USO DO SOLO

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Mirian Vizintim Fernandes Barros; Rosely Sampaio Archela; Omar Neto Fernandes Barros; Hervé Théry; Lúcia Helena Batista Gratão, Neli Aparecida de Mello

 

A primeira das variáveis qualificadas corresponde ao uso do solo urbano com definição e hierarquização em classes. Outros aspectos também são enfatizados como praças, arborização de rua e ocupação irregular em Áreas de Proteção Ambiental. A identificação destas variáveis foi obtida por meio da interpretação de fotografias aéreas, imagens de satélites e pesquisas de campo.

O mapa de uso do solo foi elaborado a partir da interpretação de fotografias aéreas do ano de 1997, na escala 1:8000 (formato digital) e atualizado para o ano de 2000, com trabalhos de campo. Também foram utilizadas imagens de satélite ETM Landsat 7 do ano de 2001, como material de apoio com resolução de 15 m e a do satélite SPOT, resolução de 10 m, do ano de 2004 (BARROS et al,  2004).

Neste mapa visualiza-se a paisagem urbana e rural de forma integrada no espaço urbano. Sua legenda destaca três categorias de uso: espaços livres, espaços construídos e outros.

Os espaços livres estão organizados em três subgrupos - recreação, conservação e ornamental, composto por 9 classes que correspondem a praças, parques de bairros, unidade de conservação, áreas de fundos de vale, lagos, jardim de representação e verde viários, representados em sua maioria, pelas tonalidades escuras de verde e ocre.

Os espaços construídos estão classificados em 8 classes sendo que os de uso residencial e misto (residencial e comercial) são os mais representativos (cores róseas), embora se destacam por toda a malha urbana, amplas áreas de terrenos vazios que são constituídos por áreas já parceladas, à espera de valorização, classificadas na categoria outros. As áreas de uso especial correspondem à localização de instituições, em grande maioria, públicas como a Universidade Estadual de Londrina, o IAPAR, o Aeroporto de Londrina e o Autódromo. Estas áreas dificilmente serão parceladas e, portanto, não implicam em aumento de densidade de ocupação urbana para atender às demandas de crescimento da cidade.

A categoria outros está organizada em 2 classes: agropastoril, com destaque para as áreas de uso agricola e chácaras de lazer, representadas na cor verde claro e vazios urbanos pela cor laranja.

A área urbana em 2002 corresponde a 245,52 Km²; 90 Km² a mais, em relação a 1995, diferença que se explica pela alteração da Lei municipal concernente ao perímetro urbano. Deste total, mais de 48% corresponde à classe agropastoril que somada a de vazio urbano atinge mais de 55%, uma área superior à utilizada atualmente para as atividades urbanas (tabela 20).

Os espaços construídos correspondem a 31,67% do total da área urbana. O conjunto de suas classes é composto pela maioria correspondente à de uso residencial, com 14,73%  seguida respectivamente pelas classes rua que totaliza um valor bastante elevado, uso misto, especial, indústria ou comércio atacadista, uso público, ferrovia e favela.

O uso misto é uma classe importante e concentra-se principalmente no Centro Histórico e nas principais vias de acesso. As áreas de uso especial também são muito importantes para a qualidade ambiental do espaço urbano, pois são abertas e, contam muitas vezes com a presença de vegetação que influencia beneficamente na infiltração da água no solo, como também no clima urbano, porém, ocupa apenas 2,97% do total. A área de indústria ou comércio atacadista não é expressiva, concentrando-se nas saídas para Cambé, Ibiporã e para Curitiba.

A cidade é bem suprida por mananciais em razão de ter seu sítio localizado sobre densa rede hidrográfica. Os fundos de vale ocupam área importante, mas, a mata ciliar é escassa predominando as áreas desprovidas de vegetação. A cidade apresenta poucas áreas destinadas a parques, e os mais representativos são o Bosque Central no Centro Histórico, parque linear do Lago Igapó e o Parque Arthur Thomas no bairro Piza. Porém, algumas áreas de vegetação são muito importantes para a cidade como a do ribeirão Cambé no bairro Sabará, o bosque da empresa Anderson Cleyton no bairro Fraternidade, o Vale Verde no Jardim Presidente e a mata da Universidade Estadual de Londrina.

 

Tabela 20 - Classes de Uso do Solo em Km2 em 2002

CLASSE DE USO

Km2

%

ESPAÇOS LIVRES

 

 

Praça urbanizada

0.7

0.28

Praça não urbanizada

1.00

0.41

Parque de bairro

0.67

0.27

Unidade de conservação

3.02

1.23

Fundo de vale sem vegetação

14.98

6.10

Fundo de vale com vegetação

9.38

3.38

Lago

1.1

0.45

Jardim de representação

0.11

0.04

Verde viário

1.63

0.66

Subtotal

32,59

12,82

ESPAÇOS CONSTRUÍDOS

 

 

Residencial

36.17

14.73

Uso misto

9.81

3.99

Uso Especial

7.29

2.97

Indústria ou comércio atacadista

4.49

1.83

Favela

0.57

0.23

Uso público

2.36

0.96

Ferrovia

1.4

0.57

Rua

15.7

6.39

Subtotal

77,79

31,67

OUTROS

 

 

Vazio urbano

15.14

6.17

Agropastoril

120.00

48,87

Subtotal

135,14

55,04

TOTAL

245,52

100,00

 

 


 

Dentre os vários ambientes que compõem a cidade, a praça é um lugar que exerce influência na qualidade de vida social e ambiental. A questão da valorização do ambiente natural no seio da cidade ganhou destaque, no Brasil, a partir da década de 1990, modificando os padrões urbanísticos e desvinculando o olhar da cidade caótica para um espaço mais saudável e mais verde, ainda que, muitos dos espaços sejam ambientes “naturais” reconstruídos pelo paisagismo.

Se antes a praça era vista como lugar de lazer, passeio e descanso, além de favorecer um contato mais próximo da população com a natureza, nos últimos anos vêm rapidamente transformando suas funções, constituindo-se em lugares de prostituição, tráfico de drogas ou depósito de lixo e sendo objeto de depredação.

A distribuição espacial das praças é uma informação importante, porém, pouco demonstrativa das qualidades sociais e ambientais das mesmas, é relevante considerar também, o tamanho, mobiliário, arborização e o uso (BARROS e VIRGILIO, 2003).

Londrina possui 248 praças distribuídas por toda a cidade, concentradas no centro da área urbana e dispersas nos bairros das regiões norte e sul. A área ocupada por praças e canteiros centrais das avenidas da cidade corresponde a apenas 5,07 % dos 245,52 km² e muitas apresentam área reduzida com no máximo de 80 m2 (tabela 21).

 

Tabela 21 - Área ocupada por praças em 2002

PRAÇA

ÁREA

Praça urbanizada

8,6 km²

Praça não urbanizada

5,4 km²

Canteiro viário

0,1 km²

Total

14,1 km²

 

 

A maioria das praças é arborizada, exceto 5% destas que se assemelham aos terrenos baldios. A quantidade de árvores encontradas nas praças é reduzida, somente no Centro Social da Vila Portuguesa (bairro Vila Recreio) este número é expressivo com 500 árvores, além de 2 campos de futebol, área para refeição, bancos, calçamento, 1 posto de saúde e 2 creches, sendo uma área com papel ambiental e social importante.

A arborização das praças com relação a seus aspectos físicos e sanitários é relativamente boa, com 90% em bom estado. As espécies arbóreas, mais comuns são a Cibipiruna, as Frutíferas e o Ipê, representando um total de 47, 50%. 

Em relação às condições de infra-estrutura, a depredação do mobiliário é um problema generalizado, com exceção daquelas localizadas nos bairros que possuem associação de moradores atuante ou que dividem espaço com igreja ou escola. Das 131 praças urbanizadas, apenas 50% estão em bom estado de conservação enquanto que 16% estão em péssimas condições. Apenas 25% das praças possuem áreas de esportes e somente 3% destinam áreas para recreação infantil, demonstrando a necessidade de maior atenção dos órgãos competentes.

A imagem da arborização de rua revela, a princípio, o traçado das ruas e avenidas da cidade, ao mesmo tempo em que se articula ao processo de expansão planejada da cidade e reforça a idéia de que o padrão de arborização acompanha as exigências dos modelos de planejamento e dos critérios ambientais.

Percebe-se que o Centro Histórico e seu entorno, implantados entre as décadas de 1930 a 1960, valorizaram bastante a arborização, embora se distingam mutuamente no padrão da mesma. Os bairros implantados após a década de 1970 apresentam arborização escassa, muitas vezes sequer distinguindo o traçado de suas ruas. Nestes bairros a arborização urbana perdeu parte da importância como elemento urbanístico.

Exceção a este contexto por apresentar o mesmo padrão da periferia imediata ao Centro Histórico é, por exemplo, o bairro Cinco Conjuntos, construído na década de 1970, cuja intensa arborização valoriza este espaço urbano.

Após a década de 1990 o verde urbano (unidades de conservação, parque de bairro e fundo de vale com ou sem vegetação) se transformaria em fator de segregação social, incorporado ao mercado imobiliário como indicador de qualidade ambiental. De um modo geral, a distribuição do verde urbano marca o desenho urbano de Londrina, embora cobrindo superfícies que variam de áreas muito pequenas a grandes extensões.

Segundo a legislação nacional e local, os fundos de vale são considerados Áreas de Preservação Permanente - APP, portanto, impedidas de uso ou de ocupação. As APPs são áreas que margeiam os cursos d’água (rio, nascente, lagos, represa), encostas com declividade superior a 30% ou 45º e outras situações quando declaradas pelo poder público, como para atenuar o processo erosivo, formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias, proteger sítios de excepcional beleza, de valor científico ou histórico; ou ainda, para assegurar condições de bem-estar público.

A ocupação irregular em áreas de fundos de vale, ocorre em muitas cidades brasileiras de médio e grande porte, não sendo apenas por invasões, mas pode estar associada à aprovação indevida de loteamento, descumprimento de legislação e falta de fiscalização. Nacionalmente é um problema de elevada gravidade, pois, não se trata apenas da preservação ambiental destas áreas, mas, sobretudo, das condições sócio-econômicas refletidas nas questões de moradia no país que atinge diretamente uma parcela da população desassistida deste direito. Além disto, na maioria das vezes, estas áreas de risco natural se transformam em riscos sociais.

Em Londrina existem vários conflitos de ordem social e ambiental, como é a ocupação irregular em fundos de vale. Existem 21,36 Km² de área de preservação permanente, sendo que 5,42 Km² (25,4%) encontra-se com ocupação irregular (BARROS et al, 2003).

De um modo geral, observa-se que as maiores concentrações de ocupações irregulares situam-se nas regiões sul e sudeste da área urbana, nos baixos cursos das bacias do ribeirão Cambé e do Cafezal e estão associadas a duas variáveis restritivas: a existência do curso d’água e a declividade de vertentes acima de 30%.

As cabeceiras dos afluentes que formam o ribeirão Cambé, especialmente os córregos Cristal e São Lourenço, são os locais de maior ocorrência em extensão, de ocupação irregular. Situação semelhante quanto à ocupação irregular das vertentes íngremes e do curso d’água, ocorre no baixo curso do ribeirão Cafezal. Além dos problemas de ocupação irregular ocorre o lançamento de dejetos diretamente nos cursos d’água em vários pontos.

A expansão urbana ao norte estimulou e promoveu a ocupação irregular das margens da bacia do ribeirão Lindóia, as sub-bacias do ribeirão Quati e do córrego Águas das Pedras e, igualmente, a do ribeirão Jacutinga e seu afluente, o arroio Primavera. O processo tornou-se especialmente intenso, comprometendo todo o curso do arroio Primavera, hoje totalmente ocupado.

As ocupações irregulares de fundo de vale não se localizam apenas nas áreas periféricas da cidade, mas delas também fazem parte áreas nobres, como a APP do Lago Igapó que é um dos pontos de lazer da cidade. O Lago Igapó I está cercado, por um lado pelo “Parque Linear”, formado ao longo da extensão do Lago Igapó e do outro, por residências de alto padrão dos bairros Bela Suíça e Tucanos. As nascentes são também atingidas por processos semelhantes de ocupação do solo em suas proximidades, ainda que protegidas pela mesma legislação.