Ementa - Dossiê: O que fazem os números? Produções, usos e efeitos da quantificação da vida cotidiana (Mediações, vol. 26, n.2 – 2021/2).

Organizadorxs: Glaucia Maricato (Freie Universität Berlin) e Vitor Simonis Richter (UFRGS).

A deflagração da pandemia mundial do Covid-19 no primeiro semestre de 2020 teve como um de seus efeitos a intensa circulação de tabelas, gráficos, estatísticas, rankings e outras tecnologias de visualização de dados estatísticos sobre as infecções e mortes pelo novo vírus. Diariamente, passamos a ouvir falar sobre a ‘curva’ de casos, sobre subnotificações, sobre a importância das testagens e sobre as formas diferenciadas de contagens em disputa. Em determinados momentos da pandemia, fomos inundados por variados debates que colocavam as técnicas, classificações, normativas, temporalidades e instrumentos de produção de dados epidemiológicos em evidência. Já em abril de 2020, a mídia estampava matérias sobre a disparada do número de casos de morte por doença respiratória sem causa identificada, trazendo à tona o intrínseco enredamento entre diagnóstico, classificações obituárias e controle epidemiológico da Covid-19. Ao mesmo tempo, falava-se sobre a forma como os dados divulgados pelo governo federal apresentavam discrepância em relação aos dados divulgados pelos governos estaduais. A crise política instaurada no Brasil, em paralelo à crise sanitária, deu contornos extremos ao tema da produção de dados estatísticos, tornando evidente a centralidade dos números enquanto tecnologia de produção de uma narrativa sobre a realidade nacional diante da epidemia do Covid-19.

É claro que a questão das tecnologias de mensuração não está limitada ao campo da saúde e somos constantemente informados sobre os índices de pobreza no país, sobre as taxas de analfabetismo, sobre indicadores de violência, sobre a subida ou descida das taxas de desemprego, somos convidados a observar gráficos sobre a poluição em grandes capitais ou acompanhar o ranking mundial de países com maior e menor exposição a notícias falsas e etc. Trabalhos como de Marilyn Strathern (2000), Sally Merry (2011), Chris Shore e Susan Wright (2015) e Isabelle Bruno (2008, 2010) destacam como números, indicadores e estatísticas têm tornado os rankings um aspecto central da ordenação de tecnologias de governo e de auditoria em anos recentes. O que unifica estes mundos sociais, essas tecnologias de governo e práticas de accountability é a centralidade que narrativas numéricas assumem na disputa acerca da descrição das versões das realidades que estas performam.

As estatísticas não são apenas produtos da política institucional oficial de agências governamentais e organizações empresariais privadas. Elas também fazem parte e são tomadas como formas engajadas de ativismos. Podemos citar como exemplos as ONGs e movimentos sociais engajados na luta pelos direitos das mulheres, da população negra e comunidade LGBTIQ+ que atuam produzindo, compilando e organizando indicadores e dados estatísticos em relação à violência doméstica, urbana e policial. Podemos citar também organizações de pacientes que tentam chamar a atenção para doenças e condições de saúde específicas, que tendem a ser negligenciadas ou apagadas dos debates públicos ou políticas públicas. E, ainda, grupos de ecologistas que acionam a linguagem numérica e estatísticas para tentar transmitir a escala e a situação dramática que grandes desmatamentos, aquecimento global, queimadas, poluição, secas, tempestades têm para a vida no planeta Terra. O uso da linguagem dos números através da produção de estatísticas, nestes casos, pode ser visto como uma importante estratégia de visibilização das preocupações e demandas por políticas de proteção e promoção dos interesses dessas populações e grupos.

Já há algum tempo cientistas sociais têm discorrido sobre a importância do desenvolvimento de pesquisas e debates voltados a produção, utilização e efeitos de dados quantitativos e linguagem numérica. Chama-se a atenção para a maneira como os números são tomados como dados neutros, livres de valores e interferência humana, apolíticos – verdadeiras imagens da “realidade real”. Os números e, com eles, tabelas, mapas e gráficos constituem um instrumento fundamental para realizar descrições, e assim performar versões, da realidade. Eles constituem aquilo a ser lido e se tornam mediadores importantes das tecnologias de governo contemporâneas (Richter, 2016). Nikolas Rose (1999) afirma que, além de constituir aquilo a ser lido pelos representantes da administração, os números, por terem uma familiaridade com peritos técnicos e cientistas, permitem que os planos e diagnósticos da “realidade” sejam apresentados como retórica do desinteresse, da objetividade e da imparcialidade, características muitas vezes associadas à ciência (Hacking, 1990; Haraway, 1995).

Autores já clássicos como Hacking (1990), Foucault (1998; 2008) e Desrosières (1998) há muito demonstraram como as estatísticas e quantificações diversas servem como instrumento de governo e poder estatal. A própria invenção das estatísticas esteve intimamente enredada à constituição de Estados-nações no século XIX (Hacking, 1990; Scott, 1998). Mais recentemente, pesquisadores passaram a apontar para o surgimento de uma série de formas de quantificação, tais como rankings e indicadores, e a forma como têm operado em outros níveis para além do Estado (Merry, 2011; Maricato, 2019; Rose, 1999). Este conjunto de autores destaca que a proliferação de indicadores e rankings globais tem impulsionado mudança de estratégias nacionais, novas formas de (auto)governo e produção de subjetividades (Bruno, 2008, 2010; Shore e Wright, 2015). A principal característica desta mudança consistira em transformar e reduzir processos sociais complexos e diversos a números, especialmente transformados em tabelas e gráficos organizados em rankings passíveis de comparações e de ordenação de uma hierarquia moral acerca dos “bons indicadores” e das ações recomendadas para adequação destes. Marilyn Strathern (2000) trata deste tema nos termos de uma “ética do accountability”, na qual os aspectos financeiros encontram os morais.

Estas reflexões sobre a emergência e estabilização das tecnologias de accountability e ranqueamento baseadas em indicadores numéricos encontram ressonâncias teórico-metodológicas na obra de Bruno Latour (1986; 2000; 2001), que concebe os dispositivos de inscrição como modos de mobilização de mundos e realidades. Em suas pesquisas sobre a prática científica e o laboratório, o autor se refere às inscrições enquanto operações anteriores à escrita científica (Ibidem; Latour, Woolgar, 1997). Tais operações dizem respeito aos traços, tarefas, pontos, histogramas, números, espectros, gráficos que são acionados na produção de “explicações poderosas” nos textos e artefatos montados posteriormente pelos cientistas. Não se trata da escrita propriamente dita, mas de inscrições no sentido de “transformações que materializam uma entidade em um signo, arquivo, documento, pedaço de papel, traço” (Latour, 2001, p. 350). Ao realizarem este trabalho, as inscrições permitem o aumento da mobilidade e da imutabilidade das entidades materializadas para viajarem pelas redes sociotécnicas até os seus destinos: os artigos científicos, os manuais técnicos, os relatórios de pesquisa, os balanços administrativos, as tabelas, gráficos e mapas que permitem àqueles que interpretam e planejam realizar intervenções nas vidas de populações ou dos sujeitos que as compõem. A noção de inscrição, portanto, assume particular relevância quando pensamos sobre a materialidade que os números oferecem na mediação de diversos fenômenos e pode ser uma ferramenta poderosa para refletir sobre as narrativas numéricas da vida cotidiana.

Na esteira de tais debates teórico-metodológicos, para esse dossiê buscamos trabalhos que discutam, a partir de pesquisas empíricas, as maneiras como os números e seus derivados (estatísticas, gráficos, indicadores, rankings, etc.) são formulados, produzidos e utilizados no desenvolvimento e avaliação de políticas públicas ou na constituição de pleitos políticos. Convidamos também trabalhos dedicados a explorar os efeitos de tais tecnologias de mensuração para a vida dos sujeitos que são diretamente afetados por elas, para a alocação de recursos públicos, a definição de agendas políticas ou quaisquer outras implicações a curto e longo prazo. Estamos interessados em artigos que explorem essas questões não apenas a partir do campo da saúde e, em específico, em relação à pandemia do Covid-19, mas também a partir de diferentes produções numéricas do campo da governança, da justiça, dos ativismos, das políticas globais, gestão ambiental e etc.