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Sem que existisse
o propósito de atrasar-me, estou, com efeito, entre os últimos a
comparecer, do elenco dos preclaros agraciados – pelos Poderes do
Município de Londrina – com o título de “Cidadão-Honorário” desta
maravilhosa cidade – de existência apenas trintenária – em homenagem
e reconhecimento pelos relevantes serviços, por eles prestados,
à antiga e abandonada região do Guairá, outrora integrante da Capitania
de São Vicente. Nobres cidadãos honorários, esses que por seu descortino,
operosidade e coragem na realização – têm sido proclamados pela
seleta imprensa dos Estados do Paraná, São Paulo e Guanabara, como
“os grandes vultos da colonização e da deslumbrante Reforma Agrária”,
do quadrante Norte-noroeste deste Estado; operadas sem qualquer
ônus para os cofres públicos estaduais – e ainda menos da Nação,
sendo certo, que esta, sob o regime ditatorial, só recebeu entraves
e perseguição. Se há vangloria nessas afirmações, não resulta, pois,
das cinco descoloridas palavras. Reconheço e confesso – na minha
humildade cristã – que me projetei de algum modo, entre eles, sem
maior destaque – apenas pela felicidade com que encontrei excelentes
colaboradores, que a meu lado agiam, em variadas atividades. Colaboradores
de experiência comprovada e especializada competência – os quais,
no discurso de vinte anos, levaram comigo a bom êxito o grandioso
empreendimento, de cujo sucesso resultou a recuperação para o patrimônio
do Estado do Paraná, da mais ricas de suas regiões territoriais,
até que então pouco conhecida e quase inacessível. Entre esses notáveis
colaboradores todavia, devo esclarecer para não desfigurar a verdade
histórica que me cabe a incontestável prioridade, na ordem cronológica,
quero por isso que as minhas primeira palavras – nesta singela oração,
de cordiais agradecimentos – sejam para bem informar aos que me
confortam honram com a sua presença e simpatia – e ao público, que
por ventura venha conhecê-la – sobre a parte que tomei, em realidade
na auspiciosa Fundação de Londrina.
Passo agora a implorar a benevolência
do seleto auditório – que tanto me desvanece, pala sua cultura e
flórida formação – se abusar a sua paciência, ao versar assuntos
relativos à fundação da famosa cidade, cuja a verdadeira história
ainda não foi escrita. E a bem da verdade e da sua clareza, é necessário
inicia-la – embora hoje se trate apenas de um despretencioso esboço
– desde o seu prelúdio. Devo fazê-lo – vencendo o meu constrangimento
e esperando o perdão dos que me ouvem – pela imperiosa circunstância
de estar, o meu humilde nome, sempre envolvido na narrativa. Procurarei
ser breve.
As terras do setor
norte-noroeste do Paraná, desde a primeira década deste século,
já eram do meu conhecimento – pelas precisas informações de vários
“bandeirantes paulista”, dos tempos modernos – entre os quais ponho
em destaque o meu conterrâneo Antônio Barbosa Ferraz Júnior. Com
o avanço da E. F. Sorocabana de Ourinhos no veio do Paranapanema,
e subindo depois para o espigão do rio do Peixe, Barbosa Ferraz
e família abandonaram ótima fazenda cafeeira em Ribeirão Preto,
e vieram adquirir terras roxas virgens, à margem esquerda daquele
rio, no município de Cambará-Pr, onde formaram cafezais maravilhosos
– mais de um milhão de pés – havendo eu, como amigo e advogado,
tomado parte em exame de título de propriedade, e na organização
da sociedade anônima, entre ele e os filhos. Iniciei-me, então no
conhecimento das incertezas que iniciavam a origem da posse e domínio
das grandes áreas de terras devolutas pertencentes ao Estado do
Paraná. Decorridos poucos anos, orientei o Tonico Barbosa (nome
que lhe davam os íntimos) quando pediu e obteve, dos governos de
São Paulo e Paraná, a concessão para construir e explorar uma Estrada
de Ferro interestadual, tributariada Sorocabana, para ligar desde
logo Ourinhos-SP a Cambará-Pr (29 kilômetros). Tomei parte na organização
da sociedade anônima, por ele fundada, a fim de abrir caminho para
a exportação dos seus produtos e os da vizinhança, para São Paulo
e Santos. Por sugestão da minha, a via-férrea teve o nome da Cia.
Ferroviária São Paulo – Paraná; denominação semelhante à que dei
à Cia. Ferroviária São Paulo –Goiás, quando a restaurei, em 1916,
e fui seu presidente e diretor – com um intervalo de quatro anos
(1934- 1938) até 1950, data em que foi adquirida pela Cia. Paulista
de Estradas de Ferro, e a esta incorporada – passando eu à diretoria
da Cia. Paulista, de onde só saí pelo ato ilícito e desonroso do
ex-governador Carvalho Pinto, ao desapropriar, em massa, todas as
ações daquela modelar empresa de transporte (1961).
Até aqui, vinha
aos primeiros da minha entrada na região norte-paranaense. Relevem-me
o rápido desvio da exposição, e prossigamos. Não foi uma aventura
o planejamento para por em valor a imensa riqueza. As terras devolutas
do GUAIRÁ (nome indígena da região, acentuado na última sílaba,
segundo a índole dos Guaranis) eram já conhecidas, desde os remotos
tempos, pelos antigos bandeirantes paulistas – que afastaram, para
o ocidente, o meridiano divisório indicado pelo tratado luso-castelhano
de Tordesilhas – desalojando Missões Jesuíticas e outros ocupantes,
vindos das vizinhas Colônias Espanholas. Como reminiscência, encontra-se
integrada ao sócio da pátria a Guairá agora – ponto inicial da navegação
para o alto Paraná. Era uma região vastíssima, e foi incorporada
à Província de São Paulo, na organização territorial e política
do Império do Brasil.
A verdadeira história
dos nossos grandiosos empreendimentos que transformaram a região
– está dividida em duas partes : a primeira abrange desde período
inicial – quando quase nada existia até o seu afastamento da Cia.
de Terras Norte do Paraná, em 1944. E a segunda, daí em diante e
até agora, assinalado pela presença do novo grupo na Sociedade Anônima
– exclusivamente de brasileiros – e com a repatriação dos capitais
ingleses, que constituíam a totalidade das ações, na primitiva organização.
Eu só me identifiquei com a existência da Cia. de Terras, na primeira
época. Na segunda, ela se transformou em Cia. Melhoramentos Norte
do Paraná, embora permaneçam ainda, as atividades relativas aos
negócios de terras; mas crescendo notavelmente e predominando, as
atividades no campo da agricultura e principalmente, das indústrias.
Não sei se estou sendo exato, e aceito retificações. Apenas historiarei
a primeira época. E vou fazê-lo, com simplicidade, mas objetivamente.
No ano de 1922,
quando se comemorava o primeiro centenário da independência do Brasil,
veio da Inglaterra a Missão Montagu – composta de notabilidade daquele
Reino Unido, em assuntos diplomáticos, econômicos e industriais,
em visita de cortesia ao nosso país. O chefe da Missão era o fidalgo
escocês Lord Lovat (Simon Frazer), que visitou São Paulo e o norte
do Paraná e interessou-se pelo nosso meio agrícola, para o emprego
de capitais ingleses, então abundantes em Londrina. Relacionado
com o Banco Comercial do Estado de São Paulo, onde era gerente geral
o seu conterrâneo Thomas Muir, revelou a sua intenção de organizar,
na Inglaterra, um grupo de seus amigos para o emprego de dinheiro
no desenvolvimento agrícola desta região. Para isso, necessitava
de uma pessoa versada em assuntos jurídicos e econômicos, para entendimentos
prévios, e ser no futuro o orientador de quem deveria vir ao Brasil,
como representante do sindicato inglês, a organizar-se, e aqui fixar
residência. O seu velho amigo – Dr. Jonas Maria, Whitaker, companheiro
desde os tempo da Academia de Direito de São Paulo – indicou-lhe
o meu nome e fez a minha apresentação, em jantar íntimo, no Hotel
Esplanada. Começou assim a ligação pessoal, entre Lovat e eu, transformada
em amizade duradoura.
Em 1923 foi organizado, em Londres, o Brasil
Plantations Sindicate, Ltd. Sob direção de Lovat. Veio depois a
São Paulo Arthur Thomas, como seu representante, encaminhado ao
Banco Comercial e a mim. Promovi a autorização para que se instalasse
e funcionasse, no País, a Agência do Sindicato estrangeiro e aliei-me
a Arthur Thomas, orientando-o para a compra de terras, destinadas
à cultura de algodão, seguindo as instruções por ele trazidas de
Londres. Foram adquiridas primeiro na zona da E. F. Noroeste, em
São Paulo, e depois na do Norte do Paraná. Lovat voltou em 1924,
a visitar-nos e aqui tudo funcionava bem. Manifestou o desejo de
dar maior desenvolvimento aos negócios do Sindicato e autorizou-nos
a estudar o assunto. Aconteceu, então, em começo de 1925, que fomos
procurados pela Cia. Marcondes de Colonização, Indústria e Comércio,
cujo presidente era o antigo diretor do Banco do Brasil – Custódio
Coelho. Queriam, por empréstimo, dois mil contos de réis para pôr
em valor as ricas terras que essa S.A. possuía na bacia do rio Pirapó
e as terras anexas de propriedade do seu presidente, nas vertentes
do rio Ivaí. Examinei cuidadosamente todas as escrituras e verifiquei
que eram terras “griladas”, do domínio do Estado do Paraná. Thomas
e eu resolvemos conceder o empréstimo, pela confiança que nos inspirava
os interessados. Mas pedimos e obtvemos a opção para a compra, observando-lhes
que o dinheiro solicitado seria insuficiente para a grandeza do
empreendimento. Eles pretendiam começar pelo acesso às terras, por
um ramal da N. F. Sorocabana, saindo de Regente Feijó e chegando
à margem do rio Paranapanema, fronteiriça a embocadura do Pirapó.
Firmou-se no espírito a idéia de colonizar e desenvolver esta maravihosa
região – valendo-se da experiência, realizada por mim, na bacia
desconhecida do rio Tibiriçá, zona Noroeste do Estado de São Paulo,
onde promovi a divisão de 84.000 alqueires, fundei a Cia. Cafeeira
do Rio Feio e cooperei na fundação de algumas cidades, como Cafelandia
e Garça, abrindo oportunidade a que outras surgissem.
Thomas e eu,
pela primeira vez, fomos a Curitiba-Pr – via Santos-SP – Paranaguá-Pr
– logo após o caso Marcondes, com o propósito de dar informações
ao presidente do Estado, Dr. Caetano Munhoz da Rocha e colher as
suas impressões. Propusemo-nos a comprar as terras devolutas “griladas”
– que eram do domínio do Estado – mediante autorização especial,
que ele obtivesse da Câmara Legislativa Estadual, aos preços da
Lei; assegurando-lhes que ficariam a cargo da Brasil Plantations,
sociedade Comercial de Londres, da qual éramos representantes, todas
as despesas para liquidar a situação das posses ilegítimas. O Presidente
prometeu o seu apoio, que foi oportunamente cumprido. A seguir elaborei
um relatório que Thomas traduziu, e foi enviado a Londres. Sem grande
demora, chegou-nos a resposta de Lovat: “Relatório causou ótima
impressão ao nosso grupo. Pedimos a presença do Dr. Sampaio para
resoluções definitivas”. Reproduzo-a de memória, devendo o telegrama
(ou carta aérea) existir nos arquivos da Brasil Plantations.
No dia 15 de junho
de 1925, parti de Santos – a bordo do rápido transatlântico holandês
Zelândia – para a Europa. Não aceitei auxílio de viagem (oferecido
por Thomas), porque levaria a esposa e filha, para uma visita a
Lourdes, nos Pirineus. Desembarquei em Boulogne-Sur-mer no dia 3
de julho e foi hospedar-me em Paris, lá deixando a família. E no
dia 27 cheguei a Londres, onde era esperado por Lovat, que me hospedou
no Cecil Hotel. Durante uma semana trabalhamos em mesa redonda,
na séde da Sudan Plantations, Co. da qual era Lovat presidente –
estando presentes, além dele, o general Arthur Asquith, herói da
I Guerra Mundial (filho de um dos grandes estadistas da época Vitoriana),
o Barão Eckstein, que era o tesoureiro, Edoward Green e outros diretores
da Brasil Plantations; e ali presente, também, Thomas Muir ( do
Banco Comercial), por coincidência, que me serviu de intérprete.
Por sugestão minha ficou assentado que, ao em vez de aumentar do
capital do Brasil Plantations – que seriam oportunamente liquidado
– fosse fundada a Paraná Plantations, Company, a fim de levantar
fundos de maior vulto, para grandes empreendimentos que se projetassem:
de início a compra de terras e as estradas de ferro e de rodagem,
necessárias à penetração e a colonização, como elementos de desenvolvimento
das plantações e da população. E completando o plano – propuz e
foi resolvido, que seria fundada em São Paulo, a Cia. de Terras
Norte do Paraná, pessoa jurídica brasileira, sob a direção de brasileiros,
em maioria, para ser a adquirente e vendedora das terras, em respeito
aos melindres dos nativistas. Sociedade anonima que seria controlada,
acionariamente, pela Parana Plantations, de Londres, de onde viria
todo o dinheiro necessário em conta corrente. Encerrados os trabalhos,
Lovat e eu telegrafamos a Arthur Thomas: ele autorizando o andamento
da compra de terras, do Estado, e eu, noticiamos a criação da Cia.
de Terras e pedindo que procurasse, para assessor jurídico, em minha
ausência, o seu velho amigo e companheiro de escritório Antonio
Moraes de Barros. A este telegrafei, avisando da visita de Thomas
e que esperasse carta minha. De Londres regressei nomeado presidente
da futura Cia. de Terras e para completar o precedente tópico, esclareço
que antes da minha viagem foi cópia do “memorial”, a princípio mencionado,
ao companheiro de escritório – advogado, como eu, especializado
em questões e divisões de terras – e o preveni de que, se a minha
ausência fosse demorada, ele seria procurado por Thomas, para agir
no caso, como se eu presente fosse. E verificada, que foi, a hipótese,
deu ele, com a sua lealdade, competência e dedicação, desempenho
cabal e brilhante ao encargo.
Foi demorado o meu regresso da Europa,
por grave e prolongada enfermidade de minha esposa. Só regressei
depois de seis meses. Lá mesmo era informado, de tudo quanto ia
sendo aqui realizado, por cartas de Thomas e do próprio Moraes de
Barros. Encontrei tudo na melhor ordem: A Cia. de Terras já organizada
e funcionando; as terras já compradas, em grande parte, restando
apenas um ajustamento com a Cia. Marcondes, que eu tive que liquidar
ao Juízo, sendo vencedor, Antonio Moraes de Barros estava designado
para presidente interino da Diretoria, da qual o presidente eleito
era Lovat. Ele e eu (ausente) eleitos como diretores auxiliares,
e Thomas para a gerência. Mas Lovat não aceitara o cargo, disse
havendo dado ciência a Thomas. E assim, havendo eu ocupado o cargo
de presidente interino, desde a Assembléia de julho de 1925, pela
saída espontânea de Moraes de Barros, que permanecera como diretor
auxiliar, fui eleito presidente efetivo e reeleito, continuamente,
até 1944 – nele permanecendo até o mês de março, e ao dia em que
assinei a transferência da totalidade das ações ao Banco Mercantil
de São Paulo, a tanto autorizado pelo Banco do Brasil, que nos informava
achar-se o preço já em Londres, à disposição da Paraná Plantations
Co. – do que, aliás já tinhamos notícia de Londres. Renunciei, na
mesma hora, ao honroso cargo, no qual orientei e servi a Cia. de
Terras, durante vinte anos, com tenacidade, solicitude e entusiasmo.
Declarei, entretanto, aos representantes do Banco Mercantil, que
permaneceria no meu posto, ao lado deles, até ao momento em que
se houvessem inteirado da boa ordem em que se achavam todas as atribuições
da minha competência e todos os encargos da Sociedade Anônima.
E do quanto foi
acima exposto – apenas um esboço – já se infere que a “Fundação
de Londrina” é, em realidade, da Cia. de Terras no decorrer da sua
primeira fase. Mas, essa entidade jurídica não teria existência
com a atuação substancial e a visão de Lord Lovat que é, assim,
a figura mais eminente e primordial do celebrado acontecimento,
cujo Jubileu de Prata foi festivamente comemorando há sete anos,
e o 32º aniversário recentemente, sempre com larga publicidade,
pela boa imprensa. Todo o planejamento original do grandioso empreendimento
– que transformou o Paraná em 2º Estado do Brasil (sendo São Paulo
o 1º), na expressão corrente do seu Governador – germinou no meu
espírito... Mas, sem Lord Lovat, nada existiria. E quando a segunda
fase da história teve início (1944), Londrina era, de há muito,
cidade acolhedora e em grande prosperidade. Se não, voltemos um
pouco atrás. Quando a Estrada de Ferro São Paulo – Paraná estava
inaugurada em Jataí (kl. 185), recebemos a visita do general Asquith.
A exploração e o traçado haviam se adiantado, na margem esquerda
do rio Tibagi, cerca de 30 a 40 kilometros. Thomas e eu o acompanhamos,
em viagem de inspeção, que fizemos, para ver a paragem já escolhida,
para a primeira cidade, dentro da maior das glebas adquiridas pela
Cia. de Terras, ainda em plena floresta. De regresso a Ourinhos-SP,
traçamos idéias sobre a denominação a dar-lhe. Fui o último a falar.
Propus que essa cidade recebesse o nome de LONDRINA – como as filhas
de Londres – em reconhecimento a homenagem ao valoroso grupo de
ingleses, que através da Paraná Plantations Co., financiavam, corajosamente,
as realizações da Cia. de Terras. Dentro do pátio da futura Estação
Ferroviária, aparecem na estaca, do kl 210, o primeiro marco da
cidade nascente, destinada a glorioso e brilhante futuro.
A Cia.
Marcondes era concessionária da via-férrea vicinal, ligando Regente
Feijó, da Sorocabana, à margem direita do Paranapanema, em frente
a embocadura do seu afluente Pirapó. E quando o grupo Lovat nos
autorizou a construir a Estrada de Ferro – que figurava em nosso
planejamento inicial – era da sua opinião que nos utilizasse-mos
daquela concessão, eis que havia sido anexada entre as “benfeitorias”,
no ajuste de compra de terras. Como ferroviário experiente, desde
1916, reorganizador e presidente da Cia. Ferroviária São Paulo-Goyaz,
examinei o caso e discordei da solução. Orientei-me pelo Plano Geral
da Viação-Férrea Nacional, e propus a ligação Ourinhos-Guaira: parte
integrante da linha-tronco Santos - São Paulo - Sete Quedas (fronteira
do Paraguai). Demonstrei as vantagens evidentes da realização de
um grande prolongamento da Sorocabana, embora mais dispendioso,
de preferência à secundária linha transversal, só para as nossas
terras. E a minha, prevaleceu. E a minha tese vingou. Mas já existia
o ramal Ourinhos-Cambará... Eu conhecia a sua má situação financeira,
decorrente da escassa distância percorrida (29km.) Alvitrei a remoção
da dificuldade, pela facilidade da compra da Cia. Ferroviária São
Paulo-Paraná. Procurei o velho amigo Barbosa Ferraz, proprietário,
com os seus familiares, da totalidade das ações. Mostrou-lhe pelos
olhos a vantagem da minha proposta: A Cia. de Terras renovaria o
ramal e prolongaria, para arear a nova zona do Estado. Indaguei
do preço. Foi fulminante a resposta: oferecia à Cia. de Terras,
de graça, todas as ações e a entrega imediata da Estrada. E assim,
a nosso cargo ficariam o ativo e o passivo daquela Sociedade Anônima.
Aceitei, em princípio, na dependência, de uma tomada de contas,
que nossa Diretoria considerasse razoáveis. Enviou-nos, sem demora,
o balanço, rigorosamente fechado. Verificamos que - se houvesse
uma liquidação voluntária da Empresa – o passivo seria integralmente
coberto, deixando ao liquidante as concessões. Era o bastante: ele
não visava enriquecimento, nem nós desejavamos causar-lhe prejuízo.
Ficávamos com as concessões dos dois Estados e com o caminho aberto
para prolongar a nossa Estrada. O doador ganhava o nosso melhor
serviço e nós os transportes, desde logo. O nosso plano da Estrada
de Ferro era, sem dúvida, o necessário complemento da “Reforma Agrária”,
a levar-se a efeito no quadrante N. No, do Paraná. Projetamos e
construímos 269 kilômetros, até Apucarana-Pr, onde deixamos o tráfego
inaugurado; e já estavam aprovados os estudos definitivos até Maringá-Pr.,
onde Thomas e eu – na última inspeção realizada, assinalamos a estaca
do kl 333, n área demarcada para a Estação; ficando resolvida a
reserva de grande extensão de terrenos, para a futura cidade. Seria
a última da nossa comum iniciativa... E eu, “bancando” o urbanista,
fiz a planta da cidade, deixando-a no Escritório de Londrina. Nunca
soube se foi extraviada – havendo decorrido muitos anos sem andamento
da construção, paralisada em Apucarana-Pr, desde o meu afastamento.
Serviu de base à minha planta, o traçado da Praça da Estrela, de
Paris, reduzido modestamente às proporções das novas cidades sertanejas
da nossa iniciativa.
A Diretoria da Cia. de Terras – quando os seus
novos proprietários, assumiram a posse da grandiosa Empresa de transportes
– apressou-se a vende-la ao Governo Federal, para ser incorporada
à Rede de Viação Paraná-Santa Catarina. Era um grandioso empreendimento,
organicamente ligado ao progresso da colonização e a outros fins
essenciais da Cia. de Terras. E, como de iniciativa privada, rendoso
– desde que teve boa organização. A que Thomas e eu lhe demos o
comprovante...em 1941, batemos o record mundial de renda kilométrica:
Com 251 km. em tráfego, o saldo apurado foi de 10.410.164 cruzeiros.
E no quinquênio de 1938042, como nos anos anteriores, desde a inauguração
de Londrina em (1935) a cuja solenidade estive presente, - nunca
se encerrou um balanço sem saldo. No km. 300, dos nossos estudos
– sempre realizados com serviços coincidentes de estradas de rodagem,
para veículos automóveis, - ao atingirmos o espigão das vertentes
Paranapanema - Ivaí, fundamos a cidade de Lovat, que prosperava
rapidamente, como base do sertão, com vista deslumbrante para as
campanhas do Sul. Mas, a nosso homenagem foi cancelada (sem que
se saiba porque) senão pela ingratidão e estúpidos dos aulicos da
Ditadura dos Vargas – oficializando-se o nome sem significação de
Mandaguari-Pr. Quando, em 1935, deu-se a festiva inauguração do
tráfego ferroviário em Londrina – com a presença do Interventor
Manoel Ribas – pronunciei, na plataforma da Estação, um discurso
que terminava fazendo exortação ao Governo para que assegurasse
a perenidade desse nome. A população aglomerada aplaudiu-me, com
entusiasmo. Manoel Ribas solidarizou-se à sua elevada e expressiva
significação, e prometeu consolidá-la. É também de justiça que o
nome de Lovat, à cidade que com o seu nome nasceu, seja algum dia
restaurado. E ao falar de Manoel Ribas, quero valer-me da oportunidade,
para dar testemunho da sua grande operosidade, o apoio e desvelo
com que acompanhava as realizações da Cia. de Terras. Fizemo-lhes
a sugestão de abrir uma saída, para os produtos da Região, pelo
rio Paraná. Sem demora, pediu-nos que fosse estudado o itinerário
e orçado o serviço. Ocupou-se do assunto e, com as formalidades
legais, concedeu a empreitada à nossa Cia. de auto-estrada de Maringá
– parte já servida pela nossa rodovia para o traçado ferroviário
– até o Porto S. José, pouco abaixo da foz do Paranapanema. Em prazo
convencionado, a nosso convite, Ribas percorreu, em dois dias, toda
a nova estrada, aceitando as obras, sem qualquer restrição.
Em relação
a Estrada de Ferro – irmanada à Cia. de Terras – como elemento primário
da prosperidade da região, que se desbravava – desejamos ainda acrescentar
alguma coisa. Quando os trilhos haviam chegado a Cornélio Procópio
(kl.126), sugerimos a Lovat que convidasse ao príncipe de Gales
– que foi depois o Rei Eduardo VIII – a fazer uma visita ao Brasil.
O príncipe era grande acionista da Paraná Plantations Co. e gostava
de viajar. Veio ver como estava sendo utilizada uma parte de sua
riqueza pessoal. Lovat e o Príncipe Jorge (irmão do herdeiro do
trono) o acompanharam. Em São Paulo governava João Alberto, que
o hospedou oficialmente. Providenciou um trem noturno especial,
de luxo, para o dia da partida e a Cia. de terras (Thomas e eu),
com o Diretor da Sorocabana (Gaspar Ricardo), fomos os hospedeiros
da comitiva – ida e volta até Cornélio Procópio – a primeira cidade
fundada em sertão explorado pela Cia. de Terras, antes de chegar
aos seus domínios. Jantou-se no trem; almoçou-se em Leoflora – a
primeira estação já na nossa Estrada – em visita à primorosa fazenda
cafeeira dos Barbosa Ferraz, de onde os príncipes saíram encantados;
e prosseguimos a inspeção da linha férrea em tráfego. Em Cornélio
dormimos, todos, no comboio da Sorocabana, e pela manhã, com os
príncipes, percorremos um trecho da linha em construção, para admirar
a floresta majestosa. Regresso em dia e noite até São Paulo.
Cornélio
Procópio-Pr era nome desconhecido no Paraná. Despertou a curiosidade
do Príncipe de Gales. Informamos, então, que era comissário de café,
em Santos, proprietário de vasta gleba de terras, atravessada pela
Estrada de Ferro, em extensão de 20 kilometros; que entregara de
graça, à Cia. de Terras, o leito da estrada e a área para o páteo
de duas estações. E sob inspiração nossa, prometera planejar e a
lotear a cidade.
A construção da Estrada de Ferro foi iniciada pela
reconstrução completa, desde Ourinhos-SP até Cambará, e prosseguiu
até Jataí, com “grade”, curvas e pontes para a bitola de um metro
e sessenta, podendo ser integrada a Sorocabana, se fosse alargada,
no plano nacional de T. P. –8 (Santos- Guairá). Inauguramos a ponte
sobre o rio Tibagi (260 metros) e prosseguimos até Londrina em quatro
anos; e depois até Arapongas e Apucarana (novas cidades) - onde
o governo Ditatorial começou a deter-nos. Queria obrigar-nos a refletir
para o Sul. Recusamo-nos, mas tudo ficou paralisado, embora o nosso
traçado, até Maringá-Pr., estivesse aprovado pelo Departamento.
Nacional das Estradas de Ferro. Nossos estudos, prospectivos e preliminares,
alcançavam a travessia do rio Piquiri e a marginalização do baixo
Paraná, até a Foz do Iguaçu, com a ponte adjacente das Sete Quedas,
visando as terras incultas do Paraguai... e Assunção. Só fomos atendidos
pelo governo ditatorial, de Vargas, para efetuar-se a ligação da
nossa Estrada, de Marques dos Reis a Jacarezinho, onde estava paralisada
a Rede Paraná-Santa Catarina. Queríamos uma saída para Paranaguá
– prevista desde o nosso primeiro encontro com o presidente Munhoz
da Rocha – a quem, em devido tempo, o Brasil Plantations fez um
empréstimo, para o início de melhoramentos do Porto.
Já falamos
muito. Caminhamos para conclusão. E não desejamos entrar na “Segunda
parte” do esboço histórico da Cia. de Terras que é matéria contemporânea
da cativante assistência, que nos ouve (1944/67). Apenas queremos,
ainda, consignar que – para ser eu o primeiro “presidente efetivo”,
a designação veio de Londres; Lord Lovat ao recusar o cargo com
que fora honrado, pelos orientadores da nossa Sociedade Anônima,
sediada em São Paulo, indicou o meu a Thomas, - falando pela Paraná
Plantations – que possuía todas as ações, menos umas poucas, distribuídas,
com o propósito de assegurar vida legal e de organização. Na época,
já me havia incorporado – com 750 ações integralisadas, de uma Libra-esterlina
cada uma – ao seu grupo de nobres ingleses,como único acionista
“estrangeiro”, do Brasil Plantations Syndicate. E, mais tarde, quando
nos comunicou a dissolução voluntária deste, autorizou a Cia. de
Terras a fazer a liquidação, no Brasil, ofereceu-me e realizou a
transferência das minhas ações para a “Paraná Plantations, Co.”-
com a minha aquiescência e desvanecimento – abrindo-me a oportunidade
de embrear-me ao grupo formado pelas nobres estirpes da Grã-Bretanha.
Sem jamais perder de vista os altos interesses do País, e especialmente
do Estado do Paraná – procurei sempre honrar e corresponder à confiança
do saudoso amigo. E se Lovat e Asquith não tivessem morrido... tenho
como certo – que a proposta de compra total do pratrimônio da Cia.
de Terras – para a sua “nacionalização”, não teria sido aceita.
Seria recusada e falhariam os propósitos da Ditadura, como repelida
e fracassada foi a primeira tentativa, realizada por meio de uma
“desapropriação”, pouco antes decretada – com a clausula “sem pagamento
prévio”.
Ao grupo formado pelo Banco Mercantil de São Paulo – que
adquiriu a integralidade das ações da Cia. de Terras, e as da Estrada
de Ferro, incorporadas ao seu patrimônio – devemos reconhecer a
prudência, capacidade de trabalho e perseverança, com que desde
a sua entrada (em março de 1944) até à atualidade – prosseguiu e
deu desenvolvimento ao que, em linhas gerais, vinha sendo realizado
pelos seus antecessores. Menos, na parte ferroviária, que passou
ao Governo Federal e baixou de nível. Mas muito mais, na parte da
industrialização – a que não chegamos – porque estava reservada
para a segunda etapa. Na primeira, só nos limitávamos a estimular
a iniciativa privada. E nos ocupamos com os serviços necessários
ao público: águas, luz e força elétricas. Para esta indústria, demos
a primitiva concessão ao engenheiro Gastão de Mesquita Filho – recomendado,
na oportunidade, por Antonio Moraes Barros – meu antigo e querido
amigo e companheiro de trabalhos – havendo o concessionamento trazido
o seu plano de organização da Empresa Elétrica de Londrina, S.A,
para o empreendimento. A concessão foi se estendendo às novas cidades
– sempre em progresso e bem orientada – e creio que é a mesma, agora
incorporada, entre outras, à Cia. Melhoramentos.
Na reorganização
da Diretoria – levada a efeito com a minha retirada Thomas foi mantido
na Superintendência e nela se conservou até ser aposentado, por
enfermo. O nosso e atual chefe de Escritório de Londrina, Aristides
de Souza Mello – que sucedeu a Willie Davids, este aposentado por
mim e Thomas, para auxiliá-lo, desde que iniciamos as atividades
do Brasil Plantations – foi nomeado por indicação minha, a Thomas,
quando se concedeu aposentadoria a Davis, por enfermidade. E o nosso
chefe de Escritório Central, em São Paulo, desde a instalação do
Brasil Plantations, era Gordon Fox Rule, e permanece no cargo até
hoje. Aristides eu o descobri em Campos do Jordão – engenheiro e
operoso urbanista da Estância Climatérica, e aqui se mantém, no
seu cargo, há cerca de um quarto de século. Mas ele não foi quem
deu o nome de Senador João Sampaio a uma das grandes ruas daquela
cidade. Já o encontrava nas placas, como reconhecimento à mina cooperação,
no Congresso Legislativo do Estado, para a ultimação da Estrada
de Ferro, iniciada em Pindamonhangaba-SP, até à cidade mais pitoresca
e mais alta do Brasil (1.600 metros).
Na hora solene que passa,
elevo o espírito aos pés do Criador onipotente, para rogar pela
bem aventurança dos mortos que, comigo, deram fama a obra mais grandiosa
da minha vida, na qual a parte que se coube transparece, na singela
narrativa que, despretenciosamente elaborei. E quero congratular-me,
e fazendo votos de felicidade, aos que ainda sobrevivem.
Agora recebo
o título, que tanto me desvanece, de Cidadão-Honorário de Londrina
– consagrado o reconhecimento, dos Poderes Constitucionais do Município
– pelos meus serviços prestados à Região ; da qual na constelação
de cidade que a compõem Londrina é a estrela mais brilhante. Quero
considerar-me filho adotivo da Cidade. Filho rebelde que não a visitava,
há 23 anos. Não passava agora, aqui, de um desconhecido... da população
crescente e dispersa, como por desconhecido passaria, em qualquer
outra parte da Região. E foi só por isso - que fiz o esboço histórico
– enquanto existem ainda alguns vivos, que possam dar testemunho
da verdade. Estava colocado em estado de necessidade.... tive de
pecar contra a virtude da modéstia. Perdoem-me os nobres vereadores
e os amigos, que se conhecem. Perdoe-me o brilhante e resignado
auditório. Eu a todos agradeço, com o coração nos lábios. E quem
vier, depois, que melhore e complete a história.
Muito grato pela
atenção.
Londrina, 12/06/1967
João Sampaio |