O Instrumental Técnico na Trajetória Histórica do Serviço Social Pós-Movimento de Reconceituação

Sandra Regina de Abreu Pires *

* Assistente Social. Mestre e Doutora em Serviço Social pela PUC/SP. Docente do Departamento de Serviço Social da UEL. srapires@sercomtel.com.br

RESUMO:
O assunto do presente texto é o instrumental técnico, entendido por nós como um manancial de meios, técnicas, instrumentos, recursos e procedimentos, em princípio ilimitados, acionados obrigatoriamente para o desenvolvimento eficaz da ação. Enfoca tal assunto na trajetória histórica do Serviço Social brasileiro a partir da década de 1970, tomando como referência principal uma pesquisa bibliográfica realizada pela autora em documentos correspondentes a treze eventos nacionais realizados a partir de fins da década de 1960. Trata-se, portanto, de uma sistematização dos resultados obtidos com essa pesquisa, localizando o instrumental técnico na referida trajetória, contemplando, para isso, dois elementos articulados: o entendimento e o tratamento dispensado a ele pela categoria profissional.

PALAVRAS CHAVE : Instrumental técnico, técnica, história do Serviço Social, prática profissional, processo de renovação do Serviço Social brasileiro.

ABSTRACT:
The subject of this text is the technical instrument understood as a source of means, techniques, instruments, resources and procedures, at first unlimited, set compulsorily for the efficient development of the action. It focuses this subject in the Social Work historical trajectory starting from the 1970s, taking as a main reference a bibliographical research carried out by the author in documents corresponding to thirteen national events that occurred from the end of the 1960s on. It is a systematization of the results obtained with this research, placing the technical instrument in this trajectory, considering two articulated elements: the understanding and the treatment given to it by the professional category.

KEY WORDS: Technical instrument, technique, Social Work history, professional practice, modernization process of the Brazilian Social Work.


INTRODUÇÃO:

Em uma outra oportunidade[1], ao efetuarmos uma abordagem histórico-conceitual acerca do termo técnica, indicamos que na literatura pertinente ao assunto ela tende a ser abordada sob uma dimensão de produção e sob uma dimensão de Técnica Social. Na primeira, é inserida no campo da produção material em sentido restrito, denotando o fazer/fabricar e tendo seu significado associado à tecnologia. Na segunda, expressa a totalidade das "práticas e instrumentos que têm por objetivo final a modelação do comportamento humano e das relações sociais" (MANNHEIM, 1962, p. 257), campo no qual, por sua funcionalidade no controle social e na reprodução ideológica, podem ser inclusas diversas disciplinas profissionais, dentre elas o Serviço Social.

Porém, por sua proposta e decorrentes limites impostos, naquela oportunidade foi apenas apontada uma outra dimensão sob a qual a técnica também pode ser visualizada: a de instrumental técnico empregado no âmbito da prática de diferentes agentes profissionais, dentre eles o assistente social, e entendido aqui como um manancial de meios, técnicas, instrumentos, recursos e procedimentos, em princípio ilimitados, acionados obrigatoriamente para o desenvolvimento eficaz da ação.

Essa dimensão de instrumental técnico foi objeto de uma investigação por nós empreendida que objetivava, mediante pesquisa documental, examinar como o instrumental técnico comparece na trajetória histórica do Serviço Social brasileiro a partir da década de 1970, ou seja, no contexto posterior ao Movimento de Reconceituação ou no interior do processo mais amplo que se inaugura a partir dele e que é denominado por Netto (1991) de Processo de Renovação do Serviço Social brasileiro.

Buscando materiais que expressassem um tratamento coletivo à questão e que, assim, retratassem discussões e posições hegemônicas na categoria profissional, naquela investigação tomou-se como fonte de pesquisa os anais, relatórios e/ou publicações decorrentes de todos os eventos de abrangência nacional realizados a partir do ano de 1970. Aos onze eventos[2] que preenchiam este critério somou-se, por sua importância inquestionável, o I Seminário de Teorização do Serviço Social realizado em 1967 na cidade de Araxá e os Sete Encontros Regionais sobre o Documento de Araxá que ocorreram em 1968.

O texto que agora se apresenta se constitui em uma sistematização dos resultados obtidos com essa pesquisa. Portanto, se propõe, a partir da análise das fontes mencionadas, a localizar o instrumental técnico na referida trajetória histórica do Serviço Social, abordando nisso dois elementos articulados: o entendimento e o tratamento dispensado a ele pela categoria profissional.

Embora o marco cronológico final da pesquisa e deste texto seja o ano de 1992, entendemos que a apresentação dos resultados obtidos ainda se faz válida para uma reflexão atual sobre o instrumental técnico no Serviço Social. A isso concorre, a nosso ver, tanto a inexistência de estudos posteriores perseguindo o mesmo objetivo como, e principalmente, o fato de que no VII CBAS, último congresso analisado, já se delineava a tendência interpretativa que se visualiza hoje no interior da profissão.

2. O INSTRUMENTAL TÉCNICO ANTES DO MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO

Avaliando o período histórico que cronologicamente vai do início da profissão no Brasil, em fins da década de 1930, até meados dos anos de 1960, é possível afirmar que ele é grandemente valorizado pela categoria profissional, tendo sido, inclusive, elemento motivador para a aproximação ao Serviço Social norte-americano nos anos de 1940. Sob o ponto de vista dos assistentes sociais brasileiros, assim como dos europeus, essa aproximação se justificava pela necessidade de corrigir a fragilidade, em termos operativos, do projeto profissional hegemônico de orientação neotomista-cristã. O recolhimento do arsenal técnico-operativo que se encontrava bastante desenvolvido no Serviço Social norte-americano permitiria a concretização, com um maior nível de racionalidade técnica, do ideário cristão.

Também é possível afirmar que em nenhum momento o Serviço Social criou ou possuiu instrumental técnico próprio. Ao contrário, por sua condição de receptáculo das Ciências Sociais[3], o elenco utilizado foi recolhido de outras disciplinas profissionais, o que nos permite falar em um processo de adoção do Instrumental técnico. É possível asseverar ainda que o Serviço Social brasileiro, bem como o latino-americano, não apresenta neste período nenhum estudo que, de forma suficiente, aborde esse processo de adoção. Com essa preocupação, nossa pesquisa detectou apenas uma exceção: o livro "Cuestiones Operativas Del Servicio Social", de Herman Kruse. Suas colocações, embora sintéticas, corroboram o que nos foi possível perceber a partir de nosso estudo.

Kruse coloca que quando o Serviço Social se institui como profissão na América Latina se valeu, para sua operacionalização, de dois grupos de técnicas:

Um era o grupo de técnicas assimiladas ao longo dos séculos pela beneficência e assistência social: a entrevista, a visita domiciliar, a ajuda material direta e indireta, o aconselhamento, etc. O outro se constituía das técnicas próprias das três ou quatro disciplinas que mais influenciaram o Serviço Social nesses momentos (a sociologia, a medicina e o direito): a pesquisa, a prestação de informações, os tramites e, ainda que hoje nos pareça inaudito, vacinar, banhar bebês [...] (tradução nossa) (KRUSE, 1976, p. 52-53).

Quanto ao primeiro grupo, não há dúvidas quanto à pertinência da afirmativa do autor. De fato, o Serviço Social, não só latino-americano, se beneficia de procedimentos utilizados nas práticas assistenciais desenvolvidas pelos "agentes da assistência” e "visitadores sociais". Reforçando o colocado pelo autor, estes procedimentos seriam o estudo das necessidades individuais e familiares; a triagem/seleção dos atendidos; os encaminhamentos; a ajuda material e o aconselhamento, operacionalizados mediante realização de inquéritos sociais e de visitas domiciliares.

Ao elaborar a primeira obra sistematizada sobre o Serviço Social, é a esses procedimentos e instrumentos que Mary Richmond dá um tratamento técnico. Em contrapartida, são os instrumentos e procedimentos propostos por ela que, com as devidas re-elaborações posteriores, foram empregados pelos assistentes sociais por um longo período de sua história.

Quanto ao segundo grupo de técnicas, as colocações do autor também são, a nosso ver, procedentes. Entretanto, são muito mais perceptíveis nos países latino-americanos de tradição hispânica do que no Serviço Social brasileiro, já que os mesmos não guardam características homogêneas no que se refere a sua origem e trajetória histórica. Independente dessas diferenças, a adoção de técnicas de outras disciplinas foi uma constante, principalmente no que tange àquelas empregadas, de forma particular, no Serviço Social de Casos, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade.

Com relação ao Serviço Social de Casos, é nítida a adoção de técnicas da Psicologia. Já presentes em Mary Richmond, mas incorporadas com maior força por Gordon Hamilton, Florence Hollis e Helen Perlman, algumas delas seriam: técnicas de apoio, de influência direta, de catarse e de discussão reflexiva sobre a configuração pessoa-situação.

No tocante ao Serviço Social de Grupo, era igualmente da Psicologia o maior influxo, registrando-se também a recorrência à Pedagogia/Educação. Da primeira importou-se, dentre outros, o psicodrama, as técnicas de apoio, de motivação e incentivo, de condução do grupo e de dinâmica de grupo e, da segunda, as dramatizações, as técnicas dirigidas à transmissão de informações e os debates.

Para o Serviço Social de Comunidade ou Desenvolvimento de Comunidade as técnicas mais utilizadas eram as advindas da Sociologia, embora também se fizessem presentes outras recolhidas da Pedagogia/Educação e da Psicologia Social. A título de exemplo, dentre as buscadas na Sociologia podem ser citadas as relativas à pesquisa social como observação e enquetes; da Psicologia Social as técnicas de desenvolvimento de liderança e técnicas de motivação; e da Pedagogia/Educação aquelas já utilizadas em Serviço Social de Grupo e dirigidas para a informação, conscientização, participação e mobilização.

A literatura produzida durante o Movimento de Reconceituação não permite, de modo geral, a percepção da continuidade ou não desse processo de adoção de técnicas. Concomitante a isso, nossa pesquisa constatou que ele,  ou de forma mais ampla o Processo de Renovação que o Serviço Social vivenciou a partir de fins da década de 1960, não seguiu um mesmo padrão na abordagem e tratamento do instrumental técnico.

Isto se deve justamente por esse processo ter comportado momentos e direções distintas, as quais foram captadas por José Paulo Neto sob três grandes perspectivas tendenciais: Perspectiva Modernizadora, Perspectiva de Intenção de Ruptura e Perspectiva de Reatualização do Conservadorismo.

De certa maneira coincidindo com os períodos de influxo/refluxo dessas três perspectivas, nossa pesquisa identificou na trajetória histórica do Serviço Social após o Movimento de Reconceituação três momentos distintos em relação ao instrumental técnico[4]. Esses momentos e o que eles significaram no âmbito da relação da profissão com o seu instrumental técnico é o assunto dos itens que se seguem.

2.1. O Primeiro Momento: A Valorização do Instrumental técnico

Cronologicamente, este momento é visualizado no período que vai do final da década de 1960 a meados da década de 1970. É marcado por uma continuidade ao tipo de abordagem verificada nos anos anteriores, o que nos permitiu detectar não só a manutenção do processo de adoção de técnicas de outras disciplinas profissionais, mas também do entendimento e do tipo de relação estabelecida com o Instrumental técnico.

No concernente aos Encontros Nacionais da categoria, estamos considerando como expressivos desse primeiro momento o Documento de Araxá (decorrente do I Seminário de Teorização do Serviço Social – 1967), o Documento de Teresópolis (fruto do II Seminário de Teorização do Serviço Social – 1970) e o Documento sobre Funções do Serviço Social, produto de 06 encontros regionais realizados em 1970 com o objetivo de dar continuidade ao Seminário de Teresópolis.

Por outro lado, não estamos levando em conta os Anais do I e do II Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (datados, respectivamente, de 1974 e 1976) e o Documento resultante do Seminário de Bom Clima ocorrido em 1974, na medida em que não chegam a mencionar o instrumental técnico. No caso desses três eventos, acreditamos que a ausência de menções relaciona-se muito mais à motivação e aos objetivos dos mesmos do que a uma eventual desconsideração à questão, já que eles estão inseridos na mesma orientação dos três eventos anteriores, qual seja: à perspectiva modernizadora.

Informados por essa perspectiva e, portanto, expressando a preocupação com a adequação da profissão às demandas modernizadoras postas pela autocracia burguesa, os documentos de Araxá, de Teresópolis e de Funções revelam uma atenção especial aos aspectos metodológicos do Serviço Social.

Neste contexto, em especial os seminários de Araxá e de Teresópolis, representam um solo fértil para a discussão do instrumental técnico. Incluindo-o no esforço de teorização da profissão, deixam patente a necessidade de instrumentalizar o assistente social para que assuma a posição de partícipe do processo de Desenvolvimento Nacional – núcleo central da perspectiva modernizadora.

Desses documentos é que emerge a orientação sobre o instrumental técnico para a massa da categoria profissional e é neles que ela se pauta em suas ações cotidianas. Também é num deles, no Documento de Teresópolis, que se encontra o texto exemplar da Perspectiva Modernizadora: o de José Lucena Dantas que se constitui em um dos poucos trabalhos existentes na literatura do Serviço Social que discorre sobre o instrumental técnico. 

Embora os Documentos de Araxá, de Teresópolis e de Funções não coloquem o instrumental técnico como tema central de debate e não abarquem trabalhos específicos sobre a questão, é inegável o tratamento significativo que lhe dispensaram e, em decorrência, a importância que lhe atribuem para o exercício profissional. O conjunto formado pelos três documentos revela alguns aspectos importantes no trato da questão, os quais passamos a pontuar.

O termo utilizado é “técnica”, entendida como elemento que é, e deve ser, encarado como constituinte da profissão. São as técnicas que permitem a operacionalização dos "métodos”[5], dando, assim, o caráter de instrumentalidade aos princípios e objetivos profissionais. Sem um arsenal de técnicas, a profissão, como tal, perde sua característica primordial: a de intervenção no social.

Por outro lado, não se cogita a essencialidade da técnica no sentido de que ela, por si só, daria o tom e a direção necessários à ação profissional. São entendidas como instrumentos ou meios dos quais o assistente social se vale para atingir os fins pré-determinados. Esse é um grande contributo dos referidos documentos, isto é, a vinculação total das técnicas ao tipo de objetivo que o profissional se propõe a atingir, uma vez que elas devem ser eleitas em função da maior ou menor capacidade de possibilitar a consecução dos mesmos.

Sob esse prisma, cai por terra o caráter de independência da técnica com relação à intencionalidade da ação profissional, bem como qualquer possível pretensão de enquadrá-la em um modelo pré-estabelecido. Aliás, se essa pretensão existiu em momentos anteriores aos dos Seminários em foco, nossa pesquisa não conseguiu detectá-la. Ao contrário, como fica perceptível no texto de Dantas quando resgata a contribuição de vários autores sobre as técnicas específicas para "casework, groupwork e community organization", não há consenso quanto ao entendimento de técnica e nem mesmo com relação à listagem de instrumentos/técnicas passiveis de utilização.

 Esse aspecto é reforçado nos próprios documentos pela afirmativa explícita de que a questão da técnica não era, até aquele momento, algo definido e suficientemente estudado ou elaborado no interior do Serviço Social. Isso impulsiona colocações no sentido das possibilidades existentes ou defendidas quanto à elaboração e/ou adoção de técnicas.

Quanto a isso, os documentos são flexíveis: as técnicas tanto poderiam ser aprimoradas/adaptadas de outras disciplinas profissionais, como poderiam ser criadas no âmbito do Serviço Social (com base experiência prática ou via "investigações tecnológicas“ de “cunho científico”). Assim, parece-nos consensual nesse primeiro momento o entendimento de que não existem técnicas do Serviço Social. Embora argumentassem em favor da possibilidade de elaboração ao nível interno da profissão, não havia defesa no tocante ao caráter de especificidade.

Além da vinculação direta da técnica aos objetivos propostos, os Documentos de Araxá, de Teresópolis e de Funções vinculam-na aos métodos específicos de Serviço Social de Casos, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade embora, à época da realização dos Seminários, já houvesse, no âmbito da categoria profissional, propostas do tipo "integração dos métodos", "método único" e “método básico".

Igual postura é identificável em uma obra que, por apresentar uma tendência de subordinação à perspectiva modernizadora e, sobretudo, por ter servido de referência importante para a categoria profissional no que tange ao "como fazer", pode ser qualificada como exemplar do período com relação ao Instrumental técnico. Estamos nos referindo ao livro "Serviço Social: Processos e técnicas” de Balbina Otoni Vieira, publicado em primeira edição no ano de 1969.

Nele, além dos processos de Caso, Grupo e Comunidade, a autora inclui a Organização, a Administração e a Supervisão em Serviço Social e, para cada um deles, expõe o instrumental específico. Compartilhando da posição de Dantas expressa no Documento de Teresópolis, Vieira (1969) expõe esse instrumental em separado, de acordo com o tipo de operação a ser realizada.

Nesta medida, no que se refere ao Serviço Social de Caso, o instrumental passível de utilização pelo assistente social seria, para a operação de  Estudo, entrevista na obra, visitas domiciliares, observação e informações de colaterais via entrevista e exames ou testes, dependendo da natureza e exigência da obra. Os dados coletados através desses instrumentos seriam aqueles utilizados para a elaboração do Diagnóstico (segunda operação), após o que adviria a terceira operação: o Tratamento Social que poderia ser Direto ou Indireto. Para o Tratamento Direto lista a entrevista e maior apelo a técnicas psicológicas (como apoio e esclarecimento, por exemplo) e, para o Indireto, a prestação de serviços concretos (utilizando-se principalmente de entrevistas e encaminhamentos) e modificação de ambiente, onde se inserem, além das entrevistas e visitas domiciliares, as ligadas à prestação de informações. * parado aqui. Rever redação anterior

No Serviço Social de Grupo, as operações seriam duas: Estudo e Diagnóstico e Tratamento. Para o Estudo e Diagnóstico menciona entrevistas, contatos individuais, visitas domiciliares, observação, estudo de documentação existente na obra sobre o grupo ou seus membros e os relatórios de reunião. Na operação de Tratamento inclui reuniões e atividades realizadas no grupo (discussões, programação e execução de eventos, comemorações e outras).

No tocante ao Serviço Social de Comunidade, Vieira (1969) afirma que o Estudo envolve técnicas que permitam ao assistente social formar opinião e traçar plano de trabalho (operação de planejamento) e envolver a comunidade no conhecimento de seus problemas. Neste rol insere o estudo de documentação (estatísticas, histórico da comunidade, fontes documentais e outros); técnicas individuais (entrevistas, questionários); técnicas de observação (direta, participante) e ainda debates em grupo consignados em relatórios. A operação de Execução deve ser efetivada através de pequenos grupos ou comissões designadas para as diferentes tarefas. Assim, o instrumental mencionado é, principalmente, reuniões com pequenos grupos  e entrevistas.

Para Organização e Administração do Serviço Social ou, mais propriamente, de Entidades Sociais, a autora cita as reuniões como o principal meio utilizado pelo assistente social no desempenho da função de controle-coordenação, podendo as mesmas serem de Estudo ou de Serviço.

Para a Avaliação realizada diretamente com as pessoas, também cita as reuniões (de coleta e/ou avaliação dos dados) e, para a realizada de forma indireta, o estudo da documentação (questionários, mapas, registro das observações e atividades e outras).

 Quanto à Supervisão (seja de alunos ou de profissionais de Serviço Social), expõe como instrumentos: 1. relatórios do supervisado; 2. entrevista individual; 3. reunião ou supervisão em grupo; 4. observação; 5. avaliação do supervisado; 6. relatórios das entrevistas e reuniões do supervisor com os supervisados.

À exemplo de Vieira (1969), a abordagem independente dos processos ou métodos é a tônica da literatura produzida pela categoria profissional no período. Com efeito, excetuando aquelas propostas de “método único” e "método básico", as publicações como um todo ou, ao menos em seu interior, trazem considerações teóricas e/ou metodológicas em separado para cada método particular.

 No concernente ao Serviço Social de Casos, a literatura do período é escassa tendo em vista as críticas a ele dirigidas no bojo do Movimento de Reconceituação acerca de sua inoperância e inadequação frente à realidade brasileira e latino-americana, e frente às demandas sócio-históricas colocadas. Deste modo, a referência, principalmente instrumental, ainda é, em maior ou menor grau, aquela advinda de autores norte-americanos como, por exemplo, Gordon Hamilton e Florence Hollis.

Por outro lado, proliferam publicações acerca do Serviço Social de Grupo e Desenvolvimento de Comunidade nas quais, especialmente naquelas originárias em países latino-americanos de tradição hispânica, já é perceptível o início de uma característica que se acentua mais para o final da década: a ênfase das contribuições recaindo mais sobre aspectos teórico-filosóficos (objetivos, princípios e intencionalidade político-ideológica) do que na dimensão operacional.

Desta forma, em se tratando de Serviço Social de Grupo, a orientação é heterogênea: transita da reprodução do modelo norte-americano à vinculação ao desenvolvimentismo e a ensaios de inseri-lo em uma perspectiva transformadora. Quanto ao Instrumental técnico, persiste aquele elaborado sob o marco do Serviço Social norte-americano, ao qual se soma o apelo crescente a técnicas de dinâmica de grupo e psicodramáticas.

Neste campo o influxo maior também é externo, notadamente da Psicologia norte-americana, seja por intermédio de fontes originais, seja mediante re-elaborações de autores sul-americanos. É ilustrativo disso o livro de George Beal et alli "Liderança e Dinâmica de Grupo" de 1972; o de Cirigliano Villaverde "Dinâmica de Grupo y Educacion" de 1966; e a coleção de "Exercícios Práticos de Dinâmica de Grupo e Relações Humanas", elaborada por Silvino José Fritzen.

No que tange ao Desenvolvimento de Comunidade, o número de produções no período é bastante volumoso e, em sua maioria, trazidas ao público pelo CBCISS. É nelas que se torna mais visível a orientação desenvolvimentista e, portanto, modernizadora. Como bem coloca Ammann (1980), a partir de 1964 os intelectuais de Desenvolvimento de Comunidade vão paulatinamente incorporando a ideologia da integração e é essa ideologia que transparece na quase totalidade das publicações[6] sobre Desenvolvimento de Comunidade do período que estamos enfocando. Quanto ao Instrumental para esse processo, além daqueles pertinentes à Pesquisa Social (utilizadas na "fase" do Estudo-Diagnóstico-Planejamento), os assistentes sociais se valem de técnicas já consagradas para Serviço Social de Grupo.

Pelo exposto percebe-se a explicitação de técnicas, instrumentos e procedimentos comuns aos três processos. É o caso das entrevistas, das reuniões, das observações e dos contatos individuais (grupais e institucionais). A diferenciação é preconizada não na técnica ou no instrumento em si, mas nos objetivos específicos almejados em cada processo ou em cada situação particular. Esse aspecto, comum tanto nos documentos relativos aos Encontros Nacionais como nas produções do período que nos foi possível examinar, revelam um entendimento consensual quanto à irrefutável vinculação e dependência do instrumental técnico aos objetivos estabelecidos.

Compartilhando desse entendimento, depara-se no período com uma publicação que, por sua importância histórica, não podemos deixar de mencionar. Trata-se de “La Práxis Del Trabajo Social em uma Direccion Científica” de Maria Angélica Clark.

Sua inclusão neste período justificar-se-ia mais por essa visão de vínculo entre o instrumental técnico e os objetivos e pelo ano de sua publicação – 1974, do que por sua vinculação teórico-metodológica. Com efeito, a obra de Clark destoa completamente daquelas informadas pela Perspectiva Modernizadora. No conjunto, pode ser considerada com um esforço de refletir sobre a profissão e, dentro dela sobre seu instrumental, em uma direção que se opõe ideológica, teórica e metodologicamente ao Serviço Social Tradicional.

Esse esforço não se completa sem problemas, apresentando alguns dos equívocos e imprecisões que também marcam o Serviço Social brasileiro nos primeiros anos de aproximação à Tradição Marxista. Neste sentido, é hoje uma obra questionável principalmente por deixar nítida a influência althusseriana, assim como por expressar uma tentativa de conciliação eclética entre as idéias desse autor e as de Paulo Freire[7].

 Apesar disso, alcançou uma penetração significativa na categoria profissional e se constituiu numa das poucas referências existentes acerca do instrumental técnico no Serviço Social. Além disso, traz duas contribuições importantes: a mencionada reafirmação do vínculo existente entre instrumental e objetivos, e a tentativa de oferecer ao assistente social um rol de instrumentos passíveis de aplicação por aqueles que almejam uma prática de cunho oposto à desenvolvida sob a égide do Serviço Social Tradicional e da Perspectiva Modernizadora.

Deixando claro o caráter não específico das técnicas a uma determinada disciplina profissional, Clark (1974) inicia sua exposição discutindo a neutralidade das técnicas. Sobre isso conclui que, se olhada sob o ponto de vista de seu conteúdo, ela pode ser considerada neutra na medida em que se aplicaria a qualquer situação, desde que essa se assemelhasse aos propósitos para os quais foi criada. Em termos de aplicação, porém, acredita que nenhuma técnica, assim como nenhuma ação humana, pode ser considerada neutra: é visceralmente ideológica, já que está orientada pela visão de mundo de quem a aplica. Vendo-a desta forma, defende a necessidade de alterar a orientação impressa ao instrumental técnico, qual seja, da positivista para a materialista-histórico-dialética.

Quanto à elaboração, chama a atenção para a possibilidade de resgatá-las, mesmo as utilizadas no passado de forma ideologicamente oposta, repondo-as sob nova orientação e, aliado a isso, para a necessidade do assistente social "propiciar e participar da elaboração e/ou criação de novas técnicas" (CLARK, 1974, p. 42). Independente de terem sido elaboradas/criadas ou terem sido recuperadas da própria profissão ou de outras, as técnicas não seriam aplicadas indiscriminadamente, exigindo seleção. Para tal, sugere aquelas que:

a) guardem maior relação com a circunstância da atuação; b) obedeçam à realidade na qual estão sendo utilizadas; c) guardem concordância com o momento histórico vivido; d) sejam mais úteis e eficazes para a consecução de objetivos determinados; e) sejam consideradas boas e correspondentes pelo profissional, com base em sua própria experiência profissional frente à realidade, de forma comprometida. [tradução nossa] (CLARK, 1974, p. 41).

2.2. O Segundo Momento: A Desatenção ao Instrumental técnico

No lapso de tempo compreendido neste segundo momento – entre meados da década de 1970 e inicio da segunda metade da década de 1980 – Netto (1991) situa a emergência e adensamento da Perspectiva de Intenção de Ruptura, cujo principal traço inovador é a recorrência à tradição marxista.

Em nossa avaliação, é exatamente essa recorrência que permite uma aproximação à forma pela qual o Instrumental técnico foi trabalhado nesse e no terceiro momento por nós visualizado, uma vez que, conforme o autor já tratou de evidenciar, muitos dos equívocos cometidos por esta direção do Processo de Renovação do Serviço Social brasileiro podem ser creditados ao viés da tradição marxista do qual a categoria se aproxima e ao modo como procedeu sua apropriação.

Para Netto (1991), nos primeiros anos da Perspectiva de Intenção de Ruptura o tipo de interlocução estabelecida com a Tradição Marxista traz como elementos problemáticos, dentre outros, uma contaminação do debate e produções do Serviço Social por "confrações empíricas, formalistas e (neo) positivistas"; um ecletismo teórico e ideológico; um simplismo e reducionismo daquela tradição e ainda uma certa falta de clareza ou de profundidade no domínio do pensamento marxiano, imprimindo uma frágil sustentação ao discurso reproduzido pela massa da categoria profissional.

Para a constituição de tal quadro concorrem fatores exógenos e endógenos, como as condições sócio-históricas existentes no momento específico em que se dá a aproximação do Serviço Social com a tradição marxista; as conseqüências do ciclo autocrático burguês sobre a Universidade e o fato de que a recorrência ao pensamento marxiano se dá através de fontes secundárias quase sempre de qualidade ou de confiabilidade questionáveis.

O conjunto desses e de outros condicionamentos acaba por impulsionar parte significativa dos profissionais que se auto-proclamam marxistas, a uma postura voluntarista que considera o assistente social como "agente da transformação", atribuindo equivocadamente à profissão a incumbência de transformar a sociedade e o homem.

Isso denota a reposição, em outros termos, de uma característica flagrante nos períodos anteriores ao Movimento de Reconceituação, ou seja, a idéia de vocação e de "servir". Se antes essa vocação e ímpeto de servir eram decorrentes de valores cristãos, (diga-se de passagem abertamente explicitados e assumidos pelas pioneiras e por gerações posteriores de assistentes sociais), agora, principalmente no início da aproximação com a tradição marxista (mas persistindo a ela), a vocação é reposta através do "militantismo messiânico ou heróico” sem, contudo, romper com a incidência de valores cristãos[8]

Nas palavras de Iamamoto (In: ANAS, 1991, p. 63) essa tendência voluntarista e anti-histórica é marcada "por uma visão mágica da transformação social”, circunscrita “a uma questão de princípios. Muitas vezes esse discurso se reduz ao compromisso individual do Assistente Social, como se a nossa vontade e propósitos individuais fossem unilateralmente suficientes para alterar a dinâmica da vida social [...]”, deixando sob uma capa nebulosa e confusa a percepção da real dimensão política da profissão.

Não há dúvidas quanto ao fato de que a profissão detém um caráter ou dimensão política. Entretanto, sua errônea percepção, estabelecendo uma equalização "entre profissão e partido político, entre exercício profissional e militância” (IAMAMOTO In ANAS, 1991, p. 67) e sua supervalorização equivocada, interfere consideravelmente no tratamento dos aspectos interventivos-operacionais. Dito de outro modo, o messianismo, aliado à supervalorização da dimensão política (entendida como dissociada da dimensão técnica-operacional), contribuem para a quase ausência do Instrumental técnico no debate profissional do período, justificando a denominação dada por nós a este segundo momento.

Isso se comprova nos documentos decorrentes do III e V Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (ocorridos em 1979 e 1984) e do III e IV Seminário de Teorização (datados de 1978 e 1984) que estamos incluindo como expressivos deste momento de desatenção ao instrumental técnico. Nestes documentos, a ausência de referências  é mais significativa do que as menções a ele verificadas.

Além disso, a tendência em promover crítica e recusa teórico-metodológica radical ao Serviço Social tradicional e contra tudo o que a ele se associasse (evidenciada claramente no III CBAS), atinge frontalmente o tratamento dado ao instrumental.

Embora os documentos em foco só se refiram a essa questão de forma indireta e implícita, é inquestionável seu envolvimento nessa crítica e recusa. Sobre o arsenal utilizado pelos assistentes sociais (que, aliás, ainda não havia sido alvo de uma sistematização aprofundada) passam a ser dirigidas denúncias quanto a sua origem (notadamente norte-americana) e sua funcionalidade na manutenção do controle social. Coloca-se em relevo o fato de que, sob uma falsa capa de neutralidade axiológica, ele representaria meios através dos quais a profissão contribui para a continuidade das relações sociais impostas pelo capital, assumindo, pois, a dimensão de Técnica Social.

Por essa linha de raciocínio é que podem ser vislumbrados, mesmo que minimamente, os motivos pelos quais se observa nos Encontros Nacionais do período uma quase inexistência de abordagens ou de elementos significativos para a discussão sobre o instrumental técnico. Por outro lado, no mesmo período, este nível de denúncia e/ou recusa não é superado: não se formulam propostas alternativas ou de adequação do instrumental técnico aos novos rumos que a categoria deseja imprimir à profissão.

Tal fato vem reforçar a argumentação de Netto (1991) no tocante à incapacidade da Perspectiva de Intenção de Ruptura em oferecer aos assistentes sociais "indicativos prático-profissionais de operacionalização imediata". Essa debilidade, assim como outros aspectos concernentes à apropriação "problemática” da tradição marxista pelo Serviço Social, começam a ser percebidos e expostos no final desse período. Dentro dessa tendência apontam-se as colocações presentes no V CBAS e, com maior ênfase, no IV Seminário de Teorização.

No documento resultante deste último estão presentes dois textos que tratam da relação do Serviço Social com a tradição marxista. Um deles – “Consciência Crítica no Serviço Social: Alguns Elementos para Revisão” – é produto de um grupo de assistentes sociais que, encarregado de refletir sobre a "Dialética Marxista no Serviço Social", lista 16 elementos (com várias derivações) que, no entender dos participantes, deveriam ser levados em consideração para a necessária revisão crítica do "método dialético” e sua apropriação pelo Serviço Social. Dentre esses elementos, destacamos abaixo aqueles mais significativos para os fins deste texto:

1. Presença de uma histórica dicotomia entre teoria e prática social no acesso ao conhecimento teórico, igualmente observada no que tange ao pensamento marxista;

2. Formação profissional frágil, sem vínculo com a pesquisa para produção de conhecimento, com produção de "simplificações teóricas" e, no processo de aprendizagem, a falta de hábito e de estímulo para leituras, de exame crítico da mesma e ainda a falta de recorrência a fontes originais.

3. Adesão irrefletida a determinadas correntes de pensamento, a "modismos" e a "jargões"‚ (destaca-se aí a questão do "compromisso com as camadas populares" e o sentido vago e impreciso da "transformação social").

4. Apreensão mecânica e irrefletida do "método dialético" e de "conceitos marxistas".

5. Caráter simplista e eclético dos conhecimentos apropriados da tradição marxista. Cita-se a conciliação entre a Teologia da Libertação e a Teoria Marxista e a assimilação indistinta de Althusser e Gramsci no tocante à noção de Estado.

6. Crítica ao processo de negação da Assistência e à posição voluntarista de "movimentos sociais de fim-de-semana". Esta última, resultado da postulação de que somente fora das Instituições seria possível a realização satisfatória de um trabalho informado pelo referencial marxista, trouxe como conseqüência a perda ou a falta de conquista de um espaço político no interior das Instituições.

Confirmando concretamente a advertência quanto ao cariz tendencial da divisão cronológica que efetuamos em relação ao Instrumental técnico na trajetória histórica do Serviço Social, no lapso de tempo abrangido nesse segundo momento não é raro encontrar publicações que se orientam pela Perspectiva Modernizadora[9] e outras que tratam de forma específica os processos consagrados no Serviço Social (Serviço Social de Casos, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade).

Dentro desse segundo grupo é necessário frisar que a grande maioria tem por preocupação prioritária a denúncia de como esses processos foram operacionalizados por segmentos da categoria profissional, principalmente no que tange ao aspecto político-ideológico. Desse modo, tentam inseri-los em uma nova perspectiva e, em razão disso, são raras as alusões ao instrumental técnico[10].

2.3. O Terceiro momento: a re-aproximação ao instrumental técnico

A re-aproximação ao instrumental técnico é uma tendência visualizada por nós nesse terceiro momento que se inicia em fins da década de 1980. Essa tendência, é necessário antecipar, não se qualifica como um resgate irrefletido da histórica funcionalidade do instrumental técnico à ordem burguesa. Denota uma tendência de vê-lo e ressaltá-lo naquilo que, nos parece, lhe é peculiar: sua essenciabilidade para a operacionalização de uma postura profissional que, fugindo à orientação positivista-conservadora, realmente se caracterize por uma Intenção de Ruptura no sentido proposto por Netto (1991).

Nesses anos, não é possível encontrar na literatura produzida pela categoria profissional nenhuma publicação acerca do instrumental técnico, seja ela específica ou concernente aos processos de Serviço Social de Caso, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade.

No tocante aos Encontros Nacionais, dentre os quais estamos incluindo como representativos o VI e VII CBAS, realizados respectivamente em 1989 e 1992, ele não está incluso como tema central ou sub-tema e não figura em trabalhos, teses ou qualquer modalidade de exposição como alvo específico de discussão. Do mesmo modo, os documentos deles decorrentes não explicitam definições de instrumental técnico ou Técnica, não chegam a listar aqueles passíveis de utilização pelo assistente social e as alusões existentes são, quantitativamente falando, um tanto quanto reduzidas.

Mediante isso se poderia indagar: com base em que estamos visualizando essa tendência de re-aproximação ao instrumental técnico?

Em primeiro lugar, pela qualidade das menções presentes nos referidos documentos. Neles não há críticas ao instrumental técnico, apenas advertências quanto ao risco da retomada do tecnicismo que imperou em determinados momentos da história da profissão. Por outro lado, há o explícito entendimento de que, considerando o caráter interventivo do Serviço Social, ele é um elemento essencial e, como tal, está igualmente vinculado à sua dimensão política.

Neste sentido, sua negação e rechaço por sua funcionalidade de controle em prol dos interesses do capital é superada dialeticamente pela visão de que, revisto, o instrumental técnico pode e deve ser parametrado por uma perspectiva que ultrapasse a positivista-conservadora. Em decorrência, a "competência técnica" é finalmente visualizada como algo que deve fazer parte do cotidiano profissional, inclusive e principalmente daquele assistente social que se propõe a colocar o seu saber profissional a serviço dos interesses e lutas das classes trabalhadoras. Esta competência, que é intelectual e técnica, é entendida como articulada e referida à dimensão política da profissão.

Esses aspectos apontam, portanto, para uma intenção de repensar o instrumental técnico e sua posição no âmbito da ação cotidiana e da formação profissional do assistente social e, no conjunto, a nosso ver, para aquela tendência de re-aproximação no sentido antes exposto.

Em segundo lugar, fora da esfera dos Encontros Nacionais, observa-se que a demanda posta pela categoria desde o do IV Seminário de Teorização (1984) e do V CBAS (1985), sobretudo no que toca à superação dos equívocos cometidos pelo Movimento de Reconceituação e aos indicativos teórico-operativos sob uma nova matriz teórico-metodológica, vem merecendo discussões e sendo alvo de esforços no sentido de respondê-las.

Contudo, o indício que nos parece mais forte e ao qual essa tendência se vincula é, sob nosso ponto de vista, o patamar diferenciado que a categoria atingiu em sua interlocução com a tradição marxista. Com efeito, o debate profissional e a literatura produzida pelos assistentes sociais a partir de meados da década de 1980 revelam um aprofundamento e amadurecimento no trato dos contributos marxistas. Concomitante a isso, percebe-se uma preocupação cada vez com maior e mais freqüente em se recorrer à fonte inicial desses contributos: as obras de Marx.

Tanto um como outro procedimento possibilitam, no interior da profissão, uma apropriação mais consistente das questões trabalhadas por Marx. Dessa tendência advém um tratamento mais procedente de temas essenciais para o exercício profissional, os quais, após algum tempo sendo alvo de denúncias e de recusa, passaram a ser re-trabalhados à luz desse novo patamar. É o caso, por exemplo, da questão da assistência.

A postura voluntarista e mecanicista, embora não totalmente extirpada, foi sendo revista, de forma que, exatamente pelo amadurecimento que pontuávamos, tem sido possível visualizar as instituições – espaço ocupacional do assistente social por excelência – como campos de possibilidades; como campos políticos de atuação.

Certamente que ainda há muito a ser empreendido e aí se inclui o instrumental técnico que, ainda nos dias de hoje, carece de estudos mais aprofundados. Porém, também é certo que, como não poderia deixar de ser, toda essa movimentação tem rebatido positivamente na forma de concebê-lo, de tratá-lo e de utilizá-lo. Ele não é mais negado ou rechaçado, não é mais relegado a uma posição secundária ou marginal dentro da profissão, não é mais identificado como mero instrumento a serviço exclusivo dos interesses dominantes, enfim, como dito, o esforço tem sido no sentido de resgatá-lo e de inseri-lo adequadamente no conjunto de um projeto ético-político profissional que busca consolidar-se como alternativa oposta ao tradicionalismo profissional e a outras posturas igualmente conservadoras.

Considerações Finais

Ao findar este texto, alguns aspectos merecem ser salientados. Um deles é justamente a associação do instrumental técnico ao controle e à dominação social, tão enfaticamente expressa no segundo momento por nós apontado.

Como já aludido, essa imagem perpassa explícita ou implicitamente o tratamento da questão e se constitui na conotação historicamente a ele atribuída. Qual seja, o instrumental técnico comportaria um caráter irremediavelmente controlador e, portanto, funcional ao projeto político burguês. Não há como negar que isso tenha ocorrido. Tendo o Serviço Social se colocado como Técnica Social e, de forma consciente ou não, se situado historicamente ao lado dos interesses do capital, é natural que tenha acontecido o mesmo com o conjunto de procedimentos e instrumentos por ele utilizado.

 Sem estar, como tudo, deslocado do conjunto das relações sociais, o significado da técnica foi se transmutando em razão da evolução e das alterações nos modos de produzir, de organizar, de pensar e de intervir na sociedade, o que nos leva a compreendê-la como envolvida por um caráter de transitoriedade  e como produto de contextos histórico e socialmente determinados.

Depreende-se de Castoriadis (1987) que, principalmente através de Platão e Aristóteles, é possível perceber a vinculação inicial da técnica a três elementos: causalidade, criação e razão. A técnica era considerada muito mais que uma ferramenta ou instrumento do homem, tendo em vista que imprime ao produzir/fabricar uma dimensão criativa (inerente ao ser social); um sentido e uma noção de causalidade; e um saber rigoroso e fundamentado na razão.

Desta forma, a técnica estaria associada ao trabalho como criação e, em decorrência, ao homem como Ser criador: revela-se o trabalho como ato criador, acompanhado da razão, e a técnica como vinculada ao que é e para que é produzido.

Essa relação estreita entre o técnico e o político, como duas dimensões do mesmo ato, tende a se dissipar com o processo de ocidentalização. Separando-se o homem dos meios do trabalho e dos produtos dele e tornando-o trabalho alienado que também o afasta de suas capacidades e potencialidades humano/criadoras, a técnica, cada vez mais, passa ser identificada com algo adquirido, padronizado e aplicável a situações diversas, sem consideração aos fins últimos do ato em si: como algo neutro, autônomo e apolítico.

Tendo a dimensão política sido alijada da técnica e sendo atribuída a esta uma falsa imagem de neutralidade, paradoxalmente a técnica passa a ser utilizada pelos detentores do poder e seus representantes como mecanismo ideológico ou, em outras palavras, em sua função política de instrumento de manutenção da hegemonia burguesa.

Entretanto, concebendo o instrumental técnico como meio ou instrumento de trabalho, não há como ver nele um caráter de neutralidade. Mais que isso, não há como ver na dimensão técnico/política que lhe é própria um cariz monolítico de controle e de dominação. O instrumental é, ao mesmo tempo, técnico e político. Técnico porque demanda uma competência quanto ao criar, ao selecionar, ao aplicar e ao estabelecimento de mediações adequadas. Político, porque pressupõe e se vincula a um projeto societário que pode ou não ser de superação das relações sociais instituídas.

Deixar de vê-lo sob esta ótica implica em negá-lo enquanto condicionado pelas relações sociais e como expressão delas. Implica em vê-lo como algo isolado e deslocado do conjunto sócio-político e econômico correspondente a cada momento histórico específico. Enfim, implica em negar sua dimensão de criação e, por conseguinte, a do trabalho e a do homem enquanto Ser Social.

Nesta medida, como podemos, então, visualizar o instrumental técnico dentro de uma orientação que busca se inserir em uma Perspectiva de Intenção de Ruptura?

Inicialmente, pensamos que é necessário se ter clareza da lógica de dominação presente na sociedade burguesa, da qual faz parte historicamente o instrumental técnico e, recusando sua colocação a esse fim, não negá-lo como elemento fundamental para a operacionalização da ação profissional sob outra orientação.

Como já pontuamos, ele, em si, não é essencialmente controle e, se tem essa conotação na sociedade contemporânea, não é em função de sua própria natureza: é por ser, como tudo, expressão do caráter dominador e opressor que permeia as relações sociais capitalistas. Mesmo se apresentando concretamente desta forma, é necessário que não se atribua a ele um caráter monolítico que, por sua vez, conduza à sua recusa. O controle e a dominação não se fizeram ou se fazem sem a devida contrapartida, ou seja, sem a resistência e sem a luta de classe em prol da organização e do fortalecimento de um projeto político que se opõe ao burguês.

Colocar-se a favor desse projeto político impõe ao assistente social tomar dois caminhos simultâneos, porém, distintos. Um onde o assistente social, enquanto cidadão e trabalhador que é, busca na sociedade civil formas de se articular e de contribuir com lutas que não são de responsabilidade individual ou de uma profissão e sim coletivas. O outro, enquanto profissional que é, lhe cabe repensar sua atuação e, dentro dela o instrumental técnico, evitando desloca-lo da dimensão política que é inerente à profissão e concebendo-o como elemento imprescindível para esta atuação.

Esse segundo caminho impõe, portanto, a articulação do instrumental técnico aos objetivos finais propostos, ou seja, a sua colocação a serviço de um projeto político coletivo daqueles que, resistindo à dominação do capital, buscam a instauração de um novo tipo de sociedade.

A aceitação disto nos leva à discussão sobre o processo de adoção ou elaboração/criação do instrumental técnico que, nos parece, já se aproximou de um nível aceitável de consenso: não há técnicas específicas ou restritivamente pertencentes a uma determinada profissão. Principalmente nas Ciências Sociais, elas são universais e, desde que re-trabalhadas adequadamente, são passíveis de utilização por qualquer disciplina profissional. Assim é que não temos preconceito quanto ao uso de técnicas originariamente utilizadas na Psicologia Social, na Educação, na Sociologia, na Comunicação Social e outras.

No contraponto, há muito tempo o assistente social já tomou consciência de que a população com a qual trabalha detém um saber do qual podem emergir alternativas operacionais. Essa potencialidade é outro elemento que também nos parece próximo de um consenso em meio à categoria, permitindo, desta forma, a visão de possibilidades de elaboração/criação de técnicas no âmbito da ação cotidiana propriamente dita.

Porém, levadas ao extremo, essas afirmativas jogam com o risco de alimentar o tecnicismo e o basismo. É necessário ressaltar que as técnicas em si possuem um conteúdo e uma finalidade que lhes são próprias, não podendo ser vistas como um "esquemas/modelos" fechados, inflexíveis e aplicáveis indiscriminadamente a qualquer situação.

Por outro lado, a relação entre o profissional e aqueles com os quais atua, é uma relação de troca. Uma real consciência dessa relação de saberes é fundamental para o assistente social. Não se trata de buscar a assimilação, pela população, de um arsenal técnico incoerente com o seu cotidiano ou, no outro extremo, de tentar colocar-se ingenuamente como um igual no sentido estrito do termo. Trata-se de, reconhecendo-se como diferente (pela própria formação profissional recebida), mas em identidade político-ideológica com o projeto e com as lutas propostas, contribuir para o processo organizativo que tem, no iInstrumental técnico profissional e nas estratégias engendradas pela população, um fator inegavelmente fundamental.

A questão das estratégias da população não pode ser, portanto, tratada de forma generalizada. Depende de uma análise específica empreendida no momento da ação. O mesmo aplica-se ao instrumental técnico, na medida em que deve ser entendido como meios facilitadores que vão sendo criados e recriados de modo a atender melhor a realidade, o desenvolvimento das tarefas e a consecução dos objetivos.

Em síntese, significa que, além da busca constante de novos instrumentos e técnicas (seja em outras profissões, no próprio Serviço Social ou ainda junto à população) é necessária uma seleção dos mesmos. Evidentemente que a seleção deve levar em conta os objetivos propostos e a finalidade imanente ao conteúdo da técnica. Todavia, por si só, isso não basta.

Adotando o raciocínio exposto no VI CBAS, acreditamos que na seleção das técnicas (mas não só nela) se exige do profissional uma competência intelectual e técnica que permita o estabelecimento de nexos e mediações adequados entre a concretude da ação frente a situações particulares e o aporte teórico-metodológico. Exige-se ainda, inclusa nesta competência, uma habilidade no manejo das técnicas que só pode ser adquirida, enquanto habilidade, através de uma formação profissional rigorosa e de uma experiência profissional consistente.

A falta de uma ou de outra certamente levará o profissional a visualizar e aplicar o instrumental técnico como "um fim em si mesmo", retornando ao tecnicismo, enquanto reproduz irrefletidamente um "discurso vazio" que, em si, não tem sustentação. Neste sentido, para finalizarmos, nada mais procedente do que a seguinte afirmativa de Mário Barbosa (apud SARMIENTO, s/d:8-9):

Assim, pensando criticamente sobre o que sabemos; sobre as forças que interferem em nosso pensamento crítico; sobre o que estamos fazendo; sobre o contexto em que estamos inseridos; sobre como nossa reflexão-ação relaciona-se com o poder e a dominação, é que estamos criando e recriando técnicas.

 Referências bibliográficas

 AMANN, Safira Bezerra. “Ideologia de Desenvolvimento de Comunidade no Brasil". São Paulo. Cortez, 1980.

ANAS/ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ASSISTENTES SOCIAIS. "Serviço Social: As Respostas da Categoria aos Desafios Conjunturais”. Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais ­ Congresso Chico Mendes. São Paulo. Cortez. 1991.

CBCISS/CENTRO BRASILEIRO DE COOPERAÇÃO E INTERCAMBIO DE SERVIÇOS SOCIAIS (Org). "Teorização do Serviço Social: Documento do Alto da Boa Vista”. Rio de Janeiro, Agir. 1988.

CLARK, Maria Angélica. "Lá Praxis del Trabajo Social em una Direccion Cientifica. Buenos Aires: ECRO, 1974.

CAMPAGNOLLI, Sandra Regina de Abreu Pires. Desvendando uma relação complexa: o Serviço Social e seu Instrumental técnico. Dissertação de Mestrado apresentada junto à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1993.

CASTORIADIS, Cornelius. "As Encruzilhadas do Labirinto/1". Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1987.

KRUSE, Herman. "Cuestiones Operativas del Servicio Social". Buenos Aires. Hvmanitas, 1976.

MANNHEIM, Karl. O Homem e a Sociedade. Rio de janeiro, Zahar. 1962. Parte V: "Planificação para a Liberdade". P. 249-373.

NETTO, José Paulo. "Ditadura e Serviço Social: Uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. São Paulo.Cortez, 1991.

SARURENTO, Helder B. de Moraes. “Técnica, Cultura e Sociedade”. s/d. (Apostila mimeo.)

VIEIRA, Balbina Ottoni."Serviço Social: Processos e técnicas”. Rio de Janeiro. Agir, 1969.

VIEIRA, Balbina Ottoni. "Metodologia do Serviço Social: Contribuições para sua Elaboração". 2ª ed. Rio de Janeiro. Agir, 1979.


 

[1] Em artigo intitulado “Técnica: Uma Abordagem Histórico-Conceitual” e publicado em Serviço Social em Revista, volume 7, número 2, janeiro/junho/2005 e disponível www.ssrevista.uel.br

[2] A saber: II Seminário de Teorização do Serviço Social (Teresópolis - 1970); Encontros sobre Funções (1970); I Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (1974); Seminário de Bom Clima (1974); II Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (II CBAS - 1976); III Seminário de Teorização do Serviço Social (Sumaré - 1978); III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (III CBAS - 1979); IV Seminário de Teorização do Serviço Social (Alto da Boa Vista - 1984); V Congresso Brasileiro de Serviço Social (V CBAS – 1985); VI Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (VI CBAS - 1989); e VII Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (VII CBAS - 1992). Esclarece-se que o IV Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (IV CBAS) realizado em 1982 foi excluído do rol da pesquisa em razão da impossibilidade de localização dos documentos dele decorrentes.

[3] É nas produções efetivadas no âmbito das Ciências Sociais que os assistentes sociais vão buscar o corpus teórico-metodológico informador de sua intervenção. Mais do que isso, essa busca, pelo menos até a década de 1960, se processa modulada por uma relação que, em última instância e no que tange ao campo da elaboração teórica, colocava a profissão como uma espécie de receptáculo dos resultados lá obtidos. Significa dizer que o Serviço Social se apropriava de categorias, conceitos, representações, enfim, de produtos resultantes de elaborações externas a ele, sem que isso viesse acompanhado da apropriação dos processos de construção dos mesmos. Em decorrência, figurava não como um campo de elaboração de conhecimentos e sim como uma disciplina profissional confinada, na divisão de saberes, à intervenção concebida como mera aplicação de tais produtos.

[4] Embora evidente, faz-se necessário reforçar o caráter de aproximação dos períodos históricos fixados, bem como a conotação de mera tendência que essa periodização comporta. È necessário esclarecer ainda que nos momentos que estamos demarcando não comparece a influência da Perspectiva de Reatualização do Conservadorismo. Nos documentos pesquisados fica nítida a orientação da Perspectiva Modernizadora e da de Intenção de Ruptura (em seus momentos diferenciados) na forma de conceber e tratar o Instrumental técnico, mas o mesmo não se verifica em relação à Perspectiva de Reatualização do Conservadorismo que, ademais, não trouxe inovações no que se refere ao entendimento e tratamento do instrumental técnico.

[5] Denominação dada no período à modalidades interventivas como Serviço Social de Caso, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade ou Desenvolvimento de Comunidade. A partir deste momento, dispensaremos as aspas.

[6] Uma listagem, bem como a discussão de algumas publicações, pode ser encontrada em Ammann (1980, p. 122-140)

[7] Netto (1991, p. 149) chama a atenção para a influência das idéias de Paulo Freire sobre Clark e completa: "[...] salvo erro nosso, boa parcela da produção latino-americana nesses anos [meados da década de 70], no que tem de proposta interventiva, depende inteiramente das formulações contidas em Freire".

[8] Retrabalhado pela “ala esquerda" da Igreja Católica, onde a Teologia da Libertação teve papel fundamental.

[9] No qual se insere o livro "Metodologia do Serviço Social: Contribuições para sua Elaboração", de Balbina Ottoni Vieira. Nele, a autora retrabalha o exposto em “Serviço Social: Processos e Técnicas”, mantendo-se, porém, pautada em pressupostos integrativos e dentro do arcabouço teórico-metodológico pertinente à matriz positivista-conservadora. Em comparação com o “Serviço Social: Processos e Técnicas”, traz como novidade uma diferenciação entre Instrumental ("o conjunto de meios empregados para alcançar um objetivo"), Instrumentos ("o que se utiliza para obter um bom resultado") e técnicas ("maneira de proceder, de atuar, de aplicar os vários instrumentos")

[10] Exceção a isso é o livro “O Trabalho com Grupos e Serviço Social", de Maria Lúcia Rodrigues. Nesta publicação, a autora trata da questão das técnicas para trabalho com grupos, abordando, dentre elas, as de dinâmica de grupo, as psicodramáticas e os projetos e atividades grupais.

 


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