Gráficos, como usá-los corretamente? (parte 1)

Uma imagem vale mais do que mil palavras?1 Uma imagem mal apresentada tem o potencial de gerar muita confusão, mesmo quando seguida de um texto lúcido. Gráficos tornaram-se indispensáveis para a análise de dados. Saber como construir visualmente uma explicação baseada em dados requer conhecimento e discernimento.

Um exemplo clássico

O desenvolvimento de técnicas de exposição visual de dados começou muito antes dos computadores2. No final do século XVIII e início do século XIX, houve uma difusão de publicações com gráficos de barras, linhas e mapas coropléticos, similares aos que usamos atualmente3. O plano cartesiano, criado por Descartes no século XVII, uniu a álgebra e a geometria, e influenciou várias áreas do conhecimento, entre as quais a cartografia. Esses estudos, por sua vez, influenciaram autores que adaptaram a ideia para a exposição visual de dados, que antes se apresentavam apenas em longas tabelas.

Um exemplo é o trabalho do engenheiro francês, Charles Joseph Minard, que publicou em 1869 um gráfico que sintetizou em seis dimensões visuais a fracassada campanha de Napoleão na Rússia entre 1812 e 1813.

Charles Minard - Mapa da Desastrosa Campanha de Napoleão na Rússia em 1812.

O gráfico de Minard apresenta, da esquerda para a direita, a distância percorrida pela Armée do Imperador francês, desde sua partida no território polonês até Moscou na Rússia. O gráfico mostra o caminho de ida em cor clara o caminho de volta em cor escura. A quantidade de soldados que marcharam (e pereceram) apresenta-se proporcionalmente na espessura da linha. Na parte de baixo do gráfico, pode-se acompanhar a variação da temperatura na marcha de volta de Napoleão, entre outubro e dezembro de 1812. Observa-se que o exército francês vai minguando, enquanto a temperatura desce até -30 graus célsius no dia 6 de dezembro.

Um exemplo a não ser seguido

O Gráfico a seguir apareceu como candidato ao prêmio de pior gráfico de 2011 no site Junk chart. Trata-se de um gráfico em formato de pizza, no qual o autor procura explicar a distribuição dos subsídios federais nos Estados Unidos por tipo de combustível (fóssil, renovável, etc.)

Tommy McCall, Environmental Law Institute

O autor é sério e faz um estudo relevante, mas o gráfico é confuso. Ao contrário de Minard, que expõe seis variáveis correlacionadas em um plano bidimensional simples; McCall desdobra uma tabela de apenas quatro linhas e três colunas em uma multiplicidade de dimensões visuais4. Confunde mais do que explica.

Simplicidade e clareza

Para se construir um gráfico, há algumas regras que devem ser observadas:

  • clareza
  • coerência
  • consistência da informação
  • capacidade de explicação

O objetivo de se inserir um gráfico em um texto analítico não é causar impacto visual. Usa-se um gráfico para que a facilidade visual ajude a explicar de modo mais direto alguma informação. A simplicidade vem antes das alegorias.

Cada tipo de gráfico - barras, pizzas, linhas, bolhas, box plot, scatter plot, etc - foi pensado para extrair ou evidenciar um tipo de informação a partir de um conjunto de dados.

Saber construir gráficos dentro desses princípios é uma habilidade importante para a análise de dados. Do contrário, um gráfico pode se tornar um desastre do ponto de vista da exposição argumentativa.

Vamos detalhar essas regras e princípios nos próximos posts.


  1. Não, não foi Confúcio quem disse que “uma imagem vale mais do que mil palavras”! Essa é uma expressão atribuída ao publicitário dos Estados Unidos Frederick Barnard no início do século XX. Foi Barnard também quem deu início à “verdade alternativa” de que o adágio era de autoria de um pensador japonês, que depois virou chinês e o vulgo associou a Confúcio ( cf. origem da expressão ). A frase de Barnard parece que foi inspirada em outro publicitário, Arthur Brisbane, que em 1911 havia publicado um anúncio similar. De qualquer modo, uma imagem não substitui um texto, principalmente quando tratamos do exercício metódico para a análise de questões sociais. Texto e imagem se complementam, por isso devem ser bem construídos, levando-se em conta a clareza, simplicidade e a lógica explicativa. [return]
  2. Confira a linha do tempo sobre o desenvolvimento da análise visual de dados em: Data visualization timeline [return]
  3. Para uma referência sobre os tipos de gráficos, confira Data visualization catalogue [return]
  4. O gráfico de Tommy McCall faz parte do documento U.S. Tax Breaks Subsidize Foreign Oil Production. Uma versão mais estilizada do gráfico pode ser vista em Energy Subsidies Black, Not Green [return]
 
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