A transposição da oralidade à escrita literária na contemporaneidade: Sefarad (2001) de Antonio Muñoz Molina

Ana Paula de Souza

Resumo


Judeus-sefarditas sobreviventes da perseguição nazista na França ou na Hungria, filhas de comunistas exilados durante a Guerra Civil Espanhola e a ditadura franquista, ex-combatentes da Divisão Azul do exército alemão, exilados das ditaduras da ex-URSS ou da América Latina, migrantes andaluzes radicados em Madri, essas figuras anônimas, personagens da “vida real”, transformam-se em protagonistas do romance Sefarad (2001), do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina (1956). Comportando-se quase que como um historiador oral, ou como um editor de literatura de testimonio latino-americano, o escritor andaluz transpõe à escrita literária as memórias orais a ele confiadas em conversas fortuitas, entrevistas e depoimentos. Sefarad é, portanto, literatura escrita nutrida de oralidade. O objetivo deste artigo é mostrar o processo por meio do qual Muñoz Molina transforma a memória oral em fonte para a escrita literária e os recursos estilísticos que emprega nesse empreendimento. Além disso, interessa-nos discutir qual é a finalidade da transposição dos testemunhos orais à escrita literária e analisar, por meio das considerações metaficcionais do narrador, a postura ética do autor nessa dinâmica de apropriação e recriação do testemunho oral do outro.


Palavras-chave


Testemunho oral. Memória. Antonio Muñoz Molina. Sefarad.

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