"Paraná - Norte: restauração do primeiro jornal de Londrina”
         

 

                     Rosangela Ricieri Haddad – CRB-9/865

                     Ruth Hiromi Shigaki Ueda – CRB-9/829

                     Yara Maria da Costa Prazeres

A primeira  caravana da  Companhia  de Terras Norte do Paraná (CTNPr)  veio à  região  em  1929  para  colonizar a futura Londrina. Pessoa  com visão futurista,  Humberto Puiggari Coutinho chegou ao Patrimônio  Três  Bocas na  década de 30 e fundou o primeiro jornal da cidade, publicado no dia 9 de outubro de 1934, dois meses antes da própria instalação do município londrinense.

O jornal era impresso na Tipografia Oliveira, de propriedade do Sr. Belmiro  Corrêa de  Oliveira,  com  tiragem de 500 exemplares e vendido  a 100 réis – ou entregue por assinatura anual a 15 mil réis e semanal a  9 mil réis.  Seu  último  exemplar  circulou  em  24  de setembro de 1953.

Todos os exemplares da coleção têm estampada em sua última página  a  propaganda  da  Companhia  de  Terras  Norte do Paraná, divulgando  a  fertilidade  e  as vantagens da terra roxa do Norte do Paraná. O jornal foi  um importante veículo de divulgação da cidade em âmbito nacional e internacional.

O  Museu  Histórico  de  Londrina,  órgão  suplementar  da Uni- versidade  Estadual de Londrina (UEL), foi criado em 18 de setembro de 1970 com o objetivo de preservar e divulgar o patrimônio cultural da cidade  e região. Dentre os inúmeros documentos, fotos e objetos que seriam incorporados ao acervo, recebeu uma coleção incompleta do  jornal  Paraná – Norte  de  um pioneiro que o havia guardado no fundo do baú.

Na década de 90, o Museu, consciente da sua responsabilidade pela  preservação  dessa  valiosa coleção, realizou um levantamento nas  principais  instituições  do país –  Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro,  Biblioteca  Pública  do Paraná,  Centro  de Documentação e Pesquisa  Histórica da UEL –,  e  junto  a  população  de  Londrina e região. As  várias doações e compras de exemplares deste periódico possibilitaram  a reunião de 983 exemplares de um total presumível de 1.154 números.

A  fase  seguinte  foi a  realização  da microfilmagem de toda a coleção  em  filme  de  16mm,  reproduzindo  e  disponibilizando  a informação  sob  a  forma  de  microfichas.  Alguns  fotogramas se apresentam  menores  que  os  demais  por  serem  fotografias   em tamanho 18x24cm.  Para preencher  falhas  da coleção foi adquirido filme 35mm da Coleção da Biblioteca Nacional, e a Biblioteca Pública do Paraná  permitiu  o  acesso  à  sua coleção encadernada para que fossem fotografados alguns originais únicos e inseridos à coleção do Museu.  Tendo  como  finalidade  a  conservação  e  o   acesso     ao conteúdo do jornal. A  publicação  circulou  nas décadas de 30, 40 e início de 50.  De  início  teve periodicidade semanal, posteriormente diária  e  irregular.  Através  do  jornal  Paraná – Norte  é    possível constatar  o  início  da  colonização de Londrina e as transformações ocorridas  no período  em  que  o  veículo  circulou.   Algumas delas merecem destaque: 

09/10/1934 – Todo o comércio que havia em Londrina por meio de  propaganda  –   Alfaiatarias,   Bares,   Sorveterias,     Farmácias, Padarias etc.;

26/10/1934 – Benção  dos  sinos  da  Matriz;  Estrada de Ferro Londrina - Rolândia;

04/11/1934 – Inauguração da Linha Telefônica;

09/12/1934 – Ata de Instalação do Município de Londrina;

03/02/1935 – Inauguração das Casas Pernambucanas;

02/06/1935 – Nomeação do 1º Prefeito de Londrina, Joaquim Vicente de Castro;

28/07/1935 – Inauguração da Ponte do Rio Tibagy;

11/08/1935 – 1ª Eleição Municipal de Londrina;

07/11/1937 – Contrato entre a Municipalidade e a Companhia de Terras  Norte do  Paraná  para concessão de Energia Elétrica.

 

A Prefeitura adotou o jornal como meio de comunicação oficial do  Município  para  divulgação  de  atos  oficiais,  por     exemplo: Portarias, Decretos, Balancetes, etc.

O veículo é considerado relevante fonte primária e retrospectiva de  valor  histórico-documental  para  pesquisadores,   bem como às pessoas da  comunidade que se interessam pela história de Londrina e região.

Atualmente,  Londrina  possui  várias  publicações  que tiveram como  embasamento  o  jornal Paraná – Norte,  abrangendo diversas áreas  do   conhecimento,  entre  elas  Arquitetura,  Biblioteconomia, Ciências Sócias,  História, Jornalismo,  Letras, Literatura, Medicina e Serviço Social.

A guarda dos originais, entretanto, é indispensável por se tratar de uma obra rara da cidade e de valor histórico cultural.

No final  de  2005,  sob o  patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à  Cultura (PROMIC),  a Associação de  Amigos  do  Museu Histórico de  Londrina (ASAM)  foi  contemplada  com  aprovação do Projeto “Paraná – Norte:restauração do primeiro jornal de Londrina”.

A partir  de  junho  de  2006  à  março  de 2007 o Paraná-Norte passou  por  um  minucioso  tratamento  realizado  em  uma  oficina especializada em conservação e restauração de documentos,     localizada em Londrina, Pr.

Foram restauradas um total de 2.093 folhas.

Os  jornais  foram  encaminhados  à  Oficina  em  pastas      de polietileno,  por  ano  de  publicação.  Dentro   das  pastas estavam organizados  de  acordo  com  o  nº dos  fascículos  e  a  data     de circulação (dia, mês e ano).

O  estado  geral  de  conservação  da  maioria  dos exemplares apresentava-se  bem  precário  tendo  em vista que grande parte da coleção  foi  obtida  através  de  doações  feitas  por  pessoas     da comunidade.  Sendo  assim   foi  realizado  um   diagnóstico     das condições  dos  documentos de cada pasta, verificando-se dentre os principais  danos,  o  acúmulo de poeira, dobras, rasgos nos festos, documentos  partidos  ao  meio,  rasgos  e  fragilidade  das bordas, perdas  pequenas nas dobras e também nas bordas, perdas grandes em  alguns  exemplares  ocasionas  por roedores e grau elevado de acidez.

Após o diagnóstico foi acrescentada uma numeração em ordem seqüencial,  à lápis,no canto superior direito, em todas as folhas do jornal. Essa numeração permitiu o controle da quantidade de folhas restauradas,  bem  como  a  visualização  da  seqüência  correta  da organização  das  páginas  e  cadernos  de cada fascículo do jornal, representados em uma planilha numérica.

O processo de  restauração foi executado por uma restauradora e um estagiário do Curso de Biblioteconomia da UEL, observando-se as seguintes etapas:higienização, testes, tratamento aquoso, recons- tituição do suporte e acondicionamento.

 

TRATAMENTO TÉCNICO

  a.    Higienização

Nesta etapa  procedeu-se  a  limpeza mecânica para remoção de sujidades  na superfície do jornal,   como poeira e pequenos detritos que comprometem a preservação dos documentos. Essa operação foi feita folha por folha, utilizando uma trincha de cerdas macias, bisturi e pó de borracha nas sujeiras mais aparentes.  

b.Testes  

Com a finalidade de delimitar o tratamento químico apropriado, foram  realizados  testes para  verificar a  solubilidade das tintas de impressão, pigmentos, carimbos e etiquetas, à água e aos produtos químicos.

Nessa  fase  também  procedeu-se á  prova  experimental para determinar  o  pH  do  papel, antes  e  depois  do  tratamento    de desacidificação.  

c. Tratamento Aquoso  

Após a higienização mecânica os documentos passaram por um tratamento  por  imersão  em  água  deionizada,  que  teve     como objetivos uma  limpeza  mais  profunda para remoção de diferentes manchas,  e  também  da  pigmentação  amarelada  própria        da degradação da celulose. Nessa etapa de lavagem , que requer muito cuidado,  os  documentos  foram  protegidos por telas e submetidos primeiramente  a  um  banho  em água morna, e posteriormente em água fria para que as fibras do papel retomem suas condições reais.

Em seguida executou-se o tratamento químico através do banho desacidificante  com  o  propósito  de  neutralizar a acidez do papel, com a intenção de preservar a sua integridade física. Foi     estabe- lecido  o  pH  em 8,5  para  que na  acidez residual  do papel,    ele atingisse o pH neutro, próximo ou acima de 7,0.

Após o tratamento químico, os documentos foram colocados na secadora e, depois de secos, planificados nas prensas.  

e. Reconstituição do Suporte  

Nesta   etapa   procedeu-se   a   recomposição    do     suporte, restaurando as áreas danificadas através das técnicas de conserto de rasgos,   reforço  das bordas do jornal, enxertos e velaturas. Nessas operações utilizou-se papel japonês de cor amarelada, em diferentes gramaturas.

O material  foi novamente  colocado para secagem nas prensas, com proteção de telas de nylon e mata-borrão, para total planificação dos documentos. 

f. Acondicionamento

Depois de  planificadas  as  folhas foram revisadas, uma a uma para detectar  e  corrigir  possíveis  falhas, e organizadas de acordo com a sequência  numérica  e  por  data  de  publicação (dia, mês e ano).

O material foi  acondicionado em  caixas     confeccionadas em papel  de  pH neutro,  livre  de  acidez,   de  150g/m,   utilizando somente  o  sistema  de  dobras e encaixe. Esse tipo de embalagem propicia um bom sistema de vedação, preservando os jornais contra os agentes externos e ambientais, além de manter a sua integridade física. Essas  caixas, por  sua  vez, foram acomodadas em pastas de polietileno,  pelo ano  de publicação,  e armazenadas  no  Setor   de Biblioteca e Documentação  do Museu.

PARANÁ - NORTE ontem, hoje e sempre! Depois de restauradas, as  páginas  do  velho  jornal  estão  sendo  digitalizadas. Assim, as noticias  do  passado  poderão ser  disponibilizadas  para  pesquisa- dores, estudiosos e curiosos  que se  interessam  pela  memória  da cidade e região , garantindo a conservação dos seus originais.

A  restauração  desse  importante  veículo  de      comunicação possibilitou  restituir  sua  integridade  física, estética  e    histórica, contribuindo para a preservação documental dos aspectos históricos, políticos,  econômicos  e sócio-culturais  da cidade de Londrina e da região norte-paranaense.



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