Ementa – Dossiê Humanimália: espaço, agência e não-humanos (Mediações, vol. 24, n. 3 - 2019/3)

Pensar os e com os animais hoje leva em conta que esses seres instigam uma constelação de imagens, símbolos, experiências, formas sociais e emoções. Afinal, nos alimentamos deles, vestimos suas peles, vivemos, lutamos e trabalhamos com eles; tentamos salvá-los, mimamos, caçamos, compramos, vendemos, trocamos, amamos, tememos e odiamos; e nosso produzir e habitar territórios distintos – casas, quintais, cidades, fazendas, ilhas, nações, o globo – ocorre sempre na presença dos mais diversos animais. Nossa vida cotidiana – a nossa e a de todos os povos e culturas da Terra – está intrinsecamente ligada aos animais, tornando-os agentes cruciais em nossas práticas, inclusive sócio-espaciais. Portanto questionamos: onde, como e porque nos relacionamos com diferentes animais? Nós lhes devemos obrigações? Porque eles importam? Como eles devem nos importar?

 Pode-se dizer que os animais, hoje, estão no centro dos debates mais candentes em várias das ciências humanas – antropologia, filosofia, sociologia, geografia, história, sociologia, teoria literária – e uma produção crescente, em quantidade e qualidade, de pesquisas e publicações em torno desses não humanos é sensível tanto no Brasil como no exterior. Esses trabalhos – gestados nos quadros do que se convencionou chamar de pós-humanismo, ANT, virada animal ou animalista, antrozoologia, zooantropologia, antropologia além do humano ou da vida, entre outros rótulos – debruçam-se sobre uma miríade de temas, é fato. Não obstante, constatamos que um ponto nevrálgico das relações entre coletivos humanos e animais ainda é pouco explorado no Brasil, ainda que venha observando notável expansão em outros países: a saber, as relações entre humanos, animais e o espaço. Trata-se daquilo que convencionou-se denominar Geografias animais, conceito que nasce de uma imbricação não apenas entre a geografia e as cências biológicas, mas também entre diversas disciplinas das humanidades, todas, claro, interessadas no fenômeno humano sobre a face deste planeta, sob distintos pontos de vista.  

O desenrolar das interações entre animais humanos e não humanos em espaços, lugares e territórios – reais e imaginários, passados ou presentes, urbanos e rurais, em micro e macroescalas – é, contudo, um fenômeno pertinente a todas as ciências humanas. Com base nesses questionamentos, a proposta deste dossiê traz as perguntas primárias: Como repensar os animais a partir destas interações entre humanoss e não humanos no espaço? Como estas relações se distribuem e produzem distintas formas de habitar? Como a tentativa de construção sócio-espacial é influenciada por relações entre humano animais? Como os animais podem nos ajudar a aproximar as distintas ciências humanas e sociais interessadas em diferentes dimensões do espaço?

A construção social do espaço está intrinsecamente ligada ao nosso relacionamento com os animais. Permite-se que animais de companhia – associando-os a características como fidelidade, carinho, confiança e família –, transitem pelo espaço íntimo e privado de nossas casas. Da mesma forma, proíbe-se, ou pelo menos não se deseja alguns animais em nosso meio, por motivos que vão desde a repulsa (por ratos e baratas, por exemplo) até a exclusão de nossa paisagem dos animais dos quais nos alimentamos. Também não se deseja contato com animais em espaços supostamente exclusivos para humanos, tais como as cidades, criando grande conflito ao nos depararmos com a proliferação de animais nesse meio, a exemplo dos pombos. Por outro lado, grandes extensões territoriais – municípios, estados, países – vêm cada vez mais se definindo pela criação animal ou pecuária, em um cenário global de crescente consumo de carne. Ademais, perspectivas pós-humanas variadas (a antropologia da vida, a ecologia histórica, as meshworks), que buscam retirar a humanidade do centro de sua reflexão – combatendo a nossa preeminência diante de outras criaturas com as quais compartilhamos o mundo –, apostam, cada vez mais, na constatação de que paisagens, ambientes e lugares são, sempre, produtos da ação combinada – sinergística, mutualística, coevolutiva – de seres humanos e não humanos, e a própria vida do planeta Terra aparentemente depende dessa ação conjunta.

Na perseguição de questões desta natureza, os estudos dos animais na ciência geográfica vêm refletindo, sobretudo, no campo da geografia cultural que se denominou Animal geographies. Tal campo se estabelece a partir da relação entre humanos e não-humanos e tem como foco não mais a geografia dos animais pautada na biogeografia e zoogeografia, mas sim na relação de diferentes animais não-humanos com variadas parcelas da humanidade. Os trabalhos dos geógrafos anglo-saxões como Wolch e Emel e Philo e Wilbert abriram caminho para uma reinterpretação das relações humano-animal na década de 1990, ao repensarem – pegando, certamente, carona nas críticas antropológicas e filosóficas que vêm já dos anos de 1950 – conceitos, discutindo a subjetividade dos animais e a necessidade de ressignificar questões acerca da dicotomia Cultura/Natureza. Em particular, com foco no papel dos animais na construção social da cultura e do indivíduo, da natureza da subjetividade animal e sua ação como agente, incluíram a dicotomia humano-animal na construção social do tempo e do espaço e nas formas das representações animais e a sua influência sobre a identidade pessoal e coletiva. Supondo o espaço relacional – o que ele é irremediavelmente – sua concepção depende, em larga medida, de nossa relação com os não-humanos, principalmente com os animais.

Advindos de uma interpretação mais contemporânea, os autores que se dedicam ao estudo dos animais têm a raiz de seus pensamentos, por exemplo, nas teorias pós-estruturalistas de poder de Foucault, do devir-animal de Deleuze e Guatarri, nas teorias feministas e pós-colonialistas de Val Plumwood, na teoria ator-rede de Latour e Law, nas naturezasculturas de Haraway, nos avanços teórico-metodológicos de Ingold, no animismo e no perspectivismo de Viveiros de Castro, Lima, Descola e outros. Todos esses autores e autoras, entre muitos outros, trazem uma mudança epistemológica fundamental na qual as ações de construção, desconstrução e reconstrução sócio-espacial são agora compartilhadas por humanos e não-humanos, não havendo exclusividade, em processos sempre relacionais.

Buscamos, com esse dossiê, aproximações entre os estudos da antropologia, da sociologia, da filosofia, da história e de outras ciências humanas e sociais com a geografia. Interessados em como as interações entre humanos e não humanos se desenvolvem espacialmente, nossa intenção é ofecerer um contexto para repensar essas relações humano/animais e a produção de espaços, paisagens, ambientes, locais, lugares e territórios em um panorama da miríade de relações cotidianas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, literárias, jurídicas e outras.

Essa intersecção entre diferestes ciências sociais e humanas na rediscussão dos espaços atenta às interações entre humanos e não humanos é que buscamos fazer emergir com esse dossiê. Esperamos autores e artigos que trabalhem as interfaces entre as relações cotidianas entre humanos e animais e sua espacialidade, enfrentado diálogos entre espaço, cultura e sociedade, interessados nas múltiplas formas pelas quais animais humanos e não humanos constroem, modelam, alteram e habitam o – ou os múltiplos – mundo(s).