Gráficos, como usá-los corretamente? (parte 3)

Nem tudo acaba em pizza!

Cada tipo de gráfico tem uma utilização específica. Alguns são melhores para se identificar padrões, uns para comparações, outros para se percebem a tendências ao longo do tempo. Importante ressaltar antes de se definir por qualquer tipo de gráfico: o que causa impacto é a clareza da informação, não as alegorias da imagem. Um gráfico surpreende as pessoas não por ser visualmente agradável, mas por revelar de forma direta e clara informações que fazem sentido.

Os gráficos começaram a ser utilizados no final do século XVIII e início do século XIX. O trabalho de William Playfair “The Commercial and Political Atlas and Statistical Breviary”1, publicado em 1785, apresenta pela primeira vez em uma publicação os gráficos de linhas, barras e pizza.

Ao longo do século XIX, vários autores adaptaram e desenvolveram novos recursos visuais para a exposição e análise de dados. Uma autora de destaque foi Florence Nightingale2, que em 1858 criou o gráfico gráfico polar (um histograma circular) para demonstrar que as mortes de soldados britânicos na Guerra da Crimeia ocorriam mais por falta de cuidados nos hospitais do que pelos ferimentos recebidos em combate.

Florence Nightingale. Diagrama de causas de mortalidade no exército britânico na Guerra do Leste (Crimeia) - Estatísticas de Guerra, 1858.

O problema da escolha inadequada

Um gráfico inadequado dificulta a análise e impede a construção de argumentos claros. Por exemplo, gráficos de pizza (torta ou setores) são muito utilizados e costumam ser a primeira opção de quem começa a fazer análise de dados, principalmente quando o objetivo é montar uma apresentação ( powerpoint ).

Mas esse tipo de gráfico tem um uso bem específico. Tem por objetivo mostrar a proporção de partes (categorias) em relação a um todo. Não serve para comparar variáveis ou mostrar correlações. Mesmo para mostrar proporções, um gráfico de pizza tem limitações. Deve haver uma diferença muito evidente entre as categorias para o gráfico fazer sentido.

Vejamos o exemplo abaixo: três gráficos em formato de pizza que mostram a proporção entre cinco categorias, cada uma representada por uma cor. Esses gráficos poderiam representar, por exemplo, a intenção de voto de cinco candidatos (candidato 1, 2, 3, 4 e 5), captada em uma enquete para eleição presidencial em três cidades (A, B e C).

Gráficos de setores - fonte Wikipedia.

Qual candidato tem mais voto em cada cidade?

Difícil dizer. A impressão que se têm, olhando o gráfico acima, é que os dados são muito semelhantes.

Mas se observarmos os mesmo dados em um gráfico de barras, conforme a figura abaixo, podemos ver claramente a diferença.

Comparação de gráficos de setores e barras - fonte Wikipedia.

Os dados são os mesmos, mas a apresentação no gráfico do tipo pizza não permite a identificação das diferenças como no gráfico de barras.

O uso adequado do gráfico

Especialistas em análise visual de dados, como Edward Tufte 3, até sugerem que os gráficos de pizza sejam evitados. Mas o problema não está no tipo de gráfico em si e sim no uso inadequado da informação visual.

Para um exemplo de como o gráfico de pizza pode adequadamente ser utilizado, vamos ver concentração de renda no Brasil com base nos dados do Imposto de Renda da Receita Federal4

Pizza da desigualdade
Infogram

No gráfico acima há duas tabelas expostas em duas abas: dados dos Declarantes de imposto de renda por faixa de salário mínimo e dados do Rendimento total bruto dos mesmos declarantes, também por faixa de salário mínimo.

Pode-se observar no primeiro gráfico - Declarantes - que a pizza (o bolo) é divida quase ao meio pela faixa de 5 salários mínimos. Em metade da pizza estão os que ganham menos de 5 salários mínimos e na outra metade os que ganham mais de 5 salários mínimos. As cores das faixas de salários mínimo agrupam proporções semelhantes. Assim, pode-se ver que a quantidade de declarantes que ganham até 2 salários mínimos (azul escuro) é relativamente próxima da quantidade de declarantes que ganham mais de 20 salários mínimos (alaranjado). Do mesmo modo, as cores azul claro e verde seguem proporções similares.

Clicando na aba Rendimento total bruto, a pizza aparece distribuída de outra forma. Quase metade da renda pertence aos que ganham mais de 20 salários mínimos (alaranjado), enquanto a faixa dos que ganham menos de dois salários (azul escuro) quase desaparece da pizza.

Pode-se observar também que a proporção do rendimento bruto dos que ganham acima de 160 salários mínimos é maior do que a proporção dos que ganham até 5 salários mínimos (que correspondem a aproximadamente metade dos declarantes do Imposto de Renda no Brasil).

Nesse caso, como a distribuição de renda é muito discrepante entre os declarantes de imposto de renda, o gráfico de pizza permite reproduzir visualmente a analogia da divisão desigual do bolo no Brasil.

Como escolher o gráfico correto

Para escolher um gráfico correto, é importante distinguir o que se pretende mostrar com a informação:

  • fazer uma comparação entre variáveis;
  • demonstrar se há ou não relação (correlação) entre variáveis;
  • mostrar como o todo se divide em partes (composição);
  • verificar a frequência com que uma variável ocorre (distribuição de frequência).

O trabalho de Andrew V. Abela5, professor de marketing na Universidade Católica de Washington, traduzido por Kenneth Corrêa, oferece um guia para orientar a escolha do gráfico adequado para o tipo de informação que se pretende apresentar:

Kenneth Corrêa. tradução do original de A. Abela. Tabela de escolha de Gráfico, 2006


  1. Veja o livro de Playfair e os gráficos elaborados em 1785 [return]
  2. Conheça mais sobre Florence Nightingale e a importância de usa obra com artigo: COSTA, Roberta et al . O legado de Florence Nightingale: uma viagem no tempo. Texto contexto - enferm., Florianópolis , v. 18, n. 4, p. 661-669, Dec. 2009 . Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072009000400007&lng=en&nrm=iso [return]
  3. Edward Tufte é um pesquisador com várias publicações sobre visualização de dados. Seus trabalhos influenciaram o desenvolvimento da análise estatística por meio de gráficos. Confira mais no site do autor. [return]
  4. Confira Distribuição da Renda - Relatório da Receita Federal 2016 [return]
  5. Confira mais sobre o autor em Extreme Presentation. [return]
 
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