A DESNUTRIÇÃO INFANTIL E SEU SIGNIFICADO SOCIAL
Maria Ângela Silveira Paulilo*
Ivana Paula Furlan Rodolpho**
*  Assistente Social, professora do Departamento de Serviço Social da UEL, doutora em Serviço Social pela PUC-SP.
** Assistente Social, especialista em Serviço Social pela UEL.

RESUMO
Este trabalho pretende analisar a desnutrição infantil enfocando seus aspectos nutricionais, sociais e de saúde, assim como as determinações socioeconômicas que contribuem para o seu agravamento.
Palavras chaves: fome, desnutrição infantil, qualidade de vida.
 


À entrada da humanidade no século XXI, diante de avanços tecnológicos, de descobertas científicas e de todos os progressos do homem, um fenômeno milenar persiste e atinge segmentos cada vez maiores da população: a fome.

Como expressão das desigualdades sociais, especialmente nos países em desenvolvimento, a fome leva à morte milhares de pessoas, que se tornam vítimas de um processo de exclusão que as priva, inclusive, do direito fundamental à vida. Estima-se que atualmente 828 milhões de pessoas sofrem de fome crônica, correspondendo a 13,8% do total da população de seis bilhões em todo planeta (MINAYO, 1985).

Sempre presente na sociedade, diferenciando-se pelas proporções tomadas e pelas causas que lhe são atribuídas, a fome tem raízes históricas, relacionadas às formas de colonização e exploração sob as quais consolidaram-se algumas sociedades.

Em seu sentido estrito, a palavra fome significa ausência de alimentação, independente das causas que provocam tal situação. Esta é, porém, uma definição limitada e imediata, que parte do princípio da individualidade, enquanto que a fome deve ser concebida como uma questão social e de caráter coletivo, considerada como uma condição física e biológica, com determinações políticas, econômicas e sociais.

JONSSON (1986, p.50) conceitua a fome como a deterioração do estado de saúde e/ou desempenho produtivo e social de indivíduos resultante de uma ingestão de alimentos ou em baixa qualidade ou do tipo errado, ou ambos. Para ele, a fome também tem relação com a qualidade da alimentação ingerida e não apenas com a quantidade, o que chama de fome oculta.

ABRAMOVAY (1983, p.14) também apresenta estas duas definições denominando a fome, por déficit de quantidade ingerida,  global ou energética. Esta afeta o desempenho normal do organismo à medida que não são repostas as calorias despendidas para o seu funcionamento.

JONSSON (1986, p.51) relaciona a fome com a pobreza mostrando que esta pode freqüentemente ser medida pela prevalência da fome, embora um fenômeno não seja equivalente ao outro, pois pode existir pobreza sem que haja pessoas famintas e pobreza que extrapola a fome, privando as pessoas de outras necessidades humanas. Esta associação é importante porquanto remete a fome a um contexto mais abrangente, como questão estrutural e de cunho social, que atinge grandes massas humanas e não prejudica apenas o indivíduo, mas a sociedade como um todo, à medida que provoca danos à saúde, à socialização e ao desenvolvimento de um povo.

Em se tratando dos países em desenvolvimento, em especial o Brasil, a má distribuição de renda, a disparidade social entre os que detêm o capital e os que vendem sua força de trabalho e o alto índice de desemprego contribuem para o aumento da pobreza e da miserabilidade da população. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 35% da população brasileira vivem na pobreza, em condições precárias, sem acesso a moradia, alimentação, saúde e educação.

No ano de 1997, o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Social (IPARDES), em parceria com o governo do Estado, realizou no Paraná um estudo intitulado ‘O Mapa da Pobreza’, que apontou que 33,6% da população do Estado possuem chefes de domicílio com renda de até um salário mínimo, classificados como vivendo em situação extrema de pobreza. Apontou ainda que 40% dos domicílios do Estado foram considerados precários, combinados os índices de analfabetismo, renda e condição de saneamento básico.

Em Londrina, segundo dados do Plano Municipal de Assistência Social do ano de 1999, cerca de 38,86%  (160.354 pessoas) da população sobrevivem com renda de até dois salários mínimos e cerca de 50 mil pessoas encontram-se em situação de pobreza extrema, privadas de satisfazerem suas necessidades básicas de sobrevivência.

Diante destes números, fica evidente que a pobreza é um dos grandes entraves encontrados para melhora da qualidade de vida da população e a principal causa de doenças. A fome e as más condições de vida (moradia, higiene, saneamento) devem fazer parte de toda análise sobre as condições de saúde de uma população.

Dentre as doenças que afetam esta população encontra-se a desnutrição infantil que, além das determinações ambientais e orgânicas, possui causas econômicas e sociais. Dessa forma, a desnutrição infantil deve ser considerada como um problema de saúde pública, necessitando ser diagnosticada e tratada como doença endêmica, presente na sociedade atual e alvo de ações curativas e principalmente preventivas.

A desnutrição de que trataremos neste trabalho é a chamada Desnutrição Energético-Protéica (DEP) que, segundo a OMS, consiste em um conjunto de condições patológicas causadas por deficiências das células do organismo, associadas quase sempre a infecções, ocorrendo com maior freqüência em lactentes e pré-escolares.

Segundo SAWAYA, a DEP é um problema chocante, tanto em escala, quanto em gravidade; cúmplice secreto da pobreza que impede o crescimento físico e mental de uma em cada três crianças nos países em desenvolvimento  (SAWAYA, 1997, p.21). Caracteriza-se como uma doença social, responsável por um elevado número de mortes de crianças. Tem como causa três fatores essenciais: pobreza, múltiplos processos infecciosos e baixa ingestão calórica.

 Nos organismos desnutridos os processos infecciosos (diarréias, doenças respiratórias, sarampo, parasitoses) apresentam-se com um curso mais prolongado e ficando mais vulneráveis a doenças oportunistas. A falta de nutrientes no organismo (energia, proteínas, vitaminas, ferro, zinco),  também contribui para o atraso no desenvolvimento sadio das crianças (FERRARI, 1997, p. 111).

Além dos prejuízos visíveis nas crianças, como baixo peso e baixa estatura, a desnutrição infantil é uma doença que provoca sérios danos no crescimento e desenvolvimento orgânico como, por exemplo, a diminuição do tamanho e número das células do organismo. De acordo com MOYSÉS, é importante ressaltar que tais alterações,

...só são produzidas se a desnutrição incidir na época em que o cérebro está crescendo em grande velocidade, conhecida como período vulnerável. No homem, esta fase engloba o período pré-natal e os primeiros seis meses de vida, segundo alguns autores, podendo estender-se até o fim do segundo ano, segundo outros. Também é neste período que seria possível a reversibilidade destas alterações orgânicas, através de completa recuperação nutricional  (MOYSÉS et al, 1986, p. 99).

 A Desnutrição Energético-Protéica infantil está associada a fatores de risco que aumentam a probabilidade de sua ocorrência. O baixo peso ao nascer, inferior a 2.500 gramas e as condições gestacionais são fatores importantes que podem determinar o desenvolvimento.

O baixo peso está associado a diversas causas, entre as quais: prematuridade, condição genética, hábitos maternos inadequados ou prejudiciais como uso de drogas ou álcool, idade da mãe, ausência de acompanhamento pré-natal; a essas causas somem-se ainda fatores sociais, como baixa renda. A desnutrição intra-uterina ou fetal também é uma causa do baixo peso, pois impede o crescimento adequado da criança no útero.

O leite materno contém naturalmente todos os nutrientes que a criança necessita até os seis meses de idade, por isso é um grande aliado na prevenção da desnutrição. Contudo, após o 6º mês as necessidades da criança ultrapassam a produção de leite, ou seja, a quantidade de leite que a mãe produz não diminui, porém não é mais suficiente nutricionalmente para a criança, que precisa de outros alimentos, o que não significa abandono da fonte materna, que pode prosseguir até os dois primeiros anos de vida da criança, se esta estiver com peso e altura dentro do padrão esperado. A introdução tardia dos alimentos pode causar deficiências nutricionais, provocando a desnutrição.

Em virtude do crescimento constante das crianças, torna-se importante avaliar seu progresso periodicamente. Para verificar se o crescimento físico de uma criança está abaixo ou acima do potencial genético, utilizam-se métodos adotados mundialmente, os quais consideram os índices de equilíbrio entre altura e idade, peso e idade e peso e altura. Essas medidas são comparadas com o padrão norte- americano NCHS e recomendado pela OMS (SAWAYA, 1997, p. 24).

Existem várias formas de classificar o estado nutricional, dentre as quais a de GOMEZ, que é indicada para crianças menores de 5 anos e tem como parâmetro peso e idade. Embora ele considere apenas duas medidas, é importante porque permite classificar o grau de desnutrição em primeiro, segundo ou terceiro, de acordo com sua intensidade (SAWAYA, 1997, p. 23). Contudo, uma avaliação completa do estado nutricional deve contemplar: anamnese alimentar e dados de ingestão; dados bioquímicos; exames e história clínica; dados antropométricos e psicossociais.

O Ministério da Saúde conta com um Programa de Combate às Carências Nutricionais – PCCN, que contempla crianças de 6 a 59 meses em condição de baixo peso e risco nutricional. Em Londrina, a Secretaria de Saúde é responsável por este programa que é coordenado pela Gerência de Apoio Social. Conta com 1050 vagas / mês e atende crianças encaminhadas  pelas Unidades Básicas de Saúde. Essas crianças recebem um kit mensal contendo 7 latas de leite em pó e 1 lata de óleo de soja e são acompanhadas através de pesagem mensal, bem como suas mães com orientações.

Em novembro de 1999, o setor de Serviço Social do Pronto Atendimento Infantil (PAI) propôs uma parceria com este programa, em razão da freqüência e reincidência de crianças atendidas no PAI provenientes, em sua maioria, das regiões periféricas da cidade e que apresentavam quadro de baixo peso e desnutrição.

Diante dessa demanda optou-se por realizar um trabalho multidisciplinar em parceria com o PCCN. O bairro escolhido foi o Conjunto União da Vitória, por possuir um número significativo de crianças cadastradas neste programa, o que permitiu a formação de um grupo com vinte e seis crianças de baixo peso, as quais foram acompanhadas mensalmente em suas condições nutricionais,  sociais e de saúde. Contudo, na avaliação parcial deste projeto, constatou-se que, embora as mães estivessem participando de forma satisfatória e de modo geral, as crianças viessem ganhando peso, este não era suficiente. Persistia o quadro de baixo peso e desnutrição.

Dessa forma esta pesquisa pretendeu analisar as razões da não-superação da condição de desnutrição, a partir de informações sobre aspectos sociais, nutricionais e de saúde. Das vinte e seis crianças participantes do projeto, foram analisadas nove, definidas de acordo com os seguintes critérios: participação no projeto desde novembro/99; comparecimento assíduo para acompanhamento com nutricionista;  não-modificação do estado nutricional; ausência de fatores genéticos ou estruturais determinantes de baixo peso e ausência de doenças crônicas.

A partir da escolha das crianças alvo do estudo, em um primeiro momento foi realizada pesquisa nos prontuários médicos da Unidade Básica de Saúde do Conjunto União da Vitória, levantando informações sobre peso/ estatura ao nascer, situação de saúde,  aleitamento nos seis primeiros meses de vida,  principais doenças que acometem as crianças e sua reincidência.

Em um segundo momento, fez-se entrevista com as mães, com formulário contendo questões abertas e fechadas sobre: composição familiar, situação socioeconômica, caracterização do domicílio, situação de saúde da criança e informações sobre alimentação e avaliação da condição de saúde da criança. Os dados colhidos, agrupados e analisados são, a seguir, apresentados.

O universo estudado é constituído de nove com idade na faixa de 1ano e 8 meses a 4 anos e 5 meses, de acordo com os critérios citados e que fizeram parte do projeto de novembro/1999 a setembro/2000. Todas pertencem a famílias nucleares, composta de quatro a nove membros. Possuem renda familiar mensal oscilando de R$ 220,00 a R$ 430,00; em  quatro casos o pai tem emprego fixo (registro em carteira) e em três os pais trabalham sem registro; duas famílias possuem renda indefinida, já que os pais estão desempregados. Além do leite, cinco famílias contam com ajuda de cestas básicas de programas assistenciais. Os gastos mensais em média ficam em torno de R$ 176,00 e sua maior parte recai sobre alimentação. Estes números ratificam os dados de pobreza demonstrados no início deste trabalho, que apontavam que 35% da população brasileira vivem em situação semelhante ao universo deste estudo, dependentes do auxílio de serviços públicos ou privados, por não ter condições de prover às necessidades básicas de sobrevivência.

Das nove famílias entrevistadas, quatro utilizam a água sem filtrar ou ferver e embora tenham abastecimento de água e luz, duas estão sem energia por falta de pagamento. As condições de higiene são desfavoráveis em quatro casas, nas quais encontraram-se utensílios sujos, alimentos expostos inadequadamente ou quintal com lixo. Em uma casa, há presença de água parada proveniente de chuvas, colocando em risco maior a saúde das crianças da casa. Tais condições de moradia e higiene comprometem o crescimento sadio das crianças e, como já mencionado, são fatores externos que se tornam entraves para melhora da qualidade de vida e denunciam um modo de vida imposto à camada mais carente da sociedade.

No grupo analisado, observou-se que a maioria das crianças já teve episódios de diarréia e desidratação além de infecções respiratórias e resfriados freqüentes. Este dado se confirma nos registros da UBS, que apontam também a ocorrência de anemias e verminoses. Isso se deve ao fato de que, nos organismos desnutridos, as células de defesa não funcionam de maneira adequada, expondo as crianças a infecções de repetição. Além disso, doenças que em crianças bem alimentadas não causam conseqüências significativas, nestas crianças podem tomar dimensões graves e até fatais.

Apenas cinco crianças nasceram com peso inferior a 2.550 gramas, sendo que destas, três são prematuras. Estas crianças apresentaram doenças freqüentes, principalmente diarréia e pneumonia. Sabe-se que crianças prematuras recuperam o peso rapidamente e desenvolvem-se dentro do padrão esperado se tiverem condições favoráveis, o que não ocorre com estas crianças, que nasceram com déficit de peso e, por falta de alimentação adequada não o recuperam, compondo um grupo de risco, pois adoecem com maior facilidade. Além disso, nas crianças com baixo peso essas doenças podem ter um curso mais longo e, dependendo da freqüência com que ocorrem, provocar danos irreparáveis à saúde e ao desenvolvimento da criança, deixando seqüelas por toda a vida, principalmente se incidirem no período chamado vulnerável, que atinge dos 6 meses até o segundo ano de vida.

Das nove mães entrevistadas, duas não fizeram pré-natal, por não acharem necessário. As demais tiveram acompanhamento mensal, com a realização de exames de rotina;  duas delas relataram problemas de saúde devido à pressão alta, sendo que uma ficou durante a maior parte da gestação hospitalizada além de ter passado fome durante um período da gestação. Este é um fator relevante, pois possivelmente essa criança teve desnutrição intra-uterina decorrente de uma gestação conturbada por problemas de saúde da mãe, agravado por fatores sociais que impediram o acesso à alimentação adequada.  Novamente a fome apresenta-se como um entrave para o desenvolvimento sadio das crianças e, nesse caso, tem relação direta com a fome quantitativa, provocando um dano importante na qualidade de vida que será oferecida a esta criança, porquanto após o nascimento esta situação persiste e as condições de recuperação tornam-se mínimas.

A maioria das crianças foi amamentada no peito durante os seis meses recomendados. Três crianças não receberam leite materno durante este período e 4 mães estenderam a amamentação além do necessário, chegando num caso até o 3o ano. Suas mães reconhecem que este hábito prejudica o apetite das crianças que preferem mamar a comer. É importante mencionar que nesses casos não apareceu a queixa de falta de comida para justificar este hábito e sim a relação prolongada estabelecida através da amamentação entre a mãe e a criança, que normalmente é rompida com a chegada de outro filho.

O inconveniente da amamentação está em que, muitas vezes, a relação entre mãe e filho se estende além do necessário e consolida-se em uma situação cômoda para a criança e para a mãe porque esta não tem a preocupação com a comida de sal, supondo que a criança esteja alimentada. Como já é de conhecimento, a ausência de alimentos pode causar deficiências nutricionais chegando à desnutrição, neste caso provocada pela fome qualitativa, pois que o organismo da criança fica sem vitaminas, ferro, zinco e outras substâncias que permitem ao corpo humano desempenhar funções vitais.

Quanto ao preparo do leite, a maioria das mães não o prepara conforme orientação do PCCN. Algumas chegam a deixar o leite mais fraco para que possa render mais e dar para os outros filhos não inscritos no programa. Outras, ainda confundem as medidas recomendadas, deixando a diluição concentrada. Em apenas três dos nove casos analisados, o leite vinha sendo consumido exclusivamente pela criança desnutrida; nos demais ocorria repartição entre os outros filhos e até entre membros adultos da família. Assim o leite fornecido não é suficiente para o tempo previsto de 30 dias, chegando a durar em média apenas 20 dias.

Estas famílias, pela condição social em que se encontram, muitas vezes acabam tendo como única fonte de alimentação o leite recebido, que surge como alternativa imediata para satisfação da fome. Deve-se considerar também que o consumo freqüente durante o dia, em especial por crianças mais velhas que necessitam de outras fontes de proteínas e vitaminas, não só impede que o leite dure o tempo previsto como não cumpre sua função que, neste caso, é de complementação alimentar. Outro dado importante é que o leite, em algumas situações, torna-se produto de troca, sendo usado por algumas mães como moeda corrente para adquirirem outro tipo de alimentação ou para satisfazerem necessidades como o uso de drogas ou  álcool.

Diante desta realidade, fica claro que a condição de pobreza é o maior determinante da desnutrição nas crianças analisadas, já que a impossibilidade de a  família arcar com a alimentação faz com que o leite, recurso disponível, seja produto básico no consumo diário e não complementar da dieta alimentar, que é a sua atribuição principal. O leite passa a ser consumido pelas crianças da família, incluídas as que estão dentro do peso esperado e, por isso é diluído incorretamente, prejudicando seu valor nutricional.  Trata-se, aqui, da fome quantitativa e qualitativa, provocada por déficit de nutrientes no organismo, originário tanto da ausência de comida como também da diluição errada do leite, que perde seu valor nutricional. Estas famílias tornam-se vítimas impotentes diante da situação de penúria pela qual atravessa o país e fazem parte dos 38% da população local que vivem em situação de pobreza, privados de satisfazerem suas necessidades  de sobrevivência. Neste grupo, a fome toma uma dimensão mais ampla, de cunho coletivo, refletida na condição de saúde dessa população.

De acordo com a avaliação nutricional de Gomez, das nove crianças em questão apenas duas estão com desnutrição de 1º grau considerada leve; as demais encontram-se com desnutrição moderada, de 2º grau. Como já mencionado, esta avaliação não deve ser vista isoladamente, uma vez que há necessidade de acrescentar a esta análise os dados de estatura, que, no caso destas crianças, não é satisfatória se comparadas com o padrão esperado, não porque não apresentem crescimento mas porque este não é acompanhado pelo ganho ideal de peso. Além disso, os hábitos equivocados, a condição socioeconomica, os dados gestacionais e de nascimento, a história clínica e os dados antropométricos devem ser considerados para que a avaliação possa indicar a desnutrição.

Estas crianças estão, contudo abaixo do peso esperado para a idade e, devido à condição de pobreza em que vivem, correm o risco de não o recuperarem e permanecerem desnutridas. Caracterizam-se assim como um grupo de risco, alvo de ações curativas e preventivas, uma vez que existem fatores externos ao organismo da criança desnutrida que escapam ao controle médico e às avaliações exclusivamente clínicas. Tais fatores necessitam de interferência no sistema político, econômico e social para que a situação vivida por este segmento populacional sofra modificações.

Quanto à alimentação fornecida, todas as mães foram unânimes em dizer que oferecem o que têm em casa, que basicamente é de arroz, feijão, batata e macarrão e eventualmente algum tipo de carne. As mães participantes da horta mencionaram o consumo de verduras. Oito mães responderam que as crianças alimentam-se sozinhas, independente da idade e que, de modo geral, comem ‘bem’. Apenas duas referiram que as crianças alimentam-se pouco. Também se constatou a possibilidade de as mães não terem domínio sobre a alimentação da criança, pois não souberam informar a quantidade do que comem, respondendo que comem o que elas colocam no prato e que as crianças alimentam-se sozinhas. Esta situação pode levar a mãe a perder o controle sobre a alimentação dos filhos, visto que conseguem responder apenas se comem bem ou mal, não dando detalhes sobre o que ocorre com a criança na hora das refeições.  Apenas  01 mãe respondeu que não permite que a criança coma sozinha e caso isso ocorra, fica atenta para a quantidade ingerida. As demais relataram que os filhos comem sozinhos e eventualmente insistem quando a criança rejeita a comida.

Este fator pode estar contribuindo para que as crianças não ganhem o peso esperado, pois que todas já estão fora da faixa etária dependente exclusivamente do leite e necessitam de matérias primas provenientes da alimentação em quantidade correta, sob pena de sofrerem um desequilíbrio alimentar, ocasionado pela fome chamada oculta.

Cinco famílias já tiveram outros filhos desnutridos e, em dois casos, as crianças chegaram a correr risco de vida por falta de comida e de acompanhamento/ orientações. Em três situações seus irmãos foram desligados do PCCN por completarem cinco anos, mesmo não tendo recuperado o peso conforme o esperado. Este dado reafirma o que já foi mencionado: é o resultado da pobreza que abrange um número cada vez maior de pessoas que não consegue vislumbrar um futuro melhor e vê a história repetir-se com cada filho. Não é uma situação circunstancial, momentânea mas conjuntural e instalada na sociedade como fruto do desenvolvimento econômico e social desorganizado.

 Outro dado interessante revelado pela pesquisa mostra que as mães não conseguem entender porque as crianças continuam desnutridas, uma vez que têm acompanhamento constante e recebem o leite que, em tese, deveria ser de consumo específico da criança desnutrida. Duas atribuem isso ao fato de ser a família magra por natureza; portanto acreditam que não ter a criança atingido o peso ideal é “natural”,  já que os exames clínicos não apontam nenhuma alteração. Duas mães acham que, por serem prematuras, as crianças têm um déficit de peso que não é proporcional ao crescimento; três não conseguem identificar as causas, afirmando que seguem todas as orientações feitas e fazem acompanhamento constante com pediatra na UBS. É importante salientar que duas das crianças apresentam diarréia constante e anemia.

Duas mães deram respostas diferenciadas; uma, por ter passado fome durante a gravidez, relaciona a desnutrição da criança à gestação, quando provavelmente ocorreu a desnutrição. A outra atribui o peso inadequado ao fato de até 1 ano e 6 meses a criança ter sido amamentada exclusivamente no peito, rejeitando comida de sal. Esta mãe revela um hábito inadequado, mas muito comum entre as mães mais carentes, a saber, amamentação prolongada além do tempo necessário, com introdução tardia dos alimentos. Este hábito prejudica o ganho adequado de peso dos filhos e chega a causar deficiências nutricionais.

De modo geral as mães relacionam a desnutrição a uma situação definida, quase que sem perspectiva de mudança, mas não fazem ligações com a condição geral de saúde da criança e com as conseqüências da desnutrição infantil no crescimento e desenvolvimento dos filhos, preocupando-se mais com a situação imediata que se reduz ao ganho ou não de peso. Assim, não conseguem identificar a desnutrição com as causas já apontadas anteriormente, ou seja,  a pobreza, os múltiplos processos infecciosos e a baixa ingestão calórica ou protéica. Diante do quadro de baixo peso dos filhos, as mães sentem-se impotentes, alegando que fazem o que está ao seu alcance, atribuindo o mau estado de saúde dos filhos a uma fatalidade  da qual não podem escapar.

O binômio pobreza / desnutrição repete-se no cotidiano destas famílias, que vivem as conseqüências de um modo de vida imposto pelo sistema econômico vigente. A desnutrição para estas famílias está presente no rol de doenças que fatalmente acometerão os filhos, tendo em vista que a sua principal determinação é a condição de pobreza.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos dados apresentados, algumas considerações podem ser elencadas para a compreensão das causas da desnutrição infantil.

Como já exposto, a questão da desnutrição é uma questão de saúde pública, intrinsecamente ligada às condições precárias de vida da população mais carente. Suas determinações podem ser orgânicas, relacionadas à história de gestação e condições de nascimento ou ainda, conforme o grupo analisado, resultante da situação de pobreza e miséria a que estão submetidas estas famílias, sendo portanto muito mais difícil de ser modificada, já que envolve fatores econômicos, sociais e políticos.

A atenção primária à saúde, que se dá no contato direto com os indivíduos e busca enfrentar os principais problemas de saúde da população, deve ser considerada uma das vias de intervenção para prevenir a Desnutrição Energético-Protéica Infantil. Orientações e incentivo ao aleitamento materno, inclusão de todas as crianças nos programas de puericultura nas unidades básicas de saúde, orientações nutricionais e de higiene, prevenção / tratamento de doenças infecciosas e outras atividades de educação em saúde podem colaborar para melhorar a condição de vida da população de baixa renda e reduzir os índices de desnutrição.

A desnutrição, contudo, extrapola as microcausas que contemplam os hábitos alimentares equivocados, a ausência ou insuficiência de orientação e/ou informação e os  cuidados de saúde inadequados. Os dados estudados apontam para as macrocausas que dizem respeito à questão estrutural de pobreza coletiva e à má distribuição de renda.

Outro aspecto importante a ser considerado é que o leite se constitui em um recurso imediato disponível para amenizar a fome das crianças, mas não pode ser considerado essencial como solução para a correção da desnutrição. Terá resultado como complementação alimentar se atrelado a outras ações que envolvam aspectos sociais e de saúde.

Por fim, há que se ressaltar que o acompanhamento destas famílias não permitiu a superação do estado de desnutrição. Propiciou, no entanto, que as crianças tivessem ganho de peso constante e que tivessem diminuídos os processos infecciosos, proporcionando sensível melhora na sua qualidade de vida. A superação da desnutrição não depende exclusivamente da alimentação, é apenas um dos elementos para que isto possa ocorrer. Trata-se de um processo a médio e longo prazo que deve contemplar a criança integralmente, no seu desenvolvimento físico e pedagógico e na sua situação familiar. Os aspectos sociais desfavoráveis devem ser eliminados para que a desnutrição não seja tomada como algo impossível de superar ou como uma fatalidade inevitável.


ABSTRACT
This essay intends to study accurately the bad childish nutrition in order to focus some nutritional, social and healthy aspects and to highlight some social and economical factors which  contribute to increase its severity.  
Key words:
hunger, bad childish nutrition, quality of life.  

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