TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO, PROCESSOS DE TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL E  FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Evaristo Colmán *
Francielle Toscan **

     * Professor Adjunto do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina. Assistente Social pela PUC/SP, Mestre em Serviço Social pela PUC/SP, Doutor em história pela UNESP. E-mail: colman@uel.br 
       ** Técnica em Processamento de Dados pelo CNAU de Cvel/Pr, Assistente Social pela UEL/Pr , Mestranda em Serviço Social e Políticas Sociais pela UEL/Pr. e-mail: toscan@uel.br.

RESUMO
Levando-se em conta as transformações em vigor no mundo do trabalho na Era Informacional e o impacto que as novas tecnologias de informação e comunicação têm sobre este em geral e, sobre o Serviço Social em particular, faz-se necessária a incorporação da mesma na profissão. Tal necessidade se reflete nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Serviço Social aprovados em 1999 que indicam como uma de suas recomendações propiciar ao aluno o acesso aos recursos informacionais, como instrumento de trabalho acadêmico e profissional. O objetivo proposto é de evidenciar a necessidade da inserção de uma disciplina que se aplique a debater e implementar o assunto, afim de que os estudantes passem, se possível, por uma experiência prática, a qual proporcione não só o aprendizado das Tecnologias de Informação, mas também a apropriação de tais recursos aos valores profissionais e um aprofundamento reflexivo sobre a própria profissão.
PALAVRAS-CHAVE: Tecnologias de Informação; Serviço Social; Mercado de Trabalho; Ensino.


O contexto em que ocorre o debate

 Na conjuntura que nos toca viver destaca-se um grande desafio para todos aqueles envolvidos na formação dos futuros assistentes socais. Trata-se do conteúdo e das estratégias da formação em face dos processos da globalização e da revolução informacional.

A rapidez com que o conhecimento, as técnicas e os materiais se modificam, afetam inevitavelmente o modo como os estudantes assimilam os valores e capacidades profissionais durante a sua passagem pela universidade. Este movimento impõe a obrigação de recuperarmos a discussão sobre a formação deste sujeito que está se qualificando tanto para ser um profissional competente quanto para ser um cidadão consciente. Queiramos ou não, exige-se dos sistemas educacionais suprir a formação dos profissionais em níveis que respondam às exigências crescentemente complexas do mercado. Como responder a esta pressão sem renunciar ao objetivo de estimular uma postura critica em face do social e uma sólida formação teórica, coloca-nos diante da urgência de re-pensarmos.as estratégias de ensino e os projetos político-pedagógicos.

O que cabe se perguntar diante destas exigências é se o formato tradicional das disciplinas - no mais das vezes centradas em textos retirados de livros com uma metodologia quase escolástica-, é suficiente para dar conta da complexidade dos desafios postos pelas mudanças intensas que enfrentamos?

Uma das expressões mais evidentes dessas mudanças é a transformação da estrutura ocupacional, ou seja, das categorias profissionais e do emprego. A conseqüência disso é que nossas sociedades serão forçadas a se adaptar a uma redefinição de trabalho e de seu mercado, abrindo caminho para uma reestruturação completa da organização social e dos valores culturais. Nessa reestruturação, há um elemento que sobressai pela sua abrangência e incidência profundas: as Tecnologias de Informação.

Na conceituação mais geral do nosso termo, utilizaremos a definição de CASTELLS (2000) de tecnologia de informação. Para ele, tecnologia de informação é “o uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de fazerem as coisas de maneira reproduzível”. Entre estas tecnologias estão “o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (hardware e software), telecomunicação/radiofusão e optoeletrônica”.

Trata-se de um processo geral que se reflete no interior de todo o espectro ocupacional, inclusive aos profissionais liberais ou semiliberais. O ritmo e formas de assimilação destas tecnologias variam de profissão para profissão e até de profissional para profissional, pois algumas profissões são rapidamente mais afetadas que outras. Contudo, e apesar da pressão econômica e da ideologia que fetichiza estas tecnologias informacionais estimulando inclusive a sua incorporação acrítica, há segmentos profissionais que demoram mais em incorporar as TI’s nos seus procedimentos correntes.

Os assistentes sociais se incluem neste último grupo. O processo de trabalho destes são determinados em grande parte pela auto-percepção que têm de sua profissão, percepção construída em geral nas escolas, na época de sua formação. Nestas, predominam a idéia de que o Serviço Social é uma atividade de “controle ideológico e político” que permite ao profissional se colocar do lado dos trabalhadores excluídos de sua cidadania e do acesso aos seus direitos. A partir disto podemos afirmar que na percepção que os assistentes sociais têm do que sejam seus processos de trabalhos predomina a visão discursiva, ou seja, de um profissional que trabalha junto aos seus usuários transmitindo idéias e informações. Desta perspectiva, as tecnologias de informação, de fato, não têm muita utilidade.

Ao lado desta auto-imagem, contudo, os processos de trabalhos dos assistentes sociais vêm se confrontando com as necessidades da gestão das políticas sociais e estas, na medida que são compelidas aos ajustes neoliberais, adotam critérios administrativos semelhantes aos das empresas capitalistas. É evidente que para dar conta desta demanda, as tecnologias de informação são absolutamente necessárias. Mais ainda, o próprio Estado utiliza crescentemente sistemas informatizados e redes na gestão das políticas públicas, equiparando, assim, às formas de organização do trabalho vigentes nas empresas privadas.

Diante de tais observações, IAMAMOTO (2003) já adverte que:

Possibilidades novas de trabalho se apresentam e necessitam ser apropriadas, decifradas e desenvolvidas; se os assistentes sociais não o fizerem, outros farão, absorvendo progressivamente espaços ocupacionais até então a eles reservados. Aqueles que ficarem prisioneiros de uma visão burocrática e rotineira do papel do assistente social e de seu trabalho entenderão como, “desprofissionalização” ou “desvio de funções” as alterações que vêm se processando.

 Conseqüentemente essa inserção tecnológica informacional torna-se ingrediente decisivo no processo de trabalho porque determina uma enorme capacidade de inovação. Segundo LOJKINE (1994)

A automação poderia ser utilizada não para continuar a eliminar (e subordinar) o trabalho humano, mas, ao contrário, para aumentar seu lugar, inaugurando uma interatividade homens-máquina (inteligentes) que não seja provisória, e sim inerente ao próprio sistema tecnológico.

 CASTELLS (2000) recomenda levar a sério às mudanças introduzidas em nosso padrão de sociabilidade em razão das transformações tecnológicas e econômicas, que fazem com que a relação dos indivíduos e, da própria sociedade com o processo de inovação técnica tenha sofrido alterações consideráveis.

Os tipos de empregos mudam em quantidade, qualidade e natureza do trabalho, pois tornam-se ultrapassados. Então, esse novo sistema requer uma veloz adaptação e readaptação, e os indivíduos ou grupos incapazes de adquirir conhecimentos informacionais podem ser excluídos do trabalho, ou rebaixados.

Essas alterações estão acontecendo e os profissionais do serviço social serão afetados por elas, mesmo que desconheçam suas causas. Na seqüência serão forçados a se ajustar a estes novos modelos caracterizados pela flexibilidade, rotinas programáveis, informações instantâneas, processos reversíveis, redes etc. Se não assimilarem criticamente as tecnologias de informação, correm o risco de ver sua profissão ser recriada ou extinta.

Portanto, à categoria profissional também cabe provocar o debate e problematizar as questões atuais envolvidas nas mudanças globais, contribuindo com a universidade na construção de um projeto acadêmico que forneça alternativas aos desafios postos pelas dramáticas mudanças em curso. Ninguém mais do que os profissionais que “estão na prática” podem apontar quais são as necessidades de hardware e software que o exercício profissional está demandando.

A reflexão sobre estes assuntos tem mobilizado os profissionais europeus e norte-americanos, já de algum tempo. É o que se pode apreciar na pesquisa coordenada por STAYERT, COLOMBI e RAFFERTY, publicada sob o título “Human Services and Information Technology: an International Perspective”. Nesta publicação se  afirma que “o debate há muito ultrapassou o questionamento da introdução dos computadores. Um debate mais interessante é buscar definir e desenvolver o papel dos computadores de forma que sejam consistentes com valores, objetivos e eficácia dos serviços sociais e avaliar seus impactos numa época de profundas mudanças de prioridades e políticas sociais”.( STAYAERT et alii, 1996)

Umas das primeiras publicações foi de Ram A. Cnaam (1988) in ROSA (1995) que chamou a atenção para os do novo analfabetismo entre os próprios profissionais do Serviço Social, que também têm o dever de inovar seus métodos tradicionais de intervenção, os quais poderão ser otimizados pelo uso das TI´s.

Glastonbury (1993/4) in ROSA (1995) analisou questões práticas, legais e éticas sobre o uso do banco de dados dos clientes para auxiliar a identificação das necessidades dos mesmos, com vistas a planejar a alocação de recursos e serviços da instituição.

Powell (1993) in ROSA (1995) avaliou a experiência  do Depto. de Serviço Social da Universidade de Southampton que introduziu na graduação a Aprendizagem Assistida por Computador. A partir do sistema de banco de dados denominado Catalist, professores e alunos categorizaram de forma sistemática informações sobre as características dos campos, informações descritivas sobre as oportunidades de aprendizagem e comentários avaliativos de estudantes e professores.

Lindstrom (1993) in ROSA (1995), mediante sua experiência na reformulação do currículo de cinco faculdades, na Holanda, aponta para a necessidade de propiciar aos estudantes situações de aprendizagem a partir de banco de dados.

Segundo estes autores, o currículo ideal deveria considerar as aplicações mais amplas das TI´s nas diversas áreas: administrativa e gerenciamento, comunicações, pesquisa e planejamento social, terapia e planejamento de estudo. Esperam, com a introdução das TI´s, não só eficácia do trabalho social, como também a realização de um trabalho que torne o “cliente” mais independente.

O que eles propõem é a discussão e das questões presentes envolvidas nas transformações globais,  evidenciando a necessidade da inserção de uma disciplina, afim de que os estudantes passem, se possível, por uma experiência prática, em que proporcione não só o aprendizado das Tecnologias de Informação, mas também a apropriação de tais recursos aos valores profissionais e um aprofundamento reflexivo sobre a própria profissão.

Para finalizar este primeiro debate cabe ainda citar o Professor Lutero Rosa (1995) “Assumir o compromisso profissional de analisar a política de implantação das Tecnologias de Informação nas universidades e instituições sociais pode instrumentalizar professores e assistentes sociais no sentido de evitar a repetição de posturas esquivas de quem se sente balançado pelos ventos dos novos tempos”.

Compreende-se assim que as tecnologias de informação podem contribuir não só com técnicas sem caráter científico em que a teoria não ocupe lugar de evidência, mas também com aquelas que encontram na teoria um sustentáculo para realizar análises mais rigorosas.

O Ensino

 Parece-nos oportuno iniciar a reflexão sobre o ensino das Tecnologias de Informação – (TI’s) com as recomendações das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Serviço Social aprovados em 1999 que indicam a necessidade de “propiciar ao aluno o acesso aos recursos de informática, como instrumento de trabalho acadêmico e profissional”. Reconhecia-se naquele documento normativo da formação profissional o impacto que as novas tecnologias de informação e comunicação têm sobre o mundo do trabalho em geral e sobre o serviço social em particular.

As escolas de serviço social já vêm fazendo adequações nos seus programas de estudo no sentido de incorporar as recomendações das diretrizes curriculares, quanto ao ensino da “informática”. Entretanto, para que as tecnologias de informação sejam incorporadas como parte constitutiva da formação de assistentes socais é necessário se avançar mais na delimitação de que conteúdos são os adequados nesta área.

A discussão deve necessariamente abarcar as questões éticas relativas ao uso das TI´s; ao equilíbrio de poder propiciado pela nova tecnologia aos grupos sociais, considerar também o risco de um novo tipo de analfabetismo: o dos assistentes sociais que não procuram inovar seus métodos tradicionais de intervenção e, finalmente as formas de apropriação destes meios ajustados à do serviço social.

Nesse processo de inserção, inicialmente, não seria exagerado insistir que “o acesso aos recursos da informática” conforme reza a recomendação das diretrizes curriculares, não poderia se limitar, como ocorre em algumas escolas, ao ensino dos aplicativos mais populares de edição de texto, planilhas eletrônicas e apresentação de slides. O domínio destes recursos hoje é equivalente ao da “datilografia” de alguns anos atrás e seu ensino é tarefa de outras instituições. Além disso, uma boa parte dos estudantes de serviço social (63%) da Universidade Estadual de Londrina, em pesquisa recente feita pelo projeto de pesquisa denominado “Estudo da Utilização das Tecnologias de Informação nos serviços sociais”  têm a oportunidade de aprender estes nos seus lares. Mas, mesmo reconhecendo que nem todos têm acesso aos recursos informáticos, não se pode concordar com que seja tarefa de um curso de serviço social ensinar o manuseio dos aplicativos básicos, pois o objetivo da formação é a capacitação na utilização crítica e criativa destes recursos. Isto implica na aventura de traduzir e integrar as formas do agir profissional com as tecnologias de informação de maneira prática, de modo a descobrir usos apropriados da perspectiva da nossa profissão e não apenas uma incorporação passiva das tecnologias existentes.

A experiência tem nos mostrado dois tipos de recursos acessíveis e necessários no exercício das tarefas profissionais e que devem ser contemplados no ensino das TI’s: As aplicações e os sistemas de informação.

As aplicações ou aplicativos são os softwares utilizados para operar os computadores e realizar determinadas tarefas. Há dois tipos de aplicativos: os genéricos e os específicos. Os aqui denominados por nós de genéricos são aqueles softwares populares que se encontram no mercado amplamente disseminados: editores de texto, planilhas eletrônicas, bancos de dados, de apresentação de slides e animações básicas, etc. Chamamos de “específicos” os programas desenhados especialmente para determinados usos em determinadas organizações ou instituições. Basicamente fazem as mesmas coisas que os “genéricos” mas de maneira automatizada de acordo com as necessidades específicas do serviço.

No manuseio de ambos os tipos se coloca a necessidade de adequar os recursos que possuem às exigências profissionais. Mesmo na utilização de um simples editor de textos para produzir relatórios, encaminhamentos ou memorandos, é possível automatizar funções de modo a extrair dos softwares todo seu potencial e facilitar o trabalho dos profissionais. Além disso, estes aplicativos mais populares vêm hoje na forma de pacotes integrados, produzidos por duas ou três empresas que controlam o mercado mundial. A integração de editores de texto, planilhas eletrônicas e bancos de dados, permite um grau de automatização de muitas tarefas rotineiras que bem planejadas poupam muito tempo e propiciam uma organização mais eficiente do serviço.

A experimentação de desenvolvimento de bancos de dados, por exemplo, pode propiciar ao estudante ou profissional o contato com as possibilidades de manuseio de grandes quantidades de informação. Estes softwares permitem não apenas o registro flexível das variadas informações com que os assistentes sociais lidam diariamente, mas, possibilitam a sua recuperação em forma de relatórios, listagens, estatísticas variadas e sofisticadas e a sua apresentação gráfica de qualidade. Toda a complexidade de situações vivenciadas pelos usuários dos nossos serviços podem ser codificadas mediante estes sistemas.

Contudo, mais importante do que produzir relatórios e gráficos “deslumbrantes”, o que a experimentação com estes recursos deve ensinar é que existem formas diversas de tratar a informação. Podem se acumular toneladas de dados e criar mecanismos sofisticados de recuperação para ajudar ao gerenciamento centralizado pelos detentores do poder. Mas podem se estruturar também sistemas de acesso às bases de dados pela população usuária ou, ao menos, pelas organizações que as representam, ampliando o leque dos sujeitos envolvidos com as decisões políticas. O conhecimento da possibilidade de escolher alternativas só pode ocorrer se o estudante e o profissional passar pela experiência de desenhar e manusear a montagem de um sistema de informação o que pode ser feito utilizando-se um simples banco de dados.

A possibilidade de se conseguir resultados não disponíveis antes da aplicação de TI’s, principalmente na forma de sistemas específicos, está condicionada à decisiva intervenção do profissional do serviço social no desenho destes. O desenvolvimento de aplicações, adequadas à lógica e valores do serviço social, depende da assimilação das tecnologias de informação pelos profissionais do serviço social de modo a interferir na arquitetura dos programas. Esta é a razão pela qual nos parece tão importante que nos cursos de serviço social os estudantes passem, se possível, pela experiência prática de desenvolver aplicações, traduzindo para a linguagem de sistemas específicos, os procedimentos e rotinas profissionais. A passagem dos estudantes pelo exercício de montar aplicações potencializa não apenas o aprendizado das TI’s mas também induz  o aprofundamento da reflexão sobre a própria profissão. 

O que interessa enfatizar é a necessidade dos assistentes sociais se apropriarem destes recursos e subordiná-los às suas finalidades, o que no âmbito do ensino de serviço social significa que os estudantes passem pela experiência de integrar as informações e conhecimentos espalhados nas redes informacionais e de serviços existentes e criar novas ferramentas tecnológicas que permitam ampliar os direitos e democratizar as decisões sobre as políticas sociais.


 BIBLIOGRAFIA

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. A Era da Informação: Economia, sociedade e cultura. São Paulo, Paz e Terra, 2000.

IAMAMOTO, Marilda V. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. Cortez, 6.ª ed. 2003.

LOJKINE, Jean. A Revolução Informacional contra a sociedade “pós-industrial”. In: Serviço Social e Sociedade n.º 45. São Paulo, Cortez, 1994.

ROSA, Lutero Oliveira. Informação Tecnologica e Serviço Social. In Serviço Social e Sociedade nº 49. São Paulo, Cortez, 1995.

STAYAERT, Jan, COLOMBI, David and RAFFERTY, Jackie. Human Services and Information Technology: Na International Perspective. Aldershot/UK, Arena, 1996.

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