Visibilizando os sujeitos históricos: Movimento negro, a intelectualidade acadêmica e a emergência da Lei n. 10.639/03

Amauri Júnior Silva Santos

Resumo


Os estudos pós-coloniais se constituem como um campo de investigação em que novos pilares epistemológicos e teóricos são pensados, a fim de construírem uma lógica outra para produção de saberes. Segundo Spivak (2010) os estudos pós-coloniais buscam alternativas para a desconstrução da antinomia Oeste/Leste e, com isso, intentam produzir outras formas de pensamento e de modos de vida que “deem voz” aos povos historicamente silenciados pela modernidade/colonialidade. É a partir deste enunciado que o presente artigo procura debater as narrativas historiográficas sobre a participação do sujeito negro na construção da história nacional, bem como frisar a política de silenciamento historiográfico que ocultou a representação e o protagonismo feminino na luta abolicionista. As senhoras abolicionistas, como ficaram conhecidas, escreveram e organizaram: jornais, clubes e sociedades abolicionistas exclusivamente femininos e mistos, bem com, libertaram escravos e atuaram em movimentos sociais e políticos, como nos lembra Silva e Barreto (2014), todavia a historiografia oficializada tratou de silenciar essas vozes, asseverando mais uma vez a dominância de paradigmas exclusivamente baseados em epistemologias eurocêntricas produzidas por pessoas do sexo masculino, ocidentais, cisgêneras, brancas, heterossexuais, urbanas, de classe média. Essas considerações são decisivas para pensarmos em uma história que vai na contramão do que está posto nas narrativas históricas colonialistas. Principalmente se partirmos da premissa que a escrita da história do Brasil privilegiou desde a sua oficialização, com a fundação do IHGB, uma narrativa colonial que desenhou as fronteiras que fixaram os espaços e os papéis dos sujeitos coloniais para construção do Brasil. Os discursos dos historiadores procuravam construir a nação anulando as diferenças e os sujeitos sociais, a fim de trazer coesão a essa “comunidade imaginada”. (Benedict Anderson, 2008).

Palavras-chave


Lei n. 10.639/03; Política de silenciamento historiográfico; Crítica Pós-colonial.

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/2238-3018.2016v22n2p229

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