JOVENS NO CONTEXTO CONTEMPORÂNEO: VULNERABILIDADE, RISCO E VIOLÊNCIA
Maria Ângela Silveira Paulilo *
Marília Gonçalves Dal Bello **
* Doutora em Serviço Social-PUC-SP, docente do curso de mestrado em Serviço Social e Política Social da Universidade Estadual de Londrina. Orientadora.
** Mestranda em Serviço Social e Política Social da UEL. Bolsista da CAPES.

RESUMO

O presente artigo visa tecer uma análise sobre diversos fatores culturais, sociais e econômicos que expõem os jovens à maior vulnerabilidade ao risco da violência nos dias de hoje

Palavras-chaves: Jovens, violência, risco e vulnerabilidade.


 Contemporaneidade, Jovens e Risco

Na visão de Balandier (1997) os dias de hoje caracterizam-se pelo excesso, pelo embaralhamento de imagens, códigos, referências, pelo inédito dos acontecimentos, pelo efêmero e pelas incertezas. Ao mesmo tempo em que provoca referências incertas e abundantes, o momento atual desafia o indivíduo a produzir a sua própria identidade de maneira individualizada. Assim, o jovem é desafiado a ser o produtor das suas próprias referências e significações, tornando-se o protagonista das suas práticas e representações, orientando-se pelos acontecimentos circunstanciais, pelas influências e pelas necessidades imediatas.

Ao discutir o comportamento dos jovens na atualidade, Jeolás (1999) afirma que os rituais de passagem eram celebrados com maior intensidade até o primeiro quarto do século passado, demarcando com maior nitidez a passagem entre a infância e a vida adulta. Diversos rituais significavam simbolicamente a passagem de uma fase do desenvolvimento da vida para a seguinte, capacitavam os jovens para assimilarem demandas, habilidades e responsabilidades distintas daquelas que caracterizavam a sua vida até então. Os bailes de debutantes, o primeiro emprego, a primeira relação sexual anunciavam a passagem para a maturidade. Estes rituais preparavam melhor os indivíduos para enfrentar as mudanças, os medos e ansiedades diante de uma nova etapa da vida  No entanto, ao voltar-se para as sociedades atuais, observa-se que estes ritos de passagem estão menos visíveis, mais empobrecidos e raros em nosso meio cultural, o que acaba por produzir incertezas e inseguranças nos jovens quando deparam-se com momentos de importantes mudanças diante da passagem de um momento da vida a outro. Na sociedade contemporânea, os rituais que se fazem presentes não se embasam na tradição; as gerações atuais vêm perdendo cada vez mais o contato com as de seus antecedentes e, com isto, importantes valores de formação, informação e autoridade deixam de ser transmitidos às gerações futuras.  Hoje nenhum rito proporciona referenciais e valores estáveis e unívocos (Jeolás, 1999: 193).

Assim, diante do enfraquecimento dos ritos tradicionais capazes de amenizar conflitos, medos e ansiedades que se fazem presentes no momento de transição, observa-se, segundo Jeolás apud Douglas (1999), uma potencialização dos riscos vivenciado pelos jovens.

 Partindo de uma construção sócio histórica, Yunes & Szymanski (2001) afirmam que riscos sempre fizeram parte da nossa sociedade  em qualquer tempo e lugar. No entanto, o termo assume diferentes significados de acordo com a construção social que lhe é feita. Em muitas situações, os riscos aparecem de modo mais planejado, mais calculado. Estas atividades de riscos voluntários podem ser observadas através dos esportes radicais como os ralis automobilísticos, surf, salto com elástico, prancha de vôo, entre outros.  Outras vezes, os riscos se configuram de maneira menos calculada ou associada a situações de vulnerabilidade, como nos casos de gravidez indesejada, do uso de drogas, ou da prática de comportamentos violentos.

 Ao cotejar Le Breton, Paulilo (1998) afirma ainda que estes riscos fazem ressurgir os antigos rituais ordálicos, em que a morte seria a busca extrema do limite humano, deixando, no entanto, uma possibilidade de escape. Neste sentido, a aproximação ao risco presente nas condutas violentas entre adolescentes coloca-os diante de um contato mais próximo com a morte.  Aproximar-se dela, por meio de condutas violentas significaria para eles a busca de um sentido para sua própria existência, uma vez que o cultural tem se mostrado insuficiente para a construção da sua identidade?

Buscando ampliar um pouco mais a discussão sobre a prática da violência entre jovens, será analisado o conceito de vulnerabilidade, que permite a elaboração de um estudo mais aprofundado dos aspectos econômicos, sociais e culturais que envolvem a temática da violência entre os jovens na sociedade atual. 

Vulnerabilidade Social: Aproximações Teóricas

O conceito de vulnerabilidade foi primeiramente associado especificamente à saúde pública, no contexto de epidemia da aids, por Mann e colaboradores, principalmente a partir de 1992, quando publicou o livro: “Aids in the world”, nos Estados Unidos (Ayres, 1999). Originado da discussão sobre Direitos Humanos, o termo inicialmente associado à defesa dos direitos de cidadania de grupos ou indivíduos fragilizados jurídica ou politicamente, passou a ser utilizado nas abordagens analíticas, teóricas, práticas e políticas voltadas à prevenção e controle da epidemia. 

Segundo Ayres (1999), numa primeira tentativa de explicar a aids, doença até então desconhecida, várias classificações permeadas por preconceitos foram criadas e atribuídas às pessoas portadoras do HIV e doentes de aids. Falava-se em “grupos de risco”, referindo-se aos homossexuais, hemofílicos e usuários de drogas injetáveis. O uso desta expressão fez com que as pessoas que não se enquadrassem em algum destes grupos se sentissem imunes à doença.

Esta classificação, duramente criticada pelos grupos organizados envolvidos na prevenção da aids, passou a ser substituída por “comportamento de risco”. Este termo tampouco se mostrou adequado, pois responsabilizava apenas o indivíduo por ter adquirido a doença. Assim sendo, a prevenção dependeria exclusivamente da vontade pessoal e de uma mudança voluntária de comportamento. No entanto, com o desenvolvimento do conceito de vulnerabilidade foi possível observar que existem outros fatores que interferem e, muitas vezes, determinam a atitude e a conduta das pessoas, ampliando ou diminuindo as situações de risco. Entre estes fatores estão: o acesso ou não à informação, escola, serviços, programas de saúde e condições de vida digna; e os códigos culturais sobre como se deve expressar a sexualidade de homens e mulheres.

Yunes & Szymanski (2001:28), ao citar o pesquisador Murphy e colaboradores definem vulnerabilidade como a ‘suscetibilidade à deteriorização de funcionamento diante de stress’. Nesse sentido, a vulnerabilidade se associa às diferenças individuais e às formas de lidar com elas associadas às dificuldades ambientais.  Dessa forma, reconheceu-se a complexa interação, entre a predisposição individual à vulnerabilidade, o ambiente vivenciado e a presença/ausência de estrutura social.

De acordo com Ayres (1999), Mann e sua equipe, buscando articular os aspectos envolvidos na contaminação pelo HIV, estabeleceram uma classificação de vulnerabilidade baseada em três eixos: social, programático ou institucional e individual como os principais determinantes da infecção pelo HIV de pessoas, grupos ou nações.

O eixo social inclui condições sociais e econômicas, acesso à informação, à educação, à assistência social e à saúde, a garantia de respeito aos direitos humanos e a situação sócio-política e cultural do indivíduo. O eixo programático ou institucional associa-se a programas voltados especificamente para a prevenção, controle e assistência aos portadores de HIV/aids. O eixo individual refere-se ao acesso a recursos que possibilitam a adoção de comportamentos seguros ou, ao contrário, que possibilitem a infecção pelo HIV. Este último eixo está intrinsecamente relacionado com os eixos social e programático. Deste modo, foi possível ultrapassar a visão de que o comportamento seguro em relação à aids dependia apenas de ações individuais.  Associados à pobreza, outros fatores como as mudanças provocadas pelo momento de transição entre a adolescência e a vida adulta contribuem para potencializar uma maior suscetibilidade do jovem ao risco.

Pessoas nesta faixa de idade são naturalmente vulneráveis pelas características intrínsecas à idade. Entre elas estão: mudanças físicas, período considerado intenso pelos desafios, descobertas e oportunidades que se apresentam, conflito diante da construção da identidade (descobrir quem é, o quer ser, encontrar o seu lugar no mundo), momento de transitoriedade, marcado pelo fato de não se ser mais criança, mas ainda não ser adulto; sentimento de invulnerabilidade perante à morte.

No entanto, é importante observar que tais características assumem diferentes configurações quando contrastadas com as condições sociais, econômicas e culturais vivenciadas pelos jovens. Estas condições são determinadas em certa medida pelo ambiente no qual estão inseridos, pelo acesso a políticas públicas de lazer, educação, projetos sócio-educativos, valores religiosos e familiares socializados, pela condição econômica de seus responsáveis e pelo contexto social que permite ao jovem uma maior ou menor suscetibilidade aos riscos, entre eles, o risco da violência.          

Jovens e Violência

A palavra violência vem do latim ‘violentia’, que significa violência, caráter bravio, força. Encontra-se, assim, na origem do termo a idéia de uma força ou potência natural que, quando exercida excessivamente contra alguma coisa ou alguém, torna o caráter violento (Michaud, 1989).  

Visando uma dimensão mais ampla do conceito de violência, de forma a não considerar somente o ato em si, mas também a situação que a condiciona, Arblaster (1996) considera que:

Se a violência não envolve necessariamente uma agressão física no confronto  direto de algumas pessoas com outras, então a distinção entre violência e formas coercitivas de infligir danos , dor e morte fica enevoada. Uma política que deliberada ou conscientemente conduz a morte de pessoas pela fome ou doença pode ser qualificada de violenta. Essa é uma razão porque slogans como ‘pobreza é violência’ ou exploração é violência’ não constituem meras hipérboles (p.803).

Neste sentido, entende-se por violência uma situação em que um ou vários indivíduos agem de maneira direta ou indireta, causando danos a uma ou várias pessoas em níveis variados, seja em sua integridade física, moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais (Michaud, 1989).

Jeolás (1999), ao discutir o comportamento dos jovens na sociedade atual, coloca que com as transformações ocorridas com o acelerado processo de urbanização desigual, importantes relações de sociabilidade que se formavam com a realização de festividades na comunidade, com as competições entre bairros, festas comunitárias, deram lugar a outras formas de sociabilidade entre os jovens, que passaram a se organizar em grupos com suas normas e códigos particulares. Ainda segundo a autora, ao desvincular-se da tradição, os rituais tornam-se pulverizados e apresentam-se aos jovens apenas como ‘ilhas de segurança’, capazes de renovar apenas em parte e de forma muito limitada as incertezas, ansiedades e agressividades próprias a sua fase de vida.

O mercado capitalista não tardou em se apropriar do conflito gerado pelas mudanças de costumes para alcançar entre os jovens um público fiel consumidor. A partir dos anos 80, surgem no Brasil diversas manifestações culturais associadas aos jovens que se baseiam, em grande parte nos valores colocados pelo mercado de consumo (Abramo, 1994). Ainda segundo a autora, diferentes estilos de grupos de jovens surgem no cenário contemporâneo, como os ‘punks’, ‘rappers’, ‘funkeiros’, ‘metaleiros’, ‘skatistas’, que passam a ocupar o espaço urbano com seus estilos de músicas, roupas e acessórios.   

Esta realidade pressiona e angústia o jovem, que sente-se limitado frente a impossibilidade de adquirir os bens que almeja, de satisfazer os desejos criados pelo mercado e apresentados como necessidades de consumo. 

Ao analisar este contexto vivenciado pelos jovens nos dias de hoje, Carmo (2001) afirma que muitos já não têm permanecido numa atitude conformista diante das desigualdades de renda e de lazer em contraste à tamanha ostentação de riqueza num universo simbólico que se faz presente através dos “shoppings centers”, dos padrões de beleza, da mídia, entre outros.  

O contraste gritante no Brasil entre a riqueza e sua ostentação e a pobreza, suscita maior ressentimento. O menor infrator que rouba uma carteira para comprar um tênis ou comida pode sentir também a sensação de revanche ou de vingança por ter ludibriado um ‘bacana’, tê-lo feito passar de otário (Carmo, 2001, p. 18).

As formas de agressividade de alguns jovens, frente às condições de segregação social à quais foram relegados, se manifestam ainda por meio de sua incursão em quadrilhas de tráfico de drogas. 

Zaluar (1994), ao analisar as manifestações de violência entre jovens moradores da favela “Cidade de Deus” no Rio de Janeiro, associa a imperante influência do tráfico de drogas entre jovens carentes, por ser considerada uma forma rápida e fácil de ganhar dinheiro, perigosa e cheia de aventura que contrasta com a pobreza, o desemprego, o trabalho árduo e mal remunerado de seus pais. 

Ainda segundo a autora, a entrada para a criminalidade ocorre aos 10 anos de idade e termina aos 25, quando acabam mortos por policiais ou por membros das quadrilhas rivais. Daí vem a necessidade de pertencer a um grupo como forma de garantia de sobrevivência. Os adolescentes iniciam-se no tráfico como ‘olheiros’ (observadores), ‘aviões’ (entregadores de droga), ‘vapores’ (vendedores) até se tornarem chefes de quadrilhas. O critério para subir de cargo está na disposição que cada jovem tem para matar. Assim a arma na cintura torna-se fetiche do bandido[1], que ganha fama, respeito e prestígio no local.

Em um mundo exclusivamente comandado por homens, no qual as mulheres exercem papel de coadjuvante, prevalece o que Zaluar (1994, p.146) chama de ethos da masculinidade onde a disponibilidade para matar e o dinheiro para impressionar as garotas representam símbolos da virilidade masculina diante da difícil transição para o mundo adulto.

As quadrilhas envolvidas com o crime organizado delimitam espaços públicos que passam a ser parte do território por elas comandados; matam, roubam e estupram, principalmente as mulheres mais jovens, num movimento de banalização da violência (Zaluar, 1994).

Considerações Finais

No cenário contemporâneo atual, no qual evidenciam-se grande desenvolvimento e progresso associado às novas tecnologias, encontram-se, sem dúvida, diversos pontos positivos: as distâncias se reduziram e o conhecimento científico permitiu desvendar enigmas seculares da vida humana.  No entanto, são os efeitos drásticos deste processo que se constituem em um dos principais problemas a ser enfrentado nos dias de hoje. As diversas sociedades ocidentais passam por um momento de enfraquecimento das tradições, acirramento das desigualdades sociais e da violência, associada principalmente à população jovem. 

Assistimos a um grande aumento da violência associada principalmente às comunidades periféricas e pobres que, em grande parte, se encontram dominadas pelo tráfico de drogas. Integradas por jovens que em muitos casos desde crianças se inseriram na criminalidade, as quadrilhas, gangues e turmas se configuram como um espaço de sociabilidade, referência e segurança aos jovens. Com seus códigos próprios, desafiam o poder do Estado ditando as regras e normas de justiça local, punindo  em muitos casos com a morte a quem consideram como inimigos. Discriminados pela sua condição socioeconômica, desvalorizados pela sociedade que  os vê como pivetes e  marginais, os jovens encontram   no poder exercido pela arma de fogo, nos crimes bárbaros cometidos contra a comunidade periférica em que vivem, forma de conseguir prestígio, aceitação social e dinheiro, tão importantes numa sociedade embasada em modismos e valores consumistas. 


NOTAS

[1] Segundo Zaluar (1994), na favela “Cidade de Deus” por ela estudada, a figura do bandido se distinguia entre a população por carregar a arma na cintura para que todos da comunidade pudessem observá-la.


ABSTRACT: The present study aims at the analysis of several economic, social and cultura issues which are responsible nowadays for the exposure of the youth to a higher risk of violence. 

Key-words: Youth, violence, risk and vulnerability.


BIBLIOGRAFIA

ABRAMO, W.H. Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo: ANPOCS, 1994.

ARBLASTER, A Violência. In: OUTHWAITE, W; BOTTOMORE, T. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Ed.Jorge Zahar, 1996.

AYRES, J.R.C.M; FRANCA-JUNIOR, I e CALAZAS,G.J; SALETI-FILHO,HC. Vulnerabilidade e prevenção em tempos de Aids. In: BARBOSA. R.M E PARKER, R. Sexualidade pelo avesso: direitos, identidade e poder. Ed. 34,1999.

BALANDIER,G O Contorno: Poder e Modernidade. In: O Imaginário na Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. 

CASTRO, M.G; ABRAMOVAY, M. Jovens em Situação de Pobreza, Vulnerabilidades Sociais e Violências. Cadernos de Pesquisa: Autores Associados, n.116, p.143-176, julho, 2002.

CARMO, Sergio Paulo. Juventude no Singular e no Plural. Cadernos Adenauer II, nº 06, São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, dez.2001.

GRACIANE, Maria Estela S. Pedagogia social de rua. Cortez, 1997.

JEOLÁS, Leila Solberg. O Jovem e o imaginário da aids-o bricoleur de suas práticas e representações. Tese de Doutorado. PUC, São Paulo, 1999.

MICHAUD, Yves. A Violência. In: O problema das definições. São Paulo, Atica, 1989.

Ministério da Saúde. Sexualidade, Prevenção das DST/Aids e Uso Indevido de Drogas. Brasília, 1999.

PAULILO, Maria Ângela Silveira. Risco do HIV/Aids: Representações Sociais Entre Soropositivos e Doentes. Tese de Doutorado. PUC. São Paulo, 1998.

PAULILO, Maria Ângela; JOLÁS, Leila Solberg. Jovens, drogas, risco e vulnerabilidade. Serviço Social em revista, Londrina, v. 03, nº 1, p.39-59, jul/dez. 2000.

YUNES, M.A,M; SZYMANSKI, H. Resiliência: a noção, conceitos afins e considerações criticas. In: TAVARES. J ( Org). Resiliência e Educação. Cortez, São Paulo, 2001.

ZALUAR, Alba (a). Condomínio do Diabo. Revan- UFRJ, Rio de Janeiro, 1994

>> volta para índice