Recordar é vencer: as dinâmicas e vicissitudes da construção da memória sobre o regime militar brasileiro

Marcos Napolitano

Resumo


Este artigo propõe uma periodização inédita para analisar o processo de construção da memória do regime militar brasileiro. Partindo do princípio que a memória social e a experiência histórica de uma dada sociedade estão conectadas, procuramos analisar a construção de uma “memória mutável” sobre o regime desde os anos 1970 até a primeira década do século XXI. Nossa hipótese central aponta para a existência de uma memória hegemônica, crítica ao regime militar, construída na confluência de setores liberais (críticos dos aspectos autoritários do regime a partir de meados dos anos 1970) com setores das esquerdas, notadamente a esquerda ligada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). A partir destas premissas, procuro esquadrinhar e analisar de maneira mais detalhada, três das quatro fases da memória sobre o regime entre 1974 e 2004.

Palavras-chave


Regime militar: memória e história; Memória: aspectos políticos; Brasil: história e memória

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DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1984-3356.2015v8n15espp9

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