Sem que existisse o propósito de atrasar-me, estou, com efeito, entre os últimos a comparecer, do elenco dos preclaros agraciados – pelos Poderes do Município de Londrina – com o título de “Cidadão-Honorário” desta maravilhosa cidade – de existência apenas trintenária – em homenagem e reconhecimento pelos relevantes serviços, por eles prestados, à antiga e abandonada região do Guairá, outrora integrante da Capitania de São Vicente. Nobres cidadãos honorários, esses que por seu descortino, operosidade e coragem na realização – têm sido proclamados pela seleta imprensa dos Estados do Paraná, São Paulo e Guanabara, como “os grandes vultos da colonização e da deslumbrante Reforma Agrária”, do quadrante Norte-noroeste deste Estado; operadas sem qualquer ônus para os cofres públicos estaduais – e ainda menos da Nação, sendo certo, que esta, sob o regime ditatorial, só recebeu entraves e perseguição. Se há vangloria nessas afirmações, não resulta, pois, das cinco descoloridas palavras. Reconheço e confesso – na minha humildade cristã – que me projetei de algum modo, entre eles, sem maior destaque – apenas pela felicidade com que encontrei excelentes colaboradores, que a meu lado agiam, em variadas atividades. Colaboradores de experiência comprovada e especializada competência – os quais, no discurso de vinte anos, levaram comigo a bom êxito o grandioso empreendimento, de cujo sucesso resultou a recuperação para o patrimônio do Estado do Paraná, da mais ricas de suas regiões territoriais, até que então pouco conhecida e quase inacessível. Entre esses notáveis colaboradores todavia, devo esclarecer para não desfigurar a verdade histórica que me cabe a incontestável prioridade, na ordem cronológica, quero por isso que as minhas primeira palavras – nesta singela oração, de cordiais agradecimentos – sejam para bem informar aos que me confortam honram com a sua presença e simpatia – e ao público, que por ventura venha conhecê-la – sobre a parte que tomei, em realidade na auspiciosa Fundação de Londrina.

         Passo agora a implorar a benevolência do seleto auditório – que tanto me desvanece, pala sua cultura e flórida formação – se abusar a sua paciência, ao versar assuntos relativos à fundação da famosa cidade, cuja a verdadeira história ainda não foi escrita. E a bem da verdade e da sua clareza, é necessário inicia-la – embora hoje se trate apenas de um despretencioso esboço – desde o seu prelúdio. Devo fazê-lo – vencendo o meu constrangimento e esperando o perdão dos que me ouvem – pela imperiosa circunstância de estar, o meu humilde nome, sempre envolvido na narrativa. Procurarei ser breve.

         As terras do setor norte-noroeste do Paraná, desde a primeira década deste século, já eram do meu conhecimento – pelas precisas informações de vários “bandeirantes paulista”, dos tempos modernos – entre os quais ponho em destaque o meu conterrâneo Antônio Barbosa Ferraz Júnior. Com o avanço da E. F. Sorocabana de Ourinhos no veio do Paranapanema, e subindo depois para o espigão do rio do Peixe, Barbosa Ferraz e família abandonaram ótima fazenda cafeeira em Ribeirão Preto, e vieram adquirir terras roxas virgens, à margem esquerda daquele rio, no município de Cambará-Pr, onde formaram cafezais maravilhosos – mais de um milhão de pés – havendo eu, como amigo e advogado, tomado parte em exame de título de propriedade, e na organização da sociedade anônima, entre ele e os filhos. Iniciei-me, então no conhecimento das incertezas que iniciavam a origem da posse e domínio das grandes áreas de terras devolutas pertencentes ao Estado do Paraná. Decorridos poucos anos, orientei o Tonico Barbosa (nome que lhe davam os íntimos) quando pediu e obteve, dos governos de São Paulo e Paraná, a concessão para construir e explorar uma Estrada de Ferro interestadual, tributariada Sorocabana, para ligar desde logo Ourinhos-SP a Cambará-Pr (29 kilômetros). Tomei parte na organização da sociedade anônima, por ele fundada, a fim de abrir caminho para a exportação dos seus produtos e os da vizinhança, para São Paulo e Santos. Por sugestão da minha, a via-férrea teve o nome da Cia. Ferroviária São Paulo – Paraná; denominação semelhante à que dei à Cia. Ferroviária São Paulo –Goiás, quando a restaurei, em 1916, e fui seu presidente e diretor – com um intervalo de quatro anos (1934- 1938) até 1950, data em que foi adquirida pela Cia. Paulista de Estradas de Ferro, e a esta incorporada – passando eu à diretoria da Cia. Paulista, de onde só saí pelo ato ilícito e desonroso do ex-governador Carvalho Pinto, ao desapropriar, em massa, todas as ações daquela modelar empresa de transporte (1961).

         Até aqui, vinha aos primeiros da minha entrada na região norte-paranaense. Relevem-me o rápido desvio da exposição, e prossigamos. Não foi uma aventura o planejamento para por em valor a imensa riqueza. As terras devolutas do GUAIRÁ (nome indígena da região, acentuado na última sílaba, segundo a índole dos Guaranis) eram já conhecidas, desde os remotos tempos, pelos antigos bandeirantes paulistas – que afastaram, para o ocidente, o meridiano divisório indicado pelo tratado luso-castelhano de Tordesilhas – desalojando Missões Jesuíticas e outros ocupantes, vindos das vizinhas Colônias Espanholas. Como reminiscência, encontra-se integrada ao sócio da pátria a Guairá agora – ponto inicial da navegação para o alto Paraná. Era uma região vastíssima, e foi incorporada à Província de São Paulo, na organização territorial e política do Império do Brasil.

         A verdadeira história dos nossos grandiosos empreendimentos que transformaram a região – está dividida em duas partes : a primeira abrange desde período inicial – quando quase nada existia até o seu afastamento da Cia. de Terras Norte do Paraná, em 1944. E a segunda, daí em diante e até agora, assinalado pela presença do novo grupo na Sociedade Anônima – exclusivamente de brasileiros – e com a repatriação dos capitais ingleses, que constituíam a totalidade das ações, na primitiva organização. Eu só me identifiquei com a existência da Cia. de Terras, na primeira época. Na segunda, ela se transformou em Cia. Melhoramentos Norte do Paraná, embora permaneçam ainda, as atividades relativas aos negócios de terras; mas crescendo notavelmente e predominando, as atividades no campo da agricultura e principalmente, das indústrias. Não sei se estou sendo exato, e aceito retificações. Apenas historiarei a primeira época. E vou fazê-lo, com simplicidade, mas objetivamente.

         No ano de 1922, quando se comemorava o primeiro centenário da independência do Brasil, veio da Inglaterra a Missão Montagu – composta de notabilidade daquele Reino Unido, em assuntos diplomáticos, econômicos e industriais, em visita de cortesia ao nosso país. O chefe da Missão era o fidalgo escocês Lord Lovat (Simon Frazer), que visitou São Paulo e o norte do Paraná e interessou-se pelo nosso meio agrícola, para o emprego de capitais ingleses, então abundantes em Londrina. Relacionado com o Banco Comercial do Estado de São Paulo, onde era gerente geral o seu conterrâneo Thomas Muir, revelou a sua intenção de organizar, na Inglaterra, um grupo de seus amigos para o emprego de dinheiro no desenvolvimento agrícola desta região. Para isso, necessitava de uma pessoa versada em assuntos jurídicos e econômicos, para entendimentos prévios, e ser no futuro o orientador de quem deveria vir ao Brasil, como representante do sindicato inglês, a organizar-se, e aqui fixar residência. O seu velho amigo – Dr. Jonas Maria, Whitaker, companheiro desde os tempo da Academia de Direito de São Paulo – indicou-lhe o meu nome e fez a minha apresentação, em jantar íntimo, no Hotel Esplanada. Começou assim a ligação pessoal, entre Lovat e eu, transformada em amizade duradoura.

         Em 1923 foi organizado, em Londres, o Brasil Plantations Sindicate, Ltd. Sob direção de Lovat. Veio depois a São Paulo Arthur Thomas, como seu representante, encaminhado ao Banco Comercial e a mim. Promovi a autorização para que se instalasse e funcionasse, no País, a Agência do Sindicato estrangeiro e aliei-me a Arthur Thomas, orientando-o para a compra de terras, destinadas à cultura de algodão, seguindo as instruções por ele trazidas de Londres. Foram adquiridas primeiro na zona da E. F. Noroeste, em São Paulo, e depois na do Norte do Paraná. Lovat voltou em 1924, a visitar-nos e aqui tudo funcionava bem. Manifestou o desejo de dar maior desenvolvimento aos negócios do Sindicato e autorizou-nos a estudar o assunto. Aconteceu, então, em começo de 1925, que fomos procurados pela Cia. Marcondes de Colonização, Indústria e Comércio, cujo presidente era o antigo diretor do Banco do Brasil – Custódio Coelho. Queriam, por empréstimo, dois mil contos de réis para pôr em valor as ricas terras que essa S.A. possuía na bacia do rio Pirapó e as terras anexas de propriedade do seu presidente, nas vertentes do rio Ivaí. Examinei cuidadosamente todas as escrituras e verifiquei que eram terras “griladas”, do domínio do Estado do Paraná. Thomas e eu resolvemos conceder o empréstimo, pela confiança que nos inspirava os interessados. Mas pedimos e obtvemos a opção para a compra, observando-lhes que o dinheiro solicitado seria insuficiente para a grandeza do empreendimento. Eles pretendiam começar pelo acesso às terras, por um ramal da N. F. Sorocabana, saindo de Regente Feijó e chegando à margem do rio Paranapanema, fronteiriça a embocadura do Pirapó. Firmou-se no espírito a idéia de colonizar e desenvolver esta maravihosa região – valendo-se da experiência, realizada por mim, na bacia desconhecida do rio Tibiriçá, zona Noroeste do Estado de São Paulo, onde promovi a divisão de 84.000 alqueires, fundei a Cia. Cafeeira do Rio Feio e cooperei na fundação de algumas cidades, como Cafelandia e Garça, abrindo oportunidade a que outras surgissem.

         Thomas e eu, pela primeira vez, fomos a Curitiba-Pr – via Santos-SP – Paranaguá-Pr – logo após o caso Marcondes, com o propósito de dar informações ao presidente do Estado, Dr. Caetano Munhoz da Rocha e colher as suas impressões. Propusemo-nos a comprar as terras devolutas “griladas” – que eram do domínio do Estado – mediante autorização especial, que ele obtivesse da Câmara Legislativa Estadual, aos preços da Lei; assegurando-lhes que ficariam a cargo da Brasil Plantations, sociedade Comercial de Londres, da qual éramos representantes, todas as despesas para liquidar a situação das posses ilegítimas. O Presidente prometeu o seu apoio, que foi oportunamente cumprido. A seguir elaborei um relatório que Thomas traduziu, e foi enviado a Londres. Sem grande demora, chegou-nos a resposta de Lovat: “Relatório causou ótima impressão ao nosso grupo. Pedimos a presença do Dr. Sampaio para resoluções definitivas”. Reproduzo-a de memória, devendo o telegrama (ou carta aérea) existir nos arquivos da Brasil Plantations.

         No dia 15 de junho de 1925, parti de Santos – a bordo do rápido transatlântico holandês Zelândia – para a Europa. Não aceitei auxílio de viagem (oferecido por Thomas), porque levaria a esposa e filha, para uma visita a Lourdes, nos Pirineus. Desembarquei em Boulogne-Sur-mer no dia 3 de julho e foi hospedar-me em Paris, lá deixando a família. E no dia 27 cheguei a Londres, onde era esperado por Lovat, que me hospedou no Cecil Hotel. Durante uma semana trabalhamos em mesa redonda, na séde da Sudan Plantations, Co. da qual era Lovat presidente – estando presentes, além dele, o general Arthur Asquith, herói da I Guerra Mundial (filho de um dos grandes estadistas da época Vitoriana), o Barão Eckstein, que era o tesoureiro, Edoward Green e outros diretores da Brasil Plantations; e ali presente, também, Thomas Muir ( do Banco Comercial), por coincidência, que me serviu de intérprete.

         Por sugestão minha ficou assentado que, ao em vez de aumentar do capital do Brasil Plantations – que seriam oportunamente liquidado – fosse fundada a Paraná Plantations, Company, a fim de levantar fundos de maior vulto, para grandes empreendimentos que se projetassem: de início a compra de terras e as estradas de ferro e de rodagem, necessárias à penetração e a colonização, como elementos de desenvolvimento das plantações e da população. E completando o plano – propuz e foi resolvido, que seria fundada em São Paulo, a Cia. de Terras Norte do Paraná, pessoa jurídica brasileira, sob a direção de brasileiros, em maioria, para ser a adquirente e vendedora das terras, em respeito aos melindres dos nativistas. Sociedade anonima que seria controlada, acionariamente, pela Parana Plantations, de Londres, de onde viria todo o dinheiro necessário em conta corrente. Encerrados os trabalhos, Lovat e eu telegrafamos a Arthur Thomas: ele autorizando o andamento da compra de terras, do Estado, e eu, noticiamos a criação da Cia. de Terras e pedindo que procurasse, para assessor jurídico, em minha ausência, o seu velho amigo e companheiro de escritório Antonio Moraes de Barros. A este telegrafei, avisando da visita de Thomas e que esperasse carta minha. De Londres regressei nomeado presidente da futura Cia. de Terras e para completar o precedente tópico, esclareço que antes da minha viagem foi cópia do “memorial”, a princípio mencionado, ao companheiro de escritório – advogado, como eu, especializado em questões e divisões de terras – e o preveni de que, se a minha ausência fosse demorada, ele seria procurado por Thomas, para agir no caso, como se eu presente fosse. E verificada, que foi, a hipótese, deu ele, com a sua lealdade, competência e dedicação, desempenho cabal e brilhante ao encargo.

         Foi demorado o meu regresso da Europa, por grave e prolongada enfermidade de minha esposa. Só regressei depois de seis meses. Lá mesmo era informado, de tudo quanto ia sendo aqui realizado, por cartas de Thomas e do próprio Moraes de Barros. Encontrei tudo na melhor ordem: A Cia. de Terras já organizada e funcionando; as terras já compradas, em grande parte, restando apenas um ajustamento com a Cia. Marcondes, que eu tive que liquidar ao Juízo, sendo vencedor, Antonio Moraes de Barros estava designado para presidente interino da Diretoria, da qual o presidente eleito era Lovat. Ele e eu (ausente) eleitos como diretores auxiliares, e Thomas para a gerência. Mas Lovat não aceitara o cargo, disse havendo dado ciência a Thomas. E assim, havendo eu ocupado o cargo de presidente interino, desde a Assembléia de julho de 1925, pela saída espontânea de Moraes de Barros, que permanecera como diretor auxiliar, fui eleito presidente efetivo e reeleito, continuamente, até 1944 – nele permanecendo até o mês de março, e ao dia em que assinei a transferência da totalidade das ações ao Banco Mercantil de São Paulo, a tanto autorizado pelo Banco do Brasil, que nos informava achar-se o preço já em Londres, à disposição da Paraná Plantations Co. – do que, aliás já tinhamos notícia de Londres. Renunciei, na mesma hora, ao honroso cargo, no qual orientei e servi a Cia. de Terras, durante vinte anos, com tenacidade, solicitude e entusiasmo. Declarei, entretanto, aos representantes do Banco Mercantil, que permaneceria no meu posto, ao lado deles, até ao momento em que se houvessem inteirado da boa ordem em que se achavam todas as atribuições da minha competência e todos os encargos da Sociedade Anônima.

         E do quanto foi acima exposto – apenas um esboço – já se infere que a “Fundação de Londrina” é, em realidade, da Cia. de Terras no decorrer da sua primeira fase. Mas, essa entidade jurídica não teria existência com a atuação substancial e a visão de Lord Lovat que é, assim, a figura mais eminente e primordial do celebrado acontecimento, cujo Jubileu de Prata foi festivamente comemorando há sete anos, e o 32º aniversário recentemente, sempre com larga publicidade, pela boa imprensa. Todo o planejamento original do grandioso empreendimento – que transformou o Paraná em 2º Estado do Brasil (sendo São Paulo o 1º­), na expressão corrente do seu Governador – germinou no meu espírito... Mas, sem Lord Lovat, nada existiria. E quando a segunda fase da história teve início (1944), Londrina era, de há muito, cidade acolhedora e em grande prosperidade. Se não, voltemos um pouco atrás. Quando a Estrada de Ferro São Paulo – Paraná estava inaugurada em Jataí (kl. 185), recebemos a visita do general Asquith. A exploração e o traçado haviam se adiantado, na margem esquerda do rio Tibagi, cerca de 30 a 40 kilometros. Thomas e eu o acompanhamos, em viagem de inspeção, que fizemos, para ver a paragem já escolhida, para a primeira cidade, dentro da maior das glebas adquiridas pela Cia. de Terras, ainda em plena floresta. De regresso a Ourinhos-SP, traçamos idéias sobre a denominação a dar-lhe. Fui o último a falar. Propus que essa cidade recebesse o nome de LONDRINA – como as filhas de Londres – em reconhecimento a homenagem ao valoroso grupo de ingleses, que através da Paraná Plantations Co., financiavam, corajosamente, as realizações da Cia. de Terras. Dentro do pátio da futura Estação Ferroviária, aparecem na estaca, do kl 210, o primeiro marco da cidade nascente, destinada a glorioso e brilhante futuro.

         A Cia. Marcondes era concessionária da via-férrea vicinal, ligando Regente Feijó, da Sorocabana, à margem direita do Paranapanema, em frente a embocadura do seu afluente Pirapó. E quando o grupo Lovat nos autorizou a construir a Estrada de Ferro – que figurava em nosso planejamento inicial – era da sua opinião que nos utilizasse-mos daquela concessão, eis que havia sido anexada entre as “benfeitorias”, no ajuste de compra de terras. Como ferroviário experiente, desde 1916, reorganizador e presidente da Cia. Ferroviária São Paulo-Goyaz, examinei o caso e discordei da solução. Orientei-me pelo Plano Geral da Viação-Férrea Nacional, e propus a ligação Ourinhos-Guaira: parte integrante da linha-tronco Santos - São Paulo - Sete Quedas (fronteira do Paraguai). Demonstrei as vantagens evidentes da realização de um grande prolongamento da Sorocabana, embora mais dispendioso, de preferência à secundária linha transversal, só para as nossas terras. E a minha, prevaleceu. E a minha tese vingou. Mas já existia o ramal Ourinhos-Cambará... Eu conhecia a sua má situação financeira, decorrente da escassa distância percorrida (29km.) Alvitrei a remoção da dificuldade, pela facilidade da compra da Cia. Ferroviária São Paulo-Paraná. Procurei o velho amigo Barbosa Ferraz, proprietário, com os seus familiares, da totalidade das ações. Mostrou-lhe pelos olhos a vantagem da minha proposta: A Cia. de Terras renovaria o ramal e prolongaria, para arear a nova zona do Estado. Indaguei do preço. Foi fulminante a resposta: oferecia à Cia. de Terras, de graça, todas as ações e a entrega imediata da Estrada. E assim, a nosso cargo ficariam o ativo e o passivo daquela Sociedade Anônima. Aceitei, em princípio, na dependência, de uma tomada de contas, que nossa Diretoria considerasse razoáveis. Enviou-nos, sem demora, o balanço, rigorosamente fechado. Verificamos que - se houvesse uma liquidação voluntária da Empresa – o passivo seria integralmente coberto, deixando ao liquidante as concessões. Era o bastante: ele não visava enriquecimento, nem nós desejavamos causar-lhe prejuízo. Ficávamos com as concessões dos dois Estados e com o caminho aberto para prolongar a nossa Estrada. O doador ganhava o nosso melhor serviço e nós os transportes, desde logo. O nosso plano da Estrada de Ferro era, sem dúvida, o necessário complemento da “Reforma Agrária”, a levar-se a efeito no quadrante N. No, do Paraná. Projetamos e construímos 269 kilômetros, até Apucarana-Pr, onde deixamos o tráfego inaugurado; e já estavam aprovados os estudos definitivos até Maringá-Pr., onde Thomas e eu – na última inspeção realizada, assinalamos a estaca do kl 333, n área demarcada para a Estação; ficando resolvida a reserva de grande extensão de terrenos, para a futura cidade. Seria a última da nossa comum iniciativa... E eu, “bancando” o urbanista, fiz a planta da cidade, deixando-a no Escritório de Londrina. Nunca soube se foi extraviada – havendo decorrido muitos anos sem andamento da construção, paralisada em Apucarana-Pr, desde o meu afastamento.

         Serviu de base à minha planta, o traçado da Praça da Estrela, de Paris, reduzido modestamente às proporções das novas cidades sertanejas da nossa iniciativa.

         A Diretoria da Cia. de Terras – quando os seus novos proprietários, assumiram a posse da grandiosa Empresa de transportes – apressou-se a vende-la ao Governo Federal, para ser incorporada à Rede de Viação Paraná-Santa Catarina. Era um grandioso empreendimento, organicamente ligado ao progresso da colonização e a outros fins essenciais da Cia. de Terras. E, como de iniciativa privada, rendoso – desde que teve boa organização. A que Thomas e eu lhe demos o comprovante...em 1941, batemos o record mundial de renda kilométrica: Com 251 km. em tráfego, o saldo apurado foi de 10.410.164 cruzeiros. E no quinquênio de 1938042, como nos anos anteriores, desde a inauguração de Londrina em (1935) a cuja solenidade estive presente, - nunca se encerrou um balanço sem saldo. No km. 300, dos nossos estudos – sempre realizados com serviços coincidentes de estradas de rodagem, para veículos automóveis, - ao atingirmos o espigão das vertentes Paranapanema - Ivaí, fundamos a cidade de Lovat, que prosperava rapidamente, como base do sertão, com vista deslumbrante para as campanhas do Sul. Mas, a nosso homenagem foi cancelada (sem que se saiba porque) senão pela ingratidão e estúpidos dos aulicos da Ditadura dos Vargas – oficializando-se o nome sem significação de Mandaguari-Pr. Quando, em 1935, deu-se a festiva inauguração do tráfego ferroviário em Londrina – com a presença do Interventor Manoel Ribas – pronunciei, na plataforma da Estação, um discurso que terminava fazendo exortação ao Governo para que assegurasse a perenidade desse nome. A população aglomerada aplaudiu-me, com entusiasmo. Manoel Ribas solidarizou-se à sua elevada e expressiva significação, e prometeu consolidá-la. É também de justiça que o nome de Lovat, à cidade que com o seu nome nasceu, seja algum dia restaurado. E ao falar de Manoel Ribas, quero valer-me da oportunidade, para dar testemunho da sua grande operosidade, o apoio e desvelo com que acompanhava as realizações da Cia. de Terras. Fizemo-lhes a sugestão de abrir uma saída, para os produtos da Região, pelo rio Paraná. Sem demora, pediu-nos que fosse estudado o itinerário e orçado o serviço. Ocupou-se do assunto e, com as formalidades legais, concedeu a empreitada à nossa Cia. de auto-estrada de Maringá – parte já servida pela nossa rodovia para o traçado ferroviário – até o Porto S. José, pouco abaixo da foz do Paranapanema. Em prazo convencionado, a nosso convite, Ribas percorreu, em dois dias, toda a nova estrada, aceitando as obras, sem qualquer restrição.

         Em relação a Estrada de Ferro – irmanada à Cia. de Terras – como elemento primário da prosperidade da região, que se desbravava – desejamos ainda acrescentar alguma coisa. Quando os trilhos haviam chegado a Cornélio Procópio (kl.126), sugerimos a Lovat que convidasse ao príncipe de Gales – que foi depois o Rei Eduardo VIII – a fazer uma visita ao Brasil. O príncipe era grande acionista da Paraná Plantations Co. e gostava de viajar. Veio ver como estava sendo utilizada uma parte de sua riqueza pessoal. Lovat e o Príncipe Jorge (irmão do herdeiro do trono) o acompanharam. Em São Paulo governava João Alberto, que o hospedou oficialmente. Providenciou um trem noturno especial, de luxo, para o dia da partida e a Cia. de terras (Thomas e eu), com o Diretor da Sorocabana (Gaspar Ricardo), fomos os hospedeiros da comitiva – ida e volta até Cornélio Procópio – a primeira cidade fundada em sertão explorado pela Cia. de Terras, antes de chegar aos seus domínios. Jantou-se no trem; almoçou-se em Leoflora – a primeira estação já na nossa Estrada – em visita à primorosa fazenda cafeeira dos Barbosa Ferraz, de onde os príncipes saíram encantados; e prosseguimos a inspeção da linha férrea em tráfego. Em Cornélio dormimos, todos, no comboio da Sorocabana, e pela manhã, com os príncipes, percorremos um trecho da linha em construção, para admirar a floresta majestosa. Regresso em dia e noite até São Paulo.

         Cornélio Procópio-Pr era nome desconhecido no Paraná. Despertou a curiosidade do Príncipe de Gales. Informamos, então, que era comissário de café, em Santos, proprietário de vasta gleba de terras, atravessada pela Estrada de Ferro, em extensão de 20 kilometros; que entregara de graça, à Cia. de Terras, o leito da estrada e a área para o páteo de duas estações. E sob inspiração nossa, prometera planejar e a lotear a cidade.

         A construção da Estrada de Ferro foi iniciada pela reconstrução completa, desde Ourinhos-SP até Cambará, e prosseguiu até Jataí, com “grade”, curvas e pontes para a bitola de um metro e sessenta, podendo ser integrada a Sorocabana, se fosse alargada, no plano nacional de T. P. –8 (Santos- Guairá). Inauguramos a ponte sobre o rio Tibagi (260 metros) e prosseguimos até Londrina em quatro anos; e depois até Arapongas e Apucarana (novas cidades) - onde o governo Ditatorial começou a deter-nos. Queria obrigar-nos a refletir para o Sul. Recusamo-nos, mas tudo ficou paralisado, embora o nosso traçado, até Maringá-Pr., estivesse aprovado pelo Departamento. Nacional das Estradas de Ferro. Nossos estudos, prospectivos e preliminares, alcançavam a travessia do rio Piquiri e a marginalização do baixo Paraná, até a Foz do Iguaçu, com a ponte adjacente das Sete Quedas, visando as terras incultas do Paraguai... e Assunção. Só fomos atendidos pelo governo ditatorial, de Vargas, para efetuar-se a ligação da nossa Estrada, de Marques dos Reis a Jacarezinho, onde estava paralisada a Rede Paraná-Santa Catarina. Queríamos uma saída para Paranaguá – prevista desde o nosso primeiro encontro com o presidente Munhoz da Rocha – a quem, em devido tempo, o Brasil Plantations fez um empréstimo, para o início de melhoramentos do Porto.

         Já falamos muito. Caminhamos para conclusão. E não desejamos entrar na “Segunda parte” do esboço histórico da Cia. de Terras que é matéria contemporânea da cativante assistência, que nos ouve (1944/67). Apenas queremos, ainda, consignar que – para ser eu o primeiro “presidente efetivo”, a designação veio de Londres; Lord Lovat ao recusar o cargo com que fora honrado, pelos orientadores da nossa Sociedade Anônima, sediada em São Paulo, indicou o meu a Thomas, - falando pela Paraná Plantations – que possuía todas as ações, menos umas poucas, distribuídas, com o propósito de assegurar vida legal e de organização. Na época, já me havia incorporado – com 750 ações integralisadas, de uma Libra-esterlina cada uma – ao seu grupo de nobres ingleses,como único acionista “estrangeiro”, do Brasil Plantations Syndicate. E, mais tarde, quando nos comunicou a dissolução voluntária deste, autorizou a Cia. de Terras a fazer a liquidação, no Brasil, ofereceu-me e realizou a transferência das minhas ações para a “Paraná Plantations, Co.”- com a minha aquiescência e desvanecimento – abrindo-me a oportunidade de embrear-me ao grupo formado pelas nobres estirpes da Grã-Bretanha.

         Sem jamais perder de vista os altos interesses do País, e especialmente do Estado do Paraná – procurei sempre honrar e corresponder à confiança do saudoso amigo. E se Lovat e Asquith não tivessem morrido... tenho como certo – que a proposta de compra total do pratrimônio da Cia. de Terras – para a sua “nacionalização”, não teria sido aceita. Seria recusada e falhariam os propósitos da Ditadura, como repelida e fracassada foi a primeira tentativa, realizada por meio de uma “desapropriação”, pouco antes decretada – com a clausula “sem pagamento prévio”.

         Ao grupo formado pelo Banco Mercantil de São Paulo – que adquiriu a integralidade das ações da Cia. de Terras, e as da Estrada de Ferro, incorporadas ao seu patrimônio – devemos reconhecer a prudência, capacidade de trabalho e perseverança, com que desde a sua entrada (em março de 1944) até à atualidade – prosseguiu e deu desenvolvimento ao que, em linhas gerais, vinha sendo realizado pelos seus antecessores. Menos, na parte ferroviária, que passou ao Governo Federal e baixou de nível. Mas muito mais, na parte da industrialização – a que não chegamos – porque estava reservada para a segunda etapa. Na primeira, só nos limitávamos a estimular a iniciativa privada. E nos ocupamos com os serviços necessários ao público: águas, luz e força elétricas. Para esta indústria, demos a primitiva concessão ao engenheiro Gastão de Mesquita Filho – recomendado, na oportunidade, por Antonio Moraes Barros – meu antigo e querido amigo e companheiro de trabalhos – havendo o concessionamento trazido o seu plano de organização da Empresa Elétrica de Londrina, S.A, para o empreendimento. A concessão foi se estendendo às novas cidades – sempre em progresso e bem orientada – e creio que é a mesma, agora incorporada, entre outras, à Cia. Melhoramentos.

         Na reorganização da Diretoria – levada a efeito com a minha retirada Thomas foi mantido na Superintendência e nela se conservou até ser aposentado, por enfermo. O nosso e atual chefe de Escritório de Londrina, Aristides de Souza Mello – que sucedeu a Willie Davids, este aposentado por mim e Thomas, para auxiliá-lo, desde que iniciamos as atividades do Brasil Plantations – foi nomeado por indicação minha, a Thomas, quando se concedeu aposentadoria a Davis, por enfermidade. E o nosso chefe de Escritório Central, em São Paulo, desde a instalação do Brasil Plantations, era Gordon Fox Rule, e permanece no cargo até hoje. Aristides eu o descobri em Campos do Jordão – engenheiro e operoso urbanista da Estância Climatérica, e aqui se mantém, no seu cargo, há cerca de um quarto de século. Mas ele não foi quem deu o nome de Senador João Sampaio a uma das grandes ruas daquela cidade. Já o encontrava nas placas, como reconhecimento à mina cooperação, no Congresso Legislativo do Estado, para a ultimação da Estrada de Ferro, iniciada em Pindamonhangaba-SP, até à cidade mais pitoresca e mais alta do Brasil (1.600 metros).

         Na hora solene que passa, elevo o espírito aos pés do Criador onipotente, para rogar pela bem aventurança dos mortos que, comigo, deram fama a obra mais grandiosa da minha vida, na qual a parte que se coube transparece, na singela narrativa que, despretenciosamente elaborei. E quero congratular-me, e fazendo votos de felicidade, aos que ainda sobrevivem.

         Agora recebo o título, que tanto me desvanece, de Cidadão-Honorário de Londrina – consagrado o reconhecimento, dos Poderes Constitucionais do Município – pelos meus serviços prestados à Região ; da qual na constelação de cidade que a compõem Londrina é a estrela mais brilhante. Quero considerar-me filho adotivo da Cidade. Filho rebelde que não a visitava, há 23 anos. Não passava agora, aqui, de um desconhecido... da população crescente e dispersa, como por desconhecido passaria, em qualquer outra parte da Região. E foi só por isso - que fiz o esboço histórico – enquanto existem ainda alguns vivos, que possam dar testemunho da verdade. Estava colocado em estado de necessidade.... tive de pecar contra a virtude da modéstia. Perdoem-me os nobres vereadores e os amigos, que se conhecem. Perdoe-me o brilhante e resignado auditório. Eu a todos agradeço, com o coração nos lábios. E quem vier, depois, que melhore e complete a história.

         Muito grato pela atenção.

         Londrina, 12/06/1967 João Sampaio


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