Edição Atual

APRESENTAÇÃO: UM VAGÃO MASCULINO

 

Reivindicar a convergência entre os estudos literários e as masculinidades pode causar certo estranhamento. A ideia de dedicar um número de revista de letras ao assunto pode ser interpretada como um exagero. Tais reações são plausíveis a despeito da afirmação crescente dos estudos de gênero e da crítica feminista, práticas de pesquisa afins que já desfrutam de grande receptividade no ambiente acadêmico. Avaliar questões como as experiências masculinas significa ingressar em território decididamente marcado por polêmicas, um espaço que tem sido ocupado em investidas ostensivas do poder público e de grupos religiosos. Além disso, os noticiários com frequência expõem atos de violência de gênero que não devem ser ignorados nem entendidos como manifestações eventuais. Nesse sentido, admitir o valor social destes estudos – que se tornam cada vez mais comuns em outras áreas do conhecimento – é passo que deve transpor qualquer reticência.

No âmbito dos estudos literários, o que se pode esperar dessa aproximação? Uma das expectativas é a possibilidade de construir análises literárias mais caracterizadas pela pluralidade teórica. Focalizar a literatura através do diálogo com contribuições sociológicas, antropológicas e psicanalíticas, além de fontes ligadas a outros campos, tende a colaborar para o amadurecimento e o refinamento das reflexões. Quanto às particularidades do vínculo entre a abordagem literária e a valorização das masculinidades, é preciso reconhecer que, se há muitos pontos comuns entre a perspectiva em questão e os estudos feministas, entram em cena novas ênfases, como o discurso de autoria masculina no que se refere a circunstâncias em que o gênero assume destaque, as representações dos homens em suas relações não só com as mulheres mas também com outros homens e a necessidade de entender práticas masculinas como movimentos que nem sempre são exclusivos dos homens. A consideração desses aspectos é medida significativa tanto para a releitura de obras literárias canônicas quanto para uma compreensão mais pormenorizada de produções contemporâneas.

Os artigos incluídos neste volume de Estação Literária têm seus autores vinculados a diversas instituições de ensino superior: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Tocantins, Universidade Federal de Goiás, Universidade do Estado de Mato Grosso, além de uma instituição portuguesa – a Universidade de Coimbra – e de instituições paranaenses, como a Universidade Estadual de Londrina, a Universidade Estadual de Ponta Grossa e a Universidade Estadual do Centro-Oeste, compõem as origens das pesquisas. Essa variedade institucional soma-se às regiões também diversificadas que sediam essas universidades, para demonstrar que o interesse pelas masculinidades como objeto de estudo é amplo e não se restringe a apenas um ou outro lugar. O conjunto de trabalhos confirma a adesão de pesquisadores à temática em estágios diferentes de suas carreiras: há mestrandos e mestres, doutorandos e recém-doutores, além de estudiosos mais experientes. Tudo isso evidencia boas perspectivas para as pesquisas na área.

No plano das fundamentações teóricas a que os colaboradores recorrem, há uma multiplicidade de concepções que incrementam os exercícios de análises. Ao lado de autores cujos pensamentos contribuem muito para a exploração de tópicos em torno do assunto, como Agamben, Barthes, Bataille, Foucault, Goffman, Maingueneau e Roudinesco, circulam pelos artigos referências àqueles que se debruçam especificamente sobre as questões de gênero e sobre as masculinidades, como Badinter, Bourdieu, Butler, Connell, Cornwall e Lindisfarne, Costa, Del Priore, Grossi, Halberstam, Kimmel, Miskolci, Nolasco e Welzer-Lang. A articulação da leitura dos textos literários eleitos com as reflexões desses autores incorporados ao debate representa um ganho expressivo para a profundidade dos trabalhos.

A apresentação das potencialidades de pesquisa que reúnam as masculinidades e produções da literatura brasileira é o propósito do artigo “Fundamentos para pesquisas sobre masculinidades e literatura no Brasil”, de Luiz Carlos Simon. O trabalho contém levantamento de farta bibliografia teórica sobre o assunto, com indicação de títulos publicados dentro e fora do Brasil, e introduz as conexões com temáticas afins, como a violência e a paternidade, além de focalizar crônicas contemporâneas como material rico para a questão.

Débora Maia de Freitas, em co-autoria com Níncia Cecília Ribas Borges Teixeira, apresenta “‘O menino é o pai do homem?’ – de Bentinho a Casmurro: masculinidades deslizantes”. Trata-se da releitura do clássico de Machado de Assis, com foco sobre a infância e a adolescência do protagonista, evidenciando como essas etapas e seus condicionamentos tiveram desdobramentos na vida adulta de Bentinho/Casmurro. Questões como ciúme, covardia e fragilidade, focalizadas atentamente pelas autoras, acentuam os vínculos do romance com as masculinidades.

“O agudo e o crônico: masculinidade e paratopia em São Bernardo e ‘Mulheres’, de Graciliano Ramos” é a contribuição de Erick da Silva Bernardes. O artigo promove uma reinterpretação do romance de Graciliano – reiterando um dos caminhos de estudo nas masculinidades, a retomada do cânone sob outra perspectiva – em diálogo com a crônica do mesmo autor, com o olhar voltado para a caracterização de Paulo Honório e para a dicção masculina que se manifesta em mais de um formato de texto, em suas ligações com os estereótipos masculinos.

A temática da paternidade, rica no que se refere à apreciação de questões do universo das masculinidades, é o objeto do estudo realizado por Evelyn Blaut Fernandes em “O pai bandalho e os filhos partidos ao meio”. As particularidades dessas experiências masculinas são abordadas através da leitura meticulosa e da reflexão sobre obras do autor português António Lobo Antunes. Referências à dança surgem como elementos instigantes para a análise dos afetos masculinos que integram os textos literários selecionados.

Samuel Lima da Silva é o autor do trabalho “Aquele anjo de longas asas: a textualização do homoerotismo no romance Em nome do desejo, de João Silvério Trevisan”. O foco do artigo aponta para um relevante contraponto que emerge no estudo das masculinidades: as relações conturbadas entre os homens e a homossexualidade. A concentração na retrospectiva operada pelo romance quanto à vida no seminário traz à tona os conflitos entre sexualidade, religião e os condicionamentos impostos aos homens antes da vida adulta.

De autoria de Mariana Chaves Petersen, “Da masculinidade hegemônica às subalternas: a masculinidade lésbica em contos brasileiros contemporâneos” joga luzes sobre a obra de duas contistas bastante recentes no cenário literário brasileiro: Natália Borges Polesso e Ana Paula El-Jaick. O trabalho detém-se sobre importantes categorias discutidas na teorização das masculinidades: as masculinidades hegemônicas e as subalternas. Ao aproximar a análise das experiências lésbicas, a autora faz movimento decisivo para enfrentar um dos maiores desafios dos estudos em questão, que é “desessencializar” o masculino.

No artigo “‘Homens de um lado, mulheres do outro. E eu?’ As masculinidades e as instituições brasileiras no contexto de Princesa”, Luciana M. Marchini Ulgheri explora a obra de caráter autobiográfico escrita por Fernanda Farias Albuquerque, uma transexual brasileira nascida na Paraíba que migrou para a Itália. A pesquisadora debruça-se sobre o percurso da vida com ênfase na infância e nos condicionamentos relativos às masculinidades experimentados nos contatos com instituições como a família, a igreja, a escola e as forças armadas.

Maria de Fátima Lopes Vieira Falcão e Flávio Pereira Camargo são os autores do trabalho intitulado “Dispositivos de poder e tecnologias disciplinares no romance Em nome do desejo, de João Silvério Trevisan”, o que confirma a sintonia do romancista com o trato de questões relativas às masculinidades, pois sua obra é eleita como corpus de dois dos artigos incluídos neste número da revista. Aqui o foco recai sobre os mecanismos de manutenção da masculinidade hegemônica, associados com a repressão sexual, com o disciplinamento dos corpos e com a força dos padrões heteronormativos.

O artigo “Do masculino ao andrógino: Acenos e afagos, de João Gilberto Noll”, escrito por Diego Gomes do Valle, tem o propósito de examinar as representações da sexualidade no romance citado e em outros romances do mesmo autor. A androginia merece lugar de destaque na trajetória analítica do estudioso, que, apoiado na fortuna crítica de Noll, constrói suas reflexões sobre a desestabilização da sexualidade como fenômeno que foge de prescrições e ganha cada vez mais vigor na literatura contemporânea.

“A obsessão pela virilidade em Mãos de cavalo: poder e ruína”, trabalho apresentado por Anna Carolina Botelho Takeda, traz no seu título uma das palavras-chave para os debates sobre as masculinidades: a virilidade. Os padrões viris são cotejados pela autora com a exposição de personagens do romance de Daniel Galera à indústria cultural. Mais uma vez a adolescência desempenha papel importante para o enfoque da questão, que é acompanhada pela interpretação da violência, tópico ao mesmo tempo muito presente na literatura contemporânea e tão próximo das experiências das masculinidades.

Enfim, vale ingressar neste vagão masculino e tentar decifrar ou reavaliar as páginas que se oferecem. 

 

Luiz Carlos Simon (Universidade Estadual de Londrina)

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