Chamada para publicação: Volume 19

LITERATURA E IMAGEM

Hoje, é um verdadeiro lugar-comum falar em “civilização da imagem”. Tal expressão referir-se-ia ao período que se inaugura na segunda metade do século XIX, com a invenção da fotografia e, posteriormente, do cinema, e que teria conquistado dimensões gigantescas a partir do século XX, com o surgimento de novas mídias, como a televisão, o videogame, entre outros. No capítulo dedicado à visibilidade, em Seis propostas para o próximo milênio, Italo Calvino [1] vê com desconfiança o bombardeio de imagens a que somos submetidos, uma vez que sua consequência direta seriam a perda da experiência autêntica e a falência do imaginário. Por sua vez, em Imagem tempo, Gilles Deleuze [2] questiona o estatuto dessas imagens: “civilização da imagem? Na verdade uma civilização do clichê, na qual todos os poderes têm interesse em nos encobrir as imagens, não forçosamente em nos encobrir a mesma coisa, mas em encobrir alguma coisa na imagem”.

Os debates em torno da imagem, que têm reunido nomes como Jacques Rancière, Jacques Aumont, W. J. T. Mitchell, Georges Didi-Huberman, e mesmo cineastas como Jean-Luc Godard e Wim Wenders, interessam aos estudos literários na medida em que a própria literatura é criadora de imagens. Não à toa, o cinema tonou-se narrativo ao tomar de empréstimo boa parte da literatura do século XIX, sendo as “adaptações” ou transposições literárias uma constante ao longo da história do cinema. Contudo, um risco comum quando se visa relacionar, por exemplo, cinema e literatura é a crença de uma transposição mecânica entre os meios, isto é, um romance seria mais cinematográfico por apresentar mudanças frequentes de foco narrativo, elipses, ritmo acelerado e uma linguagem mais enxuta, como se a literatura não dispusesse de tais expedientes muito antes do advento do cinematógrafo, e o cinema se reduzisse à forma dominante do cinema clássico.

No tocante à poesia, Octavio Paz [3] afirma que “a imagem [poética] é um recurso desesperado contra o silêncio que nos invade cada vez que tentamos exprimir a terrível experiência que nos rodeia e de nós mesmos”. Aqui, basta recorrermos às imagens suscitadas pela poesia de Federico García Lorca ou de Manoel de Barros. Além disso, como pensar nos caligramas de Appollinaire, na poesia concreta ou mesmo na poesia digital, que articula som, palavra, movimento, forma, imagens etc., se não a partir de um entendimento rigoroso do que seja a imagem?

Pensar a relação imagem e literatura implica considerar tanto a “frase-imagem” de Rancière quanto a imagem poética de Paz, tanto as fotografias em Nadja, de André Breton, em Os anéis de Saturno, de W. G. Sebald, ou em O passado, de Alan Pauls, quanto a materialidade da palavra no cinema de Godard, por exemplo. Aliás, dentro das artes plásticas, essa relação há muito tem inspirado artistas como Barbara Kruger, Jenny Holzer e Joseph Kosuth. Nesse sentido, buscar uma reflexão sobre esses autores e obras é tentar responder à provocação levantada por Hernán Ulm e Adalberto Müller [4] acerca da irredutibilidade entre palavras e imagens, isto é, como medir a fenda incomensurável que existe entre elas?

A Revista Estação Literária abre sua chamada para o vagão 19 convidando pesquisadores e estudiosos a refletir sobre essas questões que envolvem a relação entre literatura e imagem. Serão aceitos artigos que discutam sobre as mais variadas articulações entre palavra e imagem (fotografia, cinema, pintura, entre outros), tanto na literatura brasileira quanto nas literaturas de língua estrangeira. Há também espaço para recebimento de artigos para a seção varia, bem como para resenhas de livros publicados no Brasil nos dois últimos anos, além de textos artísticos para o espaço de criação.

O prazo para submissão de trabalhos é 15 de março de 2017. Os artigos também podem ser enviados para o e-mail: estacaoliteraria@gmail.com.

 

Texto de Gustavo Ramos de Souza

Notas

[1] CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad.: Ivo Barroso. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 107.

[2] DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. Trad.: Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005, p. 32

[3] PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Trad. Olga Savary. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 135.

[4] ULM, Hernán; MÜLLER, Adalberto. A fenda incomensurável: literatura, cinema. Terra Roxa e outras terras, Londrina, v. 29, p. 30-39, dez. 2015, p. 30.