Texto e contexto em mapas do “Descobrimento”: uma leitura “entre as linhas” do Terra Brasilis (1519)

 

Muitos mapas da “Era dos Descobrimentos” carregam mensagens escondi das e se destacam pelo grande número de elementos pictóricos e simbólicos. Portanto, muitos historiadores têm tratado esses documentos não-verbais como fonte secundária, visto que registros arquivais continuam sendo considerados o material predominante para interpretar o passado.1 Nas últimas duas décadas surgiu uma visão diferente sobre mapas históricos segundo a qual mapas são vistos como construções socioculturais no contexto da época e sociedade em que foram produzidos.2 O fascínio pelos mapas está na leitura “entre as linhas de sua imagem” nas quais o historiador e o geógrafo podem encontrar ambivalências inerentes, agendas escondidas e visões de mundo contrastantes.3
No presente artigo, realizar-se-á uma breve interpretação do “texto” e contexto de um dos mapas históricos do Brasil mais fascinantes e icônicos, o chamado Terra Brasilis (figura 1), que foi produzido na véspera da circunavegação de Fernão de Magalhães, em 1519. O mapa faz parte do Atlas Miller, uma coletânea de onze mapas em pergaminho que leva o nome do seu último dono, o francês Bénigne-Emanuel Clément Miller, cuja viúva o vendeu para a Biblioteca Nacional Francesa em 1897. O Atlas foi confeccionado pelos cartógrafos portugueses Pedro (pai) e Jorge Reinel (filho) que o cartógrafo oficial na corte portuguesa, Lopo Homem, contratou para “preparar urgentemente um atlas magnífico, registrando os descobrimentos portugueses”.4 Embora elaborado menos do que vinte anos depois da viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, o Terra Brasilis já mostra mais do que cem referências espaciais, escritas perpendicularmente ao traçado da costa brasileira. Entre as localidades em letras vermelhas e marrons encontram-se rios, cabos e pontos marcantes na paisagem que os navegadores portugueses denominaram, na sua maioria, de acordo com as suas observações diretas (por exemplo, Terra da Pescarya ou Rio das Pedras) ou seu estado espiritual (nomes religiosos como Santo Agostinho ou São Roque).

No lado superior da esquerda encontra-se um cartouche (moldura ornamental) preenchido com um texto em latim que informa que a carta “é da região do Grande Brasil” cuja “gente selvagem e crudelíssima” é de cor “um tanto escura” e se alimenta de carne humana. Os índios usam, “de modo notável”, o arco e a flecha. Ainda há referências à fauna brasileira com os seus “papagaios multicores e outras inúmeras aves, feras monstruosas” e “muitos gêneros de macacos”. A árvore chamada de pau-brasil ocorre em grande quantidade e “é conveniente para tingir o vestuário com a cor de púrpura”.5

Essa descrição é ilustrada através de diversos desenhos que retratam as paisagens e cenas da vida nativa. No meio da floresta há três índios vestidos de saias e cocares feitos de penas coloridas (verde, azul e vermelho). Diretamente em baixo dessa cena aparecem quatro índios nus envolvidos no processo de preparação do pau-brasil, desde a queima do tronco e o corte da árvore com um machado até o carregamento dos pedaços para uma clareira. A parte ocidental do Brasil abunda com animais como papagaios (vermelho, azul e verde), macacos e outros quadrúpedes, entre eles uma criatura semelhante a um dragão. Emblemas da coroa portuguesa estão onipresentes. Há seis caravelas sob a vela da cruz cristã que “harmoniosamente estão equilibrando a composição da imagem”.6 No meio do Oceano Atlântico constam várias bandeiras portuguesas que acusam as ilhas de Fernando de Noronha, Martim Vaz, Trindade, Santa Helena e Ascensão como território português. Seguindo o padrão das cartas náuticas dos séculos XIV e XV (cartas portulano), o Terra Brasilis contém várias rosas dos ventos com 32 direções das quais partem linhas de rumo.

Não há muitas informações sobre a vida dos cartógrafos portugueses dos séculos XVI e XVII. Sobreviveram ainda menos os detalhes sobre como eles organizaram e atualizaram suas cartas.7 Os mapas não “surgiram do nada”, mas se basearam nos relatos de viagem dos navegadores e nas informações contidas em mapas mais antigos como, por exemplo, o Planisfério de Cantino (1502), que representava o Brasil literalmente como Terra dos Papagaios. Portanto, o que surpreende é que há uma “ausência total de mapas portugueses do tempo anterior a 1500”.8 Essa lacuna se deve à “política de silêncio” das coroas portuguesa e espanhola que censuravam qualquer tipo de informação que poderia pôr em risco o monopólio do seu comércio na África, na Índia e no Novo Mundo. Espanha e Portugal controlaram e centralizaram os conhecimentos geográficos e os saberes cartográficos através dos serviços hidrográficos da Casa da Contratación em Sevilha e da Casa da Índia em Lisboa. Cada país criou o seu “padrão real”, um mapa geral atualizado e padronizado que continha todas as informações que os capitães foram obrigados a fornecer logo depois de retornar das suas viagens. Essa política de silêncio resultou em um complexo enredo geopolítico com histórias de espionagem, traição, propostas sedutoras para melhorar o salário, contratações clandestinas, suborno, diplomacia e pirataria.

O Terra Brasilis foi confeccionado como presente de João III de Portugal para Francisco I da França, e não servia apenas como fontes de dados essenciais para a navegação, mas também como “objeto de desejo” para impressionar o potentado francês. Um brasão da coroa portuguesa indica que a região do Rio da Prata pertencia a Portugal e não à Espanha. Um índio que se apóia nos seus calcanhares, estica os seus braços em um gesto de veneração e vigia o estuário do rio.

Essa breve análise do Terra Brasilis está longe de ser completa e tinha como objetivo mostrar o potencial de mapas históricos como fontes documentais. Muitos mapas do tempo dos “Descobrimentos” são menos representações do espaço e mais espaços de representação9 que revelam detalhes sobre uma sociedade e como essa lidava com informações geográficas. Caravelas, bandeiras e imagens coloridas são muito mais do que meros desenhos: eles não apenas refletem, mas também criam visões de mundo. A interpretação desses mapas sempre está sujeita a especulações e requer paciência e o treinamento do olhar para realizar leituras “entre as linhas”. Através desta abordagem contextual, será possível pensar a cartografia como uma narrativa que relata histórias, eventos e pontos de vista essenciais para a compreensão das ações humanas no tempo e no espaço.

 

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Referências

1 Cf. Harley, J.B. Text and Context in the Interpretation of Early Maps. In: Buisseret, David (ed.). From Sea Charts to Satellite Images. Chicago: University of Chicago Press, 1990.
2 Cf. Harley, J.B. Silences and Secrecy: The Hidden Agenda of Cartography in Early Modern Europe. Imago Mundi, v.40, 1988.
3 Harley, J.B. Text and Context in the Interpretation of Early Maps. In: Buisseret, David (ed.). Op. cit. p. 4.
4 Cortesão, Armando; Teixeira da Mota, Avelino. Portugaliae Monumenta Cartographica. Volume 1. Lisboa, 1960. p. 61.
5 Cortesão, Armando; Teixeira da Mota, Avelino. Portugaliae Monumenta Cartographica. Volume 1. Lisboa, 1960. pp. 57-58.
6 Mollat, Michel; Roncière, Monique de la. Sea Charts of the Early Explorers: 13th to 17th Century. New York: Thames & Hudson, 1984. p. 221.
7 Teixeira da Mota, Avelino. Some Notes on the Organization of Hydrographical Services in Portugal before the Beginning of the Nineteenth Century. Imago Mundi, v.28, 1976. p. 51.
8 Kimble, George H. Portuguese Policy and Its Influence on Fifteenth Century Cartography. Geographical Review, v.23, n.4, 1930. p. 653.
9 Boelhower, William. Inventing America: The Culture of the Map. Revue Française d’Etudes Americaines, v.13, n.36, 1988. p. 213.

Jörn Seemann | Universidade Regional do Cariri | seemann@urca.br