Ementa - Dossiê: Materialidades e agências na América Afro-Latina (Mediações, vol. 25, n. 3 - 2020/3)

Organizadoras: Alline Torres Dias da Cruz (UFRJ) e Magdalena Sophia Ribeiro de Toledo (Universidad Alberto Hurtado, Chile)

Zora Neale Hurston (1861-1960), antropóloga negra e estadunidense, no ensaio “O que os editores brancos não publicarão”, apresentado na revista Negro Digest em 1950, discute com originalidade e provocação a alteridade negra no país. Questionou por que editores e produtores culturais brancos se mantinham atrelados ao que chamou de “‘típico’ conveniente” – o estereótipo no qual pessoas negras dos EUA eram retratadas sempre monotonamente, “sentada[s] em um toco pegando seu banjo, cantando e rindo” ou resmungando sobre as injustiças no campo –, e, assim, nos ofereceu, desde a metade do século 20, uma reflexão fundamental acerca da construção de alteridade entre negros e brancos (Hurston, p.108). Para Hurston (op. cit., p.109), a reificação das tensões raciais na literatura funcionava como um modo de evidenciar a visão hegemônica de que pessoas negras eram incapazes de vivenciar emoções, de sensibilizar-se com mudanças rotineiras e com o afeto revelador das experiências humanas.  Sublinhou também que a compreensão mais ou menos generalizada de que negros e brancos “ter[iam] coisas em comum até um certo limite” seria um modo de colocar continuamente em xeque o pensamento de pessoas negras dos EUA e de desconsiderar que suas reflexões iam além do “problema racial”. Confrontando o campo literário dos anos 1950 – mas já tendo realizado pesquisa antropológica no sul dos EUA, no Haiti, na Jamaica e em Honduras, sob a orientação inicial de Franz Boas –, Hurston fez uma provocação no ensaio. O olhar de suspeição branco e ocidental que descrevia as personagens negras estava permeado de dúvida: conseguiriam elas lidar com as “nossas sutilezas”, imaginavam os personagens brancos (Hurston, op. cit., p.109). Sob essa dúvida se configuraram enredos que reproduziam o artefato ficcional (e dicotômico) “nós-eles” nos textos literários, uma vez que pessoas negras não compreenderiam, na visão dos escritores, os modos brancos e ocidentais materializados, por exemplo, nos saberes científicos. Além dessa reflexão sobre a alteridade negra na literatura dos EUA, Hurston discutiu a elaboração de formas de escrita marcadas pela correspondência entre antropóloga e seus interlocutores, pela polifonia e pelo autoconhecimento, antecipando, em 50 anos, alguns dos problemas do debate pós-modernista na disciplina antropológica (Basques, 2019, p.103; Clifford and Marcus, 1986). Hurston conectou pesquisa de campo com diversas formas de escrita, tendo como matéria-prima descrições sobre artefatos rituais afro-americanos e afro-caribenhos, de um lado, e problematizou os artefatos literários produzidos por escritores estadunidenses, de outro. Também em uma reflexão sobre a alteridade enquanto par dicotômico, mas no pensamento antropológico moderno, Michel Rolph-Trouillot argumentou: “[...] quando Tylor publicou o primeiro livro geral de antropologia em inglês, em 1881, Barbados tinha sido ‘britânico’ por dois séculos e meio, Cuba tinha sido ‘espanhola’ por quase quatro séculos, e o Haiti era um Estado independente por três gerações, após um longo século francês em que foi o responsável por mais da metade do comércio externo da metrópole” (Trouillot, 1992, p.21). Para o antropólogo negro haitiano dificilmente haveria, no Caribe, lugares para observar os “primitivos”. Além disso, a existência da “região” abalaria a dicotomia Ocidente/Não-Ociente e a categoria de nativo sob a qual a disciplina fundou suas premissas, uma vez que, para o autor, “o Caribe é nada a não ser contato” (Trouillot, op. cit., p.22). Esse argumento de Trouillot poderia ganhar contornos etnográficos nas descrições de Michael Taussig (1993), antropólogo australiano com formação inicial em medicina, que, no livro Mimesis and Alterity, pergunta-se por que as esculturas de madeira usadas pelos curadores Cuna da costa do Panamá e do Pacífico, tão importantes para a cura e para a sociedade cuna, foram talhadas com a forma de “tipos europeus” (Taussig, 1993, p.7). Segundo o autor, ao fazer essa pergunta, ele mesmo, como um “tipo europeu”, é levado a confrontar seu ser cultural na forma de uma escultura indígena. Taussig indagou sobre quem seria esse ser objetificado no artefato cuna sem o seu conhecimento, e concluiu que tal imitação corrói a alteridade pela qual a sua ciência – antropológica – se nutre. Pois, agora, ele também era parte do objeto de estudo (Taussig, 1993, p.8).  A importância dessas considerações nos convida a pensar sobre como a descrição etnográfica voltada a processos artefactuais e performáticos de coletivos afro-latino-americanos poderia demonstrar a atualização da presença de entidades ancestrais na vida cotidiana, mas também em que medida, quando esses coletivos trazem à tona agenciamentos diversos, no contato e encontro com substâncias, materiais, cores, grafias, movimentos, corpos, nomes e lugares, estariam sendo criadas relações imprevistas do ponto de vista do fazer antropológico moderno, convencionalmente subsumido na separação “nós-eles”, e mesmo das narrativas fundadoras dos estados nacionais latino-americanos e caribenhos. Nos textos etnográficos, é fundamental e bem-vinda (para a produção de artefatos teóricos) a perspectiva dos interlocutores acerca de suas próprias práticas. No entanto, em geral tal ênfase neutraliza, na escrita, o olhar dos interlocutores sobre a inserção de pesquisadores e de seu trabalho etnográfico, como se ambos estivessem alheios à observação cuidadosa e à reflexão dos próprios interlocutores. Isentar-se de descrever e de refletir sobre essas questões nestes textos teria como efeito, parafraseando Hurston, a percepção de que o apreço pelas “sutilezas” seria típico apenas a quem pesquisa e escreve. O tema desse dossiê se faz atual numa perspectiva mais ampla, orientada para o que significa produzir conhecimento na disciplina e compreender os efeitos deste saber quando se mobilizam abordagens críticas da alteridade e do fazer antropológico moderno. Mostra-se atual e também relevante quando realça que, no contexto contemporâneo de produção da antropologia brasileira, identificações étnico-raciais fazem parte da formação e experiências tanto dos interlocutores quanto das pesquisadoras(es), e que ambos se concebem e se relacionam tendo isso em consideração. A originalidade da proposta resulta da sugestão às autoras(es) de um exercício teórico-metodológico no qual artefatos, criados por interlocutores e pesquisadores, possam se tratados a partir das possibilidades de contato, correspondência, troca e transformação, ou seja, de perspectivas que subvertem lógicas convencionais de diferenciação e separação na produção de conhecimentos.