Manifesto dos pintores futuristas

Aos artistas jovens da Itália!

Identificando o nosso ideal com o dos poetas futuristas, lançamos aqui um brado de revolta...
Levantamo-nos enraivecidos contra o fanático, esnobe e mortuário culto do passado que se alimenta da deplorável existência dos museus...
Para os demais países a Itália continua a ser a terra da morte, uma vasta Pompéia branca de túmulos. Mas a Itália de hoje retorna à vida, e ao seu renascimento político segue-se agora o renascimento intelectual. No país de ignorantes, multiplicam-se as escolas; no país do dolce far niente, inúmeras fábricas estão rugindo; no pais das estéticas tradicionalistas, ganham ímpeto agora inspirações plenas de novidade...
A arte só é vital quando integrada em seu meio. Nossos antepassados retiraram a matéria de sua arte da atmosfera religiosa que lhes pesava sobre a alma, enquanto a nós cabe buscar inspiração no milagre tangível da vida contemporânea, na metálica rede de velocidade que envolve a terra, nos cabos submarinos, nas belonaves, nas esquadrilhas maravilhosas que sulcam o céu, na obscura bravura dos navegadores submarinos, na dura luta pela conquista do desconhecido. E como poderíamos ficar indiferentes à vida febril das grandes metrópoles modernas, à nova psicologia da vida noturna, às figuras inquietas do ‘viveur’, da ‘cocotte’, do apache e do toxicômano?...
Propomo-nos a
...Exaltar toda e qualquer forma de originalidade mesmo as mais
temerárias, mesmo as ultraviolentas...
Considerar a crítica de arte inútil e nociva...
Rebelar-nos contra a tirania das palavras “harmonia” e “bom-gosto”, expressões tão elásticas que com elas pode-se facilmente demolir a obra de Rembrandt, Goya e Rodin...
Interpretar e glorificar a vida de hoje, incessante e tumultuosamente transformada pelas vitórias da ciência...
11-2-1910