A linguagem e o espaço no romance O Matador

 

O romance O matador, de Patrícia Melo, apresenta a história de Máiquel, 22 anos, residente em São Paulo, transformado em um criminoso brutal. Narrado em primeira pessoa, o texto revela o que se passa na mente e no cotidiano do jovem, cuja profissão de matador de aluguel faz com que ele alcance o prestígio da classe burguesa. Entretanto, é essa mesma classe burguesa que provocará o seu declínio.

De início, tem-se a impressão de que o romance é representativo dos gêneros pornográfico e/ou policial, por relatar o submundo do crime, o consumo de drogas, os relacionamentos amorosos. No entanto, tais temas não são apenas utilizados como meros motivos para o desencadear das ações, ou como simples itens de análise para um narrador considerado culto. Eles são referências culturais incutidas nas vidas das personagens, mesmo porque quem narra é o próprio personagem principal, agente do desenvolvimento do enredo.

O matador constitui um bom exemplo do que afirmou Chiampi (1996) a respeito do romance latino-americano do postboom:

“Os narradores do postboom fazem a crítica dessa modernidade literária, já pelo fato de assumir a cultura de massas como expressão legítima do imaginário social: colocam-na, na verdade, no lugar antes ocupado pela cultura popular, posto que nela identificam um capital simbólico cuja representatividade sócio-cultural se traduz nos discursos e saberes que os grupos subalternos detêm e nos quais expressam o seu imaginário”. (p. 77)

Desse modo, pode-se afirmar que o romance em estudo não reflete apenas o trabalho de apropriação do universo da cultura de massa, o que caracterizaria o texto como pertencente unicamente à chamada literatura de massa. Ele se projeta para um nível mais elevado e é possível observar, ao lado das gírias e do vocabulário obsceno, uma linguagem tão elaborada quanto a das narrativas consideradas pertencentes à alta literatura, configurando o que Chiampi (1996) denominou “mixagem de linguagens”.

A hibridação de discursos percorre todo o romance, nas falas de variadas personagens e do próprio narrador, caracterizando-o como um narrador deveras complexo. Não é possível reconhecer Máiquel como um simples representante do submundo de uma grande cidade. É simbólico o modo como esse narrador consegue estabelecer uma ligação entre a linguagem “baixa” e “alta”, mesclando o estilo de um jovem de periferia com o de um narrador reflexivo, exercitando uma prosa culta, “com a erudição adequada a um conhecedor do ofício da escritura moderna e da experimentação literária”. (Chiampi, 1996, p. 79).

Ao trabalhar com a valorização do massivo, dos gêneros melodramático, erótico e policial misturados a uma linguagem elaborada e a técnicas narrativas experimentais, o romance O matador pode ser considerado pós-moderno. No entanto, observa-se que o texto representa o hibridismo entre cultura de massa e cultura de elite não apenas como um fenômeno pós-moderno, com fins de reverter uma situação a que a arte moderna estava acostumada. Ele avança para um compromisso mais notável e político com a sociedade, denunciando, mesmo que timidamente, os impactos que a modernização e a expansão do capitalismo causam em um grande centro urbano, tornando seus moradores protagonistas de uma cultura do medo.

No mundo contemporâneo, a sociedade sente-se, constantemente, ameaçada pela violência dos atos do próprio homem, preocupando-se excessivamente com a proteção de indivíduos e patrimônios.

Nesse sentido, é conveniente ressaltar como se interligam a temática do livro, que não é essencialmente a história de um matador, mas a relação deste – um representante da classe desfavorecida economicamente - com a classe burguesa dominadora e a configuração do espaço.

Existem, no romance, dois espaços bem delimitados: aquele povoado pelos que detêm o poder por meio do status social; e outro representativo da comunidade das grandes massas. Para os habitantes do primeiro, o criminoso é proveniente das massas e já nasce com o “dom” de praticar crimes. Portanto, eles não se sentem culpados pelo aumento da violência causado justamente pela divisão de classes, mas sim vítimas desse sistema, com objetivos, portanto, “simplesmente”, de defender suas famílias, residências, empresas, eliminando tudo aquilo que é estranho e prejudica o convívio harmonioso em sociedade.

Assim, configura-se, no romance O matador, o que Lévi-Strauss (apud Bauman, 2001) classificou como estratégias utilizadas na história humana para o enfrentamento da alteridade: estratégia antropoêmica e estratégia antropofágica. Na narrativa em estudo, a estratégia antropoêmica demonstra-se no anseio da classe privilegiada economicamente em viver em um lugar purificado, homogêneo, limpo e livre daqueles que colocam em perigo o seu patrimônio.

Não sendo suficientes os recursos de proteção oferecidos pelo mercado, apela-se para estratégias mais extremas: o completo extermínio do diferente, do bandido. Os “doutores” vêem em Máiquel, portanto, o objeto perfeito a ser manuseado em favor da segurança que tanto desejam. Ele conhece os hábitos dos prováveis criminosos e o meio em que vivem e caracteriza-se como um desventurado que reconhece no dinheiro oferecido pelos assassinatos cometidos uma forma de ascensão.

À proporção que presta favores aos seus novos patrões, atuando como matador de aluguel e depois como sócio de uma “empresa de segurança”, o rapaz inicia um processo de transformação, sendo absorvido pelos costumes burgueses. Máiquel torna-se, aparentemente, um novo membro da comunidade economicamente favorecida, convertendo-se em alvo para a segunda estratégia apontada por Levis Strauss, a antropofágica.

Contudo, a perfeita integração do protagonista ao espaço da elite não pode acontecer, pois ele não pertence genuinamente a tal espaço. O rapaz fora deslocado de seu ambiente original para melhor servir àqueles que necessitavam de seus trabalhos torpes. Em determinado momento da narrativa, Máiquel reconhece-se como um intruso naquele mundo tão almejado por ele. O clímax de sua derrota ocorre no instante em que ele assassina, por desvario, um adolescente rico. Enquanto são mortos apenas os negros e os meninos de rua, não se enfrentam problemas com a polícia, ou com a imprensa. Porém, agora, Máiquel deve ser castigado. É perseguido e preso, seus “amigos” recentes o abandonam e tentam, inclusive, matá-lo na prisão. O protagonista, finalmente, presencia a podridão que permeia a classe burguesa que o adestrou como um cão, que incutiu nele o ódio pelos seus semelhantes e fê-lo enxergar a glória do dinheiro e da fama, mas que, em pouco tempo o destituiu de tudo isso e não hesitou em conduzi-lo de volta ao mundo do qual, na verdade, nunca saíra.

Tais observações inserem O matador, de Patrícia Melo, no âmbito da narrativa contemporânea, revelando temáticas constitutivas do mundo urbano atual, colocando em choque culturas de classes sociais distintas, apresentando e denunciando o que gera a problemática da violência e o medo, exagerados, que consomem os grandes, e porque não dizer, pequenos centros. Além disso, as técnicas narrativas — partindo das mixagens de discursos, compostos por uma violência verbal, sensibilidade e humor, passando pelas diversidades de vozes narrativas e alcançando uma prosa ágil carregada de ironia e acidez — inserem o texto em um nível de literatura experimental, renovada, representante das transformações pelas quais passa esse mundo fragmentado e caótico em que se vive atualmente.

Referências

Bauman, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
Chiampi, Irlemar. O romance latino-americano do pós-boom se apropria dos gêneros da cultura de massas. In: Revista Brasileira de Literatura Comparada. vol. 3. no. 3, 1996. p. 75-85.
Melo, Patrícia. O matador. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Imagem da página oposta: Capa de O matador.

 

Sandra Elis Aleixo | Universidade Estadual de Londrina | sandraaleixo@utfpr.edu.br