LONDRINA PELO OLHAR DA PERCEPÇÃO DA PAISAGEM

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Lúcia Helena Batista Gratão, Mirian Vizintim Fernandes Barros; Rosely Sampaio Archela; Omar Neto Fernandes Barros; 

Hervé Théry; Neli Aparecida de Mello. 
 

Quando investigamos a cidade é importante procurar ultrapassar a paisagem como aspecto visual para chegar ao seu significado e valor, e, encontrar o “lugar” como ponto de partida da experiência geográfica. A cidade é o produto da percepção imediata e da memória da experiência passada, que auxiliam na interpretação de informações e no comando de ações. Quase todos os sentidos estão envolvidos e a imagem é o composto resultante de todos eles.
Nessa direção, mapear a cidade é também, buscar revelações expressas na sua composição de imagens através da experiência e percepção ambiental. É recuperar o significado da integração e conservação ambiental mediante o conhecimento, um revelar da associação Homem/Paisagem. A cidade pode então, ser mapeada, apresentada, re(a)presentada e revelada através de múltiplas imagens: cartográficas, iconográficas, fotográficas, poéticas, literárias, musicais e cinematográficas.

A representação visual dos dados explora de maneira eficaz a habilidade do sistema visual humano para reconhecer padrões e estruturas espaciais. A visualização possibilita a apreciação de características apresentadas por um conjunto de dados, transformando-os em representações visuais que podem ser bem compreendidas pelo usuário. A visualização é uma extensão para a representação de dados, presente na cartografia desde tempos remotos. Porém, a eficácia de seu uso requer habilidade artística, imaginação e intuição.
Olhar para as cidades pode dar um prazer especial, por mais comum que possa ser o panorama. A cidade é vista sob todas as luzes e condições atmosféricas possíveis. “A cada instante, há mais do que o olho pode ver, o ouvido pode perceber, um cenário ou uma paisagem esperando para serem explorados” (LYNCH, 1997).

Por essa perspectiva, o olhar da paisagem de Londrina revela-se como expressão viva da aventura do processo de ocupação do Norte do Paraná. A Londrina de hoje se apresenta profundamente diversa da Londrina de ontem! As suas imagens, paisagens e personagens são produtos das diferentes etapas do seu (per)curso histórico. Porém, a sua evolução não representa a perda de significações na percepção dos seus moradores que nas suas revelações, consideram uma cidade bonita, com muito verde e gostosa de viver. Entretanto, nos últimos anos, em virtude do aumento da violência urbana e do descuido do poder público quanto ao cuidado visual da cidade e do meio ambiente, para muitas pessoas ela tem se tornado um lugar pouco agradável para viver.
O homem e as paisagens geográficas são inseparáveis e revelam interações profundas, mescladas de seus pensamentos e sentimentos. São inter-relações que envolvem também, dimensões psíquicas e estéticas. Assim é a cidade Londrina, uma expressão viva dessas associações em suas manifestações internas e externas.

Neste contexto, a cidade se compõe por múltiplas imagens e paisagens, lidas e reveladas por múltiplos olhares – múltiplas percepções! A cidade é observada, contemplada, captada, compreendida e estudada por diferentes olhares, por meio de diferentes métodos, técnicas e ferramentas e os mais variados objetivos. A experiência da cidade é, então, compreendida a partir de uma profunda interação entre a imagem, a paisagem e seus personagens, no qual emergem as idéias, as ações e as reações.

Os diversos estudos sobre a percepção e avaliação de paisagens, buscam identificar as altamente agradáveis e determinar qualidades que as tornam espacialmente valorizadas. Em Londrina, no caminhar pelo olhar da percepção encontram-se paisagens muito agradáveis e que podem ser contempladas nas imagens fotográficas apresentas no mosaico.

LAGO IGAPÓ – IMAGENS E PAISAGENS VALORIZADAS
 

Estamos rodeados por objetos que não foram feitos por nós e que têm uma vida e estrutura diferente da nossa: rios, árvores e flores; e, também, por objetos que são criações do homem, construídos ao longo do tempo. Esses objetos não são formados apenas de volumes, mas de movimentos, cores, odores e sons. Há muito, eles inspiram curiosidade e, na maioria das vezes, sua composição ou arranjo tem sido motivo de prazer. Recriados em nossa imaginação pensamos neles como elementos de uma idéia a que chamamos de paisagem, nossa tarefa é ultrapassar a paisagem como aspecto visual para chegar ao seu significado e valor (BLEY, 1996).

A paisagem das águas é uma das mais representativas entre as imagens da cidade citadas pelos personagens. O Lago Igapó é uma destas imagens mais valorizadas pelos moradores e também, a mais contemplada pelos visitantes. Ele é fonte de inspiração dos amantes da fotografia. Foi clicado pelas lentes de grandes mestres como José Juliani, Haruo Ohara e Evgen Bavcar. É também, um lugar experienciado por outras pessoas, como um símbolo público ou como campo de experiências e preferências ambientais. 


IMAGENS POÉTICAS, LITERÁRIAS E MUSICAIS
 

A cidade pode ser captada, compreendida e apreendida por múltiplas imagens pelos caminhos da percepção através do olhar geográfico. Paisagens emergem de uma única paisagem e horizontes são revelados a cada novo olhar ou reflexão, a cada momento em que um outro caminho a ser trilhado apresenta cenários e dimensões diferentes. A cidade aqui apresentada - (re)apresentada, não é uma cidade “fechada” pelos “padrões científicos”, mas uma cidade “aberta” que permite os mais variados imaginários e as mais diferentes imagens. Uma cidade que pode ser (per)corrida e contemplada pela perpectiva da subjetividade.

A paisagem é uma expressão viva de associações e relações internas e externas. Contém em seu dinamismo, o movimento, as cores, os sons e os tons da natureza e o pulsar do homem. Assim é Londrina, nas suas múltiplas imagens de composições naturais e intervenções humanas. Poeticamente, a escritora londrinense Nair Paglia Piantini apresenta Londrina:
 

O nome Londrina
Primeira cidade fundada nas terras virgens do Norte Paranaense.
A gentílica filha de Londres,
A primeira e mais brilhante jóia engastada pela Cia. Norte do Paraná.
Foi assim que, com grande aclamação nasce Londrina!

Da lagarta renasce a borboleta de asas azuis e lindas,
No meu Rosário de saudades,
Renasce a lembrança do mais belo sertão,
Onde nasceu esta beleza que é hoje
A grande Londrina.

Nair Paglia Piantini, 2000.

Londrina, o sonho do passado.
Londrina, a glória do presente.

No dia 21 de agosto de 1929, chegava a primeira caravana
Nas terras rocas do norte do Paraná. Caravana esta composta
de doze homens, chefiada por um jovem de 20 anos,
George Craig Smith, designado por Mister Arthur Thomas,
Diretor gerente da Cia. De Terras Norte do Paraná, filial da
Plantation, de Londres.
Esse jovem vinha com a grande responsabilidade de penetrar
No sertão bruto e desconhecido, a fim de tomar posse das
Terras do Norte do Paraná e começar os trabalhos de
Derrubadas, levantamentos de rios, córregos e fazer estradas
Para o mais breve possível, iniciar as vendas de pequenos lotes
Da maior empresa colonizadora da América do Sul. Dona de
Exuberantes matas virgens no Norte do Paraná, que tanto
Impressionaram Lord Lovat, Mister Arthur Thomas e o Dr.
Willie Davis quando as visitaram em 1924.
A caravana que havia saído de Ourinhos no dia 20 de agosto
Não poderia parar, portanto, chegando às margens do rio
Tibagi, e como não havia ponte nem balsa, os doze homens
Atravessaram o rio em canoas com seus materiais e
Mantimentos. As mulas cargueiras atravessaram o rio a nado.
Então, seguiram mata adentro na árdua tarefa e cada qual
Com sua missão.
George Craig Smith, brasileiro, funcionário da companhia
Responsável pela expedição; Dr. Alexandre Rasgulaeff, russo,
Engenheiro agrimensor, contratado pelas derrubadas;
Joaquim Barbosa, brasileiro, sócio de Alberto Loureiro;
Spartaco Bambi, brasileiro, agrimensor auxiliar; Erwin
Fröelich, brasileiro, filho de alemães, responsável pela
Alimentação; Geraldo Maia e outros trabalhadores braçais,
Verdadeiros heróis anônimos.
A viagem continuou: difícil e penosa. No picadão, havia
Muita lama, buracos e bichos, até que, num dado momento
O Dr. Alexandre, consultando os mapas e vendo as marcas
Que encontrou o caminho falou: “É aqui, chegamos!”.
A jornada estava terminada.
A parada foi onde é hoje a Praça dos Pioneiros.
Construíram ali dois ranchos de palmito e se alojaram. A
Vida primitiva daqueles bravos pioneiros foi um suplício,
Devido à quantidade de pernilongos, abelhas, carrapatos,
Borrachudos, entre outros. Sem contar os animais e os
Índios que encontraram.
A esses heróis quero aqui prestar minha homenagem com
Grande admiração, pois só eles puderam nos deixar esta
Grande Londrina de hoje, que nasceu de muito trabalho,
Coragem e suor.
A fundação de Londrina foi obra da Cia. De Terra Norte do
Paraná, graças à visão de Lord Lovat. Sem ele, Londrina não
Existiria.
 

Todo esse imaginário que exalta Londrina encontra-se também, na composição do Hino à Londrina.

Londrina!
Cidade de braços abertos
A todos os filhos do nosso Brasil!
E a todos aqueles de Pátria distantes,
Que aqui confiantes
Sob um pálio anil,
Seu lar construíram e aos filhos se uniram,
E aos filhos se uniram do nosso Brasil!
Londrina!
Cidade que sobe, que cresce,
Que brota e floresce,
Que em frutos se expande!
Que a Pátria enriquece,
Que alta, e que grande,
O encanto oferece
De sempre menina!
Londrina!
Das matas e das derrubadas,
Londrina das roças de espigas dobradas!
Das filas cerradas de pés de café!
Dos grandes poentes das tardes douradas,
De escolas ao longo, das longas estradas!
Do arado, do livro, da indústria e da fé!
De braços abertos, dá pouso e guarida,
A todos que a buscam, materna e gentil!
Porém, destemida, se os brios lhe ofuscam,
Sói ser atrevida, impávida, hostil.
Seu solo fecundo, feraz, generoso
A quem, carinhoso, lhe deita a semente,
Por uma dá mil!
Padrão de trabalho plantado na História!
Londrina!
Cidade que um povo viril
Ergueu para a Glória
Do nosso Brasil!

Letra: Francisco Pereira Almeida Jr.
Música: Andréa Nuzzi
 

Londrina – “A Pequena Londres” - “brota” da derrubada da mata no topo do espigão, onde outrora foi uma enorme floresta que cobria o solo rico da terra roxa. A cidade se assenta e se estende sobre essa terra de alta fertilidade distribuída pelos longos interflúvios de origem vulcânica que compõem o Terceiro Planalto na sua porção intermediária do Planalto de Apucarana. A colonização dessas terras promoveu um desfecho infeliz para a exuberante floresta restando apenas, alguns “lugares” que nos remetem a imaginar como deveria ser esplendorosa esta terra! Repleta de múltiplas imagens, cores, sons, tons, cheiros, sabores e saberes.

Londrina é pura inspiração para os poetas de “pés vermelhos”. “Pão e Poesia”, um projeto da Secretaria Municipal da Cultura, lançado em 1999, é uma expressão dessa natureza. O projeto inspirado nas antigas embalagens de farinha de trigo e açúcar que traziam impressas receitas de bolo no fundo do pacote pretendia levar aos bairros da cidade, por meio dos saquinhos de pão, a poesia de diferentes autores londrinenses.

A intenção do projeto foi dar um novo impulso à leitura de poesia na cidade e popularizar o acesso à produção dos autores de Londrina. Uma iniciativa que surgiu para contemplar as expressões dos poetas da cidade, encontrando um canal alternativo para a divulgação do seu trabalho a um público maior e, também para a população, que por essa iniciativa teve acesso à poesia de uma maneira criativa e prazerosa. Mais do que isso, essa idéia é uma forma de expressar a cidade, o seu cotidiano e o seu imaginário. É uma forma de ver, apresentar e representar a cidade e suas origens – seu povo e sua natureza. Um meio de comunicar e divulgar o ‘lugar’, despertando as pessoas para uma outra maneira de conhecer a cidade através do gosto pela literatura. Este seria o grande espírito do projeto. Todavia, ele vai mais longe! Ele vai deslumbrar uma outra forma de expressar a cidade - ler, compor e cantar. Uma expressão poetizada! Revelação em letras, em tons e notas musicais.

Projeto Londrina Sabor e Poesia – Colégio PGD – Londrina

O poema foi escrito por alunos de segunda série W no ano de 2006.

Amor, felicidade, alegria
É o que sentimos por nossa cidade
A paz que aqui reina
Reina também em todos nós.

A tristeza está presente...
Violência, desmatamento, corrupção.
Esperança é a palavra
Da turma de aqui e agora.

Preconceito e Londrina não combinam
Razão pela qual aqui vivemos.
 

A referência a esse projeto tem o sentido de mostrar o resultado de uma iniciativa de expressão poética brotada do poema escrito e que se revela pela voz - em cantos. Dos dez poetas que integraram o projeto “Pão e Poesia” cinco foram escolhidos pela Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina por terem participado do Mural de Poemas, realizado em maio de 1999. Entre eles, encontra-se Jemima Fernandes que canta “Londrina Menina” e que se revela “eu sou pé vermelho”. A letra escrita em 1994 é uma homenagem a pioneiros, jornalistas e músicos da cidade. Em um dos trechos, Jemima canta “Londrina menina/ Londrina da pé/ terra de Borba’s, Assumpção e Barnabés. No seu “ canto” a personagem do “lugar” revela o seu sentimento de ‘pertença’, enraizamento e sua gente! Isso é Londrina! Nos seus versos, na sua voz, no seu canto!

“Londrina Menina” é uma das faixas do Cd "Voz Versos Vida" 1º Cd da cantora e compositora gravado através da Lei de Incentivo da Prefeitura de Londrina - Programa Municipal de Incentivo à Cultura – PROMIC, lançado em outubro de 2006. A ‘pé vermelho’, personagem londrinense, Jemima Fernandes, assim, compôs e canta Londrina Menina:

Mas é tão bom
Viver aqui com você
Ver você crescer
Alcançar o céu tão blue
Ruas e vielas
Em tons grená colorem o ar
Solo vermelho você me atrai
Tua beleza me fascina
É gente que vem que se vai que se foi
Do sul do norte
Todos querem conhecer teu potencial
Imenso como o amor
Londrina terra de pioneiros
Smith’s, Godoy’s
Artes: Jota’s, Capucho’s, Marinósio’s
Arruda’s, Monteiro’s é Londrina
Sobe ao palco a estrela maior Londrina
Londrina Menina, Londrina dá pé
Terra de Borba’s, Assumpção, Barnabés
Isso é Londrina

Londrina Menina
Letra selecionada: Projeto “Pão e Poesia” – Secretaria de Cultura de Londrina
Letra e música: Jemima L. Fernandes
 

Londrina está também, na inspiração da banda londrinense “Búfalos D’Água” no CD - “Pacific Hell” - lançado em 2001 (www.bufalosdaagua.hpg.com.br), na composição instrumental de cinco faixas:

Faixa 3 - “Tropic line” - homenagem ao Trópico de Capricórnio que passa ao sul de Londrina.

Faixa 4 - “Agente Valentino” - homenagem ao Bar Valentino, ponto principal de apresentação da banda e um lugar de encontro cultural que compõe a paisagem da cidade.

Faixa 6 - “The jump in the lake one” – celebração às crianças que no verão, brincam no Lago Igapó I, imagem mais destacadas do ponto de vista da estética e mais valorizada, do ponto de vista topofílico.

Faixa 9- “Green valley and the moon” – um canto ao lugar de memória da infância, o Vale Verde. Nesse lugar, quando crianças jogavam bola – lugar de memória urbana.

Faixa 12 – “Regina Falls” – celebração à cachoeira do Patrimônio Regina, lugar freqüentado no verão.
 

Essas expressões nos remetem à imaginação de “lugares” que guardam memórias desta terra, deste lugar, desta gente, desta cidade - de ‘pés vermelhos’ – Londrina – cidade repleta de múltiplas imagens, paisagens e personagens; de múltiplas cores, sons, cheiros, sabores, preferências e gostos de paisagens que se encontram, que se revelam nos sabores do lugar! 

REFERÊNCIAS

BLEY, L. Morretes: um estudo de paisagem valorizada. In: DEL RIO, V.; OLIVEIRA, Lívia (Org.) Percepção Ambiental – a experiência brasileira. São Paulo: Studio Nobel; São Carlos, SP: Universidade Federal de São Carlos, 1996, p. 121-138.

BÚFALOS D’ÁGUA. Pacific Hell. 2001. CD. Disponível em: www.bufalosdaagua.hpg.com.br.

LYNCH, K. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 

NUZZI, A.; ALMEIDA JR, F.P. Hino de Londrina. Disponível em: http://www.londrina.pr.gov.br/cidade/hino.php3. Acesso em 12 de junho de 2007.

PIANTINI, Nair Paglia. Meu Rosário de Saudades - livro de poemas. 2000.

Atlas Ambiental da Cidade de Londrina. 2008. Disponível em http://www.uel.br/atlasambiental