A tradição oral apropriada como recurso textual irônico em Dona Guidinha do Paço

Marisa Corrêa Silva

Resumo


Num episódio do extraordinário romance de Manuel de Oliveira Paiva, a personagem Calu narra a Margarida a “História dos cinco muitos”, espécie de narrativa de exemplo e proveito sobre um ex-namorado vingativo que provoca a desgraça de uma jovem ao mentir sobre a condição dela, sendo severamente castigado por Deus. No contexto do romance, essa admoestação toma veios irônicos, uma vez que Calu será, junto com o marido Silveira, a alcoviteira dos amores furtivos de Margarida e Secundino. A partir desse episódio, notamos a presença de outras marcas de oralidade, como letras de baiões e grafias que sugerem tentativa de registro de oralidade ao longo do texto. O contraste entre os escritos (formal, por vezes rígido e frequentemente ocultando segundas intenções) e o registro que busca o oral (informal, ritmicamente sedutor e frequentemente veiculando valores eufóricos) permeia o texto, mas o romance, uma história de traições e de interesses, contamina os significados “positivos” da tradição oral, conferindo-lhe uma leitura permeada de cínico pragmatismo.


Palavras-chave


Dona Guidinha do Poço; ironia; tradição oral; escrita

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