Subúrbio Molotov: criatividade e resistência punk no bairro do Meier, Rio de Janeiro, na década de 1980

Diego Santos Vieira de Jesus

Resumo


O objetivo é examinar como o Meier reuniu condições para o desenvolvimento e a reinvenção do punk carioca no início da década de 1980. O argumento central aponta que, num contexto de entendimento do subúrbio carioca enquanto espaço de releituras criativas de gêneros artísticos nacionais e estrangeiros e de reinvenção dos próprios locais com a redemocratização brasileira, o Meier era um bairro de fácil acesso por jovens que moravam no subúrbio e possuía um local fechado específico que permitia a esses jovens socializarem com outros que tinham os mesmos interesses musicais e as mesmas críticas ao sistema político-econômico e sociocultural, visto por eles como opressor. Apropriando-se da estética e do comportamento rebeldes mas não da violência e os adaptando no processo de reinvenção do punk nacional e carioca, a atuação de bandas punk no Meier – em particular o Coquetel Molotov – serviu de estímulo para a criação de outras bandas que se identificavam com o gênero musical e atraiu jovens que não só adotavam a contestação nas formas de vestir e de agir, mas manifestavam sua crítica à situação de precariedade material em que viviam no Meier e em outros bairros da cidade e do Estado do Rio de Janeiro.

Palavras-chave


Punk; Meier; Rio de Janeiro; Subúrbio; Década de 1980

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1984-3356.2019v12n24p266

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