CHAMADA ABERTA

VOLUME 18: A ATUALIDADE DO BILDUNGSROMAN 

Nem sempre o romance foi visto como esse grande gênero literário que nós, os que demos a nós mesmos o título nada singelo de “modernos”, estamos acostumados a caracterizar como o mais elevado. O homem grego, educado pela poesia épica e pelo teatro, veria como escandalosa esta nossa hierarquia dos gêneros, completamente distinta daquela de Aristóteles ao considerar a tragédia como a arte mais elevada em sua Poética. Mas a sensação deste escândalo não se explica apenas por uma questão de estética ou de retórica, ou seja, uma diferença de como ajuizamos o bom uso da expressão literária. O que a partir do século XVIII nos diferenciou determinantemente de toda a tradição grega não foi apenas uma escolha entre a “poesia” ou a “prosa”, mas muito mais o fato de que o gênero romance tornou explícito um modo de viver que é, ele mesmo, “prosaico”. É esta diferença que James Joyce captou brilhantemente em seu Ulisses, ao parodiar a Odisséia de um homem moderno, transformando aqueles 24 cantos épicos de Homero em 24 horas da vida de um banal Stephen Dedalus.

Joyce sabia como ninguém que a vida do homem moderno é prosaica demais para a forma do canto; só restaria à literatura moderna, portanto, expressar a vida de um indivíduo qualquer por meio da prosa. Isso não quer dizer, no entanto, que a modernidade tornou obsoleta a poesia; quer dizer apenas que a poesia se tornou possível, hoje, justamente a partir desta experiência específica de uma vida prosaica. Assim, não foi apenas por sermos modernamente prosaicos que o romance se elevou para nós como um gênero principal; foi também por termos sentido demasiadamente o peso de nosso prosaísmo que acabamos por sentir a necessidade de poetizá-lo. Daí que tenha sido justamente no auge do processo de modernização, na passagem do século XVIII ao XIX, que se firmou entre nós não apenas a elevação do romance ao mais alto gênero literário, mas também a caracterização específica deste gênero enquanto Bildungsroman, ou seja, romance de formação.

As origens deste gênero remetem, certamente, à obra de Jean-Jacques Rousseau, que, além de suas Confissões, publicou O Emílio, livro que inspira uma profunda tradição pedagógica e filosófica alemã em torno do conceito de Bildung, que significa literalmente “formação”, mas pode ser traduzido também por “cultivo”. É visível a influência de Rousseau sobre o Goethe classicista, cuja obra principal é justamente Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, considerado há muito o grande protótipo do romance de formação na Alemanha, país em que o gênero mais se desenvolveu no século XIX. O que diferencia este de outros tipos de romance é que o herói não é mais concebido enquanto uma personalidade fixa que se desloca pelo mundo, mas é agora, nos dizeres de Bakhtin, uma “unidade dinâmica” que se transforma ao longo da narrativa: no Bildungsroman, “o tempo se interioriza no homem, passa a integrar a sua própria imagem, modificando substancialmente o significado de todos os momentos do seu destino e da sua vida”.

Não é coincidência, portanto, que o romance tenha se tornado o grande gênero literário moderno no mesmo contexto em que o romantismo de Iena, na esteira de Goethe, nos legou a tarefa libertária de “poetizar” todos os âmbitos da existência: contra uma vida moderna entediantemente prosaica, os românticos propõem como antídoto a poetização da vida, que se expressaria da forma mais acabada no Roman, o gênero-total em que cabem todos os gêneros. Para F. Schlegel, só o Roman é capaz de realizar plenamente a união entre o prosaico da vida e o maravilhoso da poesia: “Muitos dos romances mais notáveis são um compêndio, uma enciclopédia de toda a vida espiritual de um indivíduo genial [...] Todo homem que é culto e se cultiva também contém um romance em seu interior”. Assim, não é apenas o Bildungsroman que narra o desenvolvimento espiritual de um homem, mas é também o processo de educação de um indivíduo que se explica como um Roman-tizar – e isso quer dizer para Schlegel, precisamente, cultivar-se, formar-se, educar-se, gestar dentro de si um romance!

Esta conexão necessária entre a educação do homem e o potencial poético do seu destino, que caracteriza o Bildungsroman, explica porque a crise deste gênero literário após a experiência nazista – apontada por Marcus Mazzari em sua leitura de O Tambor, de Günter Grass – é indissociável de uma crise dos próprios valores humanistas que o sustentaram historicamente. É possível ainda um romance de formação na atualidade, mesmo depois dos campos de concentração em 1945, dos ataques terroristas do século XXI e dos outros inúmeros eventos traumáticos que nossa literatura contemporânea testemunham? É possível ainda nos Roman-tizarmos, ou só nos resta a opção de uma literatura do trauma, que aponta para nossa condição de viventes incapazes de aprendizado ou de experiência? Conseguiremos comunicar algo além da sensação de que a História, sentida agora como um abismo, devora cotidianamente nossos pés?

A Revista Estação Literária abre sua chamada para o vagão 18 convidando pesquisadores e estudiosos a refletir sobre estas questões em torno da relevância e da atualidade do Bildungsroman. Serão aceitos artigos que discutam as dimensões crítica, filosófica e histórica do gênero, seja em suas manifestações na literatura brasileira, seja na estrangeira. A partir deste volume, haverá também espaço para recebimento de artigos para a seção varia, bem como para resenhas de livros publicados no Brasil nos dois últimos anos, além de textos artísticos para o espaço de criação. O prazo para submissão de trabalhos é 30 de novembro de 2016. Os artigos deverão ser enviados, de acordo com as normas da revista, para o e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email .

 

Comissão Editorial da Estação Literária 

 
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ESTAÇÃO LITERÁRIA é uma publicação semestral do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina, com o objetivo de divulgar trabalhos ligados aos Estudos Literários e Culturais, sob a forma de artigos e, eventualmente, entrevistas e resenhas. 

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ESTAÇÃO LITERÁRIA (LITERARY STATION) is a journal of the Graduate Program in Literature of the State University of Londrina. It is refereed and publishes two electronic editions a year. Estação Literária is particularly interested in articles that engage discussions in connection with Literary and Cultural Studies. Interviews and book reviews are also accepted.

Submissions may be written in Portuguese, Spanish or English. They are evaluated by members of the Editorial Staff. For Editorial and Manuscript Guidelines, please access the links Normas and Política Editorial.

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