As várias cartadas do Mino
Demétrio Carta, mais conhecido como Mino Carta, é criador de pelo menos seis grandes revistas: Veja, Quatro Rodas, Isto É, Senhor, Jornal da Tarde e Carta Capital, da qual é diretor de redação. A revista, que surgiu mensal em 94, tornando-se quinzenal em 96, dá um novo passo em agosto: estará semanalmente nas bancas. Nascido em Gênova em 1933 e naturalizado brasileiro, ele acaba de lançar Castelo de Âmbar, obra de ficção que muitos consideram um retrato ácido da imprensa brasileira.
Mino Carta, uma referência reconhecida no jornalismo brasileiro, concedeu entrevista, por telefone, ao Triálogos.
Do regime militar, esse jornalista confessadamente avesso a tecnologias coleciona histórias. Sua ousadia incomodou tanto que, a pedido do então Ministro da Justiça, Armando Falcão (um dos responsáveis pela censura), em 1o. de abril de 76, deixou oficialmente Veja.

O que muda na Carta Capital e porque a mudança agora?
Faremos uma revista ancorada, em termos ideológicos, na que está saindo agora. Haverá uma ampliação dos temas, embora esta se destine e se destinará a investigar a atividade do poder, onde quer que ela se manifeste: na economia, nos negócios, na cultura... A vocação original da revista era semanal. Faltaram recursos. Também calha que o momento é bastante propício para uma boa cobertura jornalística. Estamos entrando num período eleitoral, de problemas políticos e econômicos evidentes; a presença de uma revista como Carta Capital neste quadro é muito oportuna.

Carta Capital passa a ser concorrente das revistas semanais que estão no mercado. Como o senhor avalia isso e o que pensa das revistas com as quais a Carta Capital vai concorrer?
A concorrência é bastante relativa, porque Isto É e Veja são revistas de grande tiragem, que se destinam a um público muito grande e diversificado. Vamos nos dedicar a um público específico e preparado para a compreensão daquilo que estamos contando. Acho que Veja, Isto É e também Época, se mantém basicamente fiéis à receita do news magazine americano, cujo arquétipo é a Time. Elas continuam fazendo um resumo dos principais assuntos da semana, dando a cada um deles um toque de análise.
Nós achamos que essa fórmula está superada pelo avanço tecnológico, dos últimos 78 anos (Time foi fundada em 1923). As pessoas são submetidas a um bombardeio de informações constante. Convém procurar outra fórmula. Além disso, essas revistas, em busca exatamente da tiragem elevada, e talvez movidas a um solene desprezo pelo público leitor, partiram para coberturas irrelevantes.

Numa entrevista à Revista Imprensa deste mês, o senhor disse que não lê os veículos de comunicação nacionais. O que os leitores, e, em particular, os estudantes de jornalismo podem esperar da imprensa nacional?
A imprensa brasileira e também a mídia eletrônica, vive um momento negro. Ela se esforça com extremo empenho para embrutecer os leitores, obscurecer as consciências para impedir que as pessoas sejam realmente informadas. É claro que eu dou uma olhada oblíqua nos diários nativos, mas as revistas, realmente não leio. Elas me causam um certo mal estar que envolve todo o aparelho gastro-intestinal, então realmente prefiro não lê-las. No fundo, a gente pega a manchete do Globo, do Estado, da Folha e já sabe o que vem atrás. Nesse momento, por exemplo, do episódio do painel violado - grotesco, lamentável e altamente emblemático da tragédia que o país vive - há um empenho absoluto e generalizado de salvar o sr. FHC, o qual evidentemente sabia que o computador estava sendo violado. São coisas que mostram como essa imprensa é pouco séria e completamente devotada aos interesses do poder.


A quinta edição da Veja de XX de 68, que foi apreendida, contribuiu a imagem de Carta como "pedra no sapato" da ditadura.

Quais são os requisitos básicos para ser um bom jornalista?
Honestidade, coerência, além de talento para a profissão. O jornalista não precisa ser objetivo. Objetividade é própria das máquinas. Ele precisa ter o claro entendimento de suas responsabilidades. Em primeiro lugar, a devoção canina pela verdade factual, que não se confunde com a verdade que nós carregamos, que são milhões de verdades. Segundo, praticar o exercício desabrido do espírito crítico. E finalmente, o terceiro, é a fiscalização independente do poder.

Qual a diferença entre a imprensa que conviveu com a ditadura militar e essa que convive com a ditadura de mercado?
A ditadura militar criou pressões das mais variadas sobre a mídia, que não envolveram uma série de órgãos da imprensa que hoje se passam por censurados: o Jornal do Brasil, a Folha, o Globo. A propaganda que estes jornais fazem dá a impressão de que tiveram suas páginas submetidas às tesouras da ditadura. Mas isso não ocorreu, porque lhes cumpriam pontualmente as vontades do regime. Eu não diria que existe hoje uma ditadura do mercado, mas, sim, uma escolha deliberada por aprovar as decisões políticas do poder, salvo, é claro, as honrosas exceções. A política brasileira é completamente pautada por uma subserviência aos EUA e adesão pronta e imediata aos ditames do Fundo Monetário Internacional e de obediência às regras de uma política neoliberal. A imprensa apóia automaticamente essas idéias todas. É uma empáfia desse poder, que manda no país, dessa elite que é responsável pelo atraso nacional.

(Luciana Lazarini)