HISTÓRIA ORAL: MIÚDAS CONSIDERAÇÕES PARA A PESQUISA EM SERVIÇO SOCIAL
Latif A. Cassab *
* Graduada, Mestre e Doutora em Serviço Social. Docente e Pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina/PR, Departamento de Serviço Social. E-mail latif_cassab@yahoo.com.br

 

RESUMO: Este artigo discute alguns aspectos éticos que envolvem a produção de conhecimento, apoiado em narrativas orais, para a área de pesquisa em Serviço Social.
Palavras chaves: História oral; pesquisa em serviço social.. 


 Introdução

O objetivo deste trabalho é discorrer, sucintamente, sobre a História Oral e alguns aspectos éticos que envolvem a produção de conhecimento, apoiado em narrativas orais, para a área de pesquisa em Serviço Social. Inúmeros campos do saber dela se apropriam, como meio de algo se conhecer. Assim sendo, não possui estatuto independente e não pertence a uma área exclusiva de conhecimento mas, presta-se a diversas abordagens em campo pluridisciplinar.

No Brasil como em diversos outros países, a História Oral é a metodologia que mais se expandiu nas últimas décadas, possivelmente pela difusão do uso do gravador como também pelo grande volume de pesquisas sobre o tempo presente.

A História Oral, como metodologia de pesquisa, se ocupa em conhecer e aprofundar conhecimentos sobre determinada realidade – os padrões culturais – estruturas sociais e processos históricos, obtidos através de conversas com pessoas, relatos orais, que, ao focalizarem suas lembranças pessoais, constroem também uma visão mais concreta da dinâmica de funcionamento e das várias etapas da trajetória do grupo social ao qual pertencem, ponderando esses fatos pela sua importância em suas vidas.

Nas belas palavras de Ferrarotti,

(...) cada vida individual, todas las vidas individuales, son documentos de una humanidad más amplia con sus discontinuidades históricas. El hilo que une estos mosaicos biográficos, singulares o colectivos, en sus diferentes perspectivas, es la articulación del tiempo recogida en su doble aspecto de experiencia individual y colectiva, de los momentos que se integran recíprocamente. (Ferrarotti, 1.993:, p 183)

 

Assim posto, possibilita que indivíduos pertencentes a segmentos sociais, geralmente excluídos, possam ser ouvidos e terem registrado suas próprias visões de mundo e aquela do grupo social a que pertencem. Considerando que a classe hegemônica tem na escrita o seu marco essencial, o seu suporte para contar sua história, enquanto não oferece à classe não hegemônica, as mesmas condições para desenvolver o dom da escrita e contar sobre sua vida.

 

Miúdos fundamentos sobre a metodologia de História Oral

O uso da metodologia da História Oral tem como base um projeto de pesquisa e objetivos de trabalho que orientem a pesquisa – a escolha do assunto, dos sujeitos, a seleção e procedimento das entrevistas, as formas de apresentá-las e a edição do texto, visando ou não a publicação.

Neste fazer, as narrativas orais constituem-se na principal fonte de pesquisa, às quais permitem, em situação de entrevista, a aquisição da coleta de dados. Importante, que tal condição, não exime a História Oral a consultas de outros suportes de pesquisa, sobre o tema em estudo.

A escrita e as narrativas orais não são fontes excludentes entre si, mas complementam-se mutuamente, encerrando cada uma, características e funções específicas, bem como a exigência em requererem instrumentos interpretativos próprios. As fontes orais não são meros sustentáculos das formas escritas tradicionais, pois são diferentes em sua constituição interna e utilidade inerente, apesar de muitas das fontes escritas estarem baseadas nas fontes orais como também, muito das fontes orais modernas estarem saturadas de escrita As fontes escritas permitem emitir um determinado conteúdo, enquanto as fontes orais se caracterizam pela transmissão de conteúdos. [1]

Para a História Oral, a narrativa constitui sua matéria prima.

O narrador que conta sua história, seu relato ou dá seu depoimento de vida, não se constitui, ele próprio, no objeto de estudo, mas sim seus relatos de vida, sua realidade vivida, apresentando subjetivamente os eventos vistos sob seu prisma e o crivo perceptivo, possibilitando conhecer as relações sociais e as dinâmicas que se inserem ao objeto de estudo.

Assim, “(...) busca-se versões dos fatos, pressupondo a existência de lacunas espaciais e temporais e aceitando a subjetividade implícita no relato, tanto da parte do narrador, quanto do pesquisador que procede a sua coleta.”[2]

A peculiaridade da fonte oral reside na riqueza oferecida pela rede de signos, sentimentos, significados e emoções, expressa pelo narrador ao pesquisador, em forma de dados coligidos, expressando em si mesma, tanto abundância como qualidade. Revela-se – quando o pesquisador permite – que se apreenda seus significados e conotações, sejam pelo tom, ritmo e volume imprimidos pelo narrador, os quais, muitas vezes, não são expostos na forma escrita.

Muitas vezes, as narrativas orais

(...) mostram-se contraditórias, conforme a entonação conferida pelo relator, principalmente quando há observância rígida das regras e lógicas gramaticais, sem se atentar para o teor emocional existentes nos conteúdos das narrativas, quanto a velocidade, pausa, pontuação, intenção, mudanças de discursos e oscilações, que se desvelam mais pelo ato de ouvir, que de escrever. (Portelli, 1.997, p. 28)

No entanto, não considerar tais elementos implica em

(...) equalizar o conteúdo emocional das narrativas ao nível da objetividade das fontes escritas, desconsiderando o fator primordial da subjetividade do expositor das fontes orais, pois estas não são objetivas, cujas características essenciais incidem em serem artificiais, variáveis e parciais. Fontes orais contam-nos o lado psicológico emocional do povo, quanto não só ao que fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez. (Portelli, 1.997, p. 31)

 

O que pressupõe que ‘o movimento’ contido nas fontes orais, permite contar mais sobre os significados, que sobre os eventos, expressando grande diferença em relação a escrita padrão, utilizada em textos normalmente objetivos e estáticos.

As fontes orais podem apresentar-se como histórias orais de vida, relatos orais de vida e depoimentos orais. As duas primeiras formas referem-se a situações em que o próprio narrador referencia sua vida e experiência. Na outra, o narrador informa fatos ou informações que detém, presenciados por ele.

Segundo Lang (1.996, p. 34),

(...) a história oral de vida é o relato de um narrador sobre sua existência através do tempo. Os acontecimentos vivenciados são relatados, experiências e valores transmitidos, a par dos fatos da vida pessoal. Através da narrativa de uma história de vida, se delineiam as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, da sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar.

É preciso considerar que,

O relato de uma vida, de parte de uma vida, ou mesmo o depoimento sobre um fato, não significam tão somente a perspectiva do indivíduo, pois esta é informada pelo grupo desde os primórdios do processo de socialização. A versão do indivíduo tem portanto um conteúdo marcado pelo coletivo ao lado certamente de aspectos decorrentes de peculiaridades individuais. (Lang, 1.996, p. 45)

 

E ainda, que neste processo, a vida não pode ser totalmente revisitada, é necessário fazer uma seleção, determinada pelo narrador, envolvendo seu rememorar. O relato oral de vida é uma forma menos ampla e livre, apesar da liberdade dada ao narrador para expor determinados aspectos de sua vida, porém solicita-se que o mesmo dirija seu relato aos interesses do pesquisador. Desta forma, o processo seletivo é maior, envolvendo narrador e pesquisador, atuando ambos na própria condução da entrevista.

O depoimento oral é uma forma mais diversa das outras apresentadas. Busca-se obter dados informativos e factuais, através de referências mais diretas ao objeto estudado. No depoimento, o narrador presta testemunho de sua vivência em determinadas situações ou, de sua participação em determinadas instituições que o pesquisador queira estudar.

A coleta dos dados orais é realizada pela entrevista, ou seja, através de uma conversa entre narrador e pesquisador. Não se busca a uniformidade absoluta, “(...) a padronização dos relatos, mas a riqueza que cada entrevistado tem a contar – riqueza que não se traduz na extensão das falas, mas às vezes na citação de um fato desconhecido, na descrição de um fato corriqueiro.”[3]

A metodologia da História Oral possibilita ao entrevistador, romper a clausura acadêmica que transforma a entrevista em simples suporte documental, na pesquisa social e histórica, propiciando à mesma desvelar,

(...) a riqueza inesgotável do depoimento oral em si mesmo, como fonte não apenas informativa, mas, sobretudo, como instrumento de compreensão mais ampla e globalizante do significado da ação humana; de suas relações com a sociedade organizada, com as redes de sociabilidade, com o poder e o contrapoder existentes, e com os processos macroculturais que constituem o ambiente dentro do qual se movem os atores e os personagens deste grande drama ininterrupto – sempre mal decifrado – que é a História Humana.” (Albertini, 1.990, p. VIII)

Os conteúdos obtidos são resultado de uma situação de encontro, entre seres humanos, conscientes da objetividade do encontro e também de sua subjetividade.

Neste encontro, a entrevista ganha maior dimensão, quando há real parceria entre entrevistador e entrevistado, possibilitando a ambos, construírem uma relação de adesão ao processo de questionamentos, compreensão, críticas e, por fim, reconstituição do objeto da pesquisa, sendo o resultado, fruto desta relação social.

A própria dinâmica da entrevista permite que ambos sujeitos investiguem-se mutuamente, aproximem-se e conheçam se, possibilitando desvelarem suas visões de mundo e relações de poder, as quais nunca são unidirecionais, mas dialéticas, estando presentes as categorias poder, igualdade e diversidade.

Assim, nas entrevistas é importante a postura ‘aberta’ do pesquisador e seu modo de formular as questões, em momentos ‘certos’, o que depende, não somente de sua experiência mas dos conhecimentos acumulados ao longo do processo da pesquisa.

Nesse sentido, não se pode estabelecer um roteiro rígido, único, a ser seguido em várias entrevistas, pois em cada uma delas novas informações e conhecimentos são acrescidos. “É um processo acumulativo, que resulta da escuta atenta e da reflexão sobre as informações que vão sendo coletadas, e que implicam em novos questionamentos nas entrevistas subsequentes”.[4] Entretanto, embora se deva deixar o narrador livre para falar o que quiser, é necessário aprofundar determinados aspectos, relevantes para a pesquisa, que vão surgindo no decorrer da entrevista.

Um aspecto importante que se coloca neste fazer refere-se a ‘marca pessoal’ consignada pelo pesquisador, em sua relação com o narrador, imprimindo singularidade a cada entrevista, resultado dessa interação. Assim, deve-se considerar a especificidade deste material, quando posteriormente lido.

A proposição das questões a serem estudadas, a coleta e a análise dos dados, dependerá em grande parte do grau de assimilação crítica das teorias, eleitas previamente pelo pesquisador, sobre os conjuntos de abstrações que devem ser realizados no decorrer do trabalho.

A coleta de uma história de vida, de um relato de vida ou mesmo de um depoimento oral, se traduz, também, em uma ocasião em que o entrevistado reflete sobre sua vida, sobre sua trajetória, antes mesmo da realização da entrevista.[5]. Percebe-se, neste processo, que “(...) a verdadeira imagem do passado perpassa veloz”, e que o passado “só se deixa ficar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.”[6]

Após a coleta, as narrativas orais devem ser transcritas, em seguida, realizar um fichamento detalhado dos relatos obtidos com as entrevistas, seja em conjunto ou isoladamente, relacionado-as a outros tipos de material com os quais se trabalha, ou seja, os relatos orais e os textos escritos e as relações que se estabelecem entre si. A importância deste fazer é que o material escrito permite

(...) ao pesquisador um novo tipo de trabalho, a consciência de que durante a pesquisa, estará trabalhando com dois materiais distintos: as memórias faladas, que o pesquisador registra em sua própria memória, e que até inconscientemente estão presentes durante a análise, e o material escrito, que lhe exige novas atenções. Se as entrevistas faladas são ricas e cheias de elementos novos que vão se apresentando às vezes aos poucos, à medida que se escuta várias vezes cada gravação, o material transcrito, por outro lado permite uma visão de conjunto e um trabalho com as memórias de forma mais dinâmica.  (Demartini, 1.992, p. 54)

Tal condição possibilita a visualização simultânea do conjunto das entrevistas, permitindo assim, identificar as diversas informações prestadas sobre um mesmo assunto, o que se torna praticamente impossível somente com as gravações.

Mas a dialética entre os dois tipos de registros – o escrito e o oral – parece existir durante toda a pesquisa, e acreditamos que seja fundamental; o pesquisador, mesmo ao trabalhar apenas com o material escrito está constantemente utilizando as imagens que ele próprio registrou em sua mente, e que, embora às vezes incompletas, lhes permitem estabelecer a todo momento a ligação entre uma informação particular dada por um informante, e o contexto todo do qual ela foi tirada. (Demartini, 1.992, p. 54)

A escolha da técnica a aplicar, resulta em formas específicas de captação dos dados, e estes dados devem corresponder ao objetivo a se alcançar, ou seja, a elaboração do documento oral específico que venha a subsidiar o documento da pesquisa.

Durante todo o processo de coleta, ou seja, em todas as fases da investigação, a reflexão e análise se fazem presentes, concomitantes, propiciando a cada entrevista, singularidade e possibilidades de alterações do processo de captação dos dados. A atitude de reflexão é intrínseca ao processo da pesquisa, proporcionando que as dúvidas sejam esclarecidas e outras suscitem; que as certezas sejam reafirmadas e outras colocadas em dúvidas, configurando-se em um movimento dialético e que, por sua vez, faz parte da metodologia da História Oral.

Segundo Bertaux (1.980, p. 213-214), a análise se realiza ao longo da pesquisa, consistindo em construir progressivamente uma ‘representação’ do objeto sociológico.

É na escolha dos informantes, na transformação do questionamento de um informante a outro, no hábito de descobrir indícios de processos até então não percebidos e de organizar os elementos de informação em uma representação coerente, que se mostra a qualidade da análise. Quando a representação se estabiliza, a análise está terminada.

 Enfatiza ainda que, é no 'aprroach' do material coletado que se consegue conhecer o nível das relações sociais, sendo estas a verdadeira substância do conhecimento.

Segundo Lang, (1996, p. 36), o pesquisador ao apreender as relações sociais através das fontes orais, não deve se ater apenas nos conhecimentos dos fatos, mas através deles, dirigir seu olhar às relações sociais e processos que os engendram, ou seja, partir do conhecimento da micro realidade à totalidade social, da conjuntura à estrutura. “É no indivíduo que a História Oral encontra sua fonte de dados, mas sua referência não se esgota nele, dado que aponta para a sociedade”.

Após várias entrevistas,

(...) as grandes linhas da pesquisa já estão estabelecidas, as categorias já estão claramente delineadas, os problemas todos definidos, mas só a análise minuciosa dos relatos, depois de transcritos, nos permite conhecer os detalhes e questões aventadas em cada entrevista, procurando o ponto de concordância e de discordância entre elas, sobre os mais variados aspectos; descobrir aspectos novos que apenas com a comparação conseguimos perceber, pois muitas vezes os elementos necessários ao entendimento de determinadas situações surgem não só na análise do que foi dito no conjunto dos relatos, mas também do que não foi dito. (Demartini, 1.992, p. 52)

 

O indizível!

Valorizar a relação entre passado e presente, entre história e temporalidade, destaca a importância da memória para se compreender a intensa relação entre objeto e tempo nessa busca da verdade para se conhecer e criticar a realidade, descobrindo em sua constituição “(...) os rastros de uma outra configuração ideal de cuja memória os nomes são os grandes guardiões”.[7]

Segundo Borelli (1992, p.81)

(...) evidenciar o passado no presente imediato das pessoas, através dos depoimentos orais, constitui essa possibilidade de reconstrução e compreensão da história humana. Neste sentido, a memória, a experiência e o tempo são fundamentais para essa recuperação do vivido conforme concebido por quem viveu. Memória no sentido de fonte do passado no presente, como busca daquele tempo no agora, transcendendo a mera cronologia, mas como nas palavras de Walter Benjamin, ‘como musa da narratividade, que se constrói na experiência de vida’, possibilitando assim, revisitar o passado no presente, ‘restabelecer uma ligação com o passado, e que este possa ser salvo naquilo que tem de fundamental. O movimento de mergulhar em busca da experiência perdida, de saltar para trás em direção ao passado, poderá permitir a erupção de algo novo’.

Ao invocar a memória, o pesquisador deve ter cuidado ao utilizar o termo ‘memória coletiva’, mesmo que o propósito seja o de registrar as lembranças compartilhadas e aproveitadas por dada coletividade. É necessário cautela ao registrar tais dados e situá-los fora do indivíduo, sob o termo ‘memória coletiva’, pois as “(...) recordações podem ser semelhantes, contraditórias ou sobrepostas. Porém, em hipótese alguma, as lembranças de duas pessoas são – assim como as impressões digitais, ou, a bem da verdade, como as vozes – exatamente iguais”.[8]

Quando se trabalha com a memória, outro aspecto se apresenta – existe sempre a possibilidade desta falhar. Em um relato, há esquecimentos e omissões que podem ser ou não intencionais. Cabe ao pesquisador fazer uma leitura minuciosa de cada relato obtido, indagando-se sobre o conteúdo das possíveis lacunas existentes, ligando um assunto a outro.

Considerações Finais

Ao optar pela metodologia de pesquisa de História Oral, o pesquisador deve fazer algumas considerações quanto a sua postura durante todo o trabalho, adotando cuidados maiores no trato com os sujeitos da pesquisa e com o material coletado, os quais se relacionam com os procedimentos específicos desta metodologia investigativa.

No trabalho de campo, é importante que o pesquisador tenha, como uma das primeiras lições de ética, atitudes de respeito e importância a cada indivíduo. “Cada pessoa é um amálgama de grande número de histórias em potencial, de possibilidades imaginadas e não escolhidas, de perigos iminentes, contornados e por pouco evitados”.[9]

Nesse sentido – a atribuição de respeito e importância a cada sujeito – está presente o reconhecimento dos elementos de diferente e de igualdade.

Para Portelli, diferença e igualdade representam os dois lados de uma mesma moeda, denominada ‘liberdade’. Liberdade entendida como possibilidade de escolha, inclusive a de ser diferente. Tal situação, porém, requer a condição de um estado igualitário, ou seja, a liberdade de escolha compartilhada por todos nas mesmas proporções – as diferenças universais têm como base os direitos universais. A condição de ser diferente só poderá ser preservada em condição de igualdade. No entanto, mesmo o ser diferente, acalenta a necessidade de compartilhar, participar e se comunicar.

Desta forma, preconiza-se para o trabalho de campo, um estado de igualdade, oferecendo condições para que o elemento diferente se desvele e possa se estabelecer diferenças, plenas de significados, como também instituir, entre os sujeitos pesquisados, os aspectos comuns que possibilitam trocas.

Para a História Oral, o trabalho de campo se institui como momento fundamental para toda a pesquisa. Nesta fase, existe um significado na relação social e humana entre pesquisador e sujeitos da pesquisa que está intimamente relacionado à ética que o profissional confere em seu proceder. “Tudo que escrever ou disser não apenas lançará luz sobre pessoas e personagem históricos, mas trará conseqüências imediatas para as existências dos informantes e seus círculos familiares, sociais e profissionais”.[10]

Atenção redobrada se faz quanto à apresentação das informações prestadas por pessoas, vivas e conhecidas, com as quais estabeleceu relações concretas, pessoais, cujos rostos e existência conhece, não que informações prestadas por pessoas que lhe são distantes ou desconhecidas não mereçam todo respeito possível. “Diante disso, impossível é não vivenciar um profundo sentimento de responsabilidade, cuja origem remonta à mesma fonte de todas as preocupações éticas: as relações humanas”.[11]

Para uma relação satisfatória entre pesquisador e sujeito, são necessárias também outras condições. Os sujeitos devem se sentir à vontade em seus relatos orais e estabelecer, livremente, seus próprios limites e conteúdo de suas narrativas. O pesquisador deve assumir uma postura e discurso, o mais honesto possível. Deve estabelecer uma conversa franca, onde os interlocutores se sintam à vontade para expressarem seus sentimentos, crenças, opiniões, diferenças e contradições. À diversidade de pareceres não deve ser atribuído um significado de desrespeito ou conflito, mas sim de tolerância e respeito mútuo. Um dos grandes desafios encontra-se justamente neste momento, tão particular, de não confronto e sim de encontro entre seres humanos com objetivos distintos.

Nas relações estabelecidas entre investigador e entrevistados, no decorrer do trabalho, o pesquisador envolvido pelo ambiente das entrevistas, cria fortes laços pessoais com os seus narradores, sejam estes de admiração, amizade e amor, como também de antipatia, rejeição e mesmo ódio. Pelas próprias histórias ali contadas, pela emoção das evocações, esquece-se de representar o papel profissional normalmente atribuído a ele. Essas relações pessoais influenciam de várias maneiras o trabalho final do pesquisador,

(...) em geral de forma inconsciente para este: determinados trechos de entrevistas , por exemplo, que ‘embelezam’ os feitos dos informantes com os quais o historiador simpatiza, podem ser citados, repetidos ou estendidos, enquanto outros, que prejudicam a imagem do informante, podem ser negligenciados, resumidos ou afastados para notas. (Amado, 1.997, p. 148)

A busca do significado dos fatos, nem sempre tem como objetivo a materialidade dos mesmos, mas a representação, a interpretação, daquilo que realmente aconteceu, pelas vozes dos outros que o vivenciaram, levando-se em conta o muito acontecido na mente destas pessoas. O passado é revisitado com parâmetros atuais, onde “(...) mesmo os erros, invenções e mentiras constituem, à sua maneira, áreas onde se encontra a verdade”.[12]

O pesquisador deve se prover de responsabilidade e respeito para com o trabalho da coleta dos dados, sua aferição e conclusão sobre uma matéria. É necessário que a ética profissional e técnica transcendam o contexto de estudo e se relacionem em esferas de responsabilidades mais amplas, como a individual, civil e política.

A não plena objetividade dos significados dos fatos é muito própria desta metodologia de pesquisa que prioriza os elementos mutáveis, ou seja, a narrativa, o discurso, a memória e a subjetividade como fontes de dados, fornecendo múltiplas verdades de um mesmo objeto. Por esse motivo, muitos cientistas discordam da veracidade, cientificidade dos significados atribuídos ao objeto pesquisado com o uso da metodologia da História Oral, justamente pela utilização de tais elementos mutáveis.

No entanto, são estes elementos que compõem e formam a História Oral, propiciando ao pesquisador tecer a interação social e pessoal, aliados a fatos comprovados do objeto pesquisado.

O reconhecimento das múltiplas abordagens da verdade impõe responsabilidades maiores, principalmente na tarefa de interpretar e explicar as mesmas. As palavras proferidas pela fonte compõem material citado constantemente nos trabalhos redigidos, oferecendo oportunidade ao leitor de não apenas confrontar as interpretações formuladas pelo sujeito e pelo pesquisador, para que possam estas coexistirem ou discordarem, mas também de ele mesmo, o leitor, emitir seu próprio parecer sobre a matéria. Assim, a responsabilidade com o material coletado inclui transcrever as palavras textuais da fonte para o texto, como forma de comprovação da análise critica.

Outro momento de responsabilidade e ética é o da restituição deste material coletado aos sujeitos com quem se encetou o diálogo.

Segundo Amado, a relação de troca, entre pesquisador e sujeitos, inicia-se no momento em que o entrevistado concorda com a realização da entrevista e, ao conceder o faz por motivos diversos, com objetivos concretos a atingir. Outorgar informações é um ato voluntário, parte de um complexo universo de interesses e estratégias. Erra o pesquisador que supõe, ao realizar entrevistas com pessoas pobres e marginalizadas socialmente e culturalmente, que estas não possuem objetivos e interesses próprios, quanto à entrevista. Tais objetivos podem não se expressar de forma explícita, porém sempre os há.

Nesse sentido, Benjamin (1.994, p. 222) cita que “(...) o cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”.

No entanto, mais do que uma devolução de materiais é uma organização de interpretações com significados múltiplos que não devem ser expostas somente a quem as formulou, mas, acima de tudo, se deve dá-las a conhecer a outros, até pela riqueza do conhecimento produzido, expresso pela experiência de vida e pelos desdobramentos que decorreram, em várias áreas de transito do ser humano. Esta restituição tem o compromisso de mostrar a diversidade, a diferença e também aquilo que deixou de acontecer, ou seja, a opção de outros fazeres.

Considero que a ética perpassa todo o processo metodológico e técnico ao se trabalhar com História Oral. Seja pela fidelidade do pesquisador às palavras e sentido da entrevista, não citando trechos onde apenas uma parte das opiniões é revelada, não lhe alterando o significado global; explicitando para os informantes, os objetivos do trabalho e os possíveis usos que fará da entrevista; respeito pelas solicitações dos entrevistados, como o sigilo da identidade (através de pseudônimo e/ou ocultamento de informações que possam levar à identificação do informante); como também pela necessidade de diferenciar a fala de cada um dos narradores, não os diluindo em um conjunto homogêneo, indiferenciado internamente e pela necessidade de distinguir claramente a voz do pesquisador das dos entrevistados.[13]

Finalizando, quero registrar que neste desenvolver metodológico, alguns pesquisadores elegem como documento original a fita gravada, outros, elegem a transcrição. No entanto, seja qualquer a forma aceita, a fonte oral é sempre uma invocação à memória, reconstruindo um passado pela perspectiva do presente e marcado pelo social.

Quanto à apresentação do resultado do trabalho, existem duas concepções muito distintas. Uma vê o documento transcrito como um todo indivisível, já a outra propõe recortes e comparações entre documentos vários, produtos dos vários momentos de entrevista, para chegar a uma nova síntese.

Em minha opinião, a proposta do recorte é mais criativa, pois permite ao pesquisador em cada momento de coleta dos dados, ou seja, em cada entrevista efetuada, desvendar inúmeros aspectos, muito diversificados, obtendo assim, vários pareceres sobre o mesmo objeto de estudo, enriquecendo, com originalidade, maiores detalhes e esclarecimentos, ao estudo efetuado.


NOTAS

[1] Cf. PORTELLI, 1997.

[2] LANG, 1.996, p. 37.

[3] DEMARTINI, 1992, p. 47.

[4] Idem, 1.992, p. 45.

[5] Cf. LANG, 1.996, p. 45.

[6] BENJAMIN, 1.994, p. 224.

[7] GAGNEBIN, 1.994, p. 15.

[8] PORTELLI, 1.997, p. 16.

[9] PORTELLI, 1.997, p. 17.

[10] AMADO, 1.997, p. 146.

[11] AMADO, 1.994, p. 149.

[12] PORTELLI, 1.997, P. 25.

[13] .Cf. AMADO, 1.997, p. 149.


BIBLIOGRAFIA

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DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri.  Trabalhando Com Relatos Orais: Reflexões a Partir de Uma Trajetória de Pesquisa – Reflexões Sobre a Pesquisa Sociológica, Coleção Textos, n.º3, São Paulo: CERU, 1.992.

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LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo.  História Oral: Muitas Dúvidas, Poucas Certezas E Uma Proposta.  In: MEIHY, José Carlos Sebe (Org.).  (Re) Introduzindo História Oral no Brasil. Série Eventos. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1.996.

PORTELLI, Alessandro.  O Que Faz A História Oral Diferente.  Revista do Programa de Estudos Pós-Graduação em História, n.º 14, São Paulo, 1.997.

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