Julho de 2015 PDF E-mail

APRESENTAÇÃO

 

No ensaio “O pintor da vida moderna”, também conhecido por “Sobre a Modernidade” (1863), Charles Baudelaire considera a arte – ou, como se queira, a obra artística – passível de ser construída e contemplada em metades. Uma metade corresponde ao que Baudelaire denomina “l’éternel et l’immuable”, que compreendemos como o absoluto artístico: aquela qualidade que um objeto possui de permanecer vivo e significante para os pósteros, ainda decorridas décadas, séculos, milênios desde o contexto histórico, social, cultural, político, econômico, axiolológico, religioso, filosófico, linguístico (etc.) do qual foi fruto. De qual modo se explica que, já no século XXI, um leitor brasileiro possa, defronte a tantas intermediações, ler a antiquíssima Safo e ainda conseguir senti-la? É essa beleza terrível, eterna e imutável, a transcender o tempo, a sociedade, a língua e a individualidade o que nos permite, hoje e aqui, ecoarmos em nós o pensamento e o sentimento da poetisa de Lesbos.

A outra metade da arte ou do objeto artístico, para Baudelaire, também é, qual a anterior, indispensável: trata-se de “le transitoire, le fugitif, le contingent”, aquele relativo que o artista seleciona, dentro de sua realidade particular, para poder dialogar dialeticamente com a eternidade. Ou seja: metade da arte é o atemporal, o abstrato, o irredutível, enquanto sua segunda metade é o presente concreto – mencionado por José Ortega y Gasset como “a minha circunstância” –, que logo será passado e aponta para o futuro, essa beleza efêmera colhida pelo artista em seu momento, para reduzir em objeto aquele irredutível. Por que Safo nos interessa? Pelo que contém de eterno. Mas com que estratégia ela pôde vislumbrar algo do eterno? Observando a parcela de tempo que lhe coube, o movimento do transitório no período que viveu, sua época. Transitório: portal para o eterno. A essa capacidade de flagrar a eternidade em elementos dum determinado presente – o Zeitgeist, num lance de dados com o eterno –, Baudelaire nomeia “modernité”.

Segue-se que todo poeta deve ser sempre moderno em seu tempo. Safo, Virgílio, Dante, Rumi, Bashô, Camões, John Donne, Gonzaga, o poeta do Cântico dos cânticos e o autor de Gilgamesh, antes de se tornarem os nossos antigos, foram modernos nas suas épocas. Na verdade, só conseguiram se tornar poetas antigos por terem sabido ser poetas modernos, ao lerem seus tempos. Nesse sentido, toda antiguidade um dia já foi moderna e toda modernidade será um dia antiga.

Modernidade, essa fugidia, numa outra palavra: contemporaneidade. Procurando compreendê-la melhor, o 15º vagão da Estação Literária tem por trilhos a Poesia Contemporânea.

Logo uma dúvida se impõe: onde começa nossa contemporaneidade poética? É, decerto, questão das mais problemáticas. Sem querer, por agora, entrar na profundidade do assunto, neste vagão optou-se por um recorte claro: para nossos efeitos, a poética contemporânea é aquela que se descortina a partir da década de 80 do séc. XX, até os nossos dias. Esse recorte não é arbitrário, e sim consiste no cenário ideal em que fermentaram forças estilísticas, estruturais e conteudísticas extremamente atuantes até hoje. Em primeiro lugar, vale lembrar que, no Brasil, os anos 80 e 90 cobriram um vibrante ponto de maturidade criativa e diálogo com o establishment editorial de vários dos autores que, na década de 70, compuseram o ambiente da Tropicália, da Poesia Marginal e adjacências. Nos primeiros anos do séc. XXI, mutatis mutandis, as mesmas forças de estilo, estrutura e conteúdo são ecoadas extensamente, sobretudo na internet: o espírito rebelde de recusa do status quo, a ideia de compartilhamento de textos poéticos e a independência inventiva, cultivados pelos marginais, persistem nos inumeráveis poemas apresentados no meio digital; e a tendência antropofágica à síntese, ao humor, à experimentação e à intertextualidade, típica dos tropicalistas, ainda preside o tom geral dos discursos líricos.

Há que se destacar ainda que os anos 80 e 90 e já os iniciais de nosso século testemunham, a partir de releituras do Concretismo e do Dadaísmo, experimentos inéditos com a Poesia sonora, a Poesia visual, a Poesia cinética e até, antes mesmo do pleno advento da internet, a Poesia cibernética (digital), no Brasil e no Ocidente. Com as novas mídias, a rede atualmente está repleta de praticantes dessas vertentes de matiz urbana, que registram, sobretudo, a fragmentariedade, a pressa e a solidão do ser humano na Babilônia de almas em becos do terceiro milênio.

Os artigos aqui apresentados dão conta de aspectos variados deste nosso momento, ao contemplar o estudo de poetas que persistem em escavar o transitório em busca do eterno.

 

Sílvio José Stessuk 

Universidade Estadual de Londrina

 

Para acessar o sumário e baixar os arquivos individualmente, clique aqui.

Para conferir os arquivos do Espaço de Criação, clique aqui