Ementa - Dossiê: Quando o “Outro” é o antropólogo: reflexões sobre produções etnográficas contemporâneas (Mediações, vol. 27, n. 3 - 2022/3).

Organizadoras: Karine Lopes Narahara (UFRJ) e Inara do Nascimento Tavares (UFRR).

A antropologia é um campo disciplinar que se desenvolveu baseado fundamentalmente na ideia de outrem: na ideia de que a antropologia é o produto de uma “análise” sobre um “Outro” – necessariamente diferente, muitas vezes de maneira radical, daquele que produz o texto etnográfico. Por mais que essa alteridade radical marque em especial os primeiros tempos da disciplina, e que, obviamente, muito tenha mudado desde então, a ideia de uma relação de outridade, em que prevalece a diferença como base do fazer antropológico, permanece.

Esse Outro, com todos seus “sistemas” (de parentesco, de pensamento, econômico, religioso, jurídico etc.), passa a ser, de alguma maneira, o “objeto” sob escrutínio do antropólogo. Cabe pontuar que esse mesmo Outro é foco não apenas da investigação antropológica. Ele também é objeto das diversas intervenções coloniais: é esse Outro, quase sempre não branco, que foi e segue sendo assassinado, violentado e saqueado por diferentes empreendimentos moderno-ocidentais. De maneira que “a primeira condição para falar sobre o outro - que é diferenciar-se dele - está dada por si mesma; diríamos que está dada politicamente por uma relação hierárquica, desigual, assimétrica, que se estabelece entre o acadêmico civilizado e o primitivo” (PERLONGHER, 1993:138).

A etnografia seria então o produto do encontro do antropólogo com um “Outro”. Muitas vezes distante espacialmente e exótico “culturalmente”. Para romper esse duplo distanciamento, uma prática central é a realização do “trabalho de campo” pelo antropólogo. Esse trabalho de campo deve ser, sempre que possível, o mais longo possível[1]. Este deixa sua “casa” para que possa encontrar esse Outro. A casa é então o lugar onde o antropólogo se debruça sobre diferentes abordagens teórico-metodológicas, a fim de fazer do seu trabalho de campo o mais rentável possível. Já o “campo” – o local de residência do Outro – é para onde o antropólogo se desloca para que possa, através da “observação participante”, acercar-se das situações e fenômenos que irão compor o quebra-cabeça que dará origem ao texto etnográfico.

Claro que estamos aqui fazendo uma leitura bastante homogeneizadora e simplificadora do campo disciplinar. Afinal a profusão de perspectivas e abordagens ao longo de mais um século de disciplina tem colocado em xeque diversos pressupostos deste modelo. O antropólogo virou seus olhares para sua própria sociedade ainda nas primeiras décadas do século XX, com os trabalhos pioneiros da Escola de Chicago e de outros antropólogos que até então costumavam se dedicar ao estudo dos “primitivos” (GOLDMAN, 1999), chegando a abordagens etnográficas mais recentes, como, por exemplo, aquelas de Latour e Woolgar (1997[1979]), Douglas e Isherwood (2009[1979]), Velho (1997[1987]), Rabinow (1996) e Napier (2010). Mas, mesmo neste campo, permaneceria um quê do velho modelo antropológico, de maneira que a “antropologia das sociedades complexas” seguiria baseada em uma mesma estrutura analítica que no passado se debruçava sobre as chamadas “sociedades primitivas” (GOLDMAN, 1999). Pois, segundo este mesmo autor, é “duvidoso que tenhamos nos livrado dos modelos que guiavam nosso pensamento e que tenhamos, de fato, sido capazes de elaborar uma via de acesso diferente para o conhecimento e a problematização de nossa própria sociedade. [...] Oriunda de uma preocupação evolucionista com nossos começos, a antropologia só pode se renovar se for capaz de renovar-nos, levando ainda mais longe o que sempre pretendeu fazer com os ´outros´ [...]” (1999:103).

A antropologia também produziu alguns tensionamentos relativos à distinção campo – casa. Clifford mostrou que as “notas de campo” tomadas pelo antropólogo não são uma mera inscrição crua de situações. Elas já envolvem um processo de elaboração, que ocorre sempre em diálogo com aqueles sobre os quais o antropólogo escreve, de forma que “o escritor etnográfico parece menos automaticamente como um registrador privilegiado, salvador, e intérprete de dados culturais” (CLIFFORD, 1990:57). Se as anotações de campo deixam de ser um registro de dados brutos, que serão posteriormente decupados na casa do antropólogo e pelo antropólogo, aquela ideia do campo como local de coleta de dados – relembrando que a própria inspiração da ideia de trabalho de campo provem das ditas Ciências Naturais[2] – e da casa como local de análise e escrita se transformam[3].

O campo também se espraiou por vários locais, com o surgimento de etnografias multissituadas, que se desenrolam não mais num único lugar, mas deslocando-se em redes (MARCUS, 1995; WITTEL, 2000), em esforços que buscam fazer com a que antropologia traga suas contribuições para os estudos “macro” de “sistemas mundiais”. Mesmo com essas abordagens que ajudam a complexificar a relação entre o campo e a casa, essa separação ainda permanece.

A própria ideia da etnografia enquanto fruto de uma “análise” também está sob questionamento. Wagner, em um livro que passou algumas décadas sob total esquecimento, argumenta que o fazer antropológico constitui não um exercício analítico de um determinado objeto, mas uma “relação” pela qual o “antropólogo experiencia, de um modo ou de outro, seu objeto de estudo” (WAGNER, 2010[1975]:29, grifo do autor). Interessado nas diferentes formas de “invenção da cultura”, Wagner demonstra que todos os humanos objetivam ou inventam suas realidades (no sentido do que fazemos delas), assim como o antropólogo inventa sua própria “cultura” ao inventar a outra “cultura” que estuda. Do todos somos “nativos” de Geertz (1997[1983]), passamos a todos somos antropólogos, cada qual da sua maneira. A proposta de dossiê aqui apresentada dialoga com esta ideia de “antropologia reversa” construída por Wagner, mas ao nosso entender vai além.

Vemos então que o modelo que estruturou a formação do campo da antropologia, o qual descrevemos no início desta proposta, tem passado por uma profunda desestabilização[4]. E parte dessa desestabilização inegavelmente deve-se a “uma série de pressões históricas [que] começaram a reposicionar a antropologia com respeito aos seus ´objetos´ de estudo” (CLIFFORD, 1986:9-10). Dentre essas transformações está a própria produção antropológica por parte daqueles historicamente considerados “nativos”, como indica brevemente o mesmo autor. Um processo que observamos também no Brasil.

A adoção de políticas de ações afirmativas por diferentes programas de pós-graduação em antropologia no Brasil tem se traduzido numa maior presença negra e indígena nesses cursos[5], e levado consequentemente a uma maior produção de etnografias por estes antropólogos nos últimos anos[6]. O Outro parece ter cruzado uma fronteira: indo de objeto à sujeito etnográfico. Com isso uma série de novas questões estão sendo colocadas para a antropologia[7]. A separação sujeito/objeto torna-se mais instável, e com ela a própria divisão entre campo e casa. Afinal, muitos desses antropólogos produzem suas etnografias desde suas casas. E fazer antropologia em casa traz uma série de potências bem como outros desafios, como explicita Virgilio (2018), ao tratar sobre como se desenrolou seu trabalho de campo em meio ao seu “povo”, no sertão do Ceará.

Neste sentido, a presente proposta pretende reunir artigos que tragam reflexões sobre os efeitos da produção de antropólogos negros e indígenas – mas não só – para a teoria antropológica no que diz respeito, em especial, a essas duas distinções fundantes do campo da antropologia: a separação sujeito – objeto e a separação campo – casa. Inspiradas em Nascimento e Cruz (2017), nas suas reflexões sobre a “Quinzena do Negro”, evento organizado por intelectuais negros na USP, em 1977, ressaltamos que essas etnografias são baseadas não no “eu estive lá”, mas fundamentalmente no “eu sou de lá”.

O que estamos buscando são textos que, de distintas maneiras, abalem o “mito do pesquisador de campo semicamaleão” (GEERTZ, 1997[1983]:85). Mas não porque esses textos permitam expor a “verdade” do que acontece com os antropólogos (ou ao menos parte deles) em campo – forma como muitos encararam a publicação póstuma dos diários de Malinowski. Estamos interessadas em textos que abalem esse mito justamente porque entendemos que ele vem perdendo sentido se considerarmos que muitos antropólogos não são mais estrangeiros a se camuflar entre os Outros.

Com isso, abre-se espaço para etnografias produzidas, por exemplo, sob uma dupla orientação entre a universidade e aquele lugar que costuma ser o lócus do trabalho de campo. Este é o caso do trabalho de Barreto, sobre os “wai-mahsã” no mundo Tukano (BARRETO, 2013). O antropólogo teve na figura de seu pai um orientador absolutamente central na produção de sua etnografia (BARRETO; SANTOS, 2017).

Esperamos também que, eventualmente, possam ser trazidas para o primeiro plano do texto antropológico aquelas experiências que costumam ser deixadas, como acertadamente pontuou Stoller (1989), para as conversas do “bar ou restaurante”, por serem demasiadamente “pessoais” ou “extraordinárias”. De maneira que o que costuma ser classificado por Stoller como extraordinário por diversas vezes é absolutamente ordinário em diversas das etnografias produzidas por antropólogos negros e indígenas[8]. Sendo então do domínio do ordinário, até mesmo os sonhos podem se transformar em ferramentas etnográficas, como propõe Tobón (2015).

Mais do que simplesmente dar visibilidade à produção de antropólogos negros e indígenas, a proposta do presente dossiê visa sistematizar um corpus de reflexões teórico-metodológicas que vem se construindo nos últimos anos no campo da antropologia produzida no país. Entendemos que essas etnografias produzidas desde casa, ou a partir de relações diversas daquelas preconizadas pelo modelo que conformou inicialmente o campo disciplinar, podem trazer novas e importantes questões para a antropologia como um todo.



[1] Em tempos pandêmicos o próprio trabalho de campo está, é claro, sob questão. Vide os diversos dilemas que estão sendo enfrentados por alunos e orientadores nos diversos programas de pós-graduação em antropologia país afora com a impossibilidade de iniciar ou dar continuidade às pesquisas em campo. Alguns desses dilemas foram recentemente debatidos por professores e alunos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, num painel virtual intitulado “Impactos da Pandemia na Pesquisa em Ciências Sociais”. As incertezas trazidas por esta nova pandemia quanto ao futuro global colocam-se como um tremendo desafio a este modo de fazer antropológico.

[2] Cf. GUPTA; FERGUSON, 1997.

[3] Ingold, de maneira menos explícita, também problematiza esta divisão ao afirmar que “antropologia não é etnografia” (INGOLD, 2017[2011]).

[4] Várias outras críticas têm levado a novas abordagens etnográficas, de maneira que não teríamos espaço para tratar delas aqui. Entendemos, no entanto, ser relevante destacar aquelas discussões que veem repensando a dicotomia que funda o próprio surgimento da antropologia como campo disciplinar: a separação natureza – cultura. Neste contexto, ressaltamos o próprio livro de Wagner (2010[1975]), e as produções de Ingold (2000, 2017[2011]) e Tsing (2015, 2019).

[5] Algumas reflexões sobre esta presença foram apresentadas em um dossiê publicado na Revista de Antropologia da Universidade de São Paulo – USP (NASCIMENTO; CRUZ, 2017). Para um breve panorama da implementação de ações afirmativas em programas de pós-graduação em antropologia no país, destacamos o artigo de Fiori e colaboradores (2017), neste mesmo dossiê.

[6] Isso se reflete, inclusive, na própria criação, em 2019, de um Comitê de Antropólogas/os Negras/os no interior da Associação Brasileira de Antropologia – ABA (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 2019).

[7] Os encontros do Núcleo de Antropologia Simétrica (NAnSi), fundado por Eduardo Viveiros de Castro e por Márcio Goldman, no Museu Nacional – MN/UFRJ, têm sido um espaço privilegiado de debate sobre essa produção. Chamo atenção, em especial, para o encontro “Outras antropologias”, realizado em novembro de 2018, sob mediação de Luis Reyes Escate, o qual reuniu antropólogos negros e indígenas. Desde o Núcleo de Estudos Ameríndios do Laboratório Geru Maa, também temos nos debruçado sobre etnografias produzidas por antropólogos negros e indígenas, buscando que novas questões essas produções levantam para a antropologia e no campo das filosofias. Chamamos atenção, em especial, para uma das disciplinas oferecidas por uma das autoras (NARAHARA; RABOSSI, 2019) para o curso de Licenciatura em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ, em que nos debruçamos especificamente sobre estas questões. Cabe ainda salientar que o Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena/UFRR, que oferta cursos de graduação voltados exclusivamente a alunos indígenas (Bacharelados em Gestão em Saúde Coletiva Indígena e Gestão Territorial, e Licenciatura Intercultural Indígena), se destaca como pioneiro no acesso ao ensino superior pelos povos indígenas no país, também promovendo um espaço acadêmico que  gera reflexões que contribuem para o campo da antropologia.

[8] Cf. Narahara (2020).