Adoecimento no trabalho, as mulheres na categoria de asseio e limpeza
Cássia Maria Carloto *

            *Doutora em Serviço Social pela PUC-SP. Docente do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina.

 

Resumo: Este trabalho tem como tema o processo de adoecimento das trabalhadoras na categoria de asseio e limpeza, refletindo sobre os procedimentos adotados a partir da visão tradicional em saúde do trabalhador. Subsidiam o trabalho categorias analíticas como gênero, classe e divisão sexual do trabalho, relevantes à medida que contribuem para o entendimento da estruturação das relações sociais e a organização do trabalho e o impacto na saúde das mulheres. As considerações finais apontam como os procedimentos institucionalizados no âmbito da saúde além de não reconhecerem o processo de adoecimento das mulheres relacionado ao trabalho, potencializam o sofrimento e contribuem para a exclusão, através da doença.

Palavras Chaves: gênero e trabalho, saúde da trabalhadora, trabalhadoras do asseio e limpeza.

Diseases in the work, the women in the category of cleanliness and cleaning.

Abstract: This work has as theme the process of the workers' adoecimento in the category of cleanliness and cleaning, thinking about the procedures adopted starting from the traditional vision in the worker's health. They subsidize the work analytical categories as gender, class and sexual division of the work, relevant as they contribute to the understanding of the structuring of the social relationships and the organization of the work and the impact in the women's health. The final considerations appear as the procedures institutionalized in the extent of the health besides they recognize not the process of the women's adoecimento related to the work, they potentiate the suffering and they contribute to the exclusion, through the disease.

Key-words: gender and work, the worker's health, workers of the cleanliness and cleaning.


Introdução 

      A proposta inicial da pesquisa que embasa esse texto era detectar em que medida a legislação e os procedimentos institucionalizados no âmbito de saúde e trabalho não possibilitam o reconhecimento do processo de adoecimento que acomete as mulheres no mundo do trabalho. Os dados foram colhidos a partir de entrevistas semi-estruturadas com diferentes atores envolvidos na atenção saúde do trabalhador (a), observação de grupos de mulheres atendidas em Centro de Referência e Saúde do Trabalhador da cidade de São Paulo e entrevistas com mulheres atendidas nesse Centro. O que verificamos no decorrer da pesquisa mostrou, não só que há uma dinâmica que torna invisíveis as doenças, mas que há também uma dinâmica de exclusão do mundo do trabalho através da doença, pelo modelo de saúde prevalecente, pela legislação, pelo tratamento dado às mulheres, pelos profissionais que as atendem. Esses procedimentos são perpassados pela discriminação de classe e gênero, com uma constante desqualificação das queixas, tratadas como “coisas de mulher”, com atitudes violentas presentes nos exames clínicos. Além de excluir e contribuir para tornar invisíveis os processos de adoecimento, as condições do atendimento e a organização desse atendimento piora a saúde, agravando a doença já existente e aumentando o sofrimento psíquico.

 

A atenção à saúde da trabalhadora

      As práticas institucionais vão engendrando o sofrimento e cronificando patologias nas quais o quesito informação tem um importante papel, assim como os tratamentos inadequados que começam quando a doença já está instalada, não só comprometendo a recuperação da saúde, mas agravando o sofrimento psíquico.

      Há um longo e burocrático caminho a ser percorrido entre o acidente ou a doença, entre o primeiro atendimento, o reconhecimento do nexo causal entre o trabalho e a doença e a concessão de um benefício. Ele seria apenas longo se toda a trajetória transcorresse tranqüilamente e fosse imediata. Se todos fossem atendidos onde deveriam, se os procedimentos fossem rápidos, cumpridos conforme as leis e o/a trabalhador (a) tivessem todas as informações concernentes à legislação trabalhista e previdenciária e soubesse identificar o processo de adoecimento como relacionado ao trabalho. Mas na prática, como demonstrou a pesquisa de campo, esse caminho é não só longo, como tortuoso e ineficiente, aumentando o sofrimento dos trabalhadores e trabalhadoras, principalmente quando se trata de adoecimento e não de acidentes típicos do trabalho. Esse caminho é penoso para homens e mulheres. Mas afeta particularmente as mulheres por serem elas as que apresentam mais sintomas e processos de adoecimento que não se enquadram em acidentes típicos e pelo tratamento discriminatório que recebem.

      O processo de adoecimento das mulheres e sua relação com o trabalho (produtivo/reprodutivo) que já era ocultado e tratado como doença de mulheres sem nexo com a organização do trabalho, estarão duplamente agravados pela conjunção da precariedade do emprego com as formas recentes de intensificação do trabalho impostas pelas novas tecnologias e processos produtivos (Hirata, 1997).

      As reestruturações produtivas e as mudanças que elas acarretam no mercado e na organização do trabalho, no contexto atual da globalização da economia, pouco são analisadas do ponto de vista das diferenças de gênero. Entretanto, os impactos das reestruturações produtivas sobre as condições de trabalho e a saúde sofrem variações segundo o sexo e a mão-de-obra.

      Por meio das pesquisas de Bruschini (1998), constatou-se que mesmo com a ampliação da presença feminina no segmento formal, a participação das mulheres no segmento informal da economia é acentuada. Um número muito mais elevado de mulheres do que homens trabalham em casa. Entre as mulheres que trabalham no domicílio encontram-se tanto as empregadas domésticas quanto as trabalhadoras domiciliares autônomas ou subcontratadas para a indústria, as quais, através da costura, da produção de alimentos e de inúmeras outras atividades informais, contribuem para a renda e o sustento da família.

      O novo modelo de flexibilização, para as mulheres, passa pela utilização intensiva de formas de emprego precárias, como contratos de curta duração, empregos por tempo parcial e/ou trabalho em domicilio. Uma das formas como se manifesta esse fenômeno é a concentração da presença feminina nas chamadas empresas “mão” dos novos encadeamentos produtivos, ou seja, aquelas onde predomina o trabalho instável, pouco qualificado e mal pago, em oposição às empresas “cabeça”, onde se concentraria o trabalho mais bem qualificado, mais estável e mais bem remunerado, (Abramo, 1998).

      As queixas, sintomas e doenças relacionados à situação de trabalho têm crescido muito nos últimos anos. Os processos de adoecimento têm se tornado mais graves devido às condições precárias de trabalho que atingem principalmente as mulheres e que, como foi visto se caracterizam pelos baixos salários, pelo aumento do chamado trabalho informal e em domicilio, pela presença nos serviços terceirizados de asseio e limpeza e pela subcontratação ou contrato por tarefas, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas.

      Por outro lado, a maioria das trabalhadoras nos setores formal está concentrada em atividades que exigem passar muitas horas em posturas imóveis, com movimentos rápidos, precisos e repetitivos, o que produz um grande desgaste do sistema músculo-esquelético. Estão também em ocupações que as deixam mais expostas a compostos químicos que provocam reações tóxicas como problemas respiratórios e alergias. Somam-se a isso o trabalho em alta velocidade em máquinas, o controle computadorizado, as pressões da chefia e o ritmo intenso.

      O resultado é que cada vez mais se depara com um grande quadro de sintomas e doenças como a L.E.R. (Lesão por Esforços Repetitivos), fadiga, depressão, transtornos mentais, problemas gástricos, de surdez, de vista, problemas respiratórios e alergias, além das intoxicações por uso de produtos químicos. Trabalhadoras mais velhas apresentam, em particular, problemas de saúde como artrite e varizes, dores na coluna que podem ser conseqüência do trabalho que realizaram durante anos. Verificou-se que também as mulheres sofrem acidentes de trabalho provocados por queda, como os verificados entre as faxineiras.

      Como observado por profissionais de um Centro de Referencia em Saúde do Trabalhador, do ponto de vista da cronicidade das doenças, são as mulheres que trazem os casos mais graves, já que elas demoram mais a procurar o serviço de saúde e, para reclamar das condições de trabalho.

      Para grande parte das empresas não interessa reconhecer ou modificar a organização do trabalho principalmente no que diz respeito à diminuição e à intensidade dos ritmos e fazer novas contratações para amenizar a sobrecarga de trabalho. Geralmente quando a empregada leva a C.A.T., que é a Comunicação de Acidente de Trabalho fornecida pelo profissional médico, muitas dessas empresas obrigam-na a tirar férias ou, depois da alta médica, demitem-na, o que faz com que muitas funcionárias se recusem a levar a C.A.T. O medo de perder o emprego faz com que suportem o sofrimento até o limite. Além disso, grande parte das pequenas e micro empresas não cumpre a legislação quanto às normas minimamente necessárias de higiene e segurança do trabalho.

      Os depoimentos mostraram como as empresas podem se utilizar do desconhecimento das trabalhadoras e de seu medo de perder o emprego, para burlar a lei e não assumir a responsabilidade pelo processo de adoecimento, situação que envolve, muitas vezes, os convênios e os médicos das empresas, mesmo em casos, nos quais já há, pela legislação, reconhecimento formal e legal de nexo entre o tipo de trabalho e a doença.

      Uma questão que não se pode deixar de comentar é a do trabalho doméstico. Esse permanece ignorado tanto como trabalho quanto como uma variável que provoca adoecimento nas mulheres, principalmente dentro do que é caracterizado como jornada extensa e dificilmente se pode compreender o significado do trabalho feminino se não se tem em conta à situação de dupla jornada. É importante destacar que a esfera do doméstico não se refere "apenas" às tarefas de cozinhar, lavar, passar e limpar. Outras atividades de relevância social assumida pelas mulheres são as relativas aos cuidados com os enfermos, incluindo-se desde a ida aos serviços como os cuidados com as crianças, a representação da família em diferentes instâncias e instituições (escola, igreja...). Todo este trabalho deve ser conciliado com o trabalho remunerado, contribuindo para o sofrimento físico e psíquico. Esse espaço, o da economia doméstica, não pode ficar dissociado do espaço do trabalho remunerado, quando se estudam as origens e sintomas das doenças e de como elas se relacionam ao trabalho das mulheres, remunerado e/ou doméstico.

      E aqui é preciso tomar cuidado para não cair numa armadilha. É preciso tomar cuidado com a relação que se faz entre dupla jornada de trabalho das mulheres e seu processo de adoecimento. A dupla jornada contribui pela sobrecarga de trabalho para o agravamento das doenças, mas estas surgem, fundamentalmente, em razão das condições de trabalho. Há inúmeros casos de LER entre mulheres que não possuem afazeres domésticos. Há exemplos também de homens que adquirem LER, quando submetidos às mesmas condições de trabalho que provocaram LER em mulheres.

      A dupla jornada tem sido usada, como visto nos depoimentos, para descaracterizar o nexo entre trabalho e doença das mulheres, reforçando dois aspectos: um é que o trabalho doméstico não é trabalho e, dois, que o trabalho feito fora de casa é leve e sem riscos. Fica a idéia de que é a sobrecarga que adoece o que torna invisíveis as condições de trabalho.

Brito (1999:165) chama a atenção para o fato de que

a invisibilidade das experiências femininas é engendrada também por outros fatores, como a idéia de que ocupam postos adequados à sua natureza. Se alguns autores defendem a idéia de que as mulheres são qualificadas no âmbito da reprodução para as atividades desempenhadas na fábrica, procuro ressaltar que isso envolve custo físico, mental para as trabalhadoras. Os lugares destinados às operárias são prescritivos, exigindo-lhes esforços e adequação ao perfil previsto .

      O resultado desta concepção é a naturalização das causas do adoecimento ou como em muitos casos, sua subestimação e seu desprezo. As mulheres costumam escutar coisas do tipo “isto não é nada, imagine isso é problema de casa, de lavar roupa, louça e tal, de dona de casa, não tem nada a ver com o trabalho”. Muitas vezes, interessa considerar as mulheres como mais fracas e estereotipá-las como donas de casa e não como trabalhadoras, excluindo-as dos estudos sobre doenças ocupacionais.

      Articulado a isto há a imagem da trabalhadora que faz corpo mole, que quer encostar “na caixa”, como dizem. Também é bastante presente a idéia das mulheres como poliqueixosas e que têm “chilique”.

      A mesma matriz discursiva com base na naturalização das atribuições femininas opera no sentido de estruturar a organização do processo de produção e de excluir as mulheres em razão da morbidade decorrente das condições de trabalho. Por tratar-se de mulheres, as causas serão buscadas na biologia e se apoiarão nas imagens pelas quais os trabalhos desempenhados pelas mulheres são considerados sem riscos e leves.

      O modelo prevalecente na abordagem sobre saúde e trabalho, nos espaços institucionais, como foi diversas vezes reiterado, restringe-se ao mercado formal, privilegiando determinadas atividades industriais, caracterizados pelos riscos químicos, físicos, mecânicos e biológicos. Há poucas doenças relacionadas às condições de trabalho e só interessa, para fins de estabelecimento do nexo causal, a atividade desenvolvida no momento.

      A medicina do trabalho usa o termo risco para dar conta dos elementos presentes no local de trabalho que podem prejudicar o corpo. Para que exista risco é preciso que exista uma causa no ambiente de trabalho que provoque danos no organismo. A trabalhadora tem que provar e demonstrar ao profissional médico, que o que ela tem foi provocado unicamente pelo ambiente de trabalho. É o nexo causal. Essa concepção entende trabalho como sinônimo de emprego remunerado, em que são realizadas atividades dentro de uma empresa com horário fixo e carteira assinada. Além disso, considera o trabalho como um processo puramente técnico, o que acaba por reduzir as possibilidades de investigação e intervenção na relação saúde e trabalho.

      Dentro dessa visão são considerados como riscos: os relacionados à segurança das instalações no ambiente de trabalho, tipo de equipamentos, máquinas, ferramentas e os riscos para o sistema musculares esqueléticos derivados dos esforços e posturas de trabalho. São considerados também como riscos à exposição a alguns elementos químicos, que após matarem ou inutilizarem vários trabalhadores, passa a ser reconhecidos como risco como, por exemplo, o mercúrio, o benzeno.

      As doenças são reduzidas a conseqüências de falhas técnicas, a acidentes de trabalho e a doenças profissionais específicas em casos em que é impossível negar a relação com o ambiente de trabalho. Há poucas doenças relacionadas às condições de trabalho e só interessa, para fins de estabelecimento do nexo causal, a atividade desenvolvida no momento.

      A aplicação de modelos de análises mono causais prevalecentes na abordagem tradicional da medicina ocupacional cria dificuldades para o estabelecimento do nexo causal em favor das trabalhadoras com contratos eventuais, situação predominante no trabalho terceirizado. A contratação eventual permite uma grande rotatividade da mão de obra, com exposição a riscos variados em locais que mudam constantemente.

      Esse modelo não considera todo o processo de desgaste que a trabalhadora foi sofrendo ao longo de uma vida de trabalho, construída desde a infância num percurso marcado pela desqualificação, transitando por trabalhos precários, no âmbito formal e informal, conforme a condição familiar e, como constatado, conforme sua condição de saúde e adoecimento, sem nenhum acesso a direitos sociais, como mostrou o exemplo das faxineiras. Essas ficaram muito tempo no trabalho informal, como empregadas domésticas, ingressando no trabalho formal através da terceirização, numa idade mais avançada.

      Articulado a esse modelo há o modelo previdenciário securitário que atrela o direito aos benefícios à possibilidade de contribuição com o seguro. Como já relatado, os procedimentos legais vigentes dizem respeito apenas aos acidentes de trabalho e às doenças profissionais incluídas e listadas pelo Ministério da Previdência e Assistência Social, contemplando somente os trabalhadores registrados, com vínculo empregatício e contribuinte da Previdência Social.

      Mas como constatado, mesmo quando há amparo legal, a procura por tratamento e benefícios a que as trabalhadoras e também os trabalhadores têm direitos é um caminho penoso e longo. Ao se tentar desvendar esses caminhos, verifica-se que as trabalhadoras já chegam doentes ao serviço, uma grande parte desempregada, desemprego esse, muitas vezes, provocado pela própria doença.

      A trabalhadora adoece no trabalho, continua trabalhando até o limite por medo de perder o emprego, principalmente quando é chefe de família, nas famílias mais pobres. Geralmente quando procura o médico na empresa ou no convênio, não há o reconhecimento do nexo da doença com o trabalho. Muitas são demitidas quando voltam de férias, tiradas para tratamento. Aí já está muito doente como foi visto nos casos das portadoras de LER e não encontrando nova ocupação, começam a “fazer bicos” como faxineiras, mas a dor as impede de trabalhar. Na situação de desemprego, sem recolher o INSS, não têm direitos a benefícios. Procuram novamente uma instituição para tratamento ou para ver se conseguem receber algum benefício.

 

“Para as mulheres, e aqui se está falando das classes populares, não se trata de evitar a doença, o problema é domesticá-la, contê-la, controlá-la, viver com ela. As mulheres, dizem, são todas doentes, mas essas doenças são de alguma maneira, mantida à distância pelo desprezo. Somente são reconhecidas aquelas que se exprimem por sintomas muito evidentes, que signifique uma síndrome deficitária grave. Para que uma doença seja reconhecida, para que se resigne a consultar um médico, para que se aceite ir ao hospital, é preciso que a doença tenha atingido uma gravidade tal que ela impeça a continuidade seja da atividade profissional, no caso dos homens, seja nas atividades domésticas e familiares, no caso das mulheres" (Dejours, 1987:30).

      Essas condições agravam ou desencadeiam o sofrimento psíquico. Aparecem a angústia e a ansiedade, o sentimento de impotência e humilhação diante da impossibilidade de trabalhar, pela incapacidade adquirida através do adoecimento. Sentimentos gerados não só por não poder sustentar os filhos, mas também pela interrupção de um projeto de vida, no qual o trabalho é elemento fundamental para autonomia. O sofrimento também é potencializado pela ineficácia dos tratamentos, pela falta de conhecimento sobre a doença, já que quase nada é explicado a ela; pelas idas e vindas a consultas, exames, perícias; pela violência e descaso com que são tratadas; por um futuro marcado pela exclusão. É o sofrimento ético-político apontado por Sawaia (1999).

 

A trabalhadora do asseio e limpeza

      No trabalho formal, no âmbito do chamado trabalho produtivo das empresas ligadas à produção de bens materiais, e nas empresas prestadoras de serviço, o trabalho de faxina e limpeza é o mais desqualificado, o mais mal pago, enfim o mais precarizado. É também o mais identificado com o trabalho doméstico, com as atribuições femininas neste âmbito, aliado ao fato de serem as trabalhadoras mais pobres que estão nestas ocupações.

      Cavalcante Júnior (1997) mostra que em pesquisa realizada pela empresa de Consultoria Coopers & Librand, em 127 empresas, 76% delas haviam terceirizado alguma atividade, sendo que a limpeza foi a mais terceirizada (93,3%).

      São trabalhos considerados precários, por serem instáveis e por apresentarem condições também precárias quanto á qualificação e categorização do emprego, remuneração, ambiente físico e clima psicológico, e, portanto, adversas à saúde do trabalhador.

      A partir dos anos 70, o processo de terceirização [1] ocorreu tanto nas funções periféricas das empresas como também em atividades estratégicas. São requisitadas empresas “especializadas” para intervir simultaneamente no processo produtivo, configurando a flexibilização do trabalho. São as mulheres, que vão estar nas atividades mais desqualificadas desse processo, executando trabalho de faxina contratado por empresas privadas ou públicas.

      Esse novo tipo de organização facilitou a externalização dos riscos de trabalho, ou seja, o deslocamento dos riscos para as empresas subcontratadas. Estabelece-se, assim, a flexibilidade da produção, que tem sempre um caráter de provisoriedade na relação contratual entre a empresa “chefe” e as empreiteiras, cujas condições reduzem aos limites máximos os custos do trabalho e de segurança. Há um processo de individualização dos riscos sofridos nos setores terceirizados e para os efeitos sinérgicos que tais situações de acúmulo de riscos poderão ter em relação ao possível desenvolvimento das doenças.

      O processo de terceirização traz vários danos e várias derrotas com relação às conquistas de direitos no campo do trabalho e saúde, conforme comprova a analise feita por Oliveira (1993) a partir de pesquisa desenvolvida pelo Dieese [2]. Nessa análise, em 72,5% dos casos os benefícios sociais dos trabalhadores das terceiras contratadas são menores que os vigentes na empresa cliente. As condições ambientais e de segurança são outro aspecto apontado: em 32% dos casos há ausência de equipamentos de proteção individual, assim como maior insalubridade nos locais de trabalho. Em alguns casos observou-se que os trabalhadores terceiros cumprem jornadas de trabalho mais extensas, possuem maior grau de desqualificação e são contratados ilegalmente, ou seja, sem registro em carteira profissional.

      Há conseqüências também no que tange à organização sindical: as (os) trabalhadoras (es) terceirizados ficam dispersos e segmentados ou migram para categorias muitas vezes sem organização sindical. Por sua vez, os sindicatos encontram dificuldades em atuar nos locais de trabalho em razão da dispersão das(dos) trabalhadoras(es) em inúmeras empresas, representando muitas vezes setores e ramos diferentes.

      Essas trabalhadoras estão expostas a riscos de diferentes ordens, apresentando queixas variadas e não só as que afetam o sistema musculo-esquelético, vivendo inclusive situações mais presentes entre os trabalhadores, como os acidentes de trabalho e, por exemplo, a surdez·.

      Existe uma demanda grande de mulheres que trabalham na área da limpeza. São mulheres com idade entre 30 e 50 anos, e que trazem muitos problemas de saúde que se juntam os outros problemas, como menopausa. As queixas predominantes são de tendinite, dores na coluna, porque pegam peso, sobem escadas. As tendinites ocorrem porque elas usam máquinas grandes de lavar e tem de fazer força e muitos movimentos.

      Se já é difícil caracterizar os processos de adoecimento relacionados ao trabalho nas atividades reconhecidas como “da produção”, como por exemplo, a atividade de trabalhadoras da linha de montagem, torna-se quase impossível reconhecer esse processo em ocupações como as de faxineira e auxiliar de limpeza, mesmo se realizados dentro de empresas.

      Brito (1999), comentando sobre o trabalho em lavanderia de uma empresa, nos diz que a concepção de que é função feminina a limpeza e o cuidado com as roupas, a semelhança do trabalho profissional da lavanderia com o doméstico e o status de mulheres pobres, são fatores que servem para naturalizar o trabalho. Além disso, como as trabalhadoras estão em funções periféricas e não no núcleo do processo produtivo, a possibilidade de exposição a riscos é menos evidente.

      Para Minayo-Gomez e Thedim-Costa (1997), é difícil identificar doenças originadas no trabalho, sobretudo quando se intensifica a terceirização. A passagem por processos produtivos diversos pode mascarar nexos causais e diluir a possibilidade de estabelecê-los, excetuando-se os mais evidentes. Como freqüentemente as doenças originadas no trabalho são percebidas em estágios avançados, até porque muitas delas, em suas fases iniciais, apresentam sintomas comuns a outras patologias, torna-se difícil identificar os processos que a geraram, pois são bem mais amplos que a mera exposição a um agente exclusivo, e no caso das mulheres, acrescento também o fator relacionado à idade com que começam a trabalhar.

      Dados coletados no Convênio de Saúde que o Sindicato de Asseio e Limpeza mantém em São Paulo (1998), mostram que só se reconhece como relacionado ao trabalho, os acidentes típicos. Os dados mostram também que 60% dos(as) trabalhadores(as) que comparecem ao convênio são mulheres, predominantemente da faixa dos 40 anos. Quanto às queixas, as principais mencionadas referem-se a problemas de: coluna, hipertensão, dermatites, dor de cabeça, depressão, gripes, reumatismos, dor nos ossos, varizes, leucorreia. Há também queixas de: depressão, ansiedade, nervosismo. Indagado sobre as causas destas queixas são mencionados fatores como: condição socioeconômica, analfabetismo, falta de informação, falta de prevenção, ou seja, a “culpa” é da trabalhadora. Em nenhum momento as queixas são relacionadas as condições de trabalho e, só se emite CAT, quando há acidente de trabalho. A indefinição de causas apontada por Minayo-Gomez & Thedim Costa (1997), traz uma discussão importante, qual seja, como isto repercute nas trabalhadoras. A indefinição das causas que provocam adoecimento, a não relação às situações concretas ou riscos evidentes, contribui para que a própria trabalhadora muitas vezes culpe a si mesma, ao seu corpo, ou atribua as doenças a desgastes que ela considera naturais, como por exemplo, a idade.

      As atividades realizadas pelas faxineiras, evidenciam o quanto é falsa e discriminatória a idéia de que o trabalho das mulheres é leve e sem riscos. Messing, Seifert e Gonzalez (1998), constataram que muitos especialistas pensam que o trabalho das mulheres é relativamente fácil e sem riscos, o chamado trabalho leve, e que a saúde da mulher está relativamente bem protegida por sua exclusão dos trabalhos difíceis e perigosos e que, de todas as maneiras, o trabalho é um aspecto relativamente menor e sem importância em sua vida.

      Uma situação bastante comum é, por exemplo, o carregamento de cargas, o chamado trabalho pesado, tão invisível no trabalho das mulheres, e sempre presente nos trabalhos desqualificados, nos chamados trabalhos “sujos”.

      Problemas de coluna, hérnia de disco, queixas bastantes presentes entre as faxineiras, podem estar associadas ao trabalho pesado, ao carregamento de cargas como sacos de lixos e produtos de limpeza, as posturas associadas ao varrer, lavar chão e janelas. Messing (1999) ao criticar a falsa visão do trabalho leve das mulheres, ao falar das professoras de creches, que tomam nos braços as crianças, as garçonetes que carregam bandejas cheias e diz que estas trabalhadoras provavelmente “não carregam pesos” como os estivadores do porto. Ao fim da jornada, porém o peso total carregado nesse trabalho é provavelmente muito semelhante. Podemos dizer que ao fim da jornada, as faxineiras também carregaram peso suficiente para afetar-lhes a saúde.

      Os relatos das trabalhadoras apontam para outras situações, como por exemplo, os horários atípicos. Os trabalhos de faxina nas grandes empresas geralmente são feitos em horários de pouco ou nenhum movimento quando o conjunto dos trabalhadores e os usuários estão em descanso. Elas relatam que entram às quatro horas da manhã ou trabalham no turno noturno, e isso interfere no sono, trazendo problemas à saúde. Ademais se deve considerar que, essas trabalhadoras que acordam cedo foram dormir tarde porque tem que dar conta do trabalho doméstico e que quem trabalha à noite, pouco dormiu durante o dia, pelo mesmo motivo. Neste caso a jornada doméstica é sempre tida como responsável pelo adoecimento, descaracterizando-se o nexo entre ambiente formal e doença.

      Outra situação de risco verificada é a presença significativa de quedas e acidentes no trabalho. São quedas e acidentes ocasionados pelas condições e organização do trabalho que nas queixas trazidas ao Centro de Referencia totalizaram 28%.

      As falas mostram que a trabalhadora está a muitos anos neste tipo de trabalho, o que minimamente deveria levar o profissional a, no mínimo considerar está variável como desgaste devido ao trabalho. Aqui o que entra como obstáculo é que essas mulheres trabalharam muitos anos como faxineiras, como domésticas em casas de famílias, ou seja, no trabalho informal, sem registro em carteira. Elas começaram a trabalhar registrada há poucos anos. Elas fazem o percurso típico já mencionado pelas trabalhadoras sem nenhuma qualificação ou escolaridade: transitam nos trabalhos precários, no âmbito formal e informal, conforme a condição familiar e, como estamos constatando, conforme a condição de saúde, ou melhor, de doença, sem nenhum acesso a direitos sociais.

      O emprego doméstico, “em casa de família”, parece fazer parte da trajetória de quase todas as mulheres que estão na faxina terceirizada. Se no plano trabalhista, as empregadas domésticas ainda brigam para ter os mesmo direitos dos demais trabalhadores regidos pela C.L.T., já tendo conquistado alguns deles, no plano da legislação previdenciária (saúde e trabalho) elas estão completamente desprovida de direitos, por não haver recolhimento de caráter securitário. Além disso, o MPAS, não reconhece o trabalho doméstico como trabalho que oferece riscos à saúde. Na relação ou lista do MPAS de doenças profissionais ou do trabalho, aparece “traço” na coluna, que deveria indicar o grau de risco da atividade trabalho doméstico.

 

Considerações finais

      Para encerrar estas considerações, cabe afirmar que o processo de saúde e doença no trabalho, deve ser entendido dentro de um princípio de integralidade, onde o adoecimento não é provocado puramente por fatores biológicos individuais, mas sim mediado e contextualizado segundo as práticas sociais organizadas a partir de uma divisão social e sexual do trabalho, dentro de uma dada organização do mundo do trabalho.

      Não podemos também universalizar a partir desta análise, o “ser mulher trabalhadora”, nem o “processo de adoecimento das mulheres no mundo do trabalho”, embora as reflexões, resultantes possam ser generalizáveis enquanto possibilidades.

O       “ser mulher”, como afirma Lauretis (1994:207), não pode ser tratado simplesmente como a diferença do “ser homem” (ambos como universais), pois isto dificulta ou torna impossível, articular as diferenças entre mulheres e Mulher, “isto é, a diferença entre as mulheres ou, talvez mais exatamente, as diferenças nas mulheres”. O mesmo argumento se coloca para o “ser mulher trabalhadora”. Existem diferenças entre o tipo de trabalho, a qualificação e os salários entre as mulheres conforme sua classe e raça, embora pela condição de pertencer ao gênero feminino, seus salários, sua qualificação tenha sempre diferenças em relação aos homens da mesma classe, com raras exceções.

      A relação entre saúde e trabalho traz, de forma intrínseca, as dimensões teóricas e política. Entre os desafios colocados, estão os de visibilizar as conseqüências do enfoque biologicista com claro viés político e ideológico presente no modelo hegemônico no campo da Medicina do Trabalho, para a morbidade das mulheres relacionadas à atividade trabalho. É fundamental, também, construir indicadores que contribuam para a investigação do impacto do trabalho na saúde das mulheres, levando-se em conta sua história de trabalho e as condições em que são realizados. Não se pode deixar de incorporar também a noção de desgaste e permitindo, assim, tornar relevante o trabalho doméstico, a violência sexual, os baixos salários, a humilhação no ambiente de trabalho como fatores de adoecimento.

      O trabalho para homens e mulheres, por fim, não devem ser sinônimo de desgaste, doença, exploração e dominação, mas sim o exercício de criatividade, auto-realização e bem-estar, como elemento que contribui para a saúde. Por outro lado, o modelo de assistência à saúde de trabalhadores e trabalhadoras não deve submeter-se à lógica do capital, nem a padrões discriminatórios de gênero, classe e raça.

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NOTAS

[1] Conforme Cavalcante Junior (1996: 71) terceirização “é um neologismo cunhado a partir da palavra terceiro, entendido como intermediário, interveniente, que, na linguagem empresarial, ficou conhecido como uma técnica de administração através da qual se interpõe um terceiro, geralmente uma empresa, na relação de trabalho típico (empregador versus empregado)”.

[2] DIEESE-Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos-Os Trabalhadores frente à terceirização – São Paulo, 1993.

 

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