Ementa - Dossiê: Coetaneidade e pós-colonialidade nos Estudos Africanos (Mediações, vol. 25, n. 1 - 2020/1)

Organizadorxs: Paulo Ricardo Muller (UFFS) e Melvina Afra Mendes de Araújo (UNIFESP)

A pesquisa em diferentes contextos africanos, especialmente nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), têm sido um componente significativo do processo de internacionalização da pesquisa e da pós-graduação em Ciências Sociais do Brasil. Este processo vem ocorrendo desde os anos 1970 mas se intensificou na primeira década dos anos 2000 por meio de uma série de acordos de cooperação técnica para a criação e/ou qualificação de instituições de ensino e pesquisa em países africanos lideradas por grupos de pesquisa brasileiros que acumulavam debates sobre sociedades e culturas africanas e know-how para o diálogo intercultural. Estas precondições permitiram que grupos de pesquisa das áreas que compõem as Ciências Sociais atuassem de forma decisiva na conformação destas relações de cooperação, influenciando, por sua vez, na configuração de universidades, departamentos e grupos de pesquisa africanos em termos de cursos, áreas e programas de ensino e pesquisa (Morais, 2013; Milani et alii, 2016).

          Uma primeira decorrência deste processo foi o aumento da presença de estudantes africanos de graduação e pós-graduação em universidades brasileiras no âmbito dos Programas de Estudantes-Convênio (PEC), cujas experiências e interações se tornaram tema de pesquisa e reflexão em todos os níveis de formação universitária, por parte tanto das/os próprias/os estudantes e pesquisadoras/es africanas/os quanto de brasileiras/os (ver, por exemplo, Morais, 2012; Mungoi, 2006; Santos, 2012). De forma mais abrangente, este movimento fez crescer o interesse por aspectos fundamentalmente contemporâneos do continente africano, diferenciando-se das abordagens que tradicionalmente agenciam ideias de África no Brasil, tais como representações estereotípicas frequentemente difundidas pela mídia e pelo senso comum na forma de imagens de guerra e fome; as construções de África em narrativas de origem e afirmações identitárias através das práticas culturais e religiosas negras e afro-brasileiras; e da história acadêmica da África com foco direcionado aos aspectos explicativos e ilustrativos dos processos de constituintes do tráfico e da vida social de africanos escravizados tanto na África quanto no Brasil.

          A aproximação das Ciências Sociais brasileiras ao contexto africano contemporâneo vem se fundamentando, entretanto, na apropriação e discussão com estas fontes, gerando uma série de análises etnográficas e sociológicas de fontes históricas documentais a respeito de populações e contextos africanos, da recepção africana à produção midiático-cultural brasileira e de outros países, e da circulação e intercâmbios estabelecidos por organizações negras e afro-brasileiras com atores políticos e societários africanos contemporâneos. A preocupação com a caracterização e a análise da contemporaneidade do continente africano não implica, assim, em rejeitar o conhecimento e as representações acumuladas por outras visões sobre a África desde o contexto brasileiro, mas sim em lançar olhares sobre aspectos das histórias e das sociedades africanas que permitam a diversificação e a complexificação destes saberes.

          A ideia de contemporaneidade que articulamos ao nos referirmos à ideia de uma África fundamentalmente contemporânea deriva da concepção de pesquisa etnográfica como “exercício de compartilhamento do tempo” proposta por Fabian (2013, p. 100) ainda nos anos 1980, mas que vem sendo reiterada pela antropologia contemporânea em discussões sobre a mutualidade (Pina-Cabral, 2013) e a horizontalidade (Oliveira Filho, 2004) nas relações entre pesquisadores e interlocutores de pesquisa. Não se trata, assim, de privilegiar somente análises sobre acontecimentos ou processos “atuais”, mas de enfatizar a coetaneidade (Fabian, 2013, p. 10) das reflexões produzidas por atores e em espaços concebidos separadamente: o campo e a academia, “lá” e “aqui”, as/os sujeitos/interlocutores da pesquisa e as/os pesquisadoras/es, as crenças/tradições/hábitos sociais e as metodologias científicas, etc. Discutir a contemporaneidade africana pode incluir, dessa forma, análises ou reanálises de processos históricos à luz de novos conceitos e abordagens das Ciências Sociais ou, inversamente, a rediscussão de determinados pressupostos teórico-metodológicos à luz de novas questões, problemas, conflitos e práticas sociais.

          Outra característica relevante dos Estudos Africanos a ser considerada aqui, é o reflexo de agendas geopolíticas na conformação dos interesses e focos de pesquisa. Na primeira metade do século XX, período em que as Ciências Sociais se constituíram e consolidaram como áreas acadêmicas autônomas, os Estudos Africanos ligados aos principais centros produtores de conhecimento da Europa Ocidental e dos Estados Unidos tiveram como foco privilegiado de análise os contextos e populações sobre as quais os países de origem dos pesquisadores exerciam algum tipo de poder colonial. Ao passo em que se deslindaram os processos de descolonização ao longo dos anos 1960 e 1970, os olhares acadêmicos passam a se voltar para as relações comerciais, políticas e militares das sociedades africanas com o resto do mundo. É justamente neste período que surgem trabalhos produzidos por pesquisadores oriundos do próprio continente africano e do então chamado “terceiro mundo” em geral, que passam a problematizar o papel das Ciências Sociais – e, mais uma vez, de forma mais acentuada da Antropologia – metropolitanas na conformação das “situações coloniais” (Balandier, 2014) legadas às sociedades e aos Estados africanos pós-coloniais.

          A crítica pós-colonial ao conhecimento acadêmico eurocentrado sobre África acaba constituindo um aporte fundamental para a reformulação das bases conceituais que legitimam o lugar das Ciências Sociais no campo acadêmico, não mais com o propósito iluminista de verificação objetivista da realidade, mas de análise das próprias condições de produção de conhecimentos que constroem a realidade social (Lander, 2003; Mudimbe, 2013). Nesse sentido, os centros de Estudos Africanos tradicionais da Europa e dos Estados Unidos vem incorporando as críticas pós-coloniais e o conhecimento produzido desde outros contextos geopolíticos, enquanto os centros emergentes na América Latina e na África vem compondo redes de cooperação tanto no eixo sul-sul (entre países considerados “em desenvolvimento”) quanto com instituições geopoliticamente centrais da produção de conhecimento em Ciências Sociais (Europa Ocidental e Estados Unidos).

          A proposta de dossiê que ora apresentamos contribuirá, assim, significativamente para a consolidação do campo dos Estudos Africanos no Brasil ao mesmo tempo em que inserirá a revista Mediações em um circuito de produção acadêmica essencialmente interdisciplinar porém fortemente influenciado pelas Ciências Sociais em suas diversas configurações ao redor do mundo. O acúmulo de experiências de circulação de pesquisadores brasileiros por grupos de pesquisa em Estudos Africanos situados no Brasil, no próprio continente africano, na Europa e na América do Norte certamente se constituirá como uma rede de divulgação tanto da chamada de artigos para o dossiê quanto de divulgação do volume resultante. Além disso, e para finalizar, a disposição a revisões teóricas e metodológicas proporcionada pelo pensamento pós-colonialista incorporado por grande parte de cientistas sociais em grupos de Estudos Africanos potencializará o lançamento de propostas e reflexões teórico-metodológicas relevantes para as Ciências Sociais como um todo.