se ver o corpo ligado ao prazer, de perceber sua função como mediador da relação fraternal, de valorizar suas percepções sensoriais e sensitivas, e de transformá-lo em objeto, e sujeito de uma concepção lúdica de vida.

Essa revolução sócio-cultural fez do corpo o seu campo de luta. Contestou o corpo produtivo, o corpo obediente, o corpo eficiente a serviço da competição e da violência, da mesma forma que contestou o corpo higiênico e funcional da ginástica e do esporte - Esses corpos serviam e muito, para manter a ordem social estabelecida.

 “(...)Não quero lhe falar, meu grande amor

Das coisas que aprendi nos discos

Quero lhe contar como vivi

E tudo o que aconteceu comigo(...)

Já faz tempo eu vi você na rua

Cabelo ao vento, gente jovem reunida

Na parede da memória

Essa lembrança é o quadro que dói mais

Minha dor é perceber

Que apesar de termos feito

Tudo o que fizemos

Nós ainda somos os mesmos

E vivemos como nossos pais(...)”

Como Nossos Pais -  Belchior

De acordo com a máxima “mens sana in corpore sano”, a ginástica tratou o corpo dentro de uma perspectiva higienista, sendo que o esporte o utilizou como instrumento político.

Os Jogos Olímpicos, demonstraram que o sucesso de um resultado olímpico tornava-se o símbolo da validade de um sistema político, abrindo margem aos boicotes.

O Movimento Ecológico, teve como bandeira de luta o respeito pela natureza, protótipo do respeito pela pessoa e pelo seu corpo, surgindo daí o desejo de recolocar o corpo na ordem natural das coisas, numa possível harmonia entre a natureza e a cultura.

Ao mesmo tempo que o gesto humano foi separado do corpo, que o externa, ele foi e é utilizado pelo Sistema para fazê-lo objeto de uso e de consumo.

O movimento ecológico pretende retirá-lo de ser o elemento fomentador de toda uma “indústria corporal”, assim como também  de excluí-lo do mundo do ter (a pessoa humana a serviço do capital) e de situá-lo no mundo do ser (o capital a serviço da pessoa humana).

“(...)Se Deus quiser

Um dia quero ser Índio

Viver pelado, pintado de verde

Num eterno Domingo,

Ser um bicho preguiça

De espantar  turista

E tomar banho de sol

Se Deus quiser

Um dia viro semente

E na primavera vou brotar na terra

E tomar banho de sol

(...)E na hora H

Quando a bomba estourar

Eu quero ver da janela – de camarote

E tomar banho de sol

“(...)Baila comigo, como se baila na tribo(...)”

              ¯Baila Comigo - Rita Lee

Já o movimento feminista[2] carreou para si o surgimento de um novo corpo sensorial como fonte de emoções e de sentimentos e reservatório inesgotável da fantasia. Sua mensagem corporal é traduzida através da busca do bem estar, do descobrir e viver o corpo, dividindo-o sem o submeter. Este movimento trata de um corpo para se viver que se opõe a um corpo para se consumir.

 

 

“(...)Tortura essa brasileira

Me arranha com a pulseira

Me enforca na trepadeira

Pendura minha chuteira

Menino, mas que  zoeira

Cadê meu advogado(...)”

                        ¯Tô que Tô - Kleiton e Kledir

A sociedade atual valoriza muito o corpo estético, impondo padrões que não evoluem na mesma velocidade das mudanças impostas pela mesma. Esses padrões obedecem  mais a moda e ao consumismo do  que a qualquer relação com a natureza da pessoa humana. Pertencem mais ao mundo do parecer do que do ser.

A Beleza através dos Tempos  -  A História do Corpo Ideal.

& Julie Logan e Arthur Howard (The World Accordind to He & She) - O Mundo de acordo com Ele e Ela (não publicado no Brasil), REVISTA CLAUDIA, abr./1994.

Apesar de todos os movimentos contestatórios, os corpos continuam sendo vistos como uma mercadoria a ser consumida, tal como outras formas de consumo como a maquilagem, a vestimenta, os esportes e os locais da moda, etc...

Esse corpo é denominado por  Medina de corpo objeto ou corpo valor-de-troca, a medida que a sociedade o percebe não só como mercadoria, mas como capital que deve frutificar.

“Vocês que fazem parte

Dessa massa

Que passa nos projetos

Do futuro

É duro tanto ter

Que caminhar

E dar muito mais

Do que receber

E ter que demonstrar

Sua coragem

A margem do que possa parecer

E ver que toda essa

Engrenagem

Já sente a ferrugem

E! vida de gado

Povo marcado e Povo feliz(...)”

 ¯Admirável Gado Novo -  Zé Ramalho

O conhecimento do próprio corpo está vinculado ao conhecimento da história - do que ela determinou e ainda determina. A partir desse conhecimento pode-se ter consciência da identidade própria, da individualidade, da corporeidade e da noção de comunidade. De posse dessa consciência pode-se interferir, participar, reconstruir e transformar  a realidade.


[1] [2] Projetos de conteúdos essenciais ao ensino de 2° grau do estado do Paraná, 1989.

 

Registro na Biblioteca Nacional sob o Título: O Corpo do Brasil no Jogo da Vida(procura edição)

 

 

SUMÁRIO                                     VIVENCIANDO O CORPO                                DESCOBRINDO O CORPO