Ementa - Dossiê: Análise de Redes Sociais (ARS) nas ciências sociais brasileira: teoria, método e aplicações empíricas (Mediações, vol. 27, n. 2 - 2022/2).

Organizadorxs: Camila Caldeira Nunes Dias (UFABC) e Vinicius Assis Couto (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime-UNODC).

Tendo como pressuposto que a Análise de Redes Sociais (ARS) é uma importante resposta tanto para os dilemas do passado, que ainda estão bastante presentes no campo das Ciências Sociais, bem como uma forma sofisticada de mensuração de interações na contemporaneidade, principalmente, em um mundo conectado pelas tecnologias; a proposta apresentada se constitui em torno da relevância teórica/metodológica da ARS para as Ciências Sociais e as potencialidades explicativas/interpretativas que se apresentam diante de diferentes recortes empíricos.

No âmbito das ciências sociais, o pressuposto de que o comportamento humano deve ser compreendido através de seus padrões de interação social coloca Georg Simmel na posição de precursor da teoria das redes sociais (SIMMEL, 1983). Já a gênese do conceito de rede social remete à antropologia social britânica da década de 50, notadamente, às contribuições de Radcliffe-Brown (1952) na caracterização da estrutura social como uma rede de relações institucionalmente controladas ou definidas. Dentro da perspectiva funcionalista de Brown, o conceito de rede era utilizado como uma simbologia para a compreensão da estrutura social e, neste sentido, remetia às situações de permanência ao invés de articulações temporárias (ENNE, 2004). Na década de 60, com John A. Barnes (1987),  o conceito de rede social começa a ser  utilizado a partir de uma perspectiva propriamente analítica . Para este autor, o conceito de rede implica a articulação de indivíduos através de interações sociais e não por composições egocêntricas (BARNES, 1987).

No âmbito propriamente da teoria social, de uma forma esquemática, pode-se afirmar que as contribuições da ARS estão inscritas em dois debates fundamentais da tradição sociológica: 1. relação entre as perspectivas micro e macro; 2. relação entre estrutura social e ação individual.

O postulado básico da teoria das redes reside na ideia de que a teoria sociológica macro-estrutural deve ser construída sobre fundações micro. E, desta forma, propõe um caminho para superar a questão clássica no debate teórico, a dualidade indivíduo/sociedade. Neste sentido, a ARS se coloca como uma opção para responder, simultaneamente, a dois problemas teóricos nas ciências sociais: de um lado, a explicação do comportamento dos indivíduos através das redes – portanto, das relações - em que eles estão inseridos e, por outro lado, explicar a forma como as redes estão estruturadas tendo como ponto da análise as interações dos indivíduos, suas motivações e as diversas categorias que podem ser identificadas nas relações que estabelecem com diferentes atores (indivíduos ou instituições) (PORTUGAL, 2007; EVERTON, 2012).

A relação entre a estrutura social e a configuração das redes é outro aspecto importante da contribuição teórica da ARS na teoria sociológica. Neste sentido, trata-se de discutir o quanto as escolhas individuais estão condicionadas pelo contexto no qual o indivíduo está inscrito, ou seja, o ponto de partida da análise relacional, deve considerar atributos básicos que darão a um determinado indivíduo as condições nas quais ele poderá estabelecer relações e, ainda, definirá os tipos de relações que poderá estabelecer, os atores com os quais poderá se conectar e, desta forma, estruturará um conjunto de oportunidades limitadas.

Em perspectiva similar, a forma analítica inscrita na ARS apresenta a potencialidade de superar a dicotomia macro-micro uma vez que dirige o olhar para o comportamento individual sem perder de vista a inserção do indivíduo nas estruturas sociais que o condicionam ou, ao menos, confere o espaço no qual ele move. A análise de redes articula as duas dimensões, considerando o indivíduo a partir de sua inserção numa estrutura de redes que, embora seja condicionada pela sua posição na estrutura social, confere o espaço para a liberdade individual e possibilita algum deslocamento  nesta mesma estrutura (PORTUGAL, 2007).

As interações sociais constituem determinados padrões que podem levar à constituição de formação sociais em nível micro (individual, identidade), meso (grupos) e macro (instituições, nações), bem como gerar solidariedade de grupo, normas de comportamento, símbolos de pertencimento e identidade. A partir das premissas que envolvem a interdependência dos indivíduos, a constituição da estrutura social em termos de padrões de laços entre atores (indivíduos, grupos ou instituições) e, por fim, do caráter dinâmico da conformação das próprias redes sociais; a ARS permite considerar um conjunto amplo de variáveis em termos das quais uma rede social pode ser analisada (EVERTON, 2012).

Nessa perspectiva, no que tange as questões metodológicas, as contribuições das ARS são também de grande relevância. Na verdade, a ênfase nos métodos é tão forte que, por vezes, as próprias concepções teóricas das ARS se confundem com sua metodologia. A principal inovação proposta é a mudança da unidade de análise, assim, ao invés da utilização comum de atributos estanques, a questão a ser focada é a forma relacional pela qual os indivíduos se conectam (BORGATTI, 2005). Nesse cenário, atributos tradicionalmente analisados nas Ciências Sociais (raça, gênero e etc)  são compreendidos a partir das relações sociais e das interações entre os atores, através de categorias que eram ainda pouco exploradas, tais como posição dentro da rede, força e/ou regularidade das interações e fluxos informacionais. Em outras palavras, o foco se desloca das características do indivíduo per se para as relações sociais através das quais eles se conectam.

Ao conceber que estruturas sociais são originadas por rede de relações entre indivíduos e seus padrões de interações, por muito, o centro do debate metodológico das ARS retoma as ideias de Simmel (1950) acerca da formação de estruturas sociais por meios da adoção de formas elementares de relações entre diádes e triádes. Assim, as estruturas sociais vistas sob olhares e métodos da ARS não se reduz a soma de interações ou atributos, mas sim é o resultado das dinâmicas desenvolvidas por meio das relações interdependentes.

A adoção da perspectiva da unidade de análise focalizada nas relações entre os atores abre novos focos analíticos próprios da ARS. Coesão da rede (densidade, geodésica e reciprocidade), centralidade do ator (proximidade, grau absoluto e intermediação) e posição dentro da rede (equivalência, autonomia e controle estrutural) tornam-se objetos de análises comumente utilizados nessa perspectiva.

A capacidade que emerge por meio da ARS em traduzir as interações entre atores em avaliações de estruturas sociais já criou diversas contribuições seminais para as Ciências Sociais, entra essas estão propostas amplamente referenciadas como de Granovetter (1977) e Burt (2017) para o conceito de Capital Social. Olhando para a mesma questão, contudo, com linguagem e focos distintos, os dois atores destacam como a conformação da rede pode facilitar ou impedir informações não redundantes que, por sua vez, é capaz de atuar diretamente na vida dos atores e, consequentemente, no seu capital social. Assim, as famosas pontes e laços fracos de Granovetter (1977) ou os buracos estruturais de Burt (2017) tem como ponto de inflexão analítico o fluxo de informação da rede.

Os dois casos elencados são exemplos pilares de um movimento de utilização da ARS que está em franco desenvolvimento nas últimas décadas. Nesse cenário, cada linha precursora da ARS desdobrou-se em tantas outras escolas que deram continuidade, aprofundaram e expandiram a teoria, o método e a aplicação empírica. A perspectiva multidisciplinar e os avanços técnicos da informática produziram um incremento significativo da ARS, aprimorando e refinando a construção de variáveis, a coleta de dados e informações, e o processamento e representação.

Para além de toda as construções e contribuições teórica/metodologia da ARS para as discussões clássicas das Ciências Sociais, a ARS se tornou uma importante ferramenta para entender as novas formas de sociabilidades postas na atualidade, emergindo como fenômeno altamente complexo e fundamental no debate contemporâneo.

A expansão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) trouxe profundas transformações para as relações humanas. A conectividade por meio do uso dos canais de comunicação produziu novas dinâmicas econômicas, políticas, sociais e culturais, que introduz além de uma nova agenda de pesquisa interdisciplinar, que articula diversos campos do conhecimento. Esse processo ganha relevância com a popularização da Internet, principalmente pelo uso intensivo das plataformas de redes sociais, permitindo que pessoas comuns participem ativamente do processo de produção e do fluxo informacional, devido ao crescente aumento de conectividade e e interação, produzindo uma massiva quantidade de dados que podem ser rastreados e analisados.

Se de um lado os rastros digitais, produzidos pelos próprios usuários, trazem novas possibilidades para as teorias sociais estudarem os indivíduos e seus agregados (LATOUR, 2010), por outro lado, essa interação online inaugura novas formas de sociabilidade e de expressão do self (PAPACHARISI, 2011), como também possibilita a emergência da comodificação das interações humanas (FUCHS & SANDOVAL, 2013), transformadas em dados que são apropriados pelas grandes corporações de tecnologia na expansão do capitalismo de plataforma (SRNICEK, 2017) e de vigilância (ZUBOFF, 2015). Toda essa potencialidade de coleta de dados abre novas possibilidades empíricas de pesquisa, principalmente por meio do uso da abordagem de ARS.

Adequada para a realidade que emergiu e influencia a vida contemporânea, a ARS continua em um processo contínuo de desenvolvimento tanto dos métodos utilizados como na consolidação teórica. Não por acaso a utilização da ARS no Brasil vive em franco crescimento nos últimos anos.

Como componente importante dos avanços na teoria social, pesquisas aplicadas, modelagens de estatística formais - uma simbiose entre teoria e método (WASSERMAN & FAUST, 1994) - é assim que o dossiê propõe entender a ARS. Neste sentido, pretende-se reunir trabalhos que possam contribuir para avançar na reflexão envolvendo a ARS, especialmente, em seu caráter interdisciplinar e nas contribuições que traz para o campo das ciências sociais, assim como apresentar possibilidades de aplicação empírica, em diferentes problemas, questões e desafios postos em distintos recortes temáticos e em múltiplos objetos de estudos.