Dezembro de 2014 PDF E-mail

APRESENTAÇÃO

 

Há algo de errado com a crítica literária no Brasil. Essa é apenas uma conclusão a que podemos chegar depois de ler a presente edição da Estação Literária, dedicada a Julio Cortázar (1914-1984). Tal conclusão, no entanto, não provém da leitura dos ensaios que a revista publica, e sim do atual estágio dos estudos cortazianos em nosso país, que os ensaios reunidos nesta edição tentam, de alguma forma, reverter.

Há mais de meio século Julio Cortázar fascina seus leitores. Os motivos desse fascínio são múltiplos como é múltipla a obra cortaziana. Sua malha textual, engenhosamente tramada, como uma teia de aranha, captura o leitor; seus labirintos narrativos, repleto de passagens subterrâneas, onde perder-se é a regra, cativam o leitor; sua multiplicidade de temas e perspectivas, como um universo íntegro e paralelo, magnetiza o leitor. As consequências desse fascínio, por sua vez, são múltiplas também. Escritores tomam a obra cortaziana como modelo, e a reelaboram; críticos a tomam como objeto de análise, e a dissecam. E Cortázar, múltiplo em si, crítico e criador, se multiplica em outros críticos, outros criadores.

No caso da crítica, a obra esfíngica de Cortázar propõe ao leitor o contínuo desafio de interpretá-la. E tal desafio tem recebido um caudal de respostas. Desde 1963, ano de publicação de Rayuela, a produção acadêmica sobre Cortázar – teses, livros, ensaios, artigos – mantém-se em crescimento. Dessa produção, Sara Lo, em 1985, elenca mais de 2.600 títulos, entre fontes primárias e secundárias, no seu Julio Cortázar, His Works and His Critics: a Bibliography. Esse número encontra-se hoje, claro, completamente desatualizado. Uma breve consulta a bancos de dados de bibliotecas especializadas nos mostra que o volume total de textos críticos sobre Cortázar, sobretudo na América hispânica e nos Estados Unidos, mas também em centros universitários europeus, tem aumentado, ano a ano, de modo substancial. Os números atualizados da bibliografia crítica sobre Cortázar – números, aliás, em constante expansão –, se os obtivéssemos, apenas atestariam por estatística o que todos nós já sabemos pela percepção da experiência: que a obra cortaziana é um marco incontornável da moderna literatura latino-americana.

Por esse prisma, afigura-se no mínimo preocupante que, no Brasil, a principal referência crítica sobre Julio Cortázar seja um estudo de 1973(!): O escorpião encalacrado, de Davi Arrigucci Jr. Houve, é certo, publicações mais recentes, de pesquisadores brasileiros, que examinam a obra cortaziana. No entanto, a bibliografia dos ensaios desta edição, bem como o texto de chamada da revista para a publicação dos ensaios – só para ficar em dois exemplos próximos – reforçam a ideia de que o livro de Arrigucci Jr., publicado há 42 anos, e a 11 da morte de Cortázar, continua a ser a principal referência bibliográfica dos estudos cortazianos no Brasil. Se esse argumento estiver correto, há definitivamente algo de errado com a nossa crítica literária, e seu olhar autocentrado, que a inibe (não sei se este é o verbo mais apropriado) de cruzar suas fronteiras na direção de outras línguas, outras culturas, outras literaturas.

Louvem-se, nesse sentido – e este é o ponto a que se queria chegar nesta apresentação –, uma revista como a Estação Literária, e sua presente edição, ou mesmo edições passadas, como a do Vagão 8A, que focalizou a África lusófona e a afro-brasilidade, ou a do Vagão 7, que pôs em destaque a América Latina, ou ainda a divulgação de ensaios em outras línguas que não o português, ou dedicados a outras literaturas que não a brasileira. É preciso internacionalizar nossa crítica, fazê-la menos autocentrada (quase diria menos provinciana) e mais ambiciosa; e uma revista como a Estação Literária contribui decisivamente para isso.

Nesta edição, o leitor encontrará um Cortázar multidimensional. O Cortázar mítico-poético e o político. O Cortázar viajante, ou da narrativa de viagens. Cortázar e suas relações com a antropologia e a filosofia. O Cortázar do conto, do romance e da crítica. A obra cortaziana desde um ponto de vista semiótico. São muitos Cortázares, e muitos ainda por revelar. Que a metáfora da “partida dos vagões” seja, no caso desta edição, o prenúncio de um caminho cuja trilha nos leve a redescobrir um novo Cortázar. Redescobrir o novo. Não é para isso, entre outras funções, que serve a crítica?

 

Mario Higa

Middlebury College

 

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NOTA DOS EDITORES 

Muitos meses depois do que era previsto, a Estação Literária publica seu décimo quarto volume, dedicado a Julio Cortázar. Não há como não iniciar esta nota pedindo desculpas por todos os atrasos que temos acumulado há algum tempo. Principalmente por questões de reestruturação da equipe de nossa Comissão Editorial, mas também por uma série de outros fatores, de ordens diversas, a Estação, que sempre prezou o compromisso com seus leitores e colaboradores, incorreu em sérios atrasos. Este Volume 14, que trazemos ao ar no final de 2015, corresponde aos trabalhos que deveríamos ter encerrado no segundo semestre de 2014. Em breve, publicaremos também nosso Volume 15, com o dossiê “Poesia Contemporânea”, relativo aos trabalhos do primeiro semestre de 2015. Assim, em um esforço contínuo para restabelecer a pontualidade com nosso cronograma, continuaremos em débito com relação ao Volume 16 – que corresponde, originalmente, ao segundo semestre deste ano, mas cuja chamada para publicação ainda não divulgamos. 

Em tempo, todas essas faltas serão reparadas. E, por toda a paciência demonstrada até aqui por nossos mais diversos colaboradores – autores, pareceristas, leitores –, expressamos nossos sinceros agradecimentos. Aqueles que acompanham a Estação Literária sabem o quanto prezamos a qualidade de nossas publicações, e, como se trata de uma via de mão dupla, renovamos aqui esse compromisso com a qualidade enquanto acolhemos os votos de confiança e a compreensão demonstrada por nossos pares.

Neste Volume 14, que celebra os 101 anos de Julio Cortázar, apresentamos dez artigos, cujos autores, provenientes de diversas universidades, propõem leituras variadas da obra do autor de Rayuela. Essas leituras abarcam desde análises de textos específicos de Cortázar até a apropriação de considerações teórico-críticas do escritor argentino para a análise de outros textos. Nada mais justo do que homenagear um autor cuja obra se nos apresenta em forma de mosaico com uma coletânea de estudos que contemplam algumas de suas muitas faces. A apresentação do volume é assinada por Mario Higa, professor no Middlebury College e membro do Conselho Editorial da Estação Literária, que gentilmente nos oferece algumas palavras introdutórias sobre esta compilação de estudos cortazianos ao mesmo tempo em que lança uma provocação ao perfil da crítica literária brasileira.

Aos autores, pareceristas e leitores, mais uma vez, nosso muito obrigado. Uma boa leitura a todos!

 

Comissão Editorial