PEGADA ECOLÓGICA

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Cristiane Lisboa Kleber; Mirian Vizintim Fernandes Barros; Omar Neto Fernandes Barros; Rosely Sampaio Archela; Hervé Théry; Neli Aparecida de Mello. Lúcia Helena Batista Gratão

 O Método da Pegada Ecológica (Ecological Footprint Method), de Wackernagel e Ress (1996), foi um trabalho pioneiro sobre a elaboração de ferramentas para medir e comunicar o desenvolvimento sustentável. O método tem por objetivo calcular a apropriação por uma população de um determinado sistema para que ele se mantenha estável.

A Pegada Ecológica – PE transforma o consumo de matéria-prima e assimilação de dejetos, de um sistema econômico ou população humana, em área correspondente de terra ou área produtiva. É, portanto, a área de ecossistema necessária para assegurar a sobrevivência de uma determinada população ou sistema.

Para calcular a PE de uma dada população inicialmente é necessário estimar a área apropriada para a produção dos principais itens de consumo (energia, alimentação, florestas, produção etc.) ou para a absorção de resíduos liberados. Cada categoria de consumo é convertida numa área de terreno por meio de fatores calculados para o efeito e o total per capita da Pegada Ecológica é o somatório dos itens de consumo considerados.

Para a cidade de Londrina, inicialmente foi calculada a quantidade de área por habitante na área urbana, dividindo a população urbana (433.369 habitantes), pela área total urbana (245,52 km²), o que resultou em 1.765,01 hab/km². Transformando este valor para hectares chega-se em 17,65 hab/ha, invertendo esta fração, tem-se 0,0566 ha/hab. Isto significa que existem 0,05 hectares para cada habitante da cidade de Londrina. Contudo, este valor não corresponde ainda à pegada ecológica de cada um, pois a pegada significa a área necessária e disponível para consumo e desperdício de cada habitante que é diferenciada segundo a classe social e econômica de cada indivíduo da cidade, ou seja, sua capacidade de consumo e seu modo de vida.

Na definição da PE da cidade definiu-se o ano de 2004 (LISBOA,2007) como o ano de referência. Para os dados coletados que não correspondiam ao ano referência, realizou-se uma estimativa aproximada; sendo assim, todos os cálculos configuram-se numa aproximação da realidade. As variáveis escolhidas para a realização do cálculo, além de seguirem as recomendações dos autores da abordagem da PE, atendem também à formação dos grupos funcionais, ou seja, àqueles que melhor expressam o metabolismo do ecossistema urbano (o aumento da população humana, as alterações de uso/cobertura do solo e consumo), envolvidos com as alterações ambientais globais.

Na definição dos indicadores para estimar a PE da cidade de Londrina, foram estabelecidas variáveis que se enquadram mais com a realidade urbana da cidade. Sabendo-se que a cidade apresenta heterogeneidade tanto social como econômica e ambiental, buscou-se identificar espacialmente estas diferenciações.

Para isto, separaram-se as variáveis qualitativas, que representam aspectos de qualidade de vida e ambiental (área verde, área urbanizada e área de restrição de uso), das variáveis quantitativas constituídas por variáveis de consumo (renda, serviço de coleta de lixo, rede de esgoto sanitário), que têm influência direta da renda da população e, por conseqüência, na PE. 

A classificação de PE baixa, média e alta corresponde ao nível de impacto ambiental e conseqüentemente ao nível de sustentabilidade urbana sendo que quanto mais baixa a PE, menor o impacto causado.

As variáveis: área verde e área modificada pela urbanização resultaram da interpretação da Imagem do SPOT de 2004; a área de ocupação ilegal é resultado da somatória das variáveis: declividade e APP (áreas de fundo de vale e nascentes) que resultaram na definição das áreas de uso restrito definidas a partir do cruzamento destas com a de uso do solo. As variáveis: renda, rede de coleta e tratamento de lixo e rede de esgoto sanitário; foram coletadas a partir dos dados do Censo Demográfico do IBGE (2000). Estas variáveis foram analisadas com o auxilio da ferramenta Linguagem Espacial para Geoprocessamento Algébrico - LEGAL do SPRING, a fim de gerar uma síntese delimitando áreas homogêneas e caracterizando-as.

As variáveis utilizadas no cálculo da PE foram: área verde, área modificada pela urbanização ou impermeabilizada, áreas de uso restrito, renda, rede de coleta e tratamento de lixo e rede de esgoto sanitário.

1. Área Verde - classificada em florestal, arbórea, rasteira e capoeira, totalizando 3.323 ha de vegetação. A vegetação está presente em todos os bairros e é constituída por verde viário, parques, reservas e vegetação de fundos de vale. Para definir a PE, cada classe de vegetação possui uma influência diferente. Quanto mais intenso sua biomassa, melhor se torna a pegada. Por isso as áreas próximas a parques, reservas e praças arborizadas são consideradas áreas de pegada baixa. Já áreas com baixa intensidade de arborização, como a área central de Londrina, possuem uma alta pegada.

2. Área Modificada pela Urbanização ou Impermeabilizada - a classe cujo impacto na pegada é mais alto são aquelas com taxa de impermeabilidade que variam de 61 a 100%, ocupadas por favelas, com fundos de vale sem vegetação, com uso misto, e áreas industriais e de comércio. As de impacto médio, com impermeabilidade entre 21 a 60%, são as que apresentam verde viário, uso residencial e vazios urbanos. As de pegada baixa são as classes de uso agropastoril e áreas com presença de vegetação.

3. Áreas de Uso Restrito – resultado das variáveis: áreas de preservação permanente e ocupação ilegal que somam 5,40 Km², ou seja, 25% das APPs.

4. Renda - De acordo com os autores do método PE (Wackernagel e Ress 1996) o poder de consumo influencia diretamente o aumento da PE. Sendo assim, as áreas que apresentam concentração de população com renda elevada (mais de dez salários mínimos) causam maiores impactos na pegada (alta) pois, esta influencia no intenso consumo de produtos impactantes, como por exemplo, os automóveis e consumo de carne vermelha; as de renda baixa (até 3 salários mínimos) contribuem para uma pegada baixa.

5. Rede de Coleta e Tratamento de Lixo: As áreas com coleta entre 70 e 100% abrangem 80% da área total, enquanto que as áreas com coleta até 35%, somente 18% do total. Estes dados são considerados excelentes para a pegada da cidade, uma vez que o lixo coletado é encaminhado para local adequado para tratamento.

No aterro controlado de Londrina, o chorume é tratado em tanques para depois ser lançado no corpo receptor Barra Grande. O tempo de detenção do chorume leva 10 dias no tanque equalizador. Este tanque funciona em sistema aeróbico-biológico. A Demanda Bioquímica de Oxigênio – DBO dos líquidos provenientes de aterros é muito elevada (cerca de 30 a 150 vezes maior que a do esgoto doméstico, cujo valor oscila entre 200 mg/L e 300 mg/L). Este líquido, após ser devidamente coletado pelos drenos horizontais, deve passar por um processo de tratamento para que a DBO e o NH4 sejam reduzidos a níveis satisfatórios, para posteriormente, serem lançados em cursos de água. Existem 12 poços de monitoramento ambiental no aterro, mas não existem resultados sobre a eficiência do tratamento de chorume, sendo necessária a sua recirculação pelo aterro até que se possa assegurar que o efluente tem as condições estabelecidas pela legislação para o seu despejo em um corpo d’água.

6. Rede de Esgoto Sanitário: Apenas 35% dos setores censitários localizados nos bairros Centro Histórico e seu entorno ao longo do eixo noroeste – sudeste, possuem cobertura de coleta de esgoto com atendimento superior a 95%. Como o esgotamento sanitário de Londrina nem sempre recebe um tratamento adequado, esta variável contribui para o aumento da pegada da cidade. A Estação de Tratamento de Esgoto que atende a região sul de Londrina – ETE Sul possui um custo energético baixo, pois seus reatores anaeróbicos, não necessitam de força para a aeração. Os filtros biológicos e braços são movidos pela força hidráulica do próprio efluente, um fato positivo para a redução da pegada da cidade de Londrina.

Na definição das classes de PE foram utilizadas operações boleanas para somar e multiplicar a fim de realizar o cruzamento das variáveis consideradas influentes na PE de Londrina (figura 88).

A pegada “Alta”, representada pela cor vermelha, indica ocorrência de variáveis de impacto negativo no meio ambiente da cidade, como espaços sem vegetação, áreas com alta impermeabilidade, áreas com ocupação ilegal em APP, favelas, indústrias, baixo atendimento de saneamento e de coleta de lixo e alta renda. As pegadas altas estão concentradas na área central da cidade, e em pontos específicos como o aeroporto, indústrias e áreas de ocupação ilegal, como os assentamentos irregulares.

A pegada “Média”, representada pela cor amarela indica a ocorrência de variáveis de médio impacto ambiental como, por exemplo, vegetação de médio porte, vazios urbanos, ruas com arborização, áreas com impermeabilização entre 21 a 60% e renda média da população. A pegada média abrange quase todo o entorno do Centro Histórico de Londrina, pois apresentam áreas construídas intercaladas com vegetação.

A pegada “Baixa” representada pela cor verde indica a ocorrência de variáveis de valor positivo e sem impacto significativo no meio ambiente, como a baixa taxa de impermeabilidade e áreas com alto índice de arborização e baixa renda familiar. Esta classe de pegada está concentrada nas áreas periféricas da cidade, embora se encontrem, também, localizadas nas áreas verdes como fundo de vales preservados, lagos e Unidades de Conservação distribuídas na cidade.

A Pegada Ecológica como indicador constituiu-se numa ferramenta útil para avaliar o grau de sustentabilidade da área urbana de Londrina. Considerando que existem apenas 0,56 hectares/habitante na área urbana, e, uma pegada de 1,39 ha, ocorre um déficit de -0,83 de hectares/habitante na área urbana (LISBOA, 2007). Contudo, este déficit é compensado se tomada como base a pegada de toda a área urbana e não somente da área construída, pois é expressiva a quantidade de área rural na área urbana.

Alguns fatores de maior importância contribuíram para que a pegada da cidade de Londrina estivesse abaixo da média global de 2,2. O fator que mais influenciou na estimativa da pegada de Londrina foi o consumo de alimentos, por isso, esta variável necessita ter dados mais detalhados em relação ao consumo e produção da cidade de Londrina. A elevada quantidade de lixo reciclado no município contribuiu para a redução da pegada, uma vez que o volume de lixo reciclado cresce a cada ano.

Em síntese, o fator renda foi definitivo no tamanho da pegada da cidade, à medida que esta variável influencia no consumo geral da população. Quanto maior o consumo de bens e alimentos, maior se torna a pegada. Contudo, é necessário enfatizar também que, em geral, quanto maior a concentração da renda, maior também a conscientização ambiental por parte da população.

A Pegada Ecológica configura-se tanto como um instrumento educacional como um indicador efetivo de sustentabilidade e qualidade de vida, sendo uma importante contribuição na compreensão dos impactos existentes em Londrina e também numa caracterização geral do comportamento da sociedade de consumo atual.

A metodologia da pegada torna explícito o impacto ecológico das atividades antrópicas e configura-se numa importante ferramenta de análise para as tomadas de decisões de modo a beneficiar a sociedade e o meio-ambiente. A pegada global indica que já estamos excedendo o limite da biosfera e que a extensão das atividades humanas liquidará o capital natural de que hoje dependemos e de que as futuras gerações dependerão amanhã.

Atitudes como a redução do uso de transporte individual, redução do consumo de eletricidade, redução da produção de resíduos, implementação da reciclagem, plantio de árvores e jardins, hortas e pomares agroecológicos e implementação de energias limpas contribuem para um caminho sustentável onde uma mudança de comportamento e flexibilização do modo de consumo será necessária.

Esforços da prefeitura de Londrina estão sendo feitos no sentido de mitigar os efeitos negativos causados pelo esgoto sanitário e decomposição do lixo através da construção da ETE, que já está em funcionamento, e do Aterro Controlado.

A produção de biogás pelo aterro controlado de Londrina já é interesse da prefeitura em negociar os créditos de carbono acumulados em razão da redução da emissão de gases poluentes na atmosfera. A EcoSecurities, empresa inglesa especializada  na comercialização de créditos de carbono, está analisando os dados para elaborar um projeto de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo  para o aterro de Londrina (Jornal de Londrina, 24 de agosto de 2006).

As ações antrópicas têm sido imperativas em relação ao meio natural, levando o homem a enfrentar desafios no que se refere à capacidade limitada dos ecossistemas para sustentar o atual nível de consumo material e as atividades econômicas, juntamente com o crescimento populacional, causando conseqüências desastrosas ao meio ambiente.